Beija eu

3 Sonho Caliente


Como hoje era o meu dia na cozinha, fiz o meu jantar e o da Mel. Comemos e ela com muita boa vontade, lavou os pratos, então eu fui para o quarto pensar no que escrever para a matéria da paixão das mulheres e o olhar dos homens. Parecia impossível digitar alguma coisa. Talvez fosse o pior tema escolhido pela Mônica.

Resolvi pesquisar alguma coisa na internet a respeito desse assunto, mas a única coisa que achei foram meninas imaturas falando do que elas nem sabiam sobre esse tipo de sentimento. Foi aí que eu tive uma ideia maravilhosa para realmente saber o que escrever sobre “a paixão das mulheres”: vesti uma daquelas lingeries bem sexy e fui até o apartamento do Gustavo. Toquei a campainha e esperei algum tempo, quando ele abriu e me viu daquele jeito, mordeu os lábios e puxou-me para dentro. Nos beijamos intensamente e nem mesmo a falta de ar nos fez parar.

Tirei a camisa dele e pude ver claramente o abdômen definido que se escondia por ali. Ele me prendeu na parede e a cada toque, ficávamos mais agitados. Continuamos nos beijando e ele balbuciava algumas palavras, até que finalmente o silêncio pairou e só o som dos nossos beijos era suficiente para aquela noite. Fomos tirando as peças de roupas um do outro calmamente, até que eu acordei!

— Meu Deus, como é que eu pude sonhar com uma coisa dessas? — Passei a mão no rosto e pude sentir um suor incontrolável. Meu cabelo então, nem se fala, tão molhado quanto se eu tivesse lavado.

Fui até a cozinha tomar um copo de água bem gelada e acabei sentando um pouco pra me acalmar. Minha respiração estava ofegante e o meu corpo suava, meus neurônios processavam aquele calor como algo inexplicável, mas no fundo, havia uma explicação muito clara pra tudo que eu tava sentindo. Voltei pro quarto, mas não consegui dormir até o novo dia começar, no máximo, uns cochilos.

Antes de o sol aparecer, eu já estava de pé, e quando ele finalmente apareceu, eu já estava no banho. Saí de roupão e vi a Mel dormindo encostada na parede.

— Mel, acorda!

— Eu não quero ir trabalhar hoje!

— Vai logo tomar seu banho. — Empurrei-a até o banheiro e fechei a porta. Depois, voltei pro meu quarto para arrumar minhas coisas e me arrumar. Fiz uma maquiagem simples para passar o dia e escolhi um vestido que há muito tempo eu não usava. Quando a Mel saiu do banheiro, demos de cara uma com a outra.

— Uau, que gata! — Ela sorriu e particularmente, deixou-me sem graça — Tá querendo impressionar quem desse jeito?

— Ninguém! — Sorri e ela duvidou — Só acordei um pouco inspirada hoje.

— Hm, tá bom...

Resolvi sair um pouco mais cedo de casa para não pegar o mesmo engarrafamento do dia anterior e quando cheguei ao escritório, poucas pessoas estavam lá, então eu aproveitei a calmaria e fui para a sala tentar pensar em algo para a matéria. Desta vez, sem dormir e sem sonhar!

Peguei um papel em branco que estava solto na mesa e comecei a “rabiscar” algumas palavras.

“A paixão das mulheres e o olhar dos homens.

Será que os homens enxergam o total sentimento das mulheres? Se sim, onde estão esses homens? E se não, por que será que as mulheres mascaram tanto o que sentem? Alguns vão dizer que é “porque os homens são cafajestes”, outros talvez digam que “a mulher gosta de se fazer de durona e espera sempre que a atitude seja do homem”, ou ainda, dirão que “os homens percebem, mas fingem não perceber para provocar a mulher”. Várias são as justificativas, mas qual será o real sentido?”

Percebi quando a Alice chegou e guardei o papel discretamente nas minhas coisas. Esperaria até que o assunto estivesse em pauta para discutir tudo o que eu escrevi.

­— Bom dia Ju!

— Bom dia. — Sorri amigavelmente.

— Sabe dizer se o Gustavo já chegou?

— Não... — Ficamos as duas caladas, então resolvi brincar — Minha mãe costuma dizer que quando a gente fica muito atrás de alguém, é porque essa pessoa tá nos devendo dinheiro. — Alice riu.

— Felizmente ele não tá me devendo nada. É que hoje à noite a gente vai sair pra se divertir um pouquinho já que amanhã é feriado. — Nossa! Eu havia esquecido completamente do feriado.

— Ah. — Foi só o que eu consegui responder depois que eu processei tudo o que ela disse. Gustavo chegou e a Alice correu pra cima dele pra falar sobre a saída dos dois e para não ficar sobrando, usei e abusei do maior truque de todos os tempos: o uso do celular.

A verdade é que, quando eu o vi, rapidamente lembrei-me do sonho e ao mesmo tempo, o imaginei sem camisa, talvez da mesma forma que ele estava na praia. Balancei a cabeça involuntariamente como se dissesse “xô!”. Inesperadamente, Mônica apareceu na porta da sala juntamente com um senhor muito sorridente e quebrou o pequeno clima entre Alice e Gustavo.

— Este senhor vai fotografar vocês dois para a nossa próxima matéria! — Ela nos olhou com uma felicidade tamanha.

— Eu achei que essa história tivesse ficado no ar... — Sussurrei.

— Claro que não. Eu achei a ideia maravilhosa, sem contar que aquele ensaio de vocês parecia muito real. — Virei pro Gustavo fuzilando-o com os olhos.

— E quando é que a gente vai fazer essas fotos? — Ele perguntou com desdém.

— Quando escolhermos as roupas de vocês — Mônica parecia empolgada, ao contrário de mim.

— E quando a gente vai escolher as roupas? — Gustavo já perguntou sem muita paciência.

— Agora! — Ela era a única animada na sala. Tão animada que propôs que todos nós fôssemos a algumas lojas para escolher as peças de roupas que “melhor se encaixassem”.

— Eu continuo achando tudo isso muito desnecessário. — Minha esperança estava abalada, mas não estava morta.

— Pois eu não, comprar roupa nova é sempre muito bom. — Gustavo estava se vangloriando pela oportunidade de renovar o guarda-roupa.

— E então...?

Passamos a manhã inteira entrando de loja em loja sem comprar absolutamente nada e Mônica já havia prometido que à tarde faríamos as fotos, sem qualquer necessidade de adiamento. Perguntei a ela com qual dinheiro iríamos comprar essas roupas e ela respondeu “o da revista”. Repeti a pergunta e ela finalmente entendeu. Não preciso repetir que a nossa revista não faz muito sucesso nacionalmente não é mesmo?

Pensei na Mel e imaginei o quanto ela iria rir de mim quando eu contasse a ela sobre o meu dia e sobre essas ideias mirabolantes da Mônica.

— Tive uma ideia! — Paramos os três no meio da rua para ouvir o que a chefinha tinha pra dizer — Todo mundo tem alguma roupa muito chique que já usou em alguma festa... — Ela nos olhou esperando que estivéssemos acompanhando o raciocínio dela, mas eu confesso que não estava entendendo nada.

— Sim, e daí?

— E daí que vocês vão em suas casas escolher as suas melhores roupas para fazermos a sessão de fotos! — Mônica começou a bater palmas e ficamos, Gustavo e eu, sem qualquer reação.

— Isso é sério? — Gustavo perguntou meio longe de acreditar na proposta dela.

— Claro que sim! E eu brinco em serviço?

— Não, mas é que...

— Nada! — Ela freou rapidamente a fala dele — O que vocês estão esperando para irem em casa?

Agora, eu é que estou longe de acreditar na proposta da Mônica. Pelo menos, a Mel não estaria em casa essa hora para rir de mim em plena luz do dia, talvez à noite, meu psicológico estará mais preparado pra aguentar piadas. Mas agora, não!

— Quer uma carona? — Gustavo, GUSTAVO, SIM, GUSTAVO, perguntando a mim, Juliana, JULIANA, SIM, JULIANA, se eu queria uma carona. Seria burrice dizer que não, já que vamos para o mesmo lado, mas sinceramente, não sei se queria passar quarenta minutos lembrando de um sonho sem sentido ou ainda, lembrando de um beijo que não passou de uma brincadeira idiota.

— Não precisa. — Tentei ser delicada.

— Por quê?

— Porque realmente não precisa.

— Você tá de carro?

— Não. Na verdade, eu nem tenho um carro. — Não podia dizer que o salário que eu recebia não pagava as parcelas de um carro porque Mônica ainda estava perto de nós, mas era esse o motivo da minha pessoa não ter um carro.

— Eu também não. Esse é do meu pai, ele me emprestou por alguns dias.

— Ah.

— E então?

— O que?

— Aceita a carona? — Gustavo ficou me olhando e deve ter percebido a minha inquietação — Modéstia à parte, eu dirijo muito bem. — Ele foi para junto do carro e abriu a porta “do carona”.

— É mesmo? — Disse e entrei no carro cuidadosamente. Ele fechou a porta e por um instante, pensei se tinha feito a escolha errada. Ele entrou logo em seguida e agora, estávamos a caminho das nossas respectivas casas.

O caminho até o meu apê durava mais ou menos quarenta minutos, e pelo menos quinze, passamos calados dentro do carro, ele atento ao trânsito e eu atenta a qualquer coisa que não fosse ligada a ele.

Sabe aquela situação em que você não move nem a cabeça pro outro não prestar a atenção e falar alguma coisa? Pois bem, era eu. Meu pescoço já estava dormente por ficar virado para um único lado. Por dentro, meu coração torcia para que chegássemos logo.

— Lembrei de algo. — Ele resolveu quebrar o silêncio em mil pedacinhos.

— O que? — Virei o rosto calmamente, já que estava dormente.

— Nosso beijo. — Ele me olhou sorridente e eu não consegui dizer nada, simplesmente virei o rosto novamente ficando na posição inicial. Gustavo entendeu que tinha feito um péssimo comentário, então ficou calado nos outros vinte e cinco minutos.

Enfrentamos um pouco de congestionamento no trânsito, mas foi coisa rápida. Nunca vou dizer-lhe o que pensei e claro, odeio ter que admitir isto, mas de fato, ele dirigia bem e estava a uma rua de me deixar em casa.

— Eu passo aqui na volta.

— Não precisa. — Repeti o que já tinha dito quando ele me ofereceu a carona.

— Claro que precisa. Junta suas coisas com calma e fica aqui me esperando.

— Já disse que não precisa.

— E eu já disse que precisa. — Ficamos nos encarando por algum tempo até que ele resolveu ir direto ao ponto — Por que eu te deixo tão nervosa?

Notas finais
Comentários para que eu me sinta mais estimulada a escrever, please s2