Beija eu
2 Uma nova matéria
Enfim, segunda-feira.
Eram 5:30 e já estávamos as duas de pé. Pelo combinado, hoje era o meu dia de cozinhar, então fui preparar o café da manhã enquanto a Mel se arrumava. Minha noite foi a pior possível, porque eu sonhei com o Gustavo desde que eu fechei os olhos até o momento que abri. Dizem que a gente costuma sonhar à noite com o que viveu durante o dia, mas isso aí já é demais. O sonho precisa variar, afinal, eu não vivi Gustavo o dia inteiro.
Me arrumei com calma, porque hoje eu podia sair um pouco mais tarde. Já a Mel, literalmente engoliu um pedacinho de pão, um tiquinho de café e saiu voando como a mulher maravilha. O único problema, é que ela estava em cima da hora pra salvar o mundo, no caso, pra salvar o emprego dela.
E agora, uma dica valiosa da Ju: nunca fique sozinho se você não pretende lembrar-se de algo.
Foi só a Mel sair e um turbilhão de lembranças e emoções me invadiu. Sentada no sofá, com uma xícara de café na mão, foi possível reviver toda a minha manhã de domingo.
~ Flashback On ~
— Vai fugir de mim pra sempre?
— Sempre que eu tiver oportunidade.
[...]
— Por que você não gosta de mim? — Ele ficou sério de repente.
— Porque não.
[...]
O rosto dele ficou mais próximo ao meu. Ele brincava com as nossas bocas e mais uma vez, eu fiquei sem reação. Fechei os olhos e ele me beijou. Era uma boca desconhecida que eu precisava provar, precisava sentir. O nosso beijo foi ficando selvagem aos poucos e depois acalmou pela simples falta de ar.
~ Flashback Off ~
— Xô pensamento! — Falei comigo mesma, mas foi impossível não lembrar as sábias palavras da Mel.
“Como vai ser amanhã, no trabalho?”
Terminei de me arrumar e finalmente saí de casa. Era um alívio que o expediente hoje começasse mais tarde, mas o engarrafamento que se formava a partir das 9hrs não era nada gratificante. Sabia que ia demorar a chegar no escritório, então resolvi ligar e me explicar.
É impossível entender a minha cidade: às 7hrs há engarrafamento, às 7:30 também e às 9hrs, nossa! É uma tortura. Depois de quase uma hora no trânsito, consegui chegar e quando pus o primeiro pé na sala, fui bombardeada por ordens e ideias da chefa carrancuda. Passei o olho rapidamente e vi Gustavo e Alice pouco interessados no que ela estava falando.
— Eu quero uma coluna feminina...
— Ih, me deixa fora dessa. — Gustavo levantou as mãos.
— Preciso de algo que fale sobre a paixão das mulheres e o olhar dos homens. — Na parte dos homens, ela olhou pra Gustavo e ele franziu a testa.
A revista contava com colunas de vários assuntos, com pontos de vista bastante diferenciados, porque eles queriam “fazer uma coisa diferente” – palavras da chefa quando resolveu dar uma repaginada no modo de organizar as matérias. E por essa razão, estava na lista de revistas menos conhecidas e lidas do país, porque não tinha um público alvo ao qual nós devêssemos sempre nos concentrar.
Já fizemos matérias sobre animais, vagas de emprego, preconceito, empresas renomadas, política, etc. Ainda estou um pouco longe de terminar o curso de jornalismo na faculdade, mas sei que nem na pior situação profissional, se faz uma revista tão variada desse porte. A chefa carrancuda, ou melhor, Mônica nos deixou sozinhos.
— Vocês resolvam a parte feminina e depois me perguntem qualquer coisa que quiserem sobre “o olhar dos homens”.
Não bastasse ter que escrever sobre a paixão nada conveniente das mulheres, ainda ter que aguentar o projeto de jornalista garanhão tirando o corpo fora. É claro que ele não vai opinar sobre os sentimentos femininos, mas qualquer ajuda é sempre muito bem-vinda. Talvez, começar a pensar no olhar dos homens já fosse de grande utilidade para darmos o ponto de partida sobre as mulheres.
— Não funciono sem antes um café. Já volto! — Alice saiu e ficamos sozinhos, Gustavo e eu. Até pensei em sair também, mas pra onde? O escritório não é tão grande e as opções que eu tinha eram simples: ir ao banheiro ou tomar água. Se bem que, tomar água não contava muito, porque temos um bebedouro dentro da sala. Por fim, não me restava outra coisa a não ser rezar para que ele não tocasse no assunto beijo.
— Cansada? — Ele resolveu quebrar o silêncio.
— De que?
— Da praia.
— Quem deveria se sentir cansado é você, que passou o dia inteiro lá.
— Impossível ficar cansado depois de beijar uma boca tão... — Não esperei que a frase chegasse ao fim e joguei um estojo em cima dele. Não sei de quem era o tal objeto, mas tava em cima da mesa, tava perto da minha mão e o Gustavo tava me provocando. Simples.
— Gente, que violência é essa? — Alice ia entrando na sala bem na hora que o estojo voou.
— Ué, você não sabia? — Gustavo perguntou enquanto se abaixava para pegar o estojo — Temos uma leoa na equipe!
— Idiota. — Parti pra cima dele, mas o safado foi mais rápido e segurou os meus braços, me deixando totalmente sem saída. Eu me mexia freneticamente, mas ele não aliviou nem um pouco.
— Mas o que é isso? — Mônica, a chefa carrancuda entrou na sala de surpresa.
— É um ensaio! — Alice falou sem pensar, depois de ter dado um pulo de medo com a presença dela.
— Ensaio? — Mônica franziu a testa e nos olhou confusa.
— É. — Comecei — Um ensaio sobre... — Olhei pro Gustavo em pedido de socorro e ele me olhou de volta sem saber o que dizer.
— Um ensaio sobre “A paixão das mulheres e o olhar dos homens”, a nossa próxima matéria. — Alice nos salvou EM PARTE, porque Mônica arregalou os olhos e pareceu gostar da “ideia do ensaio”.
— Que tal fazermos uma sessão de fotos para essa matéria?
— Acho ótimo. — Falei sem pensar unicamente para desviar o assunto.
— E vocês dois serão os modelos, já que começaram a ensaiar! — Ela sorria como uma criança e logo mais, eu estaria chorando, também como uma criança.
— Oi? — Gustavo e eu falamos ao mesmo tempo e Alice riu de nós.
— Fotos sensuais, românticas... Um perfeito casal. — Mônica finalizou a sua imaginação com as mãos no ar, em formato de tela.
Horas mais tarde, eu estava a caminho de casa, em um ônibus lotado, numa pista com milhões de carros imprensados e pra completar, uma chuva que fez com que todos os passageiros fechassem as janelas... Imaginem como eu estou me sentindo.
Quando cheguei no prédio, o porteiro me olhou como se eu fosse uma guerreira. É, talvez eu fosse mesmo. Entrei em casa e fechei a porta como se dissesse “estou segura”. E depois gritei, gritei tanto que a Mel veio correndo lá de dentro achando que fosse alguma coisa muito séria.
— Tá louca? Eu achei que tivesse acontecido alguma coisa ruim com você.
— Mas aconteceu. — Choraminguei ao lembrar da “sessão de fotos”.
— O que?
Comecei a contar pra ela toda a história, desde o começo, e o começo é aquele em que o Gustavo me prende pelos braços. Contei que a Mônica surgiu na sala de repente e a Alice acabou improvisando alguma desculpa, só que a chefa carrancuda gostou tanto que inventou umas coisas mirabolantes pra amadurecer a ideia. Desabafei todo o meu sofrimento e a única reação da Mel, minha amiga, foi rir.
— Para de rir.
— Desculpa, mas é impossível ter outra reação depois de tudo que você me contou.
— Ah é? — Demonstrei irritação.
— É! — Ela continuou rindo até perceber que eu estava séria — Ju, vai tomar um banho pra esfriar essa cabeça, melhorar suas ideias e esquecer esse dia maluco!
— Tá... E para de rir! — Percebi que a Mel tava segurando a risada, mas assim que eu saísse, ela ia colocar tudo pra fora, tenho certeza.
Passei alguns minutos embaixo do chuveiro sem fazer absolutamente nada, apenas sentindo a água passear pelo meu corpo. Exatamente como no dia anterior, lembrei do beijo e senti a boca dele na minha. E por falar em boca, o que será que ele ia dizer?
“Impossível ficar cansado depois de beijar uma boca tão...”
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