Believe In Me
49 Capitulo 49 — Pronta para voar
Notas iniciais
Eu me apressei a entrar na sala de estar. Empurrei o quadro na parede para um lado, e corri escada abaixo tão rápido quanto pude. Ao chegar olhei para Linnea, ofegante depois da rápida corrida.
— O que foi? Aconteceu alguma coisa com Liam? — Eu estava em pânico total depois de Linnea me gritar dizendo que havia uma ligação do hospital. Meu coração batia loucamente e estava tremula.
Linnea arregalou os olhos ainda segurando o telefone, assustada com minha reação. Por esse fato peguei o aparelho de sua mão e coloquei sobre o ouvido.
— O que está acontecendo? — demandei sem fôlego. Do outro lado, ouvi a voz surpresa de Mitchie.
— Beth? Está tudo bem com vo...
— O Liam. Ele está bem? Por que está Ligando? — Silêncio. Mas depois sua resposta me fez suspirar de alívio.
— Se com “Bem” você quer dizer: Quase pulando da cama para trucidar as pessoas do hospital por não chamar você. Sim. Ele está muito bem. — Ela deu uma risadinha — Ele ainda está meio mole, porém é capaz de olhar de modo assassino para todos enquanto resmunga. Ele quer você aqui. Agora! — Congelei. Porra, era agora.
— Eu... Acho melhor deixar para amanhã assim ele pode descansar e...
— Elizabeth — O tom de minha irmã foi agudo — Não pode adiar isso para sempre. Fale com ele... Por favor, venha logo. Ele parece tão frágil agora e só quer que a sua Jodie esteja ao lado dele para que tenha certeza de que está bem. — Mais uma vez, meu peito se apertou com tanta força que tive de esfregá-lo para amenizar a dor. Mas não passava, e não iria passar enquanto estivesse tão longe de Liam como estava.
Olhei então para Linnea, querendo ver a respostas em seus olhos verdes. Ela sorriu, alisou meu ombro como se dissesse: Vá em frente. Está na hora de voar.
Tomando um fôlego que eu não sabia que tinha, assenti, e agarrando o telefone com força, falei antes que desistisse.
— Estou indo para ai.
~*~
No instante em que entrei ao hospital percebi que tremia covardemente. Quando passei pela recepção com Carter, também me dei conta de que suava pra caramba e que a cada passo dado eu apertava mais o braço do meu acompanhante. Carter sorria quando acontecia, mas não me soltou até que chegarmos à frente da sala de espera.
Avistei na mesma hora Michael e Lilah, sentados nos bancos. Mick alisava o cabelo da namorada com um sorriso enquanto essa estava alheia lendo um livro.
Foquei por um instante no brilho em seu olhar ao observá-la em silêncio. Era tipo de olhar discreto e intimo que somente um cara apaixonado podia Transmitir. Já havia visto ele nos olhos de Linnea e Carter, assim como no de Amara e Ethan... Ou até mesmo Harlow e Jimmy, que nunca se assumiam. No entanto, parei para perceber que ele também sempre estivera nos olhos azuis de Liam, quando ele me olhava.
Suspirei. Eu nunca havia dado valor ao sentimento dele. Nunca.
— Você veio! — Virei-me quando ouvi a voz contente vir detrás de mim. Sorri um pouco quando Michelle me apanhou em um abraço forte. — Que bom que veio.
— Eu disse que faria. — Alisei seu cabelo por um instante, aproveitando seu aconchego. Estava ciente que agora Michael e Lilah nos olhavam, mas não me importei. Precisava de força para o que ia fazer, e nada melhor que ter minha irmãzinha por perto para conseguir um pouco de coragem.
Quando me afastei, notei que Amara estava observando também. E sorria.
— Ele está dormindo por causa do sedativo que teve de tomar, mas acordara em breve. — falou suavemente — Pode esperar no quarto. — Engoli em seco, olhando dela para o corredor, hesitante.
— Ele está bem? — Amara tentou disfarçar, mas sua expressão ficou triste por um momento.
— Na medida do possível. — suspirou. — Só agradeço que ele esteja vivo e comigo. Pense nisso quando olhá-lo.
Não entendi o que ela quis dizer, mas me soltando de Mitchie, acenei para Carter e caminhei para o corredor. Segui sozinha para o quarto, mordendo a porcaria da unha e tentando não dar para trás a cada gota de suor que pingava da minha testa. Encontrando a porta certa, parei e segurei a maçaneta, eu não sabia o que esperaria por mim lá dentro, mas rezava para que conseguisse suportar. Finalmente, eu entrei.
Mas meu coração falhou uma batida ao vê-lo.
— Oh... Meu Deus.
O avental hospitalar deixava os braços e as pernas descobertos, revelando marcas roxas por todos os lados. E seu rosto… Santo Deus, estava terrivelmente machucado. E atadura que cobria o lado direito dele indicava que havia mais, e talvez piores.
Estiquei-me para segurar-lhe a mão… Oh, não, ali também. Os punhos estavam inchados, a pele arroxeada, obviamente por socar Edgar.
Queria tocá-lo, mas parecia tão ferido que tinha medo.
— Liam?
O corpo dele estremeceu ao som de minha voz, e Liam abriu os olhos. No mesmo instante, grossa lágrimas deslizaram por suas bochechas assustando a merda fora de mim.
— Liam! Ei, tenha calma – inclinei-me sobre ele, alisando o cabelo para trás. Seu rosto estava arrasado – Está sentindo alguma dor?
Ele abriu a boca, mas não conseguiu dizer coisa alguma. Começou a sentir pânico, olhos arregalados.
— Calma, novato, tenha calma. Relaxe – disse o mais suave possível – Quero que aperte minha mão uma vez se a resposta for sim, duas vezes se for não. Sente dor?
Não.
Suavemente enxuguei as lágrimas de suas faces.
— Tem certeza?
Sim.
— Quer que eu chame um médico?
Não.
— Precisa de alguma coisa?
Sim.
— Comida? Bebida?
Não.
Ele começou a se agitar, seus olhos claros e arregalados imploravam.
— Psiu. Está tudo bem — Fiz uma careta para mantê-lo quieto – Acalme-se. Já vamos descobrir do que você precisa. Temos bastante tempo.
Os olhos dele se fixaram em suas mãos entrelaçadas. Depois, seu olhar se dirigiu para o rosto dela.
— Eu? — sussurrei surpresa — Precisa de mim? — Não parou mais de apertar minha mão.
Não sei quando foi que aconteceu, mas quando percebi, lágrimas descia meu rosto enquanto o olhava, não acreditando que ele queria saber como eu estava quando se encontrava ferido e em uma cama de hospital. Como ele conseguia fazer essas coisas?
— Liam... Deus. Você é tão idiota — Ele piscou seus olhos para mim... Ou melhor dizendo. Piscou seu olho esquerdo para mim. Depois quase desabei ao ver o fantasma de um sorriso ser-me direcionado. Porém o peito dele ainda tremeu com um soluço, fazendo-me sentir um lixo — Oh Liam, estou aqui... Se acalme, por favor.
Um grasnido saiu de sua boca. Inclinei-me.
— O que?
— Queria... Salvar você.
— E conseguiu novato — Toquei seu rosto gentilmente — Você quebrou tudo e me salvou. Fique tranquilo.
— Ele machucou... Vocês — Ele limpou a garganta, tendo dificuldade para falar — As ouvi gritando eu... Minha irmã ela...
— Shh. — Selei seus lábios com o dedo e mostrei como estava brava. — Quieto. Não se esforce tanto. Precisa descansar. Vou chamar um médico para...
— Não! — Segurou minha mão mais forte, a voz tão desesperada que desisti de levantar e me afastar — Não me deixe... Por favor, não me deixe. — Sem saber o que fazer, me inclinei de volta, empurrando-me para deitar ao seu lado na cama.
— Ok. Ok. Estou aqui. Viu? — Ele relaxou novamente, e percebi seus braços me circularem — Que tal ficarmos bem quietinhos para que você possa dormir mais um pouco? Prometo ficar aqui até que acorde — Ele resmungou, não gostando da ideia, mas não diria que o sedativo concordava, pois eu observava como ele abria e fechava os olhos.
— Quero ficar... Acordado. Vo-você precisa de mim, eu...
— Durma agora novato. Durma. — Acariciei seu peito até que sua respiração voltou a ficar bem lenta e tranquila. O olhei e tive a confirmação de que dormia profundamente, no entanto nunca cessou na pressão a minha volta, continuava me apertando contra si como se ele fosse meu escudo e eu seu talismã. Eu não me movi, apenas deitei em seu peito, e escutei seu coração batendo sem me importar com as horas que passavam.
Percebi que adormeci contra ele quando esse acordou com um sobressalto e me apertou contra si, obviamente com medo de que eu tivesse ido embora, mas ao me ver ali tão perto, puxou-me para mais junto.
— Jodie? — Ergui os olhos para ele, feliz que sua voz estivesse um pouco mais estável.
— Oi. Está melhor?
— Sim. — Senti sua mão deslizar da minha cintura para meu rosto, não me afastei como sempre fazia, não era hora de demonstrar orgulho. — Você está bem? — Suspirei, e assentindo, disse mais uma vez.
— Já disse. Os machucados vão cicatrizar e...
—Não estou me referindo aos machucados meu anjo. — Sua voz doce me fez hesitar até que compreendi. Ele estava fazendo de novo. Estava sendo tudo mesmo burro. Ele sempre sabia quando meu coração se encontrava um caus.
Continuei encarando, sem saber o que dizer, ou melhor... Com medo de dizer. Pois eu não estava bem, meu coração sangrava pelo caminho por causa de uma grande e dolorosa ferida. Não sabia se contava a verdade, porém a indecisão era tola, pois a expressão dele dizia que já sabia a resposta.
— Eu... Vou ficar bem. Mas você... —Olhei seu rosto por inteiro, sentindo como minha expressão decaia — Seu rosto, Liam. Eu sinto muito. — Seu cenho franziu e uma das mãos alisou a atadura no rosto. Ele não apareceu surpreso por tê-la lá, pelo contrário, ele acabou por me olhar e sorrir de lado.
— Não se preocupe com isso. Não me importo — falou, eu não acreditava que ele parecia tão calmo.
— Como assim não se importar? É seu rosto Liam! Vai ficar marcado pelo resto da vida e por minha culpa! —O sorriso dele morreu, e achei que tivesse colocado algum juízo na cabeça e que agora estava vendo o que realmente aconteceria com sua face.
Enganei-me terrivelmente.
— Isso não foi culpa sua — Seu rosto contorceu em insatisfação —Eu sabia dos riscos quando fui atrás de você e Michelle. Eu sabia que entraria em uma merda e mesmo assim, aceitei. Então não diga que a culpa é sua, pois não é. — Eu sabia que ele só dizia àquilo para que eu não sentisse a dor da culpa, mas mesmo assim, as suas palavras não adiantaram muito, porque meu peito se apertou e a minha alma se encolheu. E tudo que mais queria era ir me trancar em algum quarto vazio de outros olhares, só então poderia fazer o que faço de melhor.
Franzi a testa desconfortavelmente. Eu pensando naquilo fazendo de novo. Pensando em me cortar para que tudo parasse. Deus, era tão difícil parar.
Mas talvez eu não precise... Um corte pode resolver as coisas. Apenas um.
Estremeci com a voz que cantava essa mesma frase sem parar em minha cabeça. Percebi então, que eu estava cada vez mais perdida.
— Jodie? Hey, doçura o que foi? — pisquei, chacoalhando a cabeça para então notar que Liam me chamava com uma expressão preocupada. — O que está acontecendo meu anjo? Você ficou quieta de repente.
Só um corte. Vamos Jodie... Só um.
— Eu... — Minha respiração ficou acelerada quando que por um infeliz momento, eu virei o rosto e peguei a visão de uma injeção descansada na mesinha. Um pensamento mais louco passou por minha mente conturbada.
Eu poderia usar aquilo... Furos aliviariam a dor interior. Sim. Era única coisa que ajudaria!
— Não! — Abaixei a cabeça, colocando-a entre as mãos e pernas. — Não posso. Não posso. Não posso.
— Jodie? Meu amor o que foi? —Tremi com o carinho e a preocupação na voz do novato. Eu quis ouvir apenas a sua voz, mas a outra não me permitia.
Pegue a injeção Jodie. Ele não merece alguém como você. Acabe logo com isso e deixe-o em paz.
— Pare. Pare de falar. — Meu rosto estava úmido e tudo tremia. Eu precisava acabar com aquilo, precisava pegar a injeção e...
Mãos grandes me puxaram para perto, apertando-me contra um corpo quente. Minha bochecha molhada descansou em um ombro enquanto meu corpo era abraçado e protegido por Liam.
— Jodie. Jodie se acalme — Ele acariciou meu cabelo lentamente, beijou minha cabeça e sussurrou — Estou com você linda. Estou aqui.
— Preciso parar isso — murmurei, ainda engolindo o choro que queria vir, mas eu não deixava. — Você perguntou se eu estava bem... Mas eu não estou Liam. Eu estou fodidamente quebrada.
Ele suspirou, apertando-me mais.
— Ah Jodie...
— A voz não deixa minha cabeça — murmurei, e dessa vez o medo foi transmitido em cada palavra — Ela quer que eu acabe com isso. Eu também quero Liam. Ela tem razão... Talvez um corte seja o suficiente para...
— Não termine essa frase Elizabeth! —Estremeci sob seu tom rude — Não pense em fazer isso de novo. Existem outros meios para lhe ajudar, eu estou aqui com você Jodie. Eu posso te ajudar.
Balanceia cabeça, me erguendo e virando o rosto para ele. A voz novamente falou: Ele não te merece!
— Eu não quero continuar fazendo isso. — confessei — Quero ser alguém normal. Uma garota digna de ser sua namorada — Liam arquejou surpreso e meio perplexo pelas minhas palavras, mas minutos depois ele negou com a cabeça, desesperado ao segurar meu rosto.
—Não. Doçura... Você é mais digna que muitos. O que está dizendo? É claro que você é a certa para mim. Não importa se é diferente, eu não quero que seja normal, eu me apaixonei por você dessa forma e a amo. — Pela primeira vez, eu sorri, vendo como ele era sincero.
Gentilmente, toquei o lado bom de seu rosto, fazendo-o fechar os olhos e esfregá-lo contra minha palma.
— Você sempre me perguntou por que eu ainda o chamo de novato — Desci os dedos por sua mandíbula, um pouco pensativa — A resposta para isso é a mais simples de todas agora. Você fez uma bagunça na minha vida Liam, foi o primeiro que ganhou minha completa atenção, o primeiro a ter minha completa raiva e minha eterna frustração. Por você, eu fui enfrentada pela primeira vez, e foi você o único a bater o pé por querer o meu bem... — Olhei em seu olho fixamente, colhendo com os dedos as lágrimas que ele liberava — Em todos os momentos, você sempre foi o primeiro. Uma coisa nova que invadiu a minha vida tão de repente. Aquele que eu confiei a minha primeira vez, e o primeiro que conseguiu me fazer aprender amar tão intensamente. Você é novo no meu coração, não em uma merda de colégio... É novato aqui dentro e acho que sempre vai ser. Eu nunca permiti ninguém entrar, mas você fez uma porrada de coisa e conseguiu. E eu queria ser merecedora disso.
— Jodie... — Selei seus lábios com os dedos.
— Eu quero aprender ser melhor. Quero ter confiança e acreditar em mim. Porém, não consigo fazer isso olhando para o que aconteceu com você ou a Michelle. Não posso seguir em frente olhando todo dia para meu passado, ele só me faz querer me afundar mais — Finalmente, permiti que as lágrimas descessem, fungando sob o olhar amedrontado de Liam. Ele já começara entender.
— Jodie, por favor. Isso não.
— Você me deu tudo. Se arriscou, caiu por nós. Você chegou atenciosamente e me amou fielmente. Você me ensinou a honrar e fez isto por mim. Eu sou grata, Liam, mas está na hora de eu voar sozinha. — Ele balançou a cabeça freneticamente e me puxou. Ele tremia.
— Não. Não pode me deixar agora... Precisa ficar comigo. Eu posso te ajudar querida. — Suspirei, e inclinando contra ele, abracei sua nuca, ficando tentadoramente perto de sua boca.
— Eu sei que é egoísmo da minha parte, mas... Eu sinto que se continuar aqui, eu vou acabar fazendo uma loucura. Eu preciso aprender sozinha, Liam.
— Mas... — Segurei seu rosto.
— Escute — Ele ficou quieto — Eu ainda não sei como isso funciona, mas... Meu peito se alivia da dor quando estou com você. Dai-me a paz que eu quero ter quando me abraça. E o estranho é que agora, enquanto falo com você, ele está doendo — Apertei os lábios nervosamente — Está doendo e gritando comigo para que eu esqueça essa ideia.
— Então, por favor — Deixei que ele segurasse meu rosto mais perto — Escute seu coração e fique.
— Eu sinto muito Liam. Não posso — Fechei os olhos, sentindo seu hálito — Eu estou me perdendo aos poucos. E você não merece isso. Estou indo para melhorar, e só então, poderei voltar. — O suspirar derrotado de Liam doeu em minha alma, assim como sua expressão angustiada. Ele não falou, e acho que não existia nada para ser pronunciado, tanto que eu só vi um meio de mostrar a ele que estava disposta a ser alguém melhor.
Com o coração pulando, eu o beijei. Liam gemeu surpreso contra minha boca, o prazer de sentir seus lábios deixou-me emocionada, pois o fato que ele aprofundou o beijo sozinho, e que se sentisse bem o suficiente para fazê-lo era maravilhosa. Minhas mãos se estenderam para seu peito para me assegurar que o coração batia forte. Ele se afastou e olhou profundamente em meus olhos.
— Prometa que vai voltar para mim. Prometa — Me senti horrível por vê-lo implorar por minha volta.
Peguei seu rosto e o olhei com intensidade. Selando um juramento.
— Eu vou voltar. Eu prometo por cada estrela que tem no céu. Juro por Mitchie e minha mãe. — Acariciei seu rosto— Não vou deixar você Liam. Quando eu estiver melhor, voltarei. —Sua tristeza não se foi nem com minhas palavras, mas ele fechou os olhos e encostou sua testa a minha, parecendo ao menos um pouco mais tranquilo.
A grande mão alisou meu rosto devagar, apreciando o que tinha pelo pouco tempo que tinha.
— Eu amo você Jodie. Nunca se esqueça disso — Sorri, deixando as lágrimas rolarem silenciosas. E pela primeira vez, as palavras que disse a seguir fizeram todo o sentindo na minha vida. Elas foram tudo e muito mais. Foram a confirmação de que eu realmente, voltaria vê-lo.
— Eu também te amo novato.
~*~
Uma semana depois...
O som das pessoas falando soou até meus ouvidos como ruídos desconecto, e enquanto eu olhava para a rodinha que meus amigos formavam enfrente ao crematório, eu tentava de alguma forma, dar um passo para trás e ir embora.
Aos meus pés eu tinha uma grande mala com roupas e dinheiro, em minhas mãos, a passagem de avião que Carter me dera parecia mais pesada que um piano. Guiei novamente meus olhos para as pessoas em preto logo à frente e sorri. Todos estavam ali por mim, não hesitaram em vir quando decidi comparecer ao velório do meu pai, e da mesma forma ninguém me criticou.
A esquerda estava Amara, Michael e Lilah. Os três conversando com meu avô rabugento e minha irmã, que não saia da asa de Joshua. Olhei por um tempo para Mitchie, me sentindo mal por tê-la feito vir, mas não era como se pudesse prendê-la na cama quando disse que ira comparecer. Ela fez questão de estar ao meu lado, e não pude recusar.
À direita eu vi Linnea e Carter com sua filhinha, sendo rodeados por adolescentes barulhentos e desorganizados. Pensei no momento em que conversei com Linnea sobre minha viagem até Phoenix e sobre meu pai. Ela tinha me olhado com olhos tristes, e eu sabia que apesar de ela ter odiado me ver fugir de Edgar como sempre fiz e nunca tido motivo para não o fazer, ainda sentia a minha perda.
Semicerrei os olhos e uma maré de imagens surgiu por trás de minhas pálpebras: Edgar antigamente. Antes de toda bebida. Ele sorrindo apaixonado por Marissa e me olhando com carinho.
Nunca tinha parado para pensar sobre como seria se ele não se afundasse, mas agora, lembrando-se de como ele era... Talvez tivesse sido bom.
— Um x-burgue por seus pensamentos. — Olhei para o lado. Joshua estava de pé ao meu lado. Apoiado em sua bengala.
— Eles não podem valer tanto assim — falei, mas sorri, pegando a mão que ele oferecia. —Como está vô? — perguntei, preocupada sobre o velório.
Josh fez uma careta.
— Decepcionado. Mas o sentimento sempre esteve aqui, mesmo com Ed. vivo. Ele agora só se expandiu um pouco. — Esfreguei seu ombro.
— Eu sinto muito.
— Oh, eu também minha querida. Mas às vezes as coisas não dão tão certo como nós queremos —E eu sabia bem como isso era verdade.
Suspirando, voltei a olhar para meus amigos. Meu estômago se embrulhou de medo.
— Não contou a eles? — Questionou meu avô. Eu me encolhi.
— Não tive coragem. Eles estavam tão animados com a recuperação de Liam que... Não quis estragar tudo.
— Entendo — Ele olhou na mesma direção que eu. No silêncio que se seguiu, eu observei Stef se inclinar contra Jack para lhe roubar um beijo. Todo sorridente, Jackson a abraçou e esqueceu-se de que estava cercado de gente. Um pouquinho mais ao lado, Jimmy brincava com o cabelo de Harlow, enquanto essa fingia que não estava vendo ao conversava com Lizze e Jonah. Sentiria saudades.
— Vovô?
— Hmm?
— O senhor pode entregar isso para eles? — Tirei uma carta da mala e lhe entreguei — Não posso falar com eles. Não conseguiria. — Ele me olhou por um instante, depois chegou mais perto, e tocou meu queixo, o erguendo bem para cima.
— Não se esqueça de manter a cabeça erguida bonequinha — murmurou. Eu senti os olhos arderem.
— Não vou — garanti e o abracei, fechando os olhos ao perguntar — O senhor tem certeza de que não quer vir comigo? — Ele riu um pouco e se afastou. Secou minhas lágrimas.
— Estou velho, querida. Não posso viajar e já me acostumei naquele fim de mundo. Eu reclamo, mas não viveria melhor em outro lugar —Um suspiro — Estou cansado Jodie, preciso ficar em um lugar só. Entende? — Sorri.
— É claro. Eu sentirei saudades.
— Eu também bonequinha. Eu também — Ganhei um beijo na testa e em seguida, observei enquanto ele voltava para Michelle com a carta em mãos.
Com mais um olhar para meus amigos, peguei minha mala pronta para partir, mas não dei um passo antes de meu celular tocar.
— Alô?
— Não achou que iria embora sem se despedir né? — Arregalei os olhos, meu coração palpitou alto e eu sorri, sentindo as lágrimas novamente.
—Liam.
— Sabe doçura. Quando ia me contar sobre essa confusão no colégio? — Congelei no mesmo lugar.
— Como é?
—Estou no laptop de Mick e encontrei nas redes sociais os comentários sobre a nossa formatura. Pelas fotos, Lisa e suas amigas tomaram um banho de uma coisa azul, como tinta, no meio de sua apresentação... Oh, e olha só o que tem aqui... A tinta era química. Com certeza sairá do corpo dela depois de dez dias. Ou seja, elas ficaram azul por um tempo — Prendi o riso atrás da mão, me balançando no mesmo lugar.
— Humm. É mesmo?
— Sim. E sabe... Você não acha uma coincidência muito grande que alguém tenha tramado algo tão cruel para Lisa e suas amigas? A suas inimigas mais odiadas — Notei em sua voz, que ele também sorria, tanto que não pude mais segurar.
—Eu sei. Eu sou um gênio.
— Jodie! — Ele riu.
— O que? Eu precisava terminar minha vingança antes de ir, aposto que ela pensou em mim de primeira.
— Você é impossível — Riu, e eu também. Quando paramos, o silêncio foi um lembrete de que aquela, podia ser nossa ultima ligação. Mordi o lábio nervosamente.
— Liam...
— Não demore. Por favor, não demore a voltar — Respirei fundo, apertando a mala em minha mão.
— Eu prometo fazer o possível. Eu vou conseguir, confie okay.
— Eu confio — afirmou convicto — Mas preferia pelo menos saber onde vai morar. — Fechei os olhos.
— Sabe que não ia dar certo. Você iria atrás de mim, eu te conheço — Um suspiro. Um nó cresceu em minha garganta ao olhar a hora no relógio, senti o choro se formando aos poucos sem nenhuma autorização — Eu preciso ir.
O ruído que ele fez pareceu um gemido frustrado, ou até desesperado.
— Estarei aqui Jodie. Eu vou te esperar... Eu juro que vou esperar. — O sorriso cortou meus lábios, junto com angustia em meu coração.
— Obrigada. Muito obrigada por me entender.
— Eu amo você. Farei o que for preciso para vê-la bem. Até mesmo ser paciente. Vá com segurança e volte bem doçura. Não sairei daqui.
Funguei, esfregando os olhos e ofegando.
— Até logo novato.
— Até doçura.
Eu nunca me senti tão vazia quanto me senti quando ele desligou. Engolindo em seco, me recompus e peguei a mala mais uma vez, mas ao erguer a cabeça, meus olhos cruzaram com Michelle. Ela me olhava, e quando viu a mala aos pés, lágrimas toldaram em seus olhos ao perceber que já era a hora.
Eu sorri e acenei um adeus, e quando ela fez o mesmo, moveu os lábios em três únicas palavras: Eu amo você.
Sim. Ela me amava. Assim como eu a ela.
Sussurrando as mesmas palavras, dei um passo para atrás, depois outro e mais outro. Até que no final eu me virei, e parti somente ouvindo o som da voz em minha cabeça. E dessa vez, eu a seguiria nem que tivesse de lutar comigo mesma.
Eu vou voltar. Nada me impedirá fazê-lo.
~*~
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