Notas iniciais
Essa história requer atenção nos detalhes para que se entenda as situações seguintes.

Eu já estava me sentindo incomodada, ela me fitava com um olhar de pavor. Estava logo atrás de mim, andava tão levemente que mal ouvia seus passos, porém eu sentia cada vez mais medo de sua presença. Entre passos mais curtos eu parei, e meu coração começou a acelerar. A menina também parou logo atrás de mim, eu podia sentir sua respiração fria na minha nuca. O tempo estava frio, as ruas estavam escuras. Árvores com poucas folhas em seus galhos secos se mexiam de forma admirável, porém sinistro. Resolvi criar coragem e me virar para trás, quando ouço o sussurro de sua risada sádica muito perto de meu rosto. Me virei, não havia ninguém ali.

Acordei suando, com uma enorme palpitação no peito. -De novo o mesmo sonho?- Eu já estava muito intrigada com isso. Eram 04h da manhã, e claro, voltei a dormir. Eu vivia em um prédio velho no centro da cidade, e sempre ouvia sons estranhos que atravessavam as paredes sem pintura. Pela manhã acordei calma e refleti um pouco sobre o sonho que já havia tendo há umas semanas. -Como ela era? Hm... Branquinha, ou melhor, pálida, belos cabelos negros e bagunçados, um olhar de desespero, eu acho...- Fiquei um tempinho descrevendo para mim mesma a moça do sonho. Resolvi levantar, já beirava o meio dia e eu tinha dinheiro sobrando para comer fora. -Uma boa ideia para relaxar- Falei comigo mesma. Fiquei o caminho inteiro relembrando dos detalhes do sonho, e lembrei o quão assustador era o seu vestido preto e sujo. -Acho melhor pensar em outras coisas- Pensei. Eu já estava distraída com meu lanche quando um alguém chamou minha atenção. Não que fosse só a minha, pois mais gente também havia reparado. Era uma moça linda que passava do outro lado da rua, usava um belo vestido branco sem qualquer estampa, era loira e bem penteada, tinha um lindo tom branco -quase pálido- de pele que a deixava mais atraente ainda, pois combinava com seus olhos claros que dava para distinguir o azul de longe.

Ela andava olhando para baixo, parecia timidez. Depois de uns segundos observando-a, resolvi me concentrar na minha comida, quando ela me olhou nos olhos. Não entendi como ela reparou em mim no meio de tanta gente, logo eu que estava sentada do outro lado da rua. Aquilo me deixou animada, uma moça tão bela reparou em minha presença tão repentinamente. O estranho, é que ela antes de me fitar, olhava fixamente para o chão, ficou parecendo que ela sabia que eu estava ali. Isto me arrepiou, mas ela havia me encarado -séria- por apenas uns instantes, e voltou a olhar para o chão e acelerou o passo. Fiquei meio intrigada, aquela mulher me lembrava alguém.

Eu tinha uma facilidade enorme em desenhar qualquer coisa, e foi a primeira coisa que fiz quando cheguei em casa. Me sentia inspirada aquele dia, e pensei em desenhar a moça do meu sonho. — Magra, pálida, olhos e cabelos negros, olhar penetrante. Isso dará um bom desenho.- comentei em voz baixa. Após algumas horas desenhando cada detalhe -eu era muito observadora de fato- não sabia mais o que desenhar, até que lembrei da moça que havia visto mais cedo. -Isso será interessante e um tanto doentio.- pensei comigo mesma. Comecei a desenhar e fui reparando no quanto elas eram parecidas. Grande coincidência. Quando terminei o desenho, fiquei os admirando e reparando na quantidade de semelhanças em seus traços. Eram como duas personalidades -bem e mau- de uma pessoa. Eu parecia estar falando besteiras, mas adorava fantasiar as coisas, era um dos meus passa-tempos.

A noite já chegava e mais uma vez eu ia para a cama receosa, não queria sonhar com ela novamente. Me deitei por volta da meia noite, e fiquei acordada até umas 03h da manhã. Já não aguentava mais de sono, meus olhos ardiam. Cai no sono, já com medo do que poderia acontecer. Eu sabia que era apenas um sonho, mas eram quase reais as sensações, e eu sempre acordava muito mal.

Me encontrava na mesma rua, que estava sempre de noite, e desconhecia o motivo. Desta vez eu havia me sentado num banco debaixo de uma grande árvore que haviam muitos galhos quebrados. Aquilo dava medo, só não dava mais medo pois aquela moça não estava por perto. O banco era pequeno, quebrado e velho, só davam lugar para duas ou três pessoas. Eu de fato não me sentia confortável ali, tudo me assustava. Eu não sabia o porque de eu estar sempre naquela mesma rua, deveria ter algum motivo oculto, pois eu simplesmente poderia sair andando e me esconder em algum lugar. Depois de alguns momentos sentada ali naquela rua enorme e solitária, surgiu um vento uivante muito forte, e eu assustada cobri o rosto com as mãos, até o barulho passar. Quando levantei o olhar, senti uma presença ruim perto do meu corpo, e olhei para o lado. Ela me olhava com um olhar de desgosto, parecia que queria que eu morresse. Ela estava sentada com as mãos sobre os joelhos, parecia que queria me dizer algo. Eu estava soando frio, não conseguia me mexer, não sabia para onde olhar, para onde correr. Repentinamente ela pegou a minha mão e segurou com força, parecia que transmitia uma mistura de amor e ódio. Eu já estava com os olhos arregalados* e tremendo, e não conseguia desviar o olhar do dela. Ela inclinou a cabeça para o lado, e soltou um sorriso falso. Logo depois o sorriso foi se fechando, e ela começou a ficar muito séria, e acabou apertando minha mão com muita força, machucando-a. Ela se levantou e largou minha mão enquanto isso, e foi se posicionando na minha frente. Eu levantei o rosto para ver o dela, o qual estava muito assustador. Ela tocou meu rosto com sua mão gélida de forma grosseira, e eu por reflexo joguei sua mão para longe, e ela acompanhou com os olhos, e quando voltou a olhar para mim, levou suas duas mãos ao meu pescoço.

Acordei aos gritos, podia sentir a dor na minha mão por conta do aperto grosseiro dela. O mais assustador, é que minhas mãos estavam presas ao meu pescoço.

Notas finais
*Não achei alguma palavra melhor para isso. haha xD