Belas Criaturas — Império Santiago I
3 Dois - O apartamento no Bronx
Notas iniciais
Althea
Eu nunca havia sido fã de dirigir carros. Não sei se isso estava relacionado ao meu amor pela liberdade que motocicletas proporcionavam, ou se eu simplesmente não tinha boas lembranças sobre quatro rodas. É claro, eu dirigia quando precisava. Havia resgatado animais e todos eles precisavam de cuidados e frequentes idas ao veterinário, o que só poderia ser feito em um automóvel grande e confortável, mesmo assim, eu tentava evitar. Nunca tive muita noção de espaço, sentia um constante medo de atropelar alguém e não gostava das experiências que havia guardado desde que tirara a carteira de motorista; pessoas mal-educadas no trânsito e a minha falta de praticidade no volante que acabara resultando em uma quantidade considerável de multas. Não que pagá-las fosse um problema, mas eu nunca havia tido nem mesmo o boletim da escola com notas vermelhas, e não estava a fim de perder minha carteira.
Mesmo com tudo isso, ainda havia um motivo maior para eu não gostar de carros: eu sempre era obrigada a buscar James em um.
E sempre era obrigada a levar um dos seguranças de minha família comigo.
— Avisou seus pais? — Frederich perguntou, enquanto eu dirigia. Havia insistido para dirigir, eu sabia o caminho melhor do que qualquer um, e não estava confortável para servir de GPS.
Neguei. Atrapalhar meus pais no trabalho estava fora de cogitação.
— Vai avisar?
Balancei os ombros. Provavelmente não.
O rapaz, alguns anos mais velho do que eu, soltou um longo suspiro, desistindo momentaneamente de conversar. Pelo canto dos olhos, observei rapidamente que ele balançava a perna rapidamente, provavelmente ansioso pelo o que veríamos.
Por conta do trânsito, eu havia demorado cerca de quinze minutos a mais que o habitual, para ir de Manhattan ao núcleo do Bronx, o distrito vizinho ao meu. A visão não era tão agradável, mas eu já havia estado ali outras vezes e já me acostumara com a precariedade do local, mesmo ele parecendo prestes a abrigar um apocalipse zumbi. Não que Manhattan fosse segura, era um dos locais mais perigosos da região, mas conforme eu adentrava as ruas e avenidas do berço do rap e hip hop, onde mais de setenta e cinco línguas eram diariamente faladas, meu estômago parecia querer saltar de mim. Eu sabia que toda aquela insegurança, além de preconceito, era por ter sido criada cercada de cuidados e mimos, e estar longe disso, prestes a ir a um ponto de drogas sem saber o que me aguardava, fazia com que eu me sentisse dependente de minha família, por mais que eu odiasse admitir.
Estacionar o carro chamou a atenção de algumas pessoas, e eu repudiei a mim mesma por temer ser assaltada. Era nojento e egoísta pensar daquela forma sobre todos os desconhecidos que me olhavam de cima a baixo. Não poderia culpá-los, minhas roupas eram comuns, mas o carro no qual eu havia chegado e o jeito que me comportava não eram. Eu parecia uma boneca de porcelana prestes a quebrar, e torcia para que não me reconhecessem, embora fosse difícil com um segurança me escoltando. Parei de temer o assalto, e passei a temer as manchetes dos jornais.
O prédio que eu encarava era antigo, e talvez tal aspecto fosse o mais chamativo por conta da falta de tintura no cimento. Fiquei aliviada ao notar que não havia ninguém nas escadas externas de emergência, e eu poderia subir até o terceiro andar sem interrupção, coisa que não aconteceria se eu tivesse que passar pelas portas de entrada e encontrar com o porteiro, um homem barbudo e careca que parecia adorar infernizar a vida de qualquer estranho que cruzasse seu caminho.
Olhei para Frederich, e ele também me encarou, hesitante.
— Me deixe ir sozinha, por favor — pedi. — Eu juro que grito, que faço qualquer barulho caso algo aconteça, mas preciso fazer isso sozinha, é pessoal demais.
Ele suspirou, sabia que o pediria isso.
— Ficarei fora do carro — avisou, e por mais que aquilo não me agradasse, nosso trato estava feito. Assenti, e abri a porta do carro, saindo.
Enfiei as mãos nos bolsos como se tal gesto me tornasse invisível, e caminhei rapidamente até os primeiros degraus de ferro, que rangeram quando meu peso foi colocado sobre eles, por mais leve que eu fosse. Assim que cheguei à janela conhecida, não hesitei antes de dar pequenas batidas no vidro, esperando ser ouvida.
Shelley, a dona do apartamento, não demorou a aparecer. Ela já tinha por volta de quarenta anos, mas usava roupas que a deixavam cerca de dez anos mais nova. Naquele dia, o piercing em seu umbigo estava à mostra, assim como a longa tatuagem em sua coxa, por conta dos shorts curtos que usava. Ela era linda. Tinha a pele bronzeada, olhos e cabelos escuros como os de uma índia, e para mim, a única coisa que aparentemente entregava seu vício, eram os dentes amarelados quando raramente ela sorria, manchados por nicotina.
— Oi, Shelley... — a cumprimentei. — Tentei te ligar, mas você não atendeu...
Ela não respondeu de imediato, apenas tragou mais uma vez o cigarro que tinha entre os dedos e abriu o resto da janela, para que eu pudesse entrar. Seu apartamento cheirava a álcool, tabaco e hortelã, uma mistura que já não me deixava enjoada há um tempo. Eu havia me acostumado.
— Ele está no quarto — ela disse, indicando o corredor que eu já conhecia. — É a última vez que eu o tiro da rua.
Eu sabia que não seria a última vez, Shelley era boa demais para deixar meu irmão apodrecendo em uma calçada, debaixo do céu cinza de Nova Iorque. Suspirei, olhando para minhas mãos, como se minhas unhas roídas fossem a minha parte mais interessante. Eu já não sabia mais o que falar ou fazer, não tinha ideia se deveria agradecê-la por seus cuidados e abrigo, ou se deveria prometer em vão que aquilo não iria mais se repetir, a única coisa que passava pela minha mente era em que situação eu encontraria meu irmão gêmeo, e como Frederich e eu o levaríamos para casa sem que ele se tornasse agressivo durante o trajeto.
Apenas assenti, e quando estava prestes a ir até o quarto de Shelley, ela me interrompeu.
— Sinto muito por isso tudo, Althea — confessou, carregada de sinceridade e empatia como eu nunca a havia visto. — Você é nova demais, não deveria estar passando por essa situação. Mas não posso ser a babá do James, se alguém o ver por aqui, eu quem vou acabar me prejudicando, vocês têm dinheiro e influência por aí, eu só tenho meu apartamento.
Shelley já havia feito mais do que o suficiente. Não era sua obrigação ajudar minha família, James e eu éramos os únicos que a conheciam de verdade, e mesmo assim ela havia o acolhido sem aceitar nada em troca, embora precisasse de ajuda financeira. Eu entendia o porquê de tanta relutância; a maioria das pessoas que precisavam de ajuda, não a aceitavam facilmente.
Assim que abri a porta do quarto, foi como ver o mesmo filme várias vezes. O cômodo estava fechado e cheirava a naftalina, a pequena televisão estava ligada em volume baixo, e meu irmão estava deitado na cama de casal, ocupando todo o colchão em altura, com os pés para fora da cama. Precisei adentrar o lugar para ver seu rosto iluminado pela luz da televisão e do corredor, e só com isso, já consegui enxergar o quanto sua mandíbula estava marcada, por conta do emagrecimento contínuo. Meu irmão estava doente, e a única coisa que eu conseguia fazer quanto a isso era colocá-lo no carro e levá-lo para casa.
Toda a vontade de chorar que eu sentia em ver James daquele jeito era substituída pelo choque e sensação de impotência.
Ele não demorou a acordar, nem precisei chamá-lo, e arfei em agradecimento por ele não estar agressivo ou a fim de dificultar meu trabalho. Eu era cerca de trinta centímetros menor do que ele, e não fazia ideia do quanto ele estava pesando naquela situação, sem contar as inúmeras variedades de luta que ele treinara durante anos antes da dependência começar. Ele me colocaria no chão em segundos, se quisesse.
— Por que está aqui? — murmurou, cansado. Sua pele estava fria e pegajosa, além dos dedos trêmulos que apertavam meus braços, buscando por equilíbrio.
— Porque você precisa que eu esteja — respondi, caminhando até a porta do quarto. Era uma frase automática, que eu costumava falar sempre que ele fazia a mesma pergunta. Ele não retrucou como eu imaginava que faria, apenas se manteve firme e aceitou até a ajuda de Shelley, que nos aguardava na sala.
Por mais que eu soubesse que não adiantaria, ela nos fez colocar bonés que tinha em seu apartamento, para ajudar caso alguém nos fotografasse naquele estado. Descer as escadas foi mais difícil do que subir. Se os degraus já rangiam apenas com meu peso, com James junto, parecia que a qualquer momento partiriam sob nossos pés.
Frederich correu em nossa direção assim que chegamos em sua visão, e Shelley nos ajudou a colocá-lo no carro, sob os olhares curiosos das pessoas presentes na rua. Todos já deviam tê-lo visto, mas era raro eu ir buscá-lo em plena luz do dia.
— Fiquei feliz em ver você, por mais que a situação não seja das melhores — Shelley admitiu, jogando a bituca de cigarro no chão e pisando em cima, com a sandália prateada que usava. — Geralmente, quem vem buscá-lo é aquele garoto arrogante de cabelo cacheado.
Ergui as sobrancelhas, não consegui pensar em ninguém mais interessado no bem-estar de James além de minha família, mas antes que pudesse questionar seu comentário, o peso de meu irmão aumentou, e vi que ele poderia desmaiar a qualquer momento. Foi Frederich quem abriu as portas traseiras da caminhonete, e eu quem o prendeu no cinto de segurança. Assim que sentei novamente no banco do motorista, liguei o carro e abri as janelas, para que pudesse vê-la antes de ir.
— Você tem meu número de telefone — eu disse. — Se precisar de alguma coisa, qualquer coisa...
Ela riu, sem humor.
— Eu estou bem, garota — E tirou as mechas de cabelo de seu rosto, colocando-as atrás de sua orelha repleta de piercings. Logo, enfiou a mão no bolso do shorts e retirou de lá um maço de cigarro aparentemente lacrado. — Você que ainda vai precisar de mim, só espero que não seja tão cedo. É bom ver você, você é querida, mas só nos vemos quando seu irmão está no fundo do poço, e por mais que não pareça... me preocupo com a saúde dele.
Aquilo me chocou um pouco, apesar de ter me causado certo alívio.
— Obrigada, Shelley.
Ela sorriu sem mostrar os dentes, e saiu antes que eu voltasse a dirigir. Encarei Frederich rapidamente, e como se lesse meus pensamentos, ele não fez nenhuma pergunta.
☼
O alívio voltou verdadeiramente quando os portões da mansão foram abertos para que entrássemos. Atrás das estruturas de ferro, estava Vincent, irmão de Frederich e outro segurança de minha família. Ele já sabia o que estava acontecendo, pois não nos recebeu com sorrisos simpáticos ou perguntas sobre meu dia, e nem reclamou por eu ter saído com seu irmão, e não com ele. O fim da tarde já se aproximava, o que fazia com que o número de seguranças vigiando nosso terreno parecesse maior, mas nenhum deles ousou me dirigir a palavra, sem que eu o fizesse.
— Boa noite — eu disse ao rapaz que havia visto primeiro, assim que saí do carro. Vincent acenou rapidamente, e Frederich abriu a porta, me acompanhando.
— Devo ligar para a dona Daiana ou para o seu Leon, senhorita Santiago? — Vincent perguntou, olhando de relance para o banco traseiro do carro, onde meu irmão estava parado, como uma estátua.
— Não, não chame meus pais — pedi. — Creio que ele só esteja cansado, precisa tomar banho e dormir.
— Senhorita Santiago, não é melhor levá-lo para uma avaliação médica? — Vincent insistiu. Ele mal falava, e o tom de sua voz era preocupante, mas expor James só pioraria sua situação, eu sabia disso.
— Não, só o levem para dentro — instruí. Um dos motoristas se aproximou, e entreguei imediatamente as chaves para que ele estacionasse o carro em seu devido lugar.
Subi as escadas e fui rumo ao hall de entrada. As portas foram abertas como se já nos esperassem, e entrei sem cerimônias, esperando não encontrar mais ninguém. Infelizmente, meu irmão mais novo estava lá, e eu pude sentir toda a angústia que passou por seu rosto ao nos ver chegar, literalmente carregando James.
— Ele está bem? — Enrique perguntou. Seu rosto assumira um tom tão pálido que me assustei. Seus lábios, sempre em um tom vermelho amarronzado, combinando perfeitamente com a pele negra, pareciam ter se apagado, como se passassem uma borracha na obra de arte que ele era. Ele estava opaco.
— Sim, só vou levá-lo para tomar banho, você pode chamar mais alguém para nos ajudar?
— Não, eu faço isso — ele disse, largando o caderno que tinha em mãos, no aparador mais próximo. Provavelmente estava desenhando, era um artista, e eu odiava ter que deixá-lo triste daquele jeito. Enrique me dissera uma vez que a arte é o acúmulo de sentimentos bons e ruins, expressados da forma mais sincera. Apenas com dezesseis anos, ele parecia estar acumulando apenas a parte ruim, embora sempre fosse o mais animado da casa.
— Eu posso ajudar — Frederich se ofereceu. — Eu sei que não fui treinado para dar banhos, mas meu turno já está acabando e James precisa de ajuda. Ou posso chamar alguém mais qualificado, se vocês quiserem privacidade...
— Não vai ser preciso — Olhei novamente para meu irmão. — A gente consegue dar um jeito, chamamos se precisarmos de ajuda. Levem-no para o banheiro da sala, é perigoso subir as escadas com ele desse jeito.
Eu não gostava quando minha voz soava feito uma ordem, mas os contratados pelos meus pais seguiam à risca o que eu dizia, mesmo que em um bocejo. Frederich e Vincent levaram James para o banheiro que eu havia indicado, no térreo da mansão, e Enrique e eu fomos atrás. Provavelmente, todos os empregados já estavam sabendo do acontecido, porque Elena, sobrinha de nossa cozinheira e uma das faxineiras do lugar, nos acompanhou e se ofereceu para buscar toalhas e roupas limpas, e após Enrique permitir que ela fizesse aquilo, ela não demorou muito para voltar.
James relutou em deixar que tirássemos sua camiseta e calça, mas logo cedeu, entretanto, preferi não retirar sua roupa íntima, preservando o máximo de privacidade que eu pudesse. Ele não estava totalmente lúcido, contudo, eu não gostaria que se sentisse violado ou envergonhado quando recuperasse a consciência. Os seguranças já haviam saído do banheiro, mas Vincent permanecia do lado de fora, então foi Enrique, mais alto e forte do que eu, quem o ergueu e fez o maior esforço em levá-lo para baixo do chuveiro.
Não foi tão fácil quanto eu achei que seria. Em poucos minutos, nós três já estávamos encharcados, e eu sofria com a água fria contra minha pele, embora tentasse não demonstrar, já que meus dois irmãos pareciam um tanto piores. Enrique parecia prestes a chorar, e James já nos empurrava fortemente e buscava por algo que o fizesse parar de tremer. Eu não sabia se os tremores eram causados apenas pelo frio e ele queria uma toalha para se cobrir, ou se a intensidade de sua dependência química estava aumentando e ele precisava de mais drogas.
Enrique pareceu ler meus pensamentos.
— Acha que isso é abstinência? — Engoliu em seco, parecendo apavorado. Era raro eu ver seus olhos castanhos sem brilho algum.
— Não sei — respondi. Eu queria não saber.
— Acha que ele está usando algo mais forte?
Não respondi. Eu realmente queria não saber.
☼
James finalmente adormeceu, e quando toda a minha família já estava em casa, felizmente não precisei dar explicações maiores. Eles já sabiam o que os aguardavam e meus pais foram direto para o quarto de meu irmão gêmeo.
Nossa rotina resumia-se a isso. Leon e Daiana faziam plantões exaustivos no hospital, James passava dias foras de casa, Enrique ficava horas no atelier de pintura, meus outros três irmãos tinham vidas de celebridades, e eu tentava me manter sã, na medida do possível, em meio a todo o furacão que minha família havia se tornado.
Na nossa sala de estar, a primeira que as pessoas encontravam quando não subiam as escadas, e sim iam direto pelo hall de entrada, havia uma estante com porta-retratos, semelhante à do escritório de meu pai no hospital. Assim como a de seu escritório, eu também poderia passar horas encarando as fotografias da sala de minha casa, mas durava pouco tempo e logo a realidade me puxava de volta, na maioria das vezes por funcionários da mansão me pedindo orientações e oferecendo ajuda.
Soltei uma bufada de ar e caminhei até meu quarto, onde Krypto, meu cachorro, me esperava ansioso. Acariciei os pelos brancos assim que ele se aproximou, e em seguida, fui até o celular que vibrava conectado na tomada.
Desbloqueei a tela em pouco tempo, eram mensagens de Dominique, sobrinha de minha mãe e, consequentemente, minha prima. Os torpedos vinham acompanhados de fotos recentes, e eu tremi ao observar imagens minhas e de James na escada do prédio de Shelley.
"O que diabos é isso? Ele continua querendo se matar?" Ela dizia, e eu podia imaginar a gravidade de sua voz em meus ouvidos, se me esforçasse o bastante.
"Você precisa parar de bancar a socorrista dele, ele não é mais criança, você precisa viver a sua vida! Agora a sua imagem está manchada também. De novo."
Antes que eu pudesse terminar de ler, ela já estava digitando novamente, e foi com dificuldade que não bloqueei a tela de meu telefone e ignorei suas próximas frases. Estava exausta demais para isso, mas mesmo assim li o que ela tinha a dizer, por mais previsível que fosse.
"Passarei aí amanhã às 20h00min, vamos sair do ninho."
Fale com o autor