No outro dia pela manhã, eu fui confiante para o hospital, queria muito a internação, quem sabe me servisse de algo. O hospital era novo, mas as pessoas que estava lá, maioria ''loucas'', tornavam o ambiente sinistro com aquele aspecto de filme de terror dentro de um hospital velho. O quarto que eu fiquei estava praticamente vazio, dentro estava uma mulher muito bonita por sinal, sentada na sua cama olhando fixamente para a janela, eu não conseguia ver seu rosto. Me sentei na cama, e fiquei olhando para o teto, até porque, eu não podia fazer nada ali dentro, a não ser dormir ou andar pra lá e pra cá, e isso não parecia uma boa opção, eu ia parecer mais louca do que o normal. Chegou a noite e a enfermeira me trouxe um calmante para eu dormir, mesmo eu sabendo que de nada ia adiantar, fui gentil e tomei para não causar alarme. Fui ficando sonolenta, parecia ser bem tarde da noite, mas mesmo com a luz desligada, aquela mulher mal se mexia, e ficava encarando a escuridão da rua através da janela. Aquilo estava meio estranho, me incomodava de certa forma. -Qual seu nome?- Perguntei a ela. Ela me respondeu com o silêncio. -Está se sentindo bem?- Tentei dialogar com ela, eu me sentia ansiosa e sozinha. Novamente com o silêncio ela me respondeu.

Não durma. Não hoje.- Ela sussurrou como se fosse apenas para eu ouvir, mesmo que de tão distante. Aquilo foi estranho, como ela sabe que meu problema é relacionado com ''dormir''? Fiquei tão tensa que quase não consegui dormir, já estava com um tanto de medo. Fiquei observando ela, que estava pertinho da janela, onde estava claro pelos postes ali perto. -Loira... deve ser bonita.- Pensei.

–Loira...v-vestido... branco...branco?- Assim que pensei isso, quase dormindo, ela virou para trás, e sorriu para mim. Juro que me arrepiei inteira, mas adormeci, o remédio era forte.

Novamente (isso está repetitivo, que chato) eu lá naquela rua chata, onde iria ver aquela mulher chata novamente, eu já estava deveras cansada da monotonia. Eu não conseguia me mexer, o que era estranho, queria sair daquele lugar, estava muito escuro, eu precisava ir para um lugar claro pois não queria ver aquela garota de novo. Eu estava sentada no chão, no meio da rua, estava mais frio do que de costume, nunca parei para pensar, mas é muito estranho o fato de eu poder sentir o clima dentro de um sonho, aquilo parecia real, o que me dava mais medo. Tentava ir para os lados, tentava levantar, tentava levantar os braços, e nada. -O que foi desta vez?- Já estava com medo e ao mesmo tempo brava.

Be-a-tri-ce.- Ouvi uma voz distante, meu corpo se arrepiou todo, eu queria correr dali. -Por que não brinca comigo?- De fato, isso estava ficando muito tenso.

–Eu juro que não irei lhe machucar novamente.- A mesma voz se repetia, cada vez mais perto, e eu não conseguia distinguir de onde soava. Podia ouvir também sussurros e risadas, e de fato, era aquela garota tentando mexer comigo e me deixar assustada. -Quem é você? Por que... não me deixa em paz?- Perguntei para ela, quase sem fôlego. -...Sarah...– Pude ouvir uma voz doce cantando esse nome, mas eu sabia que era ela mudando o tom. -Ela quer me deixar louca...- Só consegui pensar nisso na hora. Eu estava cansada, devia ser o efeito daquele remédio amargo que deixou minha boca dormente. Olhei por um momento para baixo, e fechei os olhos, eu não podia fazer mais nada além disso, estava paralisada. Quando voltei a abri-los, tomei um susto enorme, tinha uma figura bizarra parada na minha frente, me encarando e claro, era ela, mais sinistra que nunca. -Você não quer brincar comigo, Beatrice? Por que não me responde?- Ela me falou, com uma voz chorosa. –Por que é assim comigo? Você gosta de sentir dor? Não é mais fácil fazer o que eu quero?– Ela insistia em dialogar comigo. -O que você quer, é...Sarah?- Perguntei à ela. -Quero que você morra.- Ela me encarou com um olhar sério, fechou instantaneamente o sorriso perverso que estava em seus rosto. Se agachou na minha frente, me tocou com seu dedo indicador, e eu cai para trás. Parecia que ela já sabia que isso iria acontecer. Cai sentada, estava com medo, aquela garota conseguia ser bonita e sinistra ao mesmo tempo. Ela começou a vir por cima de mim, dirigindo a mão ao meu pescoço. Eu não conseguia me defender, queria por em prática aquilo que havia combinado com Clara. Quando ela pegou no meu pescoço, se levantou numa velocidade assustadora, meus pés ficaram balançando no ar, ela me levantou alto, estava me enforcando. -Por...que...- Eu mal conseguia falar alguma coisa, não conseguia nem me debater. -Apenas morra.- Ela insistia em falar sobre isso. Quando eu estava prestes a desmaiar (e quem sabe morrer) alguém bateu muito forte nas costas de... Sarah (acho que esse nome deve ser o dela) e a fez me derrubar no chão, o tombo foi forte, fiquei cheia de machucados. Eu atirada no chão pude ver duas garotas brigando e se machucando. -Eu estou ficando louca...-Pensei. Quem mais iria aparecer no meu sonho? Ou melhor, o que alguém faz no meu sonho? Eu estava cada vez mais confusa e sem saber o que estava acontecendo comigo. Olhei para baixo, já tonta, e percebi uma linha de sangue tomando conta do chão, saindo da minha cabeça. -Essa maldita...me machucou de novo...- E foi ai que eu apaguei de vez. Acordei no meio da madrugada, assustada e com muita dor nos olhos pelo sono, mas não queria mais dormir, tinha duas loucas brigando nele (confesso que achei isso meio cômico). Olhei para o lado, e não havia mais ninguém na cama perto da janela. Eu estava sozinha no quarto, no escuro, naquele silêncio perturbador. Fui apertar o botão para chamar a enfermeira, mas alguém segurou minha mão e fez um som de ''hm hm'', como se pedisse para eu não fazer aquilo. Olhei para a pessoa, e logo a reconheci. -Você... estava naquela janela...não é, me ajuda por favor, estou com uma dor forte na cabeça... Espera. Eu lhe conheço...- Foi ai que eu me assustei mais ainda. Era a moça linda que eu havia visto há um tempo atrás, andando do outro lado da rua, com uma beleza encantadora. -O que faz aqui? Você me conhece?- Já fui logo perguntando, toda afobada e curiosa, até tinha esquecido da dor momentaneamente. -Como eu queria que os humanos não conseguissem dormir, ia ser tão mais fácil.- Ela disse isso para mim, com um olhar triste. -Humanos?- Agora sim eu já achava que estava louca por completo. Uma mulher, falando em humanos, como se ela não fosse um. -Como assim?- Perguntei. -Prometo que vou tentar lhe ajudar.- Ela disse isso, e no mesmo momento a enfermeira abriu a porta. Olhei para a enfermeira, e quando voltei a olhar para a mulher, já não estava mais ali. -Mas...- Falei, e a enfermeira me olhou com uma cara de ''essa ai é doidinha. Vai dar trabalho.'' -Onde está ela?- Perguntei. -Ela quem?- A enfermeira me questionou de volta. -A mulher, que ficava ali naquela cama, olhando para a janela.- A enfermeira ficou um tempo me olhando, olhou em uma ficha e me confirmou que não havia mais ninguém naquele quarto além de mim, pois eu fui colocada em uma sala sozinha para não ferir ninguém. Aquilo me deixou atordoada, onde poderia estar a mulher que eu vi mais cedo, e que falou comigo... estava tudo tão confuso. Eu precisava de ajuda para raciocinar direito, estava perdendo todo o meu senso do normal. -Quando a minha irmã pode vir me ver?- Perguntei para a enfermeira. -Amanhã quem sabe ela venha, bom, ela disse que passaria aqui depois de uma noite. Não se preocupa, e mais, quer um remedinho para dormir, parece estar sem sono...- Ela me explicou. -Não, chega de ''remedinhos''. Não quero dormir, vou ficar aqui ''de boas'', não esquenta.- Falei com ela um tanto rígida, mas eu estava muito incomodada com a situação. -Ok.- Ela disse, e fechou a porta do quarto. Fiquei pelo menos umas duas horas encarando o teto, e resolvi me levantar e ir sentar na cama perto da janela. -Se eu pudesse trazer minhas folhas e meus lápis...- Pensei. A vista pela janela era bonita, um campo cheio de árvores, bem iluminado com postes antigos que pareciam lampiões, muitos bancos, alguns gatos e cachorros circulando por ali. Era bem florido também, olhar para aquele lugar trazia uma paz, pena não poder sentir a brisa da rua, os vidros e grades (para ninguém fugir ou tentar suicídio) impediam. -Essa vista daria um bom desenho...- Pensei, e o sono já estava batendo de novo. Me deitei naquela cama mesmo, ali perto da janela, iluminando meu rosto, confesso que não gostei dessa parte, mas eu estava cansada, qualquer lugar para dormir já estava bom. Bom...eu dormi, eu já meio que esperava acordar machucada ou algo do tipo. Tudo que eu mais queria saber era como eles iriam me ajudar, depois de ver o estado que acordo todas as manhãs. Notei que havia uma câmera perto da porta, me observando. Acho que eles queriam ver minhas reações enquanto durmo, para tomar as medidas certas no tratamento. O que me indaga, é saber o que farão comigo de hoje em diante, se sou realmente louca, ou se estou sofrendo de alguma doença que me deixa com alucinações. Quem sabe... eu de fato não entendo nada sobre isso, terei de confiar nos médicos, apesar de eu não gostar deles.