Belas Criaturas — Império Santiago I
1 Prólogo - Caçadora de Conchas
Notas iniciais
Império Santiago está de volta, como uma série de livros, e não como uma duologia, que eu planejava escrever a princípio. O motivo para isso é que, em uma duologia, eu não conseguiria mostrar para vocês todas as cenas que havia planejado, e a história ficaria corrida e com alguns furos, coisa que eu detesto ver em livros. Agora, vocês acompanharão separadamente a história dos irmãos Santiago, e saberão detalhes de suas vidas que não conheceriam caso eu continuasse com o mesmo planejamento. Espero que entendam, alguns acontecimentos que vocês leram anteriormente, não estarão presentes nessa primeira história, e sim nas outras, mas tudo o que estou fazendo é pensando no bem dos personagens, e na compreensão maior dos leitores ao, como eu espero, iniciarem essa nova leitura.
Os Santiago existem como família para mim, desde 2014, e como personagens individuais, desde 2011, e é de uma responsabilidade enorme retratá-los do jeito mais fiel possível, meu sonho atual é que vocês gostem do que estou fazendo.
Bem vindos de volta, tenham uma ótima leitura, eu estarei aqui para o que precisarem.
E aos meus novos leitores, é um prazer recebê-los aqui.
Um grande abraço,
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Althea
Uma de minhas lembranças favoritas estava em minha infância, talvez por ser a fase mais inocente na vida de uma pessoa, e boas lembranças apreciarem a inocência de um modo que jamais entenderemos.
Eu era uma criança um tanto levada. Naquela tarde, estava na média dos oito anos de idade, coberta por barro até a raiz dos cabelos, enquanto minha avó gritava desesperada pelos campos de morango de sua propriedade, procurando-me para que eu fosse tomar café da tarde. Claro, eu não dispensava um café com as trufas e bolos que somente Margareth Santiago, mãe de minha mãe, sabia fazer, mas também adorava ficar brincando com os animais de seu rancho, e isso para mim podia ser até mais importante que o bolo de chocolate ou torta de maçã que ela preparava especialmente para mim.
Lembro-me de ter bufado longamente e encarado demoradamente os morangos que havia apanhado. Meus avós os plantavam para que vó Mags, como a chamávamos, fizesse seus doces caseiros, mas aqueles ainda não estavam maduros. Não que aquilo importasse para mim, ir para seu rancho e não apanhar morangos era como ir à praia e não caçar conchas. Eu adorava a terra e a grama, também adorava o mar e suas preciosidades, e era quase uma ofensa não aproveitar cada coisa que a natureza fosse capaz de oferecer.
Infelizmente, as outras pessoas de minha família materna não entendiam muito bem isso. Eu realmente havia puxado ao meu pai quanto às encrencas em que me metia, e para minha avó, ficar em meio ao mato, comendo morangos sem lavá-los e sujeita a todo tipo de picadas de insetos aos quais eu claramente tinha alergia, era o maior dos perigos existentes.
Margareth culpava o meu pai, seu genro, por cada arranhão que eu sofresse, alegando que ele havia me envenenado e que eu acabaria doente caso continuasse daquele jeito, sendo apenas uma criança. Meu pai ria, minha mãe ficava chateada, e eu continuava brincando livremente, até que alguém fosse me buscar.
Contudo, a verdade era que minha avó apenas gostava de contrariar meu pai em suas decisões quanto a minha criação, porque quando ele não estava presente, ela me deixava brincar até com os porcos e abraçar as galinhas como se fossem gatinhos de estimação, o que para mim, realmente eram.
— Althea Santiago Vega. Se você não aparecer agora, Daniel comerá todo o seu bolo e eu não farei outro — A voz de minha avó soou ameaçadora como a de uma personagem de novela. Ela aparentava ser minha mãe naquela época, até o timbre vocal era parecido, mas isso não fazia com que o espírito de avó gentil e controladora dos filmes e seriados de televisão desaparecesse. — Eu sei que você está me ouvindo.
E eu estava, é claro que estava, mas amava me esconder para que, quando ela me achasse, me enchesse de beijos e abraços, como sempre acontecia. Quando Margareth finalmente me encontrou, logo me pegou no colo, ignorando toda a sujeira de meu corpo que grudava em suas roupas limpas e claras, e me levou para o casarão do rancho, onde passei a tarde inteira conversando com os empregados e saboreando cada comida que via pela frente, para tomar banho apenas no fim do dia, quando meus pais me buscariam em um jatinho, que eu costumava fingir ser uma nave, sem noção alguma da quantidade de dinheiro que já tínhamos naquele tempo.
Minha avó sempre fora muito prestativa com meus irmãos e comigo, e toda vez que íamos visitá-la nos fins de semana possíveis ou feriados prolongados, gostávamos de aproveitar cada segundo. Ao contrário de seus outros netos, que nunca pareceram gostar muito de serem tratados como crianças.
Mas éramos crianças, e naquela época, "seis" já era o nosso número, a quantidade de filhos que meus pais haviam tido. E eu adorava a companhia de cada um.
Daniel era o primogênito. Onze anos mais velho do que eu, e como a maioria dos meus irmãos, tinha os cabelos loiros e olhos claros, exatamente como nosso pai. Ele era o que mais se parecia com Leon, já que todos os outros tinham traços faciais mais semelhantes à minha mãe, Daiana, apesar de não terem seus cabelos ruivos, como eu tinha.
Jared viera seis anos após o nascimento de Daniel. Bastante reservado, ele fora a pessoa que mais me incentivara a ler. Meu irmão tinha coleções de livros incríveis e, quando éramos mais novos, eu sempre pedia para que ele me contasse mais sobre suas histórias favoritas, que sempre incluíam magia e a busca pela paz mundial. Jer, como nós o chamávamos, também havia sido quem me ensinara como os jogos de tabuleiro funcionavam e podiam ser divertidos, e eu devia toda essa minha paixão a ele.
James e eu nascemos no Outono de 1996, sendo gêmeos bivitelinos. Nosso nascimento havia sido algo especial; as contrações de minha mãe começaram em uma tarde de setembro, e como éramos de bolsas diferentes, apenas James saiu, enquanto eu, calma desde sempre, esperei um dia inteiro para começar a chutar. Minha mãe não sofrera com a espera, ela havia ficado em observação em seu próprio hospital e proibido qualquer um de fazer uma cesárea sem necessidade para que eu nascesse. Mas não demorou muito, logo apareci, saudável e deixando um furo no calendário, entre o meu aniversário e o aniversário de meu irmão gêmeo.
Pelo menos tínhamos duas tortas para comemorar quando ficávamos mais velhos, embora com o passar do tempo eu parasse de ligar tanto para isso.
Enrique era outro caso especial, e havia se tornado um dos motivos pelos quais eu mais me orgulhava de meus pais. Ele também havia sido parte de uma gravidez gemelar, onde infelizmente, sua irmã e mãe — uma adolescente, fraca e sozinha demais para suportar todas as complicações de um parto — faleceram, deixando o menino por meses na UTI Neonatal. O casal que o adotaria acabou desistindo de acolhê-lo conforme a esperança de Enrique melhorar morria.
Minha mãe ficou fora de si quando soube da desistência, e mesmo eu tendo apenas dois anos de idade na época e não me lembrando de absolutamente nada do processo, as histórias sobre aquela fase sempre me rondavam. Meus pais aceitaram prontamente usar toda sua influência e lutar pela adoção de Enrique, mesmo já tendo outros quatro filhos, e tudo felizmente se resolveu. Meu irmão saiu do hospital após três meses respirando com auxílio de ventiladores, tendo complicações e passando por diversos exames e cirurgias invasivas, para no futuro, se tornar um dos artistas mais habilidosos que eu conhecia.
Minha mãe havia engravidado dois anos depois de conseguir a guarda de Enrique, e todos haviam pulado de felicidade, já que até então, eu era a única menina da família. Alina nasceu com quatro quilos e cinquenta e dois centímetros, e apesar disso, foi um parto rápido e sem dificuldade alguma. Mesmo bebê, o cabelo louro da família de meu pai era perceptível nela, e os olhos logo também se mostraram claros, como os de todos meus irmãos biológicos.
A família estava completa, e aproveitávamos o tempo juntos sempre que podíamos, desde patinar no frio do Canadá em nossas viagens a tomar chocolate quente aos pés da árvore de Natal. Eu havia vivido minha infância de um jeito que nunca me arrependeria, o que eu não saberia dizer se havia influenciado ou não no resto da minha vida, que não parecia estar sendo tão bem vivida quanto na época em que eu pulava em camas elásticas e praticamente comia terra.
Eu continuava feliz e satisfeita, mesmo que na medida do possível. Mas infelizmente, a vida adulta não te puxa dos esconderijos com beijos e abraços confortáveis ou te serve chocolate quente enquanto você espera pelo Papai Noel, e depois de um dia na sujeira, você não recebe doces e conversas animadas, ou vai viajar em uma nave espacial sempre que quiser.
Mas aprendemos a lidar com isso, o importante era seguir em frente, ainda haviam muitas conchas para caçar e morangos para colher.
Notas finais
Nos vemos no capítulo Um, que já está postado.
Beijos
Laura
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