Notas iniciais
Bem vindos ao capítulo Um! Tenham uma boa leitura.

2014

Althea

Senti vontade de retirar o capacete enquanto guiava minha moto pelo asfalto da Quinta Avenida, apenas para sentir o vento contra meu rosto e certificar-me de que a sensação era tão prazerosa quanto eu imaginava ser. Contudo, me contive. Nunca gostei da ideia de provocar algum acidente por afastar as mãos do guidão, ou de sofrer algum trauma grave por cair da moto em uma velocidade alta, não estando suficientemente protegida.

Mas aquele era um dia bom, um dia ótimo, para ser mais exata. Eu havia finalmente entrado de férias pela primeira vez desde que começara a faculdade de Biologia, e em pouco tempo, finalmente compraria minha segunda motocicleta, embora ela nunca fosse substituir minha atual. Eu era a única da família que havia me interessado por motos, e meu pai sentia um orgulho enorme de mim, o que, de certa forma, me pressionava, mas não era nada que eu não gostasse muito ou que me impedisse de viver.

Minha mãe odiava a ideia. Motocicletas eram para ela como dragões para as princesas das histórias medievais que me contavam quando era criança. De qualquer maneira, eu nunca fiz muito a linha princesa de torre. Gostava mesmo era da ideia de lutar com espadas e usar armaduras, em cima de um cavalo, que na vida real era minha Harley Davidson, apelidada de Ártemis. Meu elmo era meu capacete, e minha armadura era minha jaqueta, na maioria das vezes de couro sintético ou jeans, repleta de broches.

Ultrapassei alguns carros e, conforme as rodas de Ártemis giravam pelo asfalto, observei rapidamente algumas pessoas. A maioria cruzava faixas de pedestres liberadas para sua passagem, outras, falavam ao celular e não ligavam para nada do que acontecia ao seu redor, nem mesmo para as buzinas freqüentes. Eu também não ligava muito, não que fosse irresponsável no trânsito, pelo contrário.

Sempre me importei muito com a segurança de todos, mas a partir do momento em que subia no banco de minha moto, a liberdade tomava conta de mim, e frear era um pequeno sacrifício a ser feito. Se minha mãe me visse, provavelmente me puxaria pelos cabelos assim que eu passasse por ela, como um peão enlaçava um touro indomado em um torneio.

Mas eu estava dentro do limite, e mesmo assim aproveitava cada sensação. Aquele era um dos poucos momentos em que eu esquecia totalmente dos holofotes em cima de mim, gerados pela fama de minha família. Infelizmente, isso durava pouco. Logo todos os eventos, fotografias, mentiras, manchetes e premiações captadas pela mídia invadiam minha mente e nem o vento frio contra meu corpo era capaz de me distrair totalmente.

Meu sonho era fazer parte da quarta geração de médicos da minha família, mas para isso, eu precisaria de muito mais que notas boas na faculdade de Biologia, que antecederia a de Medicina; eu não poderia desistir. O império dos Santiago surgira em 1920, quando Stella Dousseau, uma enfermeira francesa nascida no final do século XIX, pela qual eu ainda tinha uma enorme admiração, casou-se com Joaquin Santiago e, bem, usou o dinheiro de meu bisavô para algo melhor que compra de terras, vinhos e noitadas com mulheres que cobravam por sexo.

Os primeiros hospitais da família surgiram e cresceram mais rápido que o esperado, eles haviam dado início a uma rede que seria conhecida e aclamada. Stella dera à luz a dois filhos, e após a morte precoce do primogênito Javier, o seu irmão mais novo — meu avô — herdou toda a história, exercendo um ótimo trabalho como cardiologista, revolucionando inúmeros procedimentos que vieram a salvar milhares de pessoas. Com Daiana, minha mãe, a história fora um pouco mais complicada.

Ela engravidou aos vinte anos, cedo demais para as responsabilidades que já carregava, quando ainda estava em sua primeira faculdade. E sendo a irmã mais velha de outros seis irmãos e a primeira a se formar em Medicina, foi quem se tornou a principal comandante dos hospitais após a morte de meu avô, Antonio. O casamento de meus pais aconteceu na mesma época. Eles estavam completamente apaixonados, e casar cedo não era um problema. Então meu pai, Leon, filho de um casal de empresários, comprou as ações de meus tios maternos, tornando a rede de hospitais inteiramente nossa. Um conto clichê envolvendo pessoas ricas, e que para mim, era realidade.

Eu, por outro lado, não havia feito esforço algum para chegar ao topo do mundo, mas já havia se tornado uma tradição me manter nele.

Fiz uma curva um tanto fechada, e assim que consegui estabilidade para voltar a acelerar, o som que eu mais detestava invadiu minha audição. Desejei que não fosse comigo, mas assim que o barulho aumentou e o controle de minha moto saiu de minhas mãos, me vi obrigada a desacelerar em plena avenida, irritando os motoristas desavisados ao meu redor. Ártemis havia pifado, e aquela não era a primeira vez, e muito menos a última.

Minha mente congelou por breves segundos. Eu deveria sinalizar? Tentar fazê-la funcionar novamente? Descer da moto e empurrá-la para longe do trânsito, correndo o risco de ser atropelada? Fiz os três, um passo de cada vez, como se estivesse lendo um manual de instruções. Desci após várias tentativas, e assim que o movimento diminuiu, empurrei os mais de trezentos quilos, torcendo para que meus braços não caíssem antes de eu sair do asfalto.

Ninguém me reconheceria, meu capacete era escuro e jamais imaginariam que alguém de minha família fosse sair com roupas daquele tipo, desleixadas demais para minha conta bancária, ou com uma moto que quase caía aos pedaços, como Ártemis poderia ser descrita. Mas eu a adorava, e para mim, ela continuava perfeita.

Minhas pernas começaram a ceder, mas consegui estacionar precariamente atrás de um dos vários táxis por ali. Retirei o capacete e abri o baú da moto, guardando-o e agradecendo a mim mesma por ter óculos de sol largados ali. Quase nunca os usava, mas tinha consciência de que poderiam vir a ser úteis em algum momento da minha vida. Cobri meu rosto com as lentes escuras e chequei meu celular, completamente sem bateria.

Eu não estava perdida, conhecia Manhattan como as palmas de minhas mãos, e estava em um bom ponto de acesso. Meu único problema era ter que arrastar Ártemis até o Hospital Stella Santiago, e torcer para conseguir alguma carona por lá.

Retirei a jaqueta, e após prendê-la em minha cintura, segui pelo acostamento. O sol estava tão forte naquela época do ano que os pêlos de meu braço, normalmente ruivos, assumiram um tom loiro, que me fazia parecer um pão dentro de um forno, dourando aos poucos. Meus músculos já queimavam pelo exercício, provavelmente minha face já estava avermelhada, e sentia que a qualquer momento meus olhos começariam a arder por trás dos óculos, o que achei ser coisa da minha cabeça, mesmo não enxergando muito além de meu nariz sardento e suado.

Assim que, longos minutos depois, encarei o hospital mais renomado do país, sorri. Soltei todo o ar que havia guardado em meus pulmões, em meio às palpitações doloridas em meu diafragma, e estacionei minha motocicleta, imediatamente desejando tomar um banho refrescante e deitar em minha cama, embaixo do ar condicionado. Eu não era sedentária, adorava natação e corria sempre, mas empurrar cerca de cinco vezes o meu peso não fazia parte da minha lista de atividades semanais.

Suspirei, passando os dedos trêmulos por meu rosto, pescoço e nuca, juntando todo o cabelo encharcado de suor em um coque apertado e retirei os óculos de sol, encaixando-o na gola de minha camiseta. Voltando a encarar parte do prédio a minha frente, imaginei o que minha mãe pensaria da visita inesperada, visto que eu não estava em boas condições para a filha dos donos, e que ela detestava ser interrompida em local de trabalho, que tratava como templo. Eu tinha orgulho disso, Daiana não odiava interrupções porque não gostava de companhia, ela odiava interrupções porque um segundo poderia ser o suficiente para salvar uma vida, e ela aproveitava seu tempo como se corresse contra ele até mesmo enquanto dormia.

Conforme caminhava até a entrada, toda a imponente estrutura parecia prestes a me engolir. Li brevemente o letreiro, onde o nome "Hospital Stella Santiago" estava gravado em um tom esverdeado, cada letra podendo ser maior do que um adulto. As portas automáticas se abriram, e sem nem cumprimentar devidamente cada segurança conhecido, eu entrei, sentindo-me no paraíso. Estava fresco, mas a sensação de alívio não durou por tanto tempo, aquela parte do hospital estava lotada como eu nunca havia visto, e os estudantes misturavam-se com pacientes, devido à parte educativa, que continuaria funcionando até mesmo em um terremoto.

— Os pacientes são o foco de tudo o que fazemos aqui — Ouvi a voz de um dos médicos, enquanto o mesmo guiava um grupo de residentes de diversas nacionalidades, que mais pareciam crianças pela primeira vez em um dos parques da Disney. Eu os entendia perfeitamente, uma vaga em qualquer um dos hospitais de minha família era como ganhar na loteria, só que em uma situação ainda mais disputada pelos alunos da área da saúde. — Diariamente, avançamos no atendimento ao paciente, educação e pesquisa, por isso somos conhecidos e premiados pela revolução da medicina moderna. É uma honra para cada um de vocês terem sido selecionados entre tantos, então aproveitem essa oportunidade, ela pode ir embora à mesma velocidade em que chegou. Aqui, além da responsabilidade de médicos formados em busca de uma especialização, vocês irão instruir internos e...

Continuei meu caminho, deixando para trás a explicação que um dia ainda ouviria, se fosse boa o suficiente para trabalhar para eles.

Os corredores da área filantrópica — que recebia doações mensais de todos os cantos do mundo — estavam tão cheios que era quase impossível passar entre as pessoas sem esbarrar em ninguém. Era desconfortável, conforme eu andava, podia sentir o peso do olhar de cada funcionário sobre mim, como se meus coturnos deixassem rastros de lama por onde eu passava, ou minhas calças fossem transparentes.

Passei as mãos pelas ondulações acobreadas que escapavam de meu coque e tentei estabilizar minha respiração, que permanecia desregulada após a longa caminhada. Ousei sorrir para os pacientes que aguardavam atendimento. Eu não os conhecia, mas simpatia sempre fora algo que eu tinha costume de doar. Ainda não era médica, e nem sabia se conseguiria chegar lá, mas gentileza nunca havia matado, muito pelo contrário... Gentileza poderia salvar vidas.

Quando parei em frente aos elevadores que já havia usado tantas vezes, puxei mais uma vez o ar, como se fosse gritar. Entre as duas caixas, um pilar perfeitamente pintado de branco — como quase todo o hospital — carregava um largo quadro eletrônico que revezava informações sobre cirurgias, exames e mapas, onde, comumente, o nome dos meus pais aparecia. Aquele não era o único quadro do hospital, existiam outros, mas era onde, na maioria das vezes, eu decidia para onde deveria ir.

SALA 07 — CENTRO CIRÚRGICO 01 — PACIENTE JENNA GRAYSON — CRANIECTOMIA DESCOMPRESSIVA — CIRURGIÃ NEUROLÓGICA DAIANA SANTIAGO.

Minha mãe estava realizando uma cirurgia, e certamente levaria horas nisso, já que o mesmo quadro indicava que o procedimento havia começado há pouco tempo. Por sorte, o nome de meu pai, Leon Vega, não estava ali, provavelmente ele estava em uma reunião ou em um dos escritórios, mantendo tudo em ordem — ele também era dono da Rede de Hospitais e, ao lado da esposa, o chefe do Hospital Sede, em Nova Iorque.

Entrei no elevador sem hesitar e, olhando rapidamente o painel, apertei no botão que me levaria até o escritório de meu pai. Eu não tinha certeza de que ele estaria lá, e se ele realmente não estivesse, eu teria que contar com a sorte para achá-lo, algo que não estava me ajudando muito naquele dia. Mordi minha boca por puro nervosismo, me arrependendo no mesmo segundo. Minha pele estava repleta de machucados, pequenos rasgos provocados pela ansiedade que me fazia arrancar o que pudesse de meus lábios, usando os dentes ou as unhas.

Tanta ansiedade só havia contribuído para um currículo grande demais para apenas dezoito anos de idade. Meus pais haviam me colocado em aulas de diversos esportes, instrumentos musicais, etiqueta e línguas nas quais eu comprava filmes de seus respectivos países apenas para conversar com a televisão quando estava entediada. Problemas que outras pessoas desejavam ter, eu tinha consciência.

Assim que as portas se abriram novamente, desligando-me de meus pensamentos, saí do elevador, encarando o terceiro andar, mais calmo do que o esperado, mas não menos cheio. Alguns residentes separavam tarefas para seus internos, enfermeiros empurravam seus pacientes em cadeiras de rodas ou davam instruções para sua equipe, e acompanhantes pediam informações sobre onde o banheiro, a cantina ou os leitos de seus familiares ficavam. De certa forma, eu havia ficado surpresa com a pequena confusão que começava a se formar diante de meus olhos. Meus pais eram sempre organizados, como se fossem responsáveis pela criação do paraíso. Mas era certo; se o paraíso realmente existisse, era provável que tivesse sido construído por algum Santiago.

Virei um dos corredores e caminhei rapidamente até o escritório, não tendo tempo de bater na porta. Lá de dentro, saiu meu tio, Damian Santiago, irmão mais novo de minha mãe, com sua familiar carranca e nariz empinado. Ele me viu e sorriu, mas não foi um sorriso amigável, foi um sorriso fino e incisivo, exatamente igual à lâmina de um bisturi. Eu sorriria daquele jeito para alguém que maltratasse meus animais de estimação.

— Bom dia... — murmurei, encarando o homem de cabelos ruivos que se afastava rapidamente, indo em direção ao mesmo elevador do qual eu havia saído.

— Cherry? — Ouvi de dentro da sala. Papai estava chamando-me pelo apelido de infância, o que me fez sorrir e agradecer por não estar encrencada em atrapalhá-lo no trabalho.

— Oi, pai — Empurrei a porta, deparando-me com Leon atrás de sua mesa. O computador estava ligado, dezenas de papéis estavam espalhados pela grande mesa de vidro, e o homem mantinha um sorriso no rosto, mesmo com olheiras cobrindo-lhe os olhos verdes. Pisquei algumas vezes, a sala era tão iluminada que quase me cegava.

— Algum problema? — perguntou, erguendo-se da cadeira executiva, prestativo como sempre fora. Aos meus olhos, aquela cadeira parecia ser mais confortável do que a cama de muitas pessoas.

— Eu ia perguntar exatamente isso — Fechei a porta, olhando ao redor. Mesmo conhecendo cada cômodo do hospital, eu sempre gostava de olhar para as estantes do escritório de meu pai, onde fotografias minhas, de meus irmãos e principalmente de minha mãe, estavam moldadas em lindos porta-retratos. — A portaria está um caos, o primeiro andar parece um pandemônio. O resto do hospital está assim também...?

— Ah, não — Leon suspirou. — Aconteceu um acidente na ponte, mandaram todos para cá. Nossos leitos públicos já estavam ocupados pelo incêndio de ontem no orfanato, não tivemos tempo de transferir todos os pacientes para a nossa Unidade de Queimados no Queens, a daqui está em reforma.

— Acidente na ponte? — Ergui as sobrancelhas, um tanto preocupada.

— A batida de um ônibus desencadeou outras — explicou. — Fique tranquila, nossos médicos já estão cuidando disso.

Assenti. É claro que estavam, eu nunca havia visto, nem em filmes, uma equipe tão eficiente quanto a deles.

— O Daniel não está na cidade? Ele podia cuidar da organização do hospital enquanto você ajuda nas cirurgias...

Daniel era meu irmão mais velho, tinha vinte e nove anos e era bastante profissional quando estava vestindo um terno e gravata, contudo, uma das melhores pessoas para se conversar e contar piadas, por menos tempo que eu passasse com ele, graças às suas viagens profissionais e minha faculdade.

— Não, seu irmão está em reunião com alguns empresários — respondeu. — Temos médicos o suficiente nas cirurgias, felizmente a maioria dos acidentados não sofreu graves concussões. Não que você possa saber disso, é confidencial — Ele piscou e eu sorri, assentindo. — Mas não é para isso que está aqui, é? Que eu saiba, ainda faltam alguns anos para você se formar e vir trabalhar comigo... Eu posso estar velho, mas não tanto.

Meu pai gostava de referir a ele mesmo como velho, como se suas vértebras estivessem totalmente danificadas e ele usasse muletas de apoio. Mas a verdade era que seus cabelos continuavam levemente loiros, sem tintura, e a pele possuía poucas rugas, as marcas mais evidentes eram de olheiras pela falta de sono. De resto, ele daria um ótimo modelo ou ator de cinema, coisa que minha mãe adorava evidenciar.

— Concluí a primeira parte da faculdade, passei em todas as matérias, nada pendente — contei. Quando eu entrara para a faculdade, havia ido ao seu escritório também, para dar a notícia, e ele havia agido exatamente da mesma forma, me puxando para um abraço apertado e cheio de orgulho.

— Parabéns, querida — Seus lábios rasgaram-se em um sorriso largo. — Você está feliz?

— Estou — confirmei. — E eu tenho outra notícia.

Ele me olhou, estreitando involuntariamente os olhos.

— Mamãe me autorizou a comprar uma segunda motocicleta. Mas vou continuar com Ártemis, mesmo assim.

Se meu pai já estava sorrindo, após me ouvir, pareceu explodir de felicidade. Ele colecionava motocicletas desde quando eu me entendia por gente, e tinha modelos tão cobiçados que já haviam o oferecido milhões, mas ele nunca abria mão de nenhuma das relíquias. Eu havia encontrado Ártemis em um ferro velho, seu antigo dono havia se acidentado e a largado lá, para enferrujar. Fora meu pai que havia me ajudado a restaurá-la, junto a um mecânico de confiança, mas ela nunca ficou realmente inteira.

— Quando você vai?

— Eu não sei — respondi. — Queria que me ajudasse a escolher.

Leon sorriu.

— Vai ser uma honra — ele disse. — Sua mãe vai nos matar.

Mordi a parte interna de minha bochecha, repentinamente nervosa. Apesar de todas as boas notícias, Ártemis continuava sem funcionar, no estacionamento do hospital, e eu detestava ter que pedir novamente dinheiro ao meu pai para consertá-la, por mais que ele nadasse em uma piscina de dólares e propriedades. Gostaria de ser mais como James, meu irmão gêmeo, ou Alina, minha irmã mais nova, que tinham como natural usar nossos pais feito banco.

— É... E minha moto parou na Quinta Avenida.

— E você a deixou onde?

— Eu a trouxe até aqui.

Isso, definitivamente, o havia deixado surpreso.

— Trezentos quilos até aqui?

— Empurrando — Suspirei. — Eu não estou com minha carteira para chamar um táxi, e não queria deixar ela lá, sozinha. A bateria de meu celular morreu e eu não consegui ligar para ninguém.

Ele imediatamente retirou a carteira do bolso, abrindo-a e entregando-me uma quantia que eu nem me preocupei em checar.

— Caso precise de algo no caminho — ele explicou, enquanto eu pegava as notas. — Use meu telefone para ligar para casa, peça para te buscarem aqui. Eu levo a moto na caminhonete, prometo tomar cuidado — disse, olhando rapidamente o relógio. — Querida, eu preciso ir, se cuide. Avise se receber notícias de James, não o vejo há dias — E beijou minha testa, passando por mim e fechando a porta do escritório.

Como de costume, encarei sua estante, e meu olhar foi guiado para uma foto em especial, onde todos estavam reunidos. Algo que eu não via há um bom tempo.

Minha mãe olhava para a câmera. Ela tinha os cabelos ruivos e cheios como os meus, e o sorriso grande havia passado para quase todos os seus filhos, como se tivessem apenas batido uma cópia e transmitido para as cinco pessoas que ela gerara. Meu pai a abraçava lateralmente, e Daniel, na época da foto com cabelos longos e bagunçados, provavelmente havia acabado de contar uma piada ruim, porque ao seu lado, Alina, minha irmã de catorze anos, parecia prestes a ir ao dentista; as mechas loiras estavam presas em dois coques altos e sua expressão era séria, inconformada demais para ser simpática. Enrique, o único de cabelos castanhos e pele negra, não estava sorrindo, mas sua expressão era tão serena que apenas olhá-lo, me deixava feliz. Jared, o segundo mais velho, sorria sem mostrar os dentes, isso porque ele nunca fora muito fã de fotografias. James e eu estávamos lado a lado, eu havia nascido um dia após ele, e desde o nascimento éramos colocados como inseparáveis, mas conforme o tempo foi passando, nossos caminhos tornaram-se mais diferentes do que eu desejava. Eu sorria na imagem, adorava fotos em família e aquela havia sido a última que tiramos por espontaneidade, já James, bem, ele já havia começado a se afastar.

E um dos meus maiores medos era não conseguir trazê-lo de volta.

Ignorei brevemente o porta-retratos e encarei o telefone na mesa de meu pai. Eu precisava fazer uma ligação, e não era para o nosso motorista.

Notas finais
E aí? O que acharam? Nos vemos no próximo capítulo. Lembrando que teremos atualizações diárias por aqui. Beijos Chequem meu instagram para mais novidades @autoralaura