Bellum Infirmorum - Coyote and the Crow
6 Consilium
16 de outubro de 2385
Local: Desconhecido — França.
Horário: 06 horas e 32 minutos.
A manhã chega e o clima de tensão se vai junto com a lua. Os dois Infirmos ainda estão na cabana em que passaram a madrugada juntos. Na base da Absens, Hayh espera contato de seu Princeps para passar as informações da próxima missão a ser realizada. Contudo, é impossível se comunicar agora, ou melhor, é muito perigoso, uma vez que em território inimigo é muito mais fácil de ter as mensagens interceptadas e acabarem sendo rastreados. Por esse motivo, não há tentativas de ligações até que todos estejam em locais seguros e apropriados para isso.
— Se soubesse que você se mexia tanto dormindo teria dormido no carro ou então convidado outra Legato da divisão Curatio para vir em seu lugar trabalhar comigo, Alícia... Isso é realmente irritante – Reclama, Cieto com certo tom de brincadeira, mas sem resposta.
Mesmo um soldado experiente e treinado acaba sentindo o peso de uma missão de execução em território inimigo, ainda mais o peso de poder estar sendo seguido ou o de cair em alguma emboscada. Por já ter passado por momentos muito mais tensos e intensos que esse, Cieto já está adaptado com tamanha exigência, contudo sua Legato não.
— Entendo... Você está dormindo tão profundamente que nem responde ou reclama dos meus comentários? Infelizmente faz sentido, eu acabei exigindo demais de mais de você ontem... Me perdoe por isso, Alícia! A partir de agora pode deixar comigo – Sussurra, Cieto.
Nesse momento, o Princeps desce as escadas e caminha em direção da porta do fundo que da direto para a garagem. Ele abre a porta para preparar o carro para a viagem.
— Certo, parece que está tudo em ordem, só preciso arrumar os locais para esconder as armas, não será nada bom se nos pararem e encontrarem elas. De qualquer forma, ainda está muito cedo para sair, se formos em um horário mais movimentado será mais difícil deles nos escolherem para parar – Reflete sentado no chão da garagem enquanto olha pela janela – Já que é assim, melhor comer algo, o dia vai ser longo pelo jeito.
Cieto volta para o interior da casa e, apesar de não saber o que estava fazendo, tenta preparar alguma comida. O Princeps, foi treinado para sobrevier nos piores cenário possíveis, desde matas com chuvas fortes, desertos sem uma gota de água, ou até mesmo em tempestades de neve. Por esse mesmo motivo, seu corpo aprendeu a controlar a fome, fazendo com que ele consiga passar alguns dias sem comer, ou então semanas comendo o mínimo possível.
— Tudo bem, isso não pode ser tão difícil, vamos ver o que tem aqui na casa... Certo, isso deve ser o suficiente para um café da manhã. Espero que a Alícia goste... Pensando bem, se ela não quiser sobra mais pra mim. De qualquer forma vou terminar aqui e chamar ela. – Suspira enquanto cozinha.
Depois de alguns minutos, o Princeps termina o café da manhã. Logo depois, Cieto sobe as escadas até o quarto e vai tentar acordar a Legato novamente.
— Ei, acorda... Precisamos nos arrumar e repassar o plano para que não de problemas mais tarde, apesar de odiar essa parte. – Diz em voz alta e logo em seguida sussurra – Talvez ela levante se eu falar sobre a comida, preguiçosa...
— Você é mesmo um idiota, Cieto! Passo a noite toda tomando conta dos seus ferimentos pra você me acordar assim – Suspira, enquanto reclama com a cara no travesseiro – Quando disse que vinha pra essa missão me avisaram que você era insensível, mas não sabia que era tanto.
— O que foi que eu fiz pra você afinal? Só reclama, na próxima missão você quem vai acordar e preparar o café. Vem comer logo, se não vai esfriar e o gosto vai ficar horrível – Grita do primeiro andar da casa – Cara, que garota bipolar... – Pensa.
— Você preparou... Comida? Espera, já estou levantando.
Ao chegar na sala, os pratos já estão servidos e os dois se sentam em uma mesa simples, para quatro pessoas. O local não é grande, mas é o suficiente para os dois naquele momento.
— E então, não vai provar? – Diz, Cieto.
— Parece um pouco queimado... Acho que eu vou deixar passar dessa vez, obrigada...
A comida realmente não parecia nada boa. Era uma mistura de carne queimada com dois ovos também pretos, sem falar que Cieto tinha pego a comida que estava na cabana, sem saber a quanto tempo ela estava lá.
— Estou um pouco curiosa, não lembro de você ter pego comida antes de virmos aqui pra França... Tem certeza que é seguro comer isso? – Pergunta, Alícia.
— Totalmente, estava guardada no carro. É uma receita que minha mãe fazia, não se preocupe eu mesmo já provei e está tudo bem – Avisa, Cieto, fazendo um sinal de positivo com a mão.
— Já que você insiste...
Nesse momento a Legato morde a mistura. Por nunca ter comido algo tão malcozido como aquilo, lhe falta palavras pra expressar o que sentia. Mas, ao mesmo tempo, ela sabe que Cieto se esforçou pra fazer aquilo e que sua intenção era boa, por isso resolve retribuir seu gesto.
— Até que da para comer... Eu acho – Fazendo um sinal de positivo com a mão direita, enquanto a esquerda tapa sua boca – Obrigado pela refeição!
— Sério? Fico feliz que você tenha gostado, mesmo estando empoeirada na prateleira, a comida parece que ainda está boa. Bom, já que é assim vamos continuar, precisamos falar sobre o plano para voltarmos para o território dos Infirmos. Preste bem atenção...
— Maldito, sabia que eu não iria comer se me dissesse que encontrou a carne aqui. Além disso, vai me deixar passando mal sozinha, nem ao menos vai comer seu prato... Agora é tarde, eu me vingo depois quando chegarmos no Colosseum, Hayh deve estar esperando em nossa base, aposto que ele me ajuda... – Cochicha, Alícia.
— Disse algo?
— Nada importante, pode continuar com sua explicação.
— Certo, preciso de suas opiniões, Alícia. Caso queira mudar algo no plano, pode dizer!
A partir desse momento, a discussão começa. Devido a alguns imprevistos em relação ao plano original, algumas coisas foram alteradas. Rotas alternativas foram traçadas. Possíveis abrigos foram selecionados. Pontos de parada durante a viagem foram escolhidos. Porém, mesmo assim, Cieto não estava satisfeito.
— Bom, acho que o plano vai ser esse mesmo... Não há mais nada que possamos fazer. Alguma objeção, Alícia?
— Não, o plano que você montou está perfeito. Não se preocupe, vai dar tudo certo, Cieto. – Diz a Legato sorrindo.
— Certo! Vamos repassar então. Sairemos perto das dez horas em direção a Toulouse e faremos nossa primeira parada. Esse pedaço da viagem dura quatro horas. Se tudo ocorrer conforme o planejado, não vamos levantar suspeitas e poderemos abastecer o carro e almoçar algo...
— Comida francesa! Finalmente vou poder tirar o gosto de carvão queimado da minha boca... – Cochicha, Alícia enquanto suspira de alívio.
— Disse algo?
— Nada de mais, pode continuar...
— Tudo bem, eu acho... Enfim, continuaremos com o plano dentro de uma hora e partiremos pra Barcelona. Essa é a parte complicada, depois do atentado de ontem, as cidades próximas ao território dos Infirmos estarão reforçadas, provavelmente eles estarão nos procurando. Toda essa faixa entre Espanha e França estará com soldados e, caso eles suspeitem que o ataque foi realizado pelo Exercitum, é normal imaginar que tenha pelo menos um Aureum Custos responsável por nos encontrar. Vamos precisar ficar atentos, conto com sua habilidade de localização e identificação de inimigos, Alícia.
— Não se preocupe, pode deixar comigo.
— Se tudo der certo, nós partiremos de Barcelona para Latina, na Itália. Já estava nos planos que a divisão Bona iria cuidar do nosso transporte. O horário de encontro está marcado para as vinte horas, se nos atrasarmos, é possível que eles saiam mesmo sem nossa presença, então precisaremos seguir com outro plano.
— Interessante, não achei que fosse conhecer outro Princeps tão cedo, ainda mais da Bona. Fiquei mais animada com essa missão.
— Eu não ficaria se fosse você, é bem provável que a Helena envie algum Legato para nos receber. No momento ela deve estar ocupada negociando alguma informação como sempre... Inclusive já tem um tempo que não falo com ela, será que ela está bem? Talvez depois que a missão acabar eu deva vê-la, ou será que ela ainda está me ignorando depois daquilo?
— Helena? Será que ela está bem? Ir vê-la? Depois do que? – Alícia, se questiona com um pouco de ciúmes.
— Está tudo bem com você, Alícia? Você está com uma cara estranha...
— Não é nada, idiota... Vamos nos apressar que em breve teremos que partir.
— O que? Desisto de tentar te entender, não faz o menor sentido, mas pelo menos você está certa em algo, vamos nos preparar e ir logo antes que eu decida te deixar para trás...
— Não tente, só saiba que você é irritante às vezes... Enfim, vou analisar a área e, assim que confirmar que não tem ninguém por perto, poderemos partir para Toulouse.
— Se você diz... Vou pegar o resto das armas e equipamentos que deixei pronto na casa. Nos encontramos em dez minutos então?
— Certo!
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