Bellatrix
5 Desacato
Notas iniciais

1969
Treinávamos como se fôssemos lutar em uma guerra.
Logo assumi que uma viria.
Fui eu que apresentei Voldemort à minha família, facilitei seu acesso aos espaços mais importantes. Meu pai o adorou, congratulou-me por minha iniciativa – eu até poderia não ser o filho homem que ele tanto queria, mas fazia tudo ao meu alcance para compensá-lo. Pouco tempo depois, Lucius Malfoy se juntou a nós também.
Senti que os outros comensais acataram a minha presença com resistência. Talvez por eu ser mulher.
Mas este já era um problema deles. Se não conseguiam nem ao menos me derrotar nos duelos de treinamento, teriam que me engolir.
Eu tinha todos os motivos para estar feliz. Nossa causa estava ganhando cada vez mais espaço, haviam muitos interessados em juntar-se a nós.
Mas senti, senti em minhas entranhas que Voldemort não queria compartilhar seus grandes planos com seus seguidores. Dificilmente explicitava-os.
Nem mesmo comigo.
E isto me enfurecia.
Certo dia, treinávamos no porão de minha casa. Eu acertava os alvos com meus feitiços com uma força e precisão assustadoras.
Voldemort me aplaudia, exigindo dos outros comensais o mesmo comprometimento e desempenho que eu.
Mal sabia que era ele que eu imaginava como alvo.
Quando terminei, fui enxugar meu suor e tomar um pouco de água. Rodolfo seguiu-me. “Brilhante, Bella, brilhante! Gostaria de ser como você!”
Eu sorri, com pouca modéstia. Podia sentir o olhar de milorde em nossa direção.
Aproveitaria-me, logicamente. Pus a mão em seu ombro, calorosa. “E conseguirá, Roddy. Posso te ajudar a treinar, qualquer dia destes.”
Rodolfo me abriu um largo e genuíno sorriso com o convite. Seus olhos brilhavam. Tolinho.
Voldemort aproximou-se, fingindo-se empolgado. “Muito me contenta tamanha dedicação.”, embora seus olhos gritassem o contrário.
“Não faço mais que meu dever. Devemos compartilhar nossa responsabilidade, como a equipe que somos, não é mesmo?” Respondi, com falsa finesse. “A união traz a força. Tolos são aqueles que pensar poder carregar o peso do mundo sozinhos.”
“Há controvérsias…” Retrucou-me milorde. “Vejamos Salazar, nosso grande herói. Foi após romper com os outros fundadores de Hogwarts que teve sua era de ouro – exatamente por não ser mais atrasado por ninguém.”
Ergui a sobrancelha. “Mas terminou sozinho, se não me engano.”
Voldemort encarou-me diretamente, compreendendo a alfinetada. “Há algo que queira me dizer, srta. Black?”
Contive a minha irritação. Detestava quando ele me chamava assim. Dei de ombros, retribuindo a intensidade do olhar. “Nada que já não tenha dito, milorde.”
Os comensais ao redor pararam para nos observar, dada a perceptível tensão que pairava sobre nós. Eu o estava desafiando.
E ele odiava isso.
Continuei provocando. Não devia, mas continuei. “Exceto… É claro, por uma boba observação minha. Um pensamento impertinente que me aparece, vez ou outra. Mas creio que seja melhor não declará-lo por agora.”
Alguém precisava alertá-lo.
Se não fosse eu, ninguém mais o faria.
“Imploro para que o faça.” Insistiu Voldemort, com forçada gentileza.
“Poder é algo muito frágil, não acha milorde?” Questionei. “Liderança, mais especificamente. Não importa o quanto você faça para reafirmar-se soberano, sempre haverá alguém para questionar-lhe. Um tanto irritante.”
“Não há nada para se questionar sobre lorde Voldemort.” Rodolfo interviu, com um riso nervoso, tentando aliviar a situação.
“Ah, não foi isso que ouvi.” Joguei, fazendo-me de sonsa. “Rumores de que milorde nenhuma autoridade tem para liderar o novo levante de puro-sangue, vejam só! Acredito que ao fato de que… O que falaram mesmo…? Sobre ser um mestiço…?”
Silêncio ensurdecedor entre os presentes.
Consegui sentir a fúria exalando de milorde. Bom. Concluí. Pois é a raiva que fomenta a mudança.
“Senhores…” Voldemort selecionava suas palavras com maestria, referindo-se aos outros comensais. “Estão dispensados.”
Todos saíram dali com rapidez. Lestrange foi o último, e o fez com relutância.
Mal havia se fechado a porta, quando sua mão fechou-se em meu pescoço. Ele aproximou-se de forma intimidadora. Sussurrou, com calma: “Teste minha paciência e repensarei minha misericórdia com a senhorita.”
“O faço por lealdade, milorde. Por favor acredite no que digo.” Murmurei como pude, com o pouco ar que tinha.
Voldemort pressionou-me contra a parede, com pouca gentileza. Minha cabeça doeu com o choque, mas eu gosto de dor. É o que me faz sentir viva. Insisti: “Sabia que era apenas uma questão de tempo até que alguém trouxesse isso à tona. Utilize-me de exemplo para que os outros não façam o mesmo.”
Algo em seu semblante mudou. Sua mão afrouxou-se, mas não me largou. “Sempre um passo à frente, não é, Bella?”
Sorri. “Entendo que não confie em qualquer um, e acredito que está certo por não fazê-lo. Mas sabe que te sou leal, milorde. A mais fiel de seus seguidores, sempre.” Assegurei-lhe. “Mas…”
“Mas…?” Ele ergueu a sobrancelha, intimidando-me a continuar.
Engoli à seco antes de continuar. “...Mas estava falando sério quanto à liderança. Concentre todo o poder de decisão em uma figura só, e todos atribuirão a culpa das falhas somente a ela.”
Voldemort continuou a encarar-me, analisando a possibilidade. Arrisquei-me mais uma vez. “Permita-me, milorde… Conceda-me a honra de ser seu braço direito. Peço que confie também a mim os seus planos. Se eu falhar, execute-me. Só não me aliene desta forma. Isto me é pior que a morte.”
Milorde sorriu, orgulhoso. Aproximou-se de mim como se fosse me beijar. Conseguia sentir o calor de seu hálito. Sussurrou: “Não há um só dia que eu me arrependa de tê-la recrutado, Bella.”
Eu sorri de volta. Voldemort havia me dado um objetivo, uma aspiração, um propósito pelo qual viver e morrer. Meus dias eram breu até encontrá-lo. “Eu também não, milorde.” Confessei. “Eu também não.”
Ele largou-me, de forma bruta. “Suba para o seu quarto.” Ordenou.
Minha expressão fechou-se em dúvida. “Meu quarto, milorde…?”
Ele apontou a varinha em minha direção, como se me ameaçasse obrigar-me. Mas aquilo não era necessário. A passos largos, subi as escadas e fechei-me em meu quarto, dois andares acima. Peço-lhe que me reconheça e me trata como uma criança. Grande avanço. Pensei comigo mesma. Mas não acho que poderia abusar mais de sua boa vontade depois daquilo. Pelo menos tentei.
Cruzei os braços, emburrada. É quase como se estivesse de castigo.
A porta atrás de mim abriu-se, surpreendendo-me. Milorde havia me seguido até ali.
Senti um arrepio percorrer toda a extensão de meu corpo. Franzi o cenho, sem entender mais nada. “Milorde…?” Minha voz soou mais frágil do que eu gostaria.
Ele fechou a porta, encarando-me como uma presa. Com um tom de voz suave mas nem por isso menos autoritário, exigiu: “Tire a roupa, Bella.”
Inconscientemente, encolhi-me. Aquela possibilidade não havia passado nem perto de minhas hipóteses de como ele me puniria.
Abracei-me, em choque. Estaria mentindo se dissesse que ele não me atraía – mas tal fato não me deixava menos intimidada naquele momento.
Controlei para não tremer. “Não sou Nagini.” Murmurei, com leve indignação.
Algo em sua expressão fechou-se. Talvez fosse sua paciência se esgotando. Com um movimento de sua varinha, arrancou-me a roupa com violência.
Tentei tampar-me, envergonhada, mas em vão. Em um movimento rápido, arremessou-me contra a minha cama e lançou um feitiço amarrando minhas mãos na cabeceira.
Podia senti-lo em cima de mim. Conseguia ouvir o sangue bombeando em meus ouvidos – se por medo ou atração, já não sabia dizer.
Milorde repetiu minhas palavras lentamente, com malícia. “Se poupar minha vida, a dedicarei inteiramente a você. Foi o que me disse, não?”
Fechei os olhos e virei o rosto, receosa do que viria em seguida. “Sim, milorde.” Admiti. “Te servirei como quiser.”
Ele segurou meu rosto, forçando-me a olhar para ele. “Então abra os olhos. Quero que me veja enquanto lhe ensino uma lição.”
Relutantemente, obedeci.
Nunca mais o desacatei novamente.
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