16 de outubro de 2385

Local: Toulouse — França.

Horário: 14 horas e 46 minutos.

O plano segue como o programado. Os membros da Absens chegam sem problema Toulouse no horário estipulado e fazem sua pausa em um restaurante da cidade.

— Cieto, quando você disse que nós íamos almoçar em algum lugar da cidade eu estava achando que fossemos em algum lugar mais conhecido... – Reclama enquanto suspira.

— Se você preferir eu mesmo posso cozinhar...

— Pensando bem, aqui nem é tão ruim assim. De qualquer forma, você não consegue ficar calmo mesmo, fica o tempo todo prestando atenção nas pessoas que passam ao nosso redor, mesmo que seja apenas mexendo os olhos. Acho que você está ficando paranoico já.

— Ao mesmo tempo em que você se mostra rápida para perceber que estou observando os outros, você ignora nossa situação e prefere fingir que estamos de férias e que a missão já acabou... Realmente um desperdício de potencial enorme, chego a ficar triste – Diz enquanto toma um pouco de água e levanta para ir pagar a conta.

— Só resta retornar para a base agora, além de que se algo estivesse vindo atrás de nós, eu saberia não é mesmo? – Também se levanta da mesa e segue o Princeps

— Talvez...

— Pronto, agora se preocupe apenas em dirigir. Eu ficarei responsável por identificar possíveis inimigos, mesmo achando que não irá aparecer nenhum...

— Alícia, você realmente tem um grande potencial... É uma das melhores em rastrear a posição de inimigos e em tratar ferimentos, mas mesmo assim... Cedo ou tarde você vai ter que aprender a respeitar seus adversários, seja por bem ou por mal. Por ser seu Princeps, não, por me importar com você espero que seja por bem – Pensa – Certo, se você quer ficar responsável por identificar os inimigos eu não me importo, pode ser bom você começar a ter um pouco de responsabilidade... – Diz em voz alta.

— Ah, pode ficar tranquilo, vamos chegar antes do tempo esperado... Vai ser fácil!

— Espero que você esteja certa...

— Senhor, o valor da conta ficou em P$ 1345,50. Qual será a forma de pagamento? – Pergunta a atendente do restaurante.

— Mil trezentos e quarenta e cinco pecúnias?

— Não se esqueça dos cinquenta centos.

— Mas foram apenas dois almoços e bebidas... – Diz sem acreditar até ser interrompido.

— Na verdade sua esposa está comendo um dos bolos mais caros do restaurante...

— Ela não é minha... Deixa pra lá. Alícia, devolva agora esse bolo, meu dinheiro está acaban... – Cieto, grita com Alícia virando-se em direção a sua mesa onde a Legato come como se nada tivesse acontecido.

— Tarde demais, já estou terminando... – Sorrindo.

— ...

— Cieto, vamos logo, a moça está esperando, além de que eu quero voltar logo para casa.

— O pagamento vai ser em dinheiro... – Abre a carteira com uma dor no peito enquanto Alícia sorri.

— Certo, tenham um bom dia!

Após a parada, os membros do Exercitum dirigem-se para o carro. A viagem é longa e ambos já estão cansados. Apesar de algumas diferenças, os dois conseguem se entender e, após alguns momentos mais relaxados ocorridos após o assassinato do contrabandista, o mesmo clima tenso daquela noite retorna. Na verdade, ambiente está mais pesado do que antes por algum motivo. Os dois voltam a tratar aquelas horas como deveriam ter sido tratas desde o início. Talvez a parte mais importante dos dois dias seja essa, o retorno. Caso uma missão falhe por não se conseguir eliminar um alvo, ela ainda pode ser feita em outro momento, mas se os assassinos morrem em batalha, eles nunca mais terminarão nenhuma outra.

Os ponteiros do relógio giram, mesmo que lentamente. O tempo passa e o horário do encontro se aproxima. Já escureceu. A estrada está em silêncio. No horizonte é possível ver algumas luzes acessas entrando em contraste com a luz da lua. A cidade vai se aproximando, ou melhor, Alícia e Cieto vão se aproximando da cidade.

— Estamos chegando... Ligue o radar, por favor. Preciso que você me guie até o local marcado, antes de sairmos já deixei o endereço e a melhor rota prontos no aparelho. Fique atenta também a presença de Sanus, preciso que você identifique quais deles podem ser ameaças para nós.

— Tudo bem, não precisa se preocupar com essas coisas, pode deixar comigo.

Após mais algum tempo, os dois chegam até Barcelona. Faltam quarenta minutos para o encontro com a divisão Bona. O local é em um porto de tamanho médio, especial para desembarque de carga vindo de outros locais. Por conta disso, há poucas pessoas e muitos containers empilhados formando grandes corredores de metais. Em um desses corredores Cieto estaciona o carro e espera pacientemente. O local foi escolhido com cuidado.

— Alícia, algo está me incomodando...

— Está tudo bem, não precisa se preocupar. Ninguém nos seguiu até aqui.

— Mesmo assim, coloque alguns sensores nas entradas do porto. Nesse momento todo cuidado será pouco. Depois de algum tempo aprendi a pecar pelo excesso. Vou verificar se não há ninguém por perto.

— Se você prefere assim...

Faltam trinta minutos para o navio chegar e transportar os dois para Latina. Alícia segue a ordem do Princeps e se desloca até o portão principal onde deixa alguns sensores. Enquanto isso, Cieto procura por qualquer movimentação estranha. Não encontra. Tudo normal.

— Deve ser coisa da minha cabeça. O pior é que agora vou ficar sendo chamado de paranoico pela Alícia... Que complicado tudo isso, de qualquer maneira está tudo pronto caso aconteça alguma coisa – Diz enquanto coça a cabeça.

Vinte e cinco minutos para o encontro. Os dois voltam ao carro para aguardar o navio. O ambiente está mais calmo e a tensão bem menor.

— Não encontrei nada na entrada, o local estava limpo. Por precaução deixei os sensores que você pediu. Parece que vamos terminar a missão sem maiores problemas.

— Sim, e prefiro assim. Qualquer coisa além do planejado iria complicar a situação. De qualquer forma, está tudo preparado.

— Nossa primeira missão... O que iremos fazer quando voltarmos? Nunca passei por isso antes...

— Vamos nos recuperar primeiramente. Uma missão é sempre desgastante, em todos os sentidos... Como líder da divisão, provavelmente irie receber uma pilha de relatório de outras missões que aconteceram e isso inclui as realizadas pelos outros Legatos e pelos Miles. Por sermos a principal divisão para execução de missões de assassinatos, é possível que tenham mais papéis relacionados a pedidos de ajuda em alguns assuntos. Cabem a eu decidir se aceito ou não a missão.

— Pensei que as divisões eram subordinadas ao Exercitum e não havia espaço para negar missões.

— E somos, na verdade cada uma das dez é um pedaço que compõe o todo, mas ainda assim há certa independência. Caso eu discorde do planejamento de alguma missão, por exemplo, eu posso me recusar a participar dela alegando que as chances de sucessos são baixas demais em relação ao lucro gerado por ela.

— Entendi, mas isso não levaria a um estado em que as divisões não cooperassem entre si?

— Com certeza, ainda mais por algumas rixas entre Princeps. Minha relação com a Helena é muito boa, por isso ela nunca negaria um pedido de resgate para mim, como é o caso agora. Mas nem todos são próximos assim... Bom, pra isso serve a divisão Judex no final das contas. Caso você tenha uma missão recusada, é possível recorrer da decisão, e quem irá avaliar os riscos e benefícios será o Princeps da décima divisão, Dilus Consul... Particularmente eu não gosto dele, mas tenho que admitir que ele costuma ser justo nas decisões.

— Parece que no final o trabalho de um Princeps é bem mais cansativo do que parece...

— Depois de um tempo você acostuma com o ritmo, além disso, o de Legato não é fácil também. Assim que voltarmos e você se recuperar, é bem possível que seja encaminhada para outra missão. Como essa foi sua primeira eu decidi que você deveria fazê-la comigo, mas nada te impede de ir com outra divisão, ainda mais por você ser praticamente um Legato de apoio...

— Ah, que complicado... Pelo menos vou me livrar um pouco de você, já estava ficando incomodada...

— Sua... Vamos acertar isso na volta, por enquanto... – Cieto tem sua fala interrompida por um barulho – Alícia, se proteja agora!

Um carro preto vem em alta velocidade pela lateral do passageiro do carro do Princeps e colide. Os vidros do carro estouram e se espalham por todas as partes do carro. O carro anda dez metros para frente gira para o lado esquerdo e bate. O veículo de trás era muito maior além de não ser tripulado.

— Alícia, você está bem?! Droga...

— Me desculpe, por algum motivo os sensores acabaram não funcionando... – Diz enquanto tosse.

— Não se preocupe com isso agora, precisamos sair daqui o quanto antes – Diz enquanto chuta a janela da frente do carro, quebrando o que restava, e puxa uma de suas submetralhadoras – Vamos por aqui...

— Não consigo, estou presa...

— Merda... Preciso me acalmar agora, do contrário a situação só irá piorar. Tudo bem, eu já tinha me preparado para um cenário como esse, eu preciso ganhar tempo agora pra soltar ela... – Pensa Cieto enquanto pega uma das suas adagas – Alícia, preste atenção agora, esse veículo é controlado a distância, normalmente ele é usada para transportar cargas ilegalmente, acho que tenho uma ideia de quem está por trás do ataque... De qualquer forma o responsável está sem informação agora que o carro foi destruído, eles vão chegar em breve pra conferir se estamos mortos. Precisamos sair daqui antes disso.

— Tudo bem... Vou tentar me acalmar agora.

O choque foi grande. Mesmo sabendo da possibilidade, é impossível não ser afetado com um ataque desses. Após várias missões, o Princeps já recupera seu estado mais rapidamente, ao contrário da Legato, além disso, os machucados físicos também complicam mais a situação.

— Pronto, já cortei seu cinto. Precisamos sair pela parte da frente, as portas não abrem mais, vamos até aquele escritório do porto em construção ali, vai ser o melhor lugar para lutar em desvantagem em nossa situação atual...

— Precisamos ir rápido, os sensores começaram a enviar mensagens mostrando a presença de pessoas na área...

— Pegue essa Vector 5V, ela vai ser bem fácil de usar, além de ser leve e disparar com facilidade, você só precisa tirar a trava de segurança dela aqui – Mostrando uma peça na lateral da arma – Se você ficar sem saída, use essa granada.

— Cieto, eles chegaram...

— Muito rápido, estamos com muitos problemas mesmo... Quando eu der o sinal vamos para o prédio. Pronta?

— Sim...

— Vamos! – Diz enquanto aperta um botão atrás do volante do carro que libera uma cortina de fumaça que encobre toda a área – Faça silêncio agora...

Os dois correm em direção do prédio. Ele não é muito alto, apenas quatro andares. Além disso, não possui janelas, apenas algumas paredes, o piso e o teto, todos feitos de concreto, assim como as escadas.

— Tome cuidado, um pouco antes de voltarmos para o carro deixei pronto algumas bombas aqui para em caso de emergência pudéssemos usar esse local para proteção.

— Cieto, acho que minha perna está quebrada...

— Merda... Acha que consegue subir até o último andar?

— Talvez caminhar, mas subir escadas na minha condição é impossível, a dor é insuportável.

— Tudo bem, vamos até o terceiro então. Não precisa se preocupar, eu te carrego.

De fato, a aparência dos dois era de se preocupar. Alícia tinha cortes por todo o corpo devido ao vidro quebrado. Além disso, sua perna esquerda parecia quebrada fazendo com que ela não conseguisse se movimentar totalmente como antes. Cieto apresentava um corte acima da sobrancelha esquerda o que o atrapalhava por conta da quantidade de sangue que escorria, dificultando sua visão. Seu braço esquerdo foi a parte mais afetada pelo vidro, havia muitos pequenos pedaços presos ainda.

Após algum esforço para manter sua posição oculta, os dois conseguem chegar até o local. O terceiro andar era especialmente importante, pois a partir dele já era possível visualizar o ponto em que o navio iria chegar.

— Que bom que conseguimos chegar até aqui. Alícia, como você está? – Pergunta com o tom de preocupação.

— Já tive dias melhores, mas vou ficar bem... – Sorri.

— Ótimo! Desculpa, mas mais uma vez vou precisar de você... Se posicione naquele canto, de lá você vai conseguir ver o navio se aproximando. Assim que o avistar me avise.

— Tudo bem... Você pretende fazer o que?

— Não se preocupe, vou ter certeza de que ninguém vai vir nos incomodar – Nesse momento Cieto vai até o outro canto da sala e puxa um pano velho que cobria seu rifle AS500 – Que bom que já te deixei posicionado aqui por precaução... Dessa vez vai ter que ser do jeito antigo mesmo, ainda não consigo usar minha Insignis, meu corpo não suportaria duas cargas dela em tão pouco tempo...

— Desde quando ele está... – Até ser interrompida.

— Preparei esse prédio enquanto você colocava os sensores no portão, deixei algumas armadilhas e meu AS500 aqui para caso uma emergência aparecesse...

— Parece que sua paranoia serviu de algo... – Brinca.

— Idiota... Não vou discutir com você agora – Sorri – Precisamos aguentar aqui por mais quinze minutos.

— Cieto, e se o navio chegar e não conseguirmos ir até ele a tempo, o que vai acontecer? – Pergunta preocupada.

— Eu vou matar todos que tentarem chegar aqui e nós vamos voltar de outro jeito para nossa base, não se preocupe... Isso é uma promessa! – Diz em um tom extremamente sério enquanto mira com seu rifle.