17 de outubro de 2385

Local: Barcelona — Espanha.

Horário: 04 horas e 27 minutos.

Já é de madrugada. Depois da reunião entre o Ceifon e Wanderlust, todos foram dormir. Ainda desmaiado, Cieto passou por cuidados em relação aos seus ferimentos e, por conta dos medicamentos, permaneceu dormindo desde então.

Na mesma situação, Alícia começa a acordar aos poucos, porém sua memória ainda não retorna por completo, um tipo de efeito colateral por conta da experiência ruim pela qual passou antes de desmaiar.

— Onde estou? Minha perna dói e está enfaixada, mas não lembro ao certo o que aconteceu. De qualquer forma é melhor ficar em alerta – Pensa até que escuta o som de alguém se aproximando.

— Vejo que acordou. Deixei alguns aparelhos medindo alguns de seus sinais e eles notaram algumas variações bruscas nos disparos em seu sistema nervoso, além da mudança da movimentação em seus olhos. Acabei suspeitando que você havia acordado e achei melhor vim te ver. Pois bem, como você se sente Alícia? – Diz Servet sorrindo.

Por algum motivo, Alícia não suspeitou do homem que havia acabado de conhecer e na verdade ficou até mais calma, talvez o tom de voz ou então o sorriso daquela pessoa. A única certeza ali é que ele passava uma tranquilidade assustadora.

— Entendo, então essas máquinas ligadas em volta de mim estão aqui para me monitorar. Me diga, quem é você e onde estou.

— Sou Servet, um dos “funcionários” desse navio. Estou trabalhando aqui a mais ou menos três anos e, como acabei de comentar, estamos no Octavius, um dos navios da divisão Bona. Nesse momento estamos indo em direção a alguma parte do litoral da Itália, mas não posso afirmar com toda certeza porque não perguntei diretamente para o capitão da embarcação, mas as constelações nunca mentem – Diz enquanto olha o céu por uma janela.

— Quer dizer que você é um membro da divisão Bona?

— Não é bem caso... – Enquanto sorri e coça a cabeça.

— Então você pertence a qual divisão do Exercitum?

— Nenhuma, apesar de estar trabalhando aqui a um certo tempo, nunca me filiei ao Exercitum, pode-se dizer que sou um mero civil.

— Não esperava por isso, até onde eu sei o contato entre militares e civis são proibidos justamente para evitar mortes desnecessárias... – Olha desconfiada.

— É uma longa história, Ceifon ou a Helena podem te contar melhor mais tarde, os dois são os que mais sabem do meu “caso especial” dentre os membros da Bona. Falando nisso, ele pediu que eu avisasse ele assim que você acordasse.

— Quem? – Pergunta ainda meio atordoada e perdida por ter dormido por longo período de tempo.

— O Legato da Bona responsável por esse navio. Você chegou a falar com ele assim que chegou ao navio, mas acabou desmaiando logo em seguida.

— Entendo, eu estou começando a me lembrar mais das coisas, mas ainda assim minha memória está fraca – Pensa sozinha – Posso te fazer mais uma pergunta?

— Claro, estou aqui para ajudar.

— Onde o Cieto está? – Pergunta com uma voz calma.

— Ele chegou em um estado um pouco pior que o seu, então o mandamos para uma sala especial de cuidados intensivos. Estranho, você está mais calma do que imaginei, ainda mais se comparado a ele que chegou aqui correndo – Sorri – Como sabia que ele estava aqui no navio com a gente? Achei que você iria levantar correndo perguntando se ele conseguiu chegar vivo na verdade.

— Não sei, talvez pela sua voz estar calma. Se algo ruim tivesse acontecido o clima da conversa seria outro, além de que aquele idiota não morreria de jeito nenhum – Sorri.

— É mesmo, ela acha ele tão forte assim? – Pensa – Já que é o caso, irei avisar meus superiores que você está acordada e bem. Conforme for a situação, podemos deixar você vê-lo um pouco – Diz para Alícia.

— Espera, você vai me deixar aqui?

— Não se preocupe, o local é seguro. Além disso, eu volto em alguns minutos. De qualquer forma, se você precisar de algo, pode utilizar esses comandos que estão no braço da cama para pedir algo, isso inclui comida e bebida, acredito que você esteja com fome, não é mesmo? – Sorri.

— Certo... Já que é assim está tudo bem. – Diz – Apesar de que eu me sentiria melhor e segura mesmo com uma arma... Ou se o Cieto estivesse aqui – Pensa.

Nesse momento Servet sai da enfermaria e liga para Ceifon. Apesar do horário pouco comum, o Legato ainda está acordado e, mais precisamente, no espaço destinado a ser uma espécie de restaurante do navio.

Chegando ao local ele avista o Legato sentado em um dos cantos. O local não é grande, tem uma bancada onde é servida as comidas, dois freezers com bebidas de vários tipos, uma máquina de café e quatro mesas redondas e pequenas distribuídas pela sala com quatro cadeiras cada uma.

— Achei estranho, pensei que você iria me matar por ter te acordado, mas na verdade você estava aqui.

— Sim, acabei não dormindo por pensar demais em algumas coisas, além de que estou em missão agora.

— Missão?

— Claro, transportar dois Princeps para a cidade Itália, mais especificamente Livorno, até as 13 horas da quinta feira.

— Ah, achei que fosse algo mais impactante do que isso. Não me deixe animado pra nada – Diz enquanto suspira com um olhar decepcionado.

— Você achou mesmo que eu iria te contar se fosse algo além disso? Não se esqueça que nós continuamos de lados diferentes, você é um Sanus no fim das contas, não é mesmo?

— Ainda com isso na cabeça, eu me entreguei a três anos e contei tudo o que eu sabia, mas você ainda desconfia de mim, isso me chateia um pouco, Ceifon... – Diz enquanto mexe a cabeça em um sinal de negação.

— O que eu posso fazer, por sua culpa a Helena quase morreu, não é mesmo. Além disso, você não se entregou, nós que te capturamos.

— Me entreguei ou vocês me capturaram... Isso não faz diferença agora, nós estamos trabalhando juntos desde então, não é mesmo? – Sorri.

— Talvez... – Diz com um olhar desconfiado e logo em seguida toma um gole de seu café.

— Além do mais, se não fosse pelo pedido da Helena, eu estaria preso até hoje por conta do julgamento da Judex, mas ela decidiu me dar uma chance de servir a divisão Bona trabalhando aqui no Octavius, apesar de essa tornozeleira ser um pouco desconfortável e esse “colar” que sou obrigado a usar me deixa um pouco preocupado, eu sou grato a vocês por essa chance – Diz em um tom mais sério e um sorriso mais tímido no rosto.

— Os equipamentos são importantes, um não deixa você se esconder, e o outro não deixa você sair da linha, caso tente posso te parar com uma descarga elétrica bem generosa. Além de que você era um dos que ocupava o cargo de Argentum, não posso abaixar minha guarda com você...

— Isso é equivalente ao cargo de Legato que você possui aqui, não é mesmo?

— Grosseiramente falando, sim. Por que pergunta?

— Digamos que em um belo dia você acabe ficando doente, hipoteticamente falando é claro, desse modo eu estaria em uma posição boa para te substituir no final das contas...

— Nem se eu morrer... Fique feliz de poder continuar trabalhando como médico em vez de estar preso.

— Você sempre adora acabar com meus sonhos...

Os dois suspiram de maneira sincronizada e logo em seguida tomam um gole de sua bebida, Ceifon de seu café, Servet de sua cerveja.

— Como você pode cuidar de alguém doente se estiver bêbado? Além disso, como você conseguiu isso?

— Peguei em um dos freezers assim que entrei, eu não posso? Além disso, se duvida tanto do quanto eu sou bom, vá ver seus amigos – Sorri.

— Alícia já acordou, não é mesmo?

— ... – Acena positivamente com a cabeça.

— Ótimo, vou passar lá daqui a pouco, mas de qualquer forma isso já era esperado e ela não era minha prioridade, meu problema de verdade é o Cieto. Como está a situação dele?

— O caso dele já é mais complicado, mas podia ser pior na verdade. De maneira geral ele estava com muitos cortes pelo corpo, uns mais profundos que os outros, porém isso não é o que me preocupa. A questão são os dois buracos que ele ganhou nas costas. O do lado direito chegou até o músculo intercostal externo. Já do lado esquerdo chegou até a escápula, mas não o suficiente para causar problemas diretos no osso.

— Não tenho ideia do que você está dizendo, mas isso também pouco importa pra mim agora. De qualquer forma, você acha que ele vai precisar de quanto tempo de recuperação?

— Não tenho ideia – Sorri, enquanto coça a cabeça.

— Você é médico mesmo? – Diz inconformado.

— Claro, mas isso está longe das minhas especialidades, não sou nem mesmo cirurgião, estou fazendo tudo isso porque não há ninguém mais capacitado nesse caso.

— Impressionante... – Diz com um tom de ironia.

— Mas uma coisa eu sei, só dele ter conseguido chegar aqui andando já mostra que ele é diferente da maioria dos soldados que eu já vi. Não é absurdo dizer que a maioria cairia de dor no chão e ficaria gritando. Arrisco dizer que esse garoto já passou por mais problemas do que nós dois juntos, sem falar que esse tipo de personalidade não se constrói em três ou quatro anos, isso vem com ele desde jovem – Diz enquanto toma mais um gole de sua cerveja.

— Não sei, convivo muito pouco com o Cieto para te afirmar ou não isso. Na verdade, são poucas as pessoas que o conhecem de verdade no Exercitum acho que só o Imperator tem ideia de quem ele é de verdade. Isso é culpa dele que tende a não fazer muitos amigos.

— Outra coisa que eu tenho que ressaltar. O garoto só está vivo por causa do Frantz Bunz, disso eu tenho certeza.

— Impressionante, por que você diz isso sobre o Legato da divisão Intelligentia? – Diz Ceifon surpreso.

— Esse cara é um Legato do Exercitum? – Pergunta com um tom mais surpreso ainda – Pensei que ele fosse designer de moda ou alguma coisa assim – Diz enquanto começa a rir.

— Você é idiota ou o que?

— Desculpa, agora faz mais sentido. Quando o garoto desmaiou e eu fui cuidar dele, vi que sua roupa estava rasgada nas costas, mas mesmo assim foi o único local que eu achei onde de fato tinha um furo, todo o resto estava intacto, mesmo parecendo bem gasto em alguns locais. Depois no meu tempo livre fui dar uma olhada e descobri algo impressionante. Aparentemente esse Frantz fez uma roupa normal com a resistência de uma armadura, ainda não consegui descobrir o material que ele utilizou nela, mas são fios de algum polímero novo. De qualquer forma, aquela roupa ajudou muito a proteger seu dono. A única coisa que eu achei engraçado é que esse cara deixou uma etiqueta com seu nome e sua assinatura, por um momento achei que era alguma peça de uma dessas coleções de moda – Se contem para não rir enquanto diz.

— No fim das contas o Frantz é realmente um dos principais responsáveis por balancear os dois lados da guerra ele é no mínimo impressionante...

— Mesmo tendo vários anos trabalhando para os Sanus, não havia escutado ainda esse nome, mas já conhecia essa “pessoa”. Do outro lado ninguém sabe a verdadeira aparência desse cara, nem mesmo seu nome. A única coisa que sabíamos era que todas as armas, equipamentos ou qualquer outra coisa que fosse encontrada no campo de guerra tinha uma mesma assinatura. Com o tempo descobrimos que havia um grupo dentro do Exercitum responsável por elas, e que no comando havia também um louco. Por não sabermos quem era só nos referíamos a ele como Machina por conta do seu trabalho desenvolvendo equipamentos. Finalmente agora eu sei... – Sorri.

— Falando desse jeito você até me assusta...

— Não me interprete mal ou qualquer coisa do tipo, não é nostalgia, é simplesmente uma pequena admiração por alguém que enfrentamos por tanto tempo sem ao menos o conhecer... E agora eu sei seu nome.

— Que seja, só não arranje problemas pra mim... Nem pra você – Diz olhando sério para Servet.

— Agora quem está ficando assustado sou eu – Diz enquanto coça a cabeça.

— Que seja, já tomei meu café e estou mais acordado. Além disso, já jogamos bastante conversa fora. Se não se importa, vamos voltar ao trabalho agora.

— Certo, você é quem manda no fim das contas, não é mesmo, chefe? – Diz Servet sorrindo.

— Nunca mais me chame de chefe... Até parece que você tenta me irritar de propósito – Suspira.

— E eu tento, fico satisfeito em saber que consigo.

— Você é realmente o pior...

Terminada a conversa, os dois se deslocam pelo navio até o primeiro andar novamente. Ao chegar na enfermaria, acabam esbarrando em um outro funcionário do navio o qual já estava saindo.

— Desculpe, Ceifon – Diz após trompar com o Legato e rapidamente se dirige a saída.

— Sem problemas – Diz meio confuso tentando entender o porquê da pressa.

Ao se virar novamente em direção a enfermaria, ambos veem uma pilha de comida sobre um dos descansos para pratos sobre a cama de Alícia. Lá estão as comidas mais variadas possíveis, tanto os principais como entradas e doces. É claro que como ela é apenas uma convidada do navio, toda a conta ficara para a própria Bona.

— Oh, parece que você realmente seguiu minha sugestão e resolveu fazer uns pequenos pedidos... – Diz Servet para Alícia, segurando a vontade de não rir.

— Meu Deus, foi você quem pediu tudo isso? Eu sei que você deve estar com fome e coisas do tipo, mas não tinha ideia nem de que você já havia pedido tanta coisa assim – Diz com um sorriso falso ao mesmo tempo em que pensa no prejuízo.

— Ah, foi o Servet quem sugeriu que eu pedisse algo para comer, além disso uma boa refeição é indispensável para minha recuperação, não é mesmo?

— Isso vai sair do seu bolso e não do meu Servet, assim que a Helena voltar, você é quem vai se acertar com ela e não eu – Cochicha.

— Eu posso pagar se vocês resolverem me dar algum salário pelos serviços que eu presto... – Sorri.

— O que vocês dois estão cochichando? Não coloquem a culpa em mim, o problema é o Cieto que cozinha muito mal... Sério, vocês não tiveram que comer o café-da-manhã que ele fez pra mim, aquilo foi realmente assustador.

— Certo, certo... Não se preocupe pode comer à vontade, afinal hoje você é nossa convidada.

— Falando nisso, eu já posso vê-lo? – Pergunta Alícia.

— Servet?

— Não – Diz Servet sorrindo.

— Tão direto, e mesmo assim ele continua sorrindo – Pensa – Por que, você não disse que iria ver se eu poderia?

— Sim, mas acabei mudando de ideia, no momento ele precisa descansar, acabei pensando melhor e decidi que ele poderia não evoluir tão bem se fosse acordado em incomodado agora. Espero que você me desculpe, mas entenda que minha função aqui é fazer com que ele volte logo a um bom estado o quanto antes.

— Entendo... Bom, se é pro bem dele, eu prefiro que seja assim também – Diz a Legato de cabeça baixa.

— Não se preocupe, eu não conheço tanto o Cieto, mas ele já fez muitas missões com a Helena e ela sempre elogia ele e diz o quanto ele é incrível, mesmo em missões longas e perigosas que os dois já tiveram que fazer sozinhos ele sempre conseguiu dar um jeito, por isso eu aposto que ele vai ficar bem em breve – Diz Ceifon fazendo um sinal de positivo com a mão – Dessa vez eu mandei bem – Pensa.

— O que você disse? – Diz a Legato gaguejando.

— Você é realmente ruim com mulheres – Pensa Servet dando um suspiro.

— Falei algo de errado?

Nesse momento o aparelho do Legato toca com uma mensagem.

— Entendo... Servet, vou deixar Alícia com você agora. Preciso ir – Diz enquanto se retira da enfermaria.

— Aconteceu alguma coisa? Ele parecia com pressa.

— Não é nada, provavelmente coisas de Legato para resolver, você deve saber melhor do que eu – Diz em voz alta para acalmar Alícia – Contudo, isso foi meio inesperado, será que aconteceu alguma coisa? – Pensa sozinho.