Beija eu

11 Me beija?


— Sim ou não? — Ele parou de beijar meu pescoço e me encarou firmemente, esperando que eu lhe desse uma resposta definitiva — Hein?

Pela primeira vez, eu estava completamente desestabilizada diante dele, o meu subconsciente não sabia quais palavras mandar pra minha boca. Já estive confusa diante de Gustavo algumas outras vezes, mas, nunca da forma como eu estava agora.

Pelos meus cálculos, já tinham se passado pelo menos, uns dois minutos, a chuva havia começado a cair intensamente, e o som desta era o único que podíamos ouvir na sala, afinal, o silêncio estava reinando graças à minha não resposta.

— Eu não sei. — Falei finalmente e Gustavo me olhou confuso. Involuntariamente, os meus olhos estavam cheios de lágrimas. Ouvimos a porta da sala se abrir e ele se afastou de mim rapidamente.

— Bom dia pessoal. — A voz de Eduardo parecia fazer eco. Disfarcei meus olhos lacrimejando e sorri para ele.

— Bom dia.

— Bom dia. — Gustavo respondeu logo depois de mim, num tom irritado.

— Aconteceu alguma coisa? — Eduardo nos olhou cuidadosamente — Quer dizer... Eu interrompi alguma coisa?

— Claro que não. — Fiz parecer que ele estava completamente equivocado com aquela pergunta, e no fundo, acho que ele acreditou — Vou ao banheiro. — Saí da sala e praticamente corri para ficar sozinha.

— Ei! — Gustavo correu também para acompanhar o meu ritmo e quando conseguiu, me puxou pelo braço. Ele parecia querer uma resposta mais concreta, alguma explicação plausível, e eu não tiro a razão dele por isso, mas talvez outra hora fosse a mais adequada para conversamos com calma.

— Eu preciso ficar sozinha.

— Não. O que você precisa é me dizer com todas as letras o que eu devo fazer, porque você tá me deixando confuso!

— Sei que eu não te dei a melhor resposta do mundo, mas, por favor, me dá um tempo pra organizar tudo isso. Eu to me sentindo tão confusa quanto você, talvez até mais. — Ele me olhou calmamente e parecia não ter mais nada para dizer — Nada disso é fácil pra mim.

— Isso, disso... Do que é que você tá falando Juliana?

— To falando de sentimento, Gustavo. — Respirei fundo para não deixar as lágrimas caírem — Deixa pra lá.

— Juliana! — Ele me chamou, mas eu não atendi. Saí correndo novamente para realmente ir ao banheiro e desta vez, Gustavo não veio atrás de mim. Assim que abri a porta do sanitário, Alice estava lá dentro conferindo e ajeitando sua roupa e maquiagem. Estava mandando beijo para o espelho como se dissesse Você está linda, provavelmente porque estava sozinha.

— Bom dia Ju.

— Não começa Alice.

— Começar com o que? Eu só te dei bom dia. — Ela fingiu estar desapontada — Coisa que qualquer pessoa educada é capaz de fazer, mas se você...

— Não começa com a sua falsidade. — Nem esperei que ela terminasse a frase. Minha paciência com aquela sonsa já estava nos limites — Eu to cansada de você.

— Mas o que é que eu te fiz? Meu Deus do céu...

Desisti do banheiro unicamente pela presença daquela criatura. Tem pessoas que são insuportáveis e tem pessoas que são ultrapassam isso, de tão master insuportáveis que são. Alice é uma destas.

Quando voltei para a sala de trabalho, Mônica estava lá com Gustavo e Eduardo. Incrível como esses dois mal se olham. Gustavo porque, obviamente, não gostou de Eduardo. E Eduardo porque, obviamente, já deve ter percebido que Gustavo o considera um atrapalho.

— Ainda bem que você chegou! — Mônica correu pra junto de mim — A imprensa tá toda aí fora querendo entrevistar os mais novos sucessos da internet.

— Que sucessos? — Alice chegou com toda sua amargura.

— Gustavo e Juliana! Já são a mais nova sensação. Todas shippam vocês. Não é assim que se fala? Aliás, o que isso quer dizer?

— Eu já aceitei ser entrevistado. Só falta você. — Isso significaria aparecer na TV, ficar quase famosa, além de ter incontáveis pessoas sorrindo, acenando, olhando, apontando. Não sei se devo.

Se você não quiser ser famosa, queridinha, pode passar esse posto pra mim.

Não vou passar nada pra você, Alice. Aliás, por que é que você tá invadindo o meu pensamento?

Não to invadindo, só to querendo dizer que não é todo mundo que tem a ilustre capacidade de lidar com a vida de estrela. Você é uma, por exemplo. Não teria o menor jeito para viver nos holofotes da fama.

Alice, eu não me lembro de ter pedido a sua opinião, ou qualquer coisa assim.

Isso não é de fato a minha opinião, isso é só um conselho. Então aproveita que é de graça! Fora que se você aceitar, todo o seu tempo vai para o espaço e...

— Eu aceito. — Respondi finalmente e pela segunda vez, até mesmo em pensamento, acabei interrompendo a fala de Alice.

— Ótimo! Eles já estão lá embaixo esperando por vocês.

Não sei se tinha feito a escolha certa, mas toda aquela conversa imaginária com Alice me fez querer aproveitar as oportunidades, por mais loucas que elas pareçam ser. Caso contrário, eu estaria jogando fora e dando espaço pra gente que não merece.

Descemos e quando chegamos ao hall de entrada, fomos ligeiramente cegados pelos flashs das inúmeras câmeras que estavam na porta. Mônica, como sempre muito empolgada, nos encaminhou ao local certo e em seguida, mandou que todos os jornalistas e fotógrafos entrassem cuidadosamente, sem muito alvoroço.

Gustavo e eu sentamos em um sofá deveras confortável, talvez o melhor de todo o prédio. Acho que já falei dele por aqui.

— Podemos começar? — Um deles perguntou e Gustavo fez que sim com a cabeça. Já eu, nada disse.

— Como é ficar famoso da noite para o dia, literalmente?

— O que vocês esperam dessa nova vida?

— O que os familiares e amigos de vocês disseram a respeito do ensaio fotográfico?

— Vocês são namorados?

— Há algo acontecendo entre os pombinhos fotogênicos?

— Como foi o caminho de casa até aqui?

— Em que vocês trabalham?

— Já terminaram a faculdade?

— Vocês moram juntos?

— O beijo de vocês nas fotos, foi real? Quero dizer... Teve língua?

MEU DEUS, EU VOU ENLOUQUECER! Quando o rapaz perguntou se podia começar, ele se esqueceu de dizer que eles seriam como uma arma, cada um, e que nós seríamos bombardeados por suas perguntas infinitas. O mais incrível é a criatividade que eles têm para nunca deixar a entrevista morrer. Nenhum de nós dois havia respondido a primeira pergunta ainda, mas eles faziam uma atrás da outra, sem trégua.

Mônica nos olhou sorrindo e ao invés de tentar organizar aquilo tudo, ela bateu palminhas indicando que estava muito feliz com toda aquela situação. Olhei para Gustavo e ele parecia estar mais assustado do que eu. Isso é realmente uma loucura e eu estou completamente arrependida de ter aceitado.

— Não moramos juntos, não terminamos a faculdade, mas estamos de férias dela, e o beijo não foi real. — Respondi as três últimas perguntas, porque eram as únicas que ainda estavam vivas na minha memória. Bati de leve em Gustavo para que ele tivesse qualquer reação — Faz alguma coisa.

Depois de ter cochichado pra Gustavo fazer alguma coisa, ele fez. Ele me agarrou no sofá e me beijou!

— Tira foto! Vai logo, seu imprestável! Pega o melhor ângulo deles dois. — Um jornalista gritava com o fotógrafo, ansioso pra que a foto deles fosse a melhor.

O beijo de agora tinha o mesmo toque carinhoso de hoje mais cedo. Mas diferente da outra vez, agora eu não queria que ele parasse. Eu estava realmente decidida a continuar beijando-o até que não houvesse mais fôlego para nenhum de nós dois.

E assim ele o fez.

Pôs uma mão na minha nuca e a outra na minha cintura. Seu beijo era intenso, carinhoso, gostoso e de certa forma, provocante. Uma mistura de sabores, diga-se de passagem.

Horas depois.

— Cara, que beijo foi aquele? — Os meninos no corredor paravam Gustavo para parabenizá-lo pela atitude dele na hora da entrevista.

— Como é ser bombardeado por aqueles caras sem noção?

— Vocês estão agindo da mesma forma agora. — Gustavo falou sério e deixou os meninos sem saber o que fazer. Assim que ele entrou na sala, fechou a porta e respirou aliviado.

— Sobre o que aconteceu lá embaixo... — Comecei.

— Desculpa. — De novo, eu não sabia o que fazer ou o que falar, e de repente, as minhas pernas começaram a bambear. Meu coração ficou extremamente acelerado e uma vontade de sorrir bobamente surgiu em mim, talvez porque eu não estivesse esperando por uma atitude como esta — Eu agi por impulso.

— Eu sei, mas é que...

— Eu fiquei nervoso com aquele monte de perguntas. — Ele sentou em cima da mesa e ficou só um pouco mais baixo que eu.

— Eu também fiquei e...

— E ainda mais com o tipo de pergunta que eles estavam fazendo ao nosso respeito. Eu achei um pouco abusivo.

— Você vai me deixar falar? — Gustavo parou e olhou-me atentamente — Sobre o que aconteceu lá embaixo, é... Eu queria te agradecer por você ter livrado a gente daquelas perguntas inconvenientes. Mesmo que o que você tenha feito não tenha sido de fato adequado. — Respirei fundo e cheguei mais perto dele — Obrigada.

— Você me deixa louco. — Ele sussurrou — Me deixa com vontade de te beijar de novo.

— Pessoal — A porta abriu-se de repente e pra variar: Mônica — Eduardo nos convidou para irmos ao bar do pai dele comemorar o sucesso de vocês. Vamos todos?

— Eu topo. — Gustavo falou enquanto se levantava — Vou só arrumar minhas coisas.

— Mas e o resto do trabalho? — Perguntei.

— Alice foi a primeira a dizer que não queria ir, então eu a mandei ficar aqui e resolver tudo. Então, eu estou liberando todos nós para irmos nos divertir.

Por coincidência ou por ironia do destino, Alice estava acabando de entrar na sala e eu fui obrigada a segurar o sorriso alto que eu estava com vontade de soltar. Gustavo arrumou as suas coisas silenciosamente e nós saímos para o corredor, enquanto esperávamos Mônica e Eduardo. Como eles chegaram rapidamente, nós descemos e pegamos o carro em menos de cinco minutos.

Quando chegamos ao bar do pai de Eduardo, tinha uma mesa nos esperando. O lugar era bastante aconchegante, tinha música ambiente e a pouca iluminação inspirava muitos casais a ficarem juntinhos ali. Não sei se seria uma boa ideia sentar próximo a Gustavo depois de tudo o que aconteceu.

— Pessoal, se acomodem e fiquem à vontade. — O pai de Eduardo, Plínio, nos recebeu de forma muito educada. Ele tinha cabelos grisalhos e uma aliança grossa no quarto dedo. Fiquei pensando se ele era casado há muito tempo e se aquele bar havia sido aberto como projeto de vida do casal. Mas achei que seria indiscreto perguntar esse tipo de coisa, quando na verdade, tínhamos vindo aqui para comemorar e relaxar.

Eu não tinha reparado antes, porque quando chegamos, estava tocando alguma coisa, mas no bar também havia karaokê. Tinham cinco mesas ocupadas e em uma delas, um idoso muito divertido que decidiu se aventurar quando subiu ao palco. Disse que iria cantar uma música da sua época e que estava fazendo muito sucesso atualmente. Então ele cantou, ou pelos menos tentou cantar, That's The Way I Like It.

— Ele vem sempre aqui e dá show de audiência. — Eduardo nos contou aos risos.

Plínio havia trazido bebidas para todos nós, enquanto assistíamos aos talentos do karaokê. Mônica empolgou-se e resolveu ir cantar também, aliás, atuar. Ela tentou imitar Beyoncé, e pôs Single Ladies. Eduardo levantou-se e foi atuar junto com ela, depois ele escolheu I Want To Break Free e os dois continuaram dançando e cantando juntos. Gustavo e eu estávamos bebendo cada vez mais.

— Essa é a mesma Mônica que trabalha conosco? — Gustavo apontou para o palco e nós rimos da postura dela ao nos lembrarmos de como ela pode ser exigente na revista.

— Esse Eduardo também é muito diferente. E olha que ele acabou de chegar lá no escritório.

— É. — Gustavo se ajeitou na cadeira e virou pra mim, ficando de frente — Todo mundo fica mais à vontade quando sai do meio profissional.

— Até mesmo eu, que to pensando seriamente em ir atuar lá no palco também. — Gustavo riu — Tá rindo de que? Vou provar o que eu to falando.

Procurei Rabiosa no karaokê e pus para tocar, assim que a música começou, meu corpo inteiro começou a remexer, e ao invés de cantar, eu dancei. Parte de mim achava que o álcool já havia tomado conta das minhas atitudes, mas a outra parte queria mesmo é se divertir e comemorar tudo o que aconteceu durante o dia.

Continuei dançando e vi muitas pessoas aplaudindo a forma sensual que eu estava interpretando a música, inclusive Mônica. Olhei para Gustavo e ele estava dando um longo gole no seu whisky, além de estar olhando para mim também. Dancei ainda mais, desta vez, olhando unicamente para ele, como se só houvesse nós dois ali e mais ninguém.

Procurei outra música no karaokê, mas agora, eu queria cantar.

Meus pés não tocam mais o chão. Meus olhos não vêem a minha direção. Da minha boca saem coisas sem sentido, você era o meu farol e hoje estou perdido. O sofrimento vem à noite sem pudor. Somente o sono ameniza minha dor. Mas e depois, e quando o dia clarear, quero viver do teu sorriso, do teu olhar. Eu corro pro mar pra não lembrar você e o vento me trás o que eu quero esquecer. Entre os soluços do meu choro eu tento te explicar, nos teus braços é o meu lugar. Contemplar as estrelas, minha solidão. Aperta forte o peito, é mais que uma emoção. Esqueci do meu orgulho pra você voltar. Permaneço sem amor, sem luz, sem ar.

Desci do palco e ouvi muitos aplausos, e quando voltei para a mesa em que estávamos, sentei ao lado de Gustavo.

— Além de jornalista e modelo, você também é dançarina e cantora nas horas vagas, Juliana? — Mônica perguntou-me aos risos.

— Você dançou muito bem, e cantou também. — Gustavo falou discretamente.

— Só isso? — Perguntei baixinho.

— Como assim?

— Eu não ganho nada por isso? Um prêmio ou qualquer coisa assim... — Gustavo riu.

— O prêmio vai ser eu te levar em casa, porque já chega de álcool por hoje.

— Agora que eu to finalmente me divertindo, você quer me levar embora? Fala sério, Gustavo.

— A gente fica então, mas você vai ter que parar de beber.

— Que saco! Você não era tão chato assim quando me beijou hoje mais cedo. Pelo contrário — Fiquei de frente para ele — Você era mais carinhoso, mais cuidadoso, mais legal — Senti a minha voz falhar um pouco e os meus olhos pesarem — Só não era mais bonito que agora.

— Não?

— Não. Te olhar bem de pertinho faz com que você seja muito mais bonito. — Me aproximei e os nossos rostos ficaram a milímetros de distância — Me beija?

Notas finais
CASAL MAIS AMOR DO NYAH FANFICTION! Hahaha Não esqueçam de deixar um comentário quando saírem do cap 11!