Beija-me.

2 Memórias - Parte 1.


Verão de 2012, 35ºC. Rio de Janeiro.

Sento na areia da praia, com meus fones de ouvido ocultando todo o mundo ao meu redor. Eu usava uma calça apertada preta, uma blusa de frio escura e minhas luvas de inverno. Eu sabia que estava chamando atenção vestida daquele jeito naquele calor todo, mas eu não tinha escolha. Quando eu estava em algum local movimentado deveria deixar todo o meu corpo coberto, porque eu sabia o que acontecia quando alguém esbarrava em mim.

Olho pro mar e uma onda de lembranças enche a minha mente.

Eu passeava pela praia de Copacabana com meu biquíni roxo e um sorriso radiante no rosto. Na verdade, agora eu estava correndo, meus pais me aguardavam no carro para ir embora, eles haviam me prometido que passariam no Amor Doce e eu estava super eufórica, aquela era a minha sorveteria preferida. Entrei no carro correndo e ouvi meu pai cantando a nossa música. ''A lua inteira agora é um manto negro oh oh''... Tentei acompanhá-lo, sorrindo enquanto ele me olhava pelo retrovisor.

Aquilo doía. Os olhos de meu pai, sorrindo enquanto me encarava, assombrava a minha mente todas as noites. Eu faria de tudo para tê-lo ao meu lado novamente. Fecho os meus olhos, retomando à toda aquela lembrança, toda aquela felicidade.

Agora eu acariciava os cabelos de minha mãe, que estava com os olhos fechados ouvindo atentamente meu pai cantar. Ele tinha uma voz maravilhosa. Sinto um choque em minha mão e levo ela até a minha coxa, acariciando-a. Já havia sentido aquilo antes, mas dessa vez estava mais forte. Tento passar os dedos novamente no cabelo dela, porém vejo-se afastar com uma expressão de dor. Meu pai pergunta ''o que foi, amor?'' mas ela apenas responde com um ''nada'' e segura a minha mão com força, daquele jeito que só ela fazia, daquele jeito que demonstrava ''eu te amo minha pequena''. Mas dessa vez foi diferente, não era apenas um toque.

Meu pai estava gritando e o rosto de minha mãe se retorcia de uma maneira estranha, ela estava sentindo dor e eu não conseguia me afastar. Volto a olhá-la, completamente assustada, e vejo seus olhos transformando aquele verde maravilhoso em um terrível tom de branco. Eu não fazia ideia do que estava fazendo com ela, meu corpo estava completamente preso no dela e por mais que eu tentasse, era impossível desfazer aquela ligação.

Fecho os meus olhos, tentando retomar o controle do meu corpo e sinto outra mão no meu pulso, dessa vez era meu pai tentando tirar-me de perto da minha mãe. Meu coração bate mais rápido quando vejo seus olhos se revirarem também. Começo a chorar enquanto meus pais morriam na minha frente. Enquanto eu matava eles. Enquanto eu não conseguia fazer nada para salvá-los.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.