Depois de algumas horas nós duas fomos liberadas do hospital, mas Clara foi chamada sozinha para conversar com o médico, o que durou só uns minutos. Fomos para casa em silêncio, ela estava com um olhar triste até que deixou escapar alguma coisa -Ele pediu para que tente internação novamente...- Clara sussurrou olhando para baixo. -Como é? Ele me conhece?- Eu não estava entendendo mais nada. -Quando chegarmos em casa te explico.- Clara de fato estava triste e eu confusa.
Chegamos e ela já foi se atirando no sofá com seu jeitinho moleque de se portar. Fez sinal para eu me sentar também, e já foi contando tudo que eu precisava saber.
–Sabe, quando nós eramos crianças, você dizia ter pesadelos repetidos. A mãe não sabia o que fazer, e só dizia que isso iria passar, mas você só piorava. Teve uma vez que você levantou no meio da madrugada e saiu se rastejando pelo chão, chorando. Aquilo foi traumatizante para mim, saia sangue do seu nariz. Eu era muito assustada, ai comecei a gritar. Você segurava uma faca, e veio na minha direção; detalhe: você fazia tudo de olhos fechados. Quando veio para cima de mim, você ameaçava me cortar, mas não alcançava pois eu estava te segurando pelos braços. Imagina que horror, isso tudo de noite, à meia luz? A mãe veio correndo e a primeira coisa que ela fez foi tentar tirar a faca de você. Sabe porquê eu não tentei tirar a tesoura de você ontem? Porque quando a mãe tentou arrancar-lhe a faca, você me machucou feio. Eu lembrei dessa cena, e fiquei com medo que me machucasse muito de novo, ai fui meio paciente e esperei a hora certa para tirar-lhe a tesoura. Mas, voltando ao passado, você já foi internada sim, pois era uma ameaça para todos nós. Ficou um tempo sobre observação médica, tomando alguns remédios que te faziam ficar enjoada, mas era o único jeito de você dormir bem sem surtar. Teve um dia que você, de alguma forma, fingiu ter tomado um dos remédios, e foi o suficiente para ter aqueles sonhos estranhos. Diz o médico, que no outro dia de manhã tinha sangue nas paredes, sangue no chão e no seu rosto. Você estava desmaiada e com uns traumas físicos, parecia que alguém havia lhe espancado, mas sabe, foi a mesma cena de ontem, você mesma se machucou a ponto de desmaiar. Isso fez a mãe ir no hospital xingar o médico na época, pois não ficaram lhe observando, ele achava que não era mais preciso, mas enganou-se, e isso lhe custou parte da memória, sua cabeça estava muito danificada. Bom... depois disso tudo, você meio que parou com os surtos, mas um dia, lá com os seus 17 anos, dormindo aqui em casa, disse algo como: ela vai voltar. E por isso que tomo remédios para dormir, pois tudo que você fazia dormindo me traumatizou...- Foi quando Clara terminou essa frase que eu comecei a chorar e me desculpar por ter estragado a infância dela, e que eu iria resolver isso de uma vez por todas.
Depois desse momento clichê entre irmãs, eu fui tomar um banho gelado, pois ainda sentia algumas dores no corpo.
Beirava umas 16hs e fui atrás de um psiquiatra para pedir tratamento, ai quando voltei para casa, fiz uma lista de coisas para fazer durante o resto do dia e a noite inteira, eu pretendia ficar acordada, aproveitando que a consulta era no outro dia de manhã, e não queria ter mais nenhum surto para não prejudicar mais ninguém -e nem a mim mesma, claro.- Depois de uma sessão de uns 6 filmes, entre algumas jogadas de vídeo games e ler livro, tomar muito café e comer algumas frutas para me manter acordada, já eram mais ou menos meia noite, Clara desligou as luzes da casa -precisava economizar dinheiro- e foi dormir, e eu fiquei olhando The Hobbit, no escuro mesmo. -O que você está pensando, Clara? Já deve estar dopada.- Pensei. Depois de duas horas chatas e entediantes de filme, eu não aguentei mais a dor e ardência nos olhos, e peguei no sono.

Lá estava eu no escuro, sem saber para onde ir. Não tinha ninguém por perto, e o clima estava muito frio, como de costume. O silêncio reinava, as árvores secas não se moviam; não havia algum vento. Eu estava parada no meio da rua e comecei a ouvir um sussurro. Um sussurro feminino. Estava bem longe, e ia se aproximando, meu coração já acelerou e coloquei as mãos sobre a cabeça, e fiquei olhando para baixo, chorando e ofegante. Quando o sussurro estava muito alto em meus ouvidos, podia senti-lo bem próximo a mim, até que senti uma mão gelada no meu ombro.

Acordei aos gritos, Clara se assustou e acabou ''voando'' para trás e caiu sentada. Eu me sentei no sofá sem entender o que aconteceu, e Clara explicou que eu peguei no sono, ela estava indo na cozinha tomar água e me viu, veio correndo me acordar. -Mana, mais um pouco e você não conseguiria me acordar.- Falei à Clara. Ela, com a mão na ''traseira'' -o tombo deve ter doido- perguntou o porque, e eu expliquei que estava a ponto de ver a menina que me persegue no sonho. -Como você sabe que não acordaria?- Clara perguntou. Expliquei que quando a menina me tocava e eu tentava me defender, era certo que eu ficaria trancada naquele sonho até perder as forças de tanto me debater, e foi assim na noite passada, quando amanheci com sangue na testa. Pronto, foi com esse comentário próprio que lembrei do sonho anterior com por completo. Acho que enquanto eu agredia minha irmã com a tesoura, eu estava agredindo a menina no sonho, que logo antes havia me pressionado contra uma árvore, e batia a minha cabeça até sangrar. Enquanto eu explicava isso para Clara,ela estava com uma cara de sonsa, morrendo de sono, com a boca meio aberta. Ela se sentou ao meu lado e acariciou meu rosto com a mão -quente-, e disse que ficaria tudo bem. Eu peguei a outra mão dela, e pedi para que me escutasse com atenção.
–Diga...- ela disse com uma voz cansada. -Pelo que eu percebi, de fato eu luto contra essa menina, mulher, que seja, e quando estou fazendo isso, acabo agredindo quem estiver por perto. Caso isso venha a acontecer novamente, se mantenha longe de mim, apenas tente me deixar longe de qualquer objeto cortante.- Falei como se estivesse bolando um plano, mas Clara estava boquiaberta e quase fechando os olhos, apenas disse ''tudo bem...'' e adormeceu no meu ombro. Ela era muito linda, eu precisava protegê-la, era tudo que eu tinha de valor na vida.
–Boa noite Clara.- Voltei a assistir televisão.