16 de outubro de 2385

Local: Barcelona — Espanha.

Horário: 20 horas e 14 minutos.

Com a ajuda de Wanderlust, Cieto consegue sobreviver e chegar ao navio Octavius. Além disso, o nono assassino que tentou matar os dois membros da Absens os acompanha esperando o momento do interrogatório.

O navio é grande o suficiente para transportar mais de cinquenta pessoas, ou oitenta quem sabe. Em questão de tamanhos possui 120 metros de comprimento e 30 de largura e vários níveis. Funcionalmente é divido em um andar mais baixo onde são deixados equipamentos poucos utilizados. Logo acima um andar com dormitórios para os tripulantes com quartos simples, porém individuais. Já o andar ao nível do convés é o destinado apenas ao embarque e desembarque do navio. No primeiro andar logo depois fica o local da enfermaria, além de ter locais de descanso com salões e um refeitório. Por fim, a sala de comando ficava no andar mais alto, juntamente com uma sala de reuniões.

Aparentemente o navio é considerado simples, mas extremamente usual. Ao contrário do que se pensa, ele não é especializado em combates, contudo seu material leve e as poucas cargas que ele precisa transportar transformaram Octavius no navio perfeito para as missões que envolvem resgate em emergências, uma vez que ele podia se locomover em altas velocidades.

Ao chegarem, os três novos tripulantes são recebidos no convés por Ceifon, o Legato responsável por navio no momento.

— Hey, Ceifon! Voltei com o Cieto e com um presente pra você, por isso vou precisar de um favor. Preciso que você arranje um lugar pra esse cara aqui e prepare um local bem legal pra gente conversar com ele depois... – Diz com um sorriso no rosto.

— Ah, vocês voltaram. Parece que no final todos estão vivos, apesar do Cieto estar um pouco vermelho, deve ser o sangue. Mas essa cara nova eu não conheço... – Diz com uma voz de alívio e desconfiança.

— Permita que eu me apresente, meu nome é Vicenzo, sou o líder do grupo de sequestro da Mercenarius, fiz um acordo com os cavalheiros para me entregar.

— E em nosso acordo você concordava em ficar quieto, então mantenha sua palavra. Cara, como é difícil fazer tratos de guerra hoje em dia...

— Ceifon, é impressionante como você não muda nada com o passar do tempo – Sorri – Desculpe minha grosseria, mas eu estou com pressa, eu preciso ver... – Diz Cieto até ser interrompido por Ceifon.

— Alícia? Não se preocupe, sua Legato está bem. Ela chegou bem ferida e logo em seguida apagou completamente, mas vai sobreviver. Eu não sou o melhor em fazer curativos, mas sei o básico – Sorri de volta – E sobre o tempo, realmente ele passou bem rápido, é bom te ver de novo também.

— Sério? Fico mais aliviado então... Onde posso vê-la?

— Já te mostro o local, mas antes você não prefere receber uns curativos também? Já perdeu muito sangue pra uma noite só e ela na verdade aparenta estar um estado melhor que o seu – Diz até ser interrompido.

— Sério? Isso realmente me deixa melhor – Diz em um tom mais aliviado – De qualquer forma eu prefiro vê-la agora se possível, como Princeps eu preciso garantir que todos os membros da minha divisão voltem a salvos.

— É impressionante o que uma bela jovem não faz com um coração apaixonado, mesmo que as costas tenham ganhado dois furos de presente, o jovem cavalheiro insiste em ver a doce donzela ferida. Ceifon, você é um idiota mesmo. Além de tocar no ponto fraco do Cieto não deixa ele ver logo a garota. Meu Deus, cara! Para de interromper e vem me ajudar com o Vicente aqui.

— É Vicenzo...

— Pensei que você não estava falando mais! Ou isso é algum tipo de piada que você tem lá com seu grupinho? De qualquer forma você consegue me irritar mais que o inútil do Cieto.

— Certo, certo. Vá logo, Cieto! Ela está na enfermaria, fica no primeiro andar. Não deve ter ninguém por lá, mas você não deve se perder.

— Obrigado, Ceifon! – Diz o Princeps enquanto vai em direção aos corredores que dão as escadas, mas antes disso diz – Wanderlust, você é um imbecil mesmo, mas não tenho tempo pra perder com você agora.

Enquanto Cieto corre para o primeiro andar para garantir que Alícia está a salva, Wanderlust e Ceifon procuram um local apropriado para o prisioneiro de guerra.

— Hey, agora é a hora que nossa brincadeira vai finalmente começar, mas antes eu preciso descansar um pouco. Se não se importa, você vai esperar em nossos “quartos de hospede”. Particularmente eu não gosto de navios, mas esse daqui é ótimo, tem tudo que você puder imaginar. Por isso já adianto, aproveite sua estadia e a viagem – Diz Wanderlust com um sorriso irônico no rosto.

— Maldito Anrev, porque é que você me fez buscar esse louco? Além disso, eu tenho que ficar sozinho com esses dois. Pra falar a verdade, não sei nem qual dos dois me preocupa mais – Pensa Ceifon sozinho.

— Hey, Ceifon, tem alguma ideia de onde podemos deixar nosso amigo aqui?

— Já usamos esse navio aqui pra transportar prisioneiros uma vez, depois disso pedi para Helena mudar a função de alguns quartos de dormitórios caso fosse necessário outro transporte do tipo. Não se preocupe, as trancas são seguras.

— Perfeito! Por isso eu gosto de vocês da Bona sempre preparados pra qualquer coisa.

Nesse momento os três chegam até o andar dos dormitórios e caminham por todo o corredor. A distância entre as paredes é de mais ou menos quatro metros, o suficiente para caminharem tranquilamente. Ao final do corredor há uma porta blindada totalmente fechada com apenas um local para se observar o lado de dentro, mas sem ser visto. A abertura daquela sala é feita apenas por um scaner de íris, sendo poucos os que possuem a “senha” para faze-la funcionar.

— Ótimo, chegamos ao local! Não preciso nem te avisar de que fugir daqui é impossível, não é mesmo?

— Não se preocupe, não tenho intenções como essa. Eu sei admitir uma derrota, por isso resolvi fazer um acordo e me entregar.

Atrás da porta, existe um local especialmente feito para deixar sob vigilância qualquer pessoa que julgassem necessária mantê-la desse modo. Ao lado esquerdo existem cinco quartos equipados com câmeras e portas cuja abertura é realizada do mesmo modo que a anterior. Enquanto do lado direito, uma sala específica para interrogatório.

— Hey cara, vocês investiram pesado nisso aqui! Eu não dava nada pra esse navio, mas os equipamentos daqui são de primeira. Não é à toa que a divisão Bona é considerada a mais rica dentre as dez.

De fato, existia um centro na sala de interrogatório com aparelhos para leitura dos sinais vitais do interrogado, além de câmeras que filmavam e depois transmitiam as cenas em câmera lenta em busca de expressões corporais que pudessem indicar uma mentira.

— Você pode se dirigir até seu quarto por enquanto. Eu e Wanderlust vamos nos preocupar com você mais tarde, por enquanto temos que resolver uns assuntos. Volto a dizer que você está sendo monitorado a todo momento...

Alguns metros acima, Cieto encontra o local em que fica a enfermaria dentro do navio. O local não é grande o suficiente para atender um exército inteiro, talvez uns quinze feridos, mas todos os equipamentos encontrados lá são do mais alto nível. Ao final da sala, há um leito tampado por um biombo, uma espécie de “parede” utilizada para dividir locais. Na parede no mesmo local há uma indicação com uma luz vermelha dizendo “Ocupado”. Não há dúvidas, Alícia só poderia estar lá.

Sem ter certeza e sem ter ninguém no local com que pudesse tirar sua dúvida, o Princeps se aproxima lentamente do local. A lentidão era causada pela dúvida sobre aquele ser ou não o local onde Alícia estava, mas no fundo havia também um medo de encontrar sua Legato em uma situação muito ruim. Após se aproximar, Cieto finalmente toma coragem para vê-la.

— Dormindo... Isso me acalma um pouco – Pensa um pouco mais aliviado com a situação da Legato.

Dentro das circunstâncias, Alícia estava bem. Apesar da perna esquerda quebrada, não havia outros grandes problemas. A grande quantia de sangue perdido já estava sendo recuperado por transfusão e por administração de soro. Os cortes já haviam sido limpos e os maiores fechados. Os principais parâmetros de bom funcionamento de suas funções vitais estavam normais. De forma geral, não havia riscos.

— Ela acabou dormindo, provavelmente foi uma mistura do choque que ela teve com tudo o que viu com os efeitos de alguns remédios, mas não precisa se preocupar pois ela ficará bem – Afirma um homem que se aproxima de Cieto.

O homem chega lentamente com um ar de tranquilidade no rosto. Sua pele é bronzeada e cabelo preto curto e penteado para o lado direito. Possui uma barba bem rala cobrindo boa parte de sua face. Em sua vestimenta chama a atenção seu jaleco branco pendurado em seu ombro, como se não fizesse muita questão de usá-lo.

— Entendo... E você é?

— Ah, me desculpe pelos meus modos. Pode me chamar de Servet, sou o responsável pela enfermaria desse navio. Após Ceifon fazer os primeiros atendimentos, o caso foi passado para mim. Você deve ser o Cieto, estou certo?

— Sim, é um prazer conhece-lo.

— Você é engraçado – Diz enquanto da um sorriso de canto de rosto – Estava em minha sala até que escutei um barulho pelo corredor, como se alguém estivesse correndo, quando cheguei vi você com um semblante de preocupação com essa garota, mas pelo que parece você está bem pior que ela.

— Tsc, eu aparento estar tão mal assim? – Sorri de volta.

— Sim, inclusive eu diria que até o momento você só não apagou completamente por conta dela. Quero dizer, você está com dois cortes feios em suas cortas, da pra ver pelo buraco na roupa, sem falar em todo o sangue que parece que você perdeu. Eu diria que você vai desmaiar em dez segundo agora que já está mais calmo depois de ver sua amiga.

— Entendo, mas você não... acha... que... está... exagerando? – Diz o Princeps até que cai de uma vez ao chão.

— Sete segundos, quase que eu acerto... Ele podia ter ido para um dos leitos antes de apagar desse jeito, que cara complicado – Diz Servet enquanto aperta um botão em sua pulseira enviando um sinal para chamar ajuda – Não se preocupe, um paciente a mais não vai fazer diferença.

Enquanto isso, Wanderlust e Ceifon se dirigem a sala de reunião localizadas no último andar. Ao entrar é possível ver duas grandes janelas do lado direito cobertas por duas cortinas vermelhas aparentemente bem caras. No centro do local fica uma mesa para quinze pessoas, sete de cada lado e uma cadeira na ponta virada para porta, permitindo a visualização de quem está chegando. Além disso, ainda há dois sofás no canto direito da sala, cada um com espaço para três pessoas. Por fim, ainda há uma tela que se abaixa à frente da porta para se projetar imagens, como mapas com rotas de resgate, documentos ou fotos de alvos para uma missão.

— Impressionante, esse navio deve ser mais caro que a minha cabeça no mercado de recompensas e olha que, modéstia à parte eu sou um dos mais caros que podem se encontrar lá – Brinca Wanderlust.

— Não acho que isso seja algo a se comemorar, afinal vão ter mais pessoas atrás de você...

— Claro, claro, mas isso também mostra que eles me temem, não é mesmo? E isso acaba mexendo com meu ego, sabe como é... – Sorri.

— Entendo, mas agora acabei ficando curioso – Faz uma pausa até que pergunta – Como está o ranking?

— Parecido com o mesmo de antes... O Imperator continua sendo o primeiro com um novo recorde, parece que subiram o valor dele pra P$ 110.430.000,00. Estou em quarto na posição geral com o valor bem menor de P$ 52.380.000,00... Fico inconformado em perder praquele velho que só fica na base sem fazer nada.

— Nossa! Esses valores são absurdos, começo a me questionar se não compensaria te entregar para eles. De qualquer forma, mesmo sendo um “velho” que aparentemente não faz nada, é ele quem toma as decisões finais do exército querendo ou não, nada mais natural que ele esteja em primeiro lugar. Mas e o Cieto, ele está em que lugar na lista?

— Pera ai, deixa eu procurar – Diz enquanto passa o dedo para baixo na lista – Décimo segundo lugar por somente P$ 26.320.000,00 o que é um valor bem baixo para um Princeps de uma divisão ofensiva, que situação trágica – Diz com um sorrisinho no canto do rosto, enquanto se segura pra não rir.

— O que? Achei que ele estaria pelo menos entre os dez primeiros lugares. Bem esquisita essa lista.

— Um tanto quanto normal, por ser o Princeps mais novo, ainda tem muita desconfiança ainda sobre ele, se até os membros de seu esquadrão desconfiam das habilidades dele, porque seria diferente a opinião dos Sanus?

— Você tem razão, lembra quando ele foi escolhido como o próximo Princeps da Absens? Ninguém engoliu a ideia muito bem, mas foi a vontade do anterior, inclusive estava no testamento que havia sido deixado. Não é como se ele não tivesse capacidade para o cargo, o principal problema é a falta de experiência em relação aos outros que concorriam pelo cargo, principalmente se compararmos com o Hayh.

— Falando nisso, o que você achou da nova Legato que o Cieto convidou para a divisão?

— Está falando da Alícia? Não sei praticamente nada sobre ela, ela simplesmente chegou aqui e desmaiou.

— Não é disso que eu estou falando, Ceifon... Estou falando da aparência dela, porra – Diz enquanto tampa o rosto com a mão – Como esse cara pode ser tão lento – Pensa.

— Não precisa se irritar – Diz enquanto suspira – Você também achou a Alícia parecida com ela?

— Parecida não, iguais. Fala sério, é como se ela tivesse voltado dos mortos dez anos mais nova, e pelo o que eu ouvi do Dylan, o Cieto foi o responsável pelo “pedido” de troca de divisões.

— Entendo... Espero que ele não esteja com nenhuma ideia estúpida na cabeça, como tentar compensar a morte da Violetta desse jeito, isso ajuda a explicar um pouco porque ele parece tão desesperado com essa garota. O pior de tudo é que ele ainda se culpa pela morte dela. Por mais que todos nós quando vamos para o campo de batalha temos ideia de que existe o perigo de morrer a qualquer momento, ninguém está realmente preparado pra quando ocorre.

— Hey, como isso foi profundo, Ceifon! Estou quase chorando aqui.

— Eu te odeio do fundo do meu coração, Wanderlust. Isso sim foi uma declaração profunda e sincera.

— Obrigado, o sentimento é reciproco. Isso me faz lembrar de algo muito importante. Você acha que o Cieto vai aceitar a próxima missão? Afinal, foi por isso que vocês me trouxeram junto para busca-lo, não é mesmo?

— Não sei se ele vai ficar feliz, mas não há escolha pra ele. Já recebemos uma intimação vindo da Judex e nenhum dos convocados está autorizado a negar o pedido para a missão.

— É sério então que vocês vão me mandar para o território inimigo junto com o Cieto e o Anrev? Nós três? Na mesma missão? Você sabe que eles provavelmente vão se matar, não é mesmo... Inclusive o Cieto expulsou o Anrev da Absens assim que ele assumiu o cargo de Princeps— Diz inconformado.

— Sério? Achei que o Anrev que tinha se negado a ocupar um cargo inferior ao dele.

— Um pouco de cada, as duas coisas são verdades. A única coisa que ninguém discute é que na última missão da Violetta foram os três juntos, mas só dois voltaram...

— De qualquer forma nós temos que avisa-lo da missão, ele goste ou não. Além disso eu tenho certeza que você consegue controlar o ânimo dos dois.

— Deus te ouça! Acho que se eu perder a paciência com algum deles, cabeças irão rolar. Se eles possuem problemas pessoais, que resolvam entre si, mas não comprometam a minha missão porra... Falando nisso, cadê o Cieto?

— Não te avisei? Recebi uma mensagem dizendo que ele havia desmaiado na enfermaria, um dos responsáveis do local está cuidando dele agora.

— Ótimo, vou ter que carregar um peso morto enquanto eu estou preocupado em desarmar bombas. Além disso, o que estamos fazendo aqui já que não vamos nos reunir com ele? – Diz lentamente com um rosto irritado.

— Achei que você iria querer jogar conversa fora comigo, se distrair um pouco antes da tempestade que está chegando... Esse tipo de coisa.

— Eu durmo antes das missões, durmo! – Diz pausadamente – Eu podia estar descansando em vez de estar aqui, fala sério.

— Espera, aonde você está indo?

— Para um dos qualquer que estiver disponível, e favor me acordar apenas quando o Cieto estiver em condições de conversar sobre a próxima missão – Diz antes de sair da sala batendo a porta.

— Cara, as vezes ele fica bem irritado. Que seja, vou ir comer algo.