Bellatrix
4 Lorde das Trevas
Notas iniciais

1969
Para minha surpresa, quem me recepcionou no porão da casa dos Lestrange foi Voldemort em pessoa.
E ele estava sozinho.
Franzi o cenho. “Onde estão os outros?”
Tom Riddle abriu um sorriso simpático. “Pedi que nos dessem licença. Sou eu quem faz o processo de iniciação com os recém-chegados.”
Continuei desconfiada. “Eu não disse que entraria para o Voldemort-fã-clube…”
“Mas ainda sim está aqui…” Ele provocou, triunfante.
É, de fato. Contra aquilo, eu não tinha muitos argumentos.
“Apenas por curiosidade. E talvez um pouco de tédio.” Fingi pouco caso, entrando no porão de queixo erguido. Tom fechou a porta atrás de nós.
No meio do porão, parecia haver um móvel coberto por um longo lençol. “E o que é isto?” Perguntei.
“É a nossa passagem.” Respondeu-me, retirando o lençol que ali cobria. Aparentemente, um armário comum, de mogno escuro. Abriu-o, pondo seu pé direito em seu interior. Antes de avançar voltou-se a mim, oferecendo sua mão para que eu a pegasse.
“Para onde leva?” Perguntei, desconfiada.
“Digamos que é um… Quintal nosso. Onde o Ministério não pode nos rastrear. É lá que temos boa parte de nossas operações. Ficará mais fácil para você visualizar o que fazemos.”
Ergui a sobrancelha. Algo em mim – chuto que o meu bom-senso, ou algo do que restava dele – me dizia para não continuar.
Ele sorriu de canto, debochado. “Vamos.” Sua voz era grave e sedutora. “Não temos o dia todo.”
Quando fui ver, já havia pego em sua mão e entrado no armário.
Aparatamos em algum lugar que não soube identificar. Mas era um campo aberto e nublado.
Ouvi gritos de desespero.
Olhei ao meu redor com mais atenção, tentado encontrar a origem dos gritos. Vi algumas pessoas deitadas no chão – alguns eram trouxas, outros bruxos – sendo atacados por dementadores.
Dementadores. Eram dezenas, centenas deles. Se acumulavam no céu, embrenhando-se entre as nuvens escuras – pareciam revezar suas vítimas entre si.
Me pus na defensiva, sacando minha varinha.
“Relaxe.” Me disse Voldemort. “Eles não a atacarão. Estão me obedecendo.”
Franzi o cenho, mais confusa do que nunca. “Dementadores não obedecem a ninguém se não o Ministério.”
Ele deu de ombros, levemente convencido. “Certamente obedecem a mim.”
Senti um frio em minha barriga. Aquilo era impossível. “Como…?”
Voldemort se virou para mim. “Porque sou o lorde das trevas.”
Me dê mais uma explicação simplista e darei na sua cara… Ele pareceu ter percebido minha expressão pouco satisfeita, pois suspirando, explicou-se: “Fizemos um acordo. Nossas vítimas por seus serviços. Eles revezam com os bicho-papões, não permitindo um só segundo de folga a estes infelizes.”
Atentei-me àqueles bruxos que estavam sendo atacados. “Sangue-ruins?”
“E traidores do sangue.” Complementou. “Todos eles.”
Não pude evitar de sorrir. “Maravilhoso…” Murmurei. Seus olhos brilharam com minha aprovação.
“O sangue daqueles que nos perseguiram e massacraram por tanto tempo… Finalmente tendo o que merece.” Complementou Voldemort, inspirado e satisfeito com seu trabalho.
Eu poderia chorar de emoção, se me permitisse chorar. “Justiça. Enfim.” Concordei.
Meus ombros murcharam. Estava aliviada.
“Eu os odeio tanto.” Tom deixou escapar. Peguei-me curiosa. Ele complementou sem que eu precisasse questioná-lo: “Foi a magia que me libertou daquele orfanato imundo. Sinto que a favor dela devo meus esforços.”
Concordava tanto que chegava a doer.
“É isso que fazemos, Bella.” Prosseguiu Voldemort. Surpreendi-me ao ouvi-lo chamar-me pelo apelido. “Trazemos a este vil mundo a justiça que ele merece.”
Ele ofereceu-me a mão, guiando-me pelo caminho até um banco de pedra. Segui sem resistência.
Nos sentamos um ao lado do outro, admirando a linda paisagem de martírio.
“Mal posso esperar para crescermos em número. Para que possamos ampliar a nossa causa, sem ter que nos esconder mais.”
Ofereci um leve sorriso solidário. “E que planejam fazer, para conseguir isso?”
Voldemort ofereceu-me um sorriso afiado. Ele gostava de minha ambição. “Primeiramente, vamos aliar-nos com outras criaturas mágicas que o mundo bruxo tão estupidamente ignorou este tempo todo.”
“Como dementadores e bicho-papões?” Compreendi.
“E tantos, tantos outros.” Ele complementou. “Em seguida, atacaremos com força total. Não lhe daremos trégua. Nunca mais.”
Gargalhei com a possibilidade. “Admito que é um gênio, lorde Voldemort.” Este pareceu lisonjeado, por ser a primeira vez que o tratava com tal título. “Mas será poderoso o suficiente para lutar contra tudo e todos?”
Ele estudou a minha expressão, embora eu tenha deixado a minha dúvida muito clara. É uma aposta muito alta. Que garantias tenho?
Seus olhos se moviam rápido, como se calculasse suas possibilidades. Por fim, rompeu o breve silêncio que havia se instaurado: “Sabe o que aprendi com os dementadores, Bella?”
Eu permaneci em silêncio, incentivando-o a continuar. “Como ter o domínio sobre uma alma.” Complementou.
Enigmático demais para que eu compreendesse, Tom Riddle se levantou em um pulo – pondo-se em minha frente, com os braços abertos. “Vamos. Tente me matar.”
Ri de indignação, bufando. “Está blefando.”
“De forma alguma. Dou a minha palavra.” Seus olhos tinham certeza do que falava, ainda que seu tom de voz permanecesse tranquilo. “Tente me matar.”
Ergui a sobrancelha, considerando a possibilidade. “E me deixar a mercê de um exército de dementadores e bicho-papões, depois que o matasse? Muito engenhoso de sua parte.”
“O que poderia um exército contra Bellatrix Black?” Provocou ele, rindo. “Eles te obedeceriam, pois me derrotando, você se tornaria a nova mestra deles.”
Tal hipótese acendeu um fogo em meu peito. Ele continuou, quase como se recitasse uma cantiga de ninar: “Você se tornaria a nova lady das trevas… Comandaria todos os outros Comensais da Morte, e continuaria o meu trabalho depois de mim…”
Em um impulso animalesco, levantei-me e mirei a varinha em sua direção. “Avada Kedavra!”
Voldemort voou com o impacto do feitiço por alguns metros, caindo contra o gramado. Tremendo de adrenalina, levei minhas mãos à minha cabeça, em desespero. O que foi que fiz? O que foi que fiz?!
Eu matei lorde Voldemort!
Corri até seu corpo, ainda digerindo as informações. Meu coração batia mais rápido do que poderia contar. O que faço agora?! O que eu estava pensando?!
Com um grito, Voldemort surpreendeu-me, abrindo os olhos e fingindo me atacar com as mãos.
Berrei de susto, caindo no chão e rastejando-me para longe. “N-não.” Minha garganta parecia fechar-se, a voz saía com dificuldade. “Não pode ser. Não é possível. V-você me enganou.”
Ele eliminou a nossa distância a passos largos, às gargalhadas. Ajoelhou-se em minha frente, com o rosto bem próximo ao meu. “Tolinha.”
Seu sorriso só aumentava cada vez mais, quase rasgando-lhe o rosto. “Eu não posso morrer.”
Tentei conter o pânico, mas a esta altura, ele já me dominava. “É impossível...!”
“Tsc tsc tsc.” Voldemort balançou a cabeça, desapontado. “Você vem negligenciado seus estudos sobre magia das trevas, minha querida Bella.”
Ele levantou-se, olhando-me de cima. “Eu dividi a minha alma em vários pedaços.” Seu semblante tornou-se sombrio. “Eu sou imortal.”
Horcruxes… Já tinha ouvido falar nelas, mas como algo distante… Como um conhecimento perdido no tempo…
Mas que lorde Voldemort ressuscitara. Da mesma forma que havia feito ali, bem diante de meus olhos.
Ajoelhei-me. “Imploro seu perdão, lorde Voldemort. Se poupar minha vida, a dedicarei inteiramente a você e sua causa.”
Uma Black. Ajoelhando-se. Que desonra para a família eu não seria, agora.
Não é como se restassem-me opções. Como derrotar alguém inderrotável?
Com minha testa colada na terra, não pude ver sua expressão. Mas conseguia sentir o quanto se regojizava da situação. Talvez, de propósito, tivesse me deixado assim por longos minutos – deixando-me na tensão de obter sua resposta. Como se ponderasse o que fazer comigo.
Como se não o soubesse desde o início.
“Levante-se.” Ele ordenou. O obedeci imediatamente, com os olhos colados no chão. Não conseguia encará-lo diretamente.
“Seu braço.” Exigiu. Entreguei-o.
Voldemort apontou a varinha em meu pulso, conclamando o feitiço que deixaria aquela marca em minha pele, minha mente e minha alma para sempre.
Quando concluída a tatuagem, Voldemort aproximou-se de mim. Controlei todos os meus impulsos para não afastar-me, temendo o pior.
Ele encostou sua bochecha em minha têmpora, sussurrando em meu ouvido: “Agora, Bellatrix Black… Você é minha.”
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