O celular de Harry vibrou cedo, alguns minutos depois do mesmo já ter levantado da cama e escovado os dentes. Pegou o aparelho hesitante, sabendo que finalmente alguma noticia seria anunciada. Mas, na verdade, ele não queria descobrir qual era. Estava confortável na dúvida, no resto de esperança em que se agarrou para não encarar o futuro. Leu a mensagem várias vezes, decidindo se seguia o comando ali ou fingia que ainda não a tinha lido, já que esta última opção adiaria um pouco mais a decisão que ele com certeza teria de tomar em algumas horas. Não parecia justo que logo agora que tudo estava arrumado, inclusive seus sentimentos, seus planos tivessem que mudar.

À volta pra casa passou lenta e indiscutivelmente longa. O caminho parecia estar se estendo a cada passo que Harry dava na rua; sua casa, e a possibilidade de se esconder entre seus travesseiros, cada vez mais distante. Contudo, o tempo passava igual; a distância era a mesma e a esquina em que o garoto viraria já tinha chegado. Tateou as chaves no bolso da calça, girando a maçaneta com cuidado para que nenhum barulho chamativo atraísse a atenção de seus pais para perguntas, e então entrou em casa.

Mas é exatamente nessas horas — onde tudo o que você mais quer é se perder sozinho nos lençóis da sua própria cama -, que as visitas resolvem freqüentar sua casa.

O sofá da sala de estar estava ocupado e a mesa de centro também, bandejas com algo parecido com um lanche.

\"Harry, querido, estávamos te esperando!\" então Harry olhou para mãe, observando, antes de tudo, um olhar preocupado encontrar o seu.

E, ah, ele conhecia tanto esse olhar.

Caminhou para a poltrona vazia, sentando-se sem olhar o mundo ao seu redor. Sua mãe continuava uma conversa animada com Sam, às vezes dirigindo a palavra à Dougie. Passou uns minutos brincando com seus próprios dedos, até certas lembranças voltarem a sua mente e seus olhos voltarem a arder.

\"Desculpa, mãe, mas eu estou meio cansado. Vou subir.\" adiantou-se para frente de Sam, que levantou abraçando-o.

\"É sempre um prazer vê-lo. Apareça lá em casa mais vezes, Dougie vem reclamando da sua ausência.\" Sam disse rindo ao ver a cara incrédula de Dougie. Acariciou sua bochecha, antes do maior se abaixar e beijar o topo da cabeça do loiro.

Saiu da sala, subindo as escadas rápido e nem se deu ao trabalho de trancar a porta. Largou as chaves que ainda prendia entre os dedos e se encaminhou para a janela, encostando sua cabeça no vidro gelado. Em baixo, na rua, o movimento era constante e o barulho dos carros também. Mas tudo aquilo parecia muito distante na cabeça de Harry, havia apenas uma voz feminina lá dentro, ecoando...

Não percebeu quando a porta foi aberta novamente, e um Dougie reticente adentrou ao cômodo. Não disse nada e evitou fazer muito barulho, apenas se sentou na cama e ficou olhando para o amigo na janela. Esperava o momento certo para falar alguma coisa.

\"O que ela disse, afinal?\" Dougie enfim rompeu o silêncio, só que sua pergunta apenas se perdeu no ar e pareceu irrelevante para Harry.

O moreno apenas se virou encarando o loiro, sua expressão tentando se ajustar para algo mais receptivo. Suspirou duas vezes e soltou uma risada divertida enquanto via Dougie balançar os pés e notar que havia sujado a colcha de terra, a careta do mais novo foi incomparável.

\"Mas já está rindo?\" estranhou Dougie num falso tom de surpresa. De repente seu trabalho ali fosse mais fácil e natural do que imaginava.

\"E você já está aqui?\" rebateu no mesmo tom, rapidamente abrindo um largo sorriso satisfeito que deixava claro sua intenção de brincadeira.

\"Eu posso ir embora\" Dougie se pôs de pé em um instante, sua sobrancelha erguida em indignação.

\"Não\" a voz e a expressão do mais velho se tornaram intensamente sérias, fazendo o mesmo trocar o peso nos pés e cruzar os braços com força na altura do peito.

Dougie bufou, voltando a se sentar. Finalmente foi seguido por Harry, que se acomodou ao seu lado, enlaçando os ombros do loiro com seus braços; seu rosto afundou imediatamente na curva no pescoço do outro e respirou fundo o ar, o perfume dele. E o fez com tanto gosto que parecia que não respirava há horas.

\"Ela disse que tão tem jeito mesmo, os pais já arrumaram tudo para a mudança pros Estados Unidos...\" Harry falou rápido, na tentativa de que sua conversa há algumas horas não voltasse nítida aos seus pensamentos. Apertou então mais Dougie contra sim, como se assim renovasse suas forças.

\"Ah.\" Comentou o outro, procurando pelas palavras certas. Jogou a cabeça para trás devagar, apoiando-se em Harry. \"No fim, você sabia que isso ia mesmo acontecer. Mas é bom que tenha tido um solução, mesmo que não tenha sido tão boa. Sei que vai sentir falta dela, mas se não é um namoro, será pelo menos uma amizade à distância. Afinal, ela só irá pro outro lado do oceano e vocês ainda poderão conversar horas a fio como faziam ant-...\"

\"Não quero mais falar disso\" Harry interrompeu, puxando os dois corpos para se deitarem na cama.

Um tempo passou e Dougie continuou acariciando o braço de Harry enquanto este chorava baixinho em seu ouvido, queria fazer com que suas lágrimas diluíssem aquela sensação.

Foi então que batidas rápidas na porta foram ouvidas e a mãe de Harry adentrou ao cômodo, encostando-se na porta. Dougie levantou da cama em um salto, mas nada fez com que o moreno abrisse os olhos ou se mexesse.

\"Sam está indo embora, está chamando o Dougie para... Hm, estou incomodando?\" Sra. Judd perguntou no final do aviso ao notar os olhos de Dougie buscando por algo no quarto, ou talvez em si mesmo.

\"Oh, claro que não. Harry estava, hm... Estávamos conversando.\" terminou rápido a frase, percebendo repentinamente sua ansiedade. \"Harry? Eu vou indo então, ok?\" debruçou-se na cama apenas para depositar um beijo na bochecha do mais velho, mas seu pulso foi preso assim que o apoiou no colchão.

\"Não...\" o moreno sussurrou, apertando os olhos. O nariz vermelho denunciava que o choro ainda não havia parado por completo.

A porta bateu novamente e a voz da mulher avisou que estaria esperando no andar de baixo. Passos rápidos batiam contra o piso de madeira, até o silêncio voltar ao lugar.

\"Deixa de ser bobo, mais tarde eu tô aqui de volta, lembra?\" Dougie riu mais tranqüilo, e observou no rosto de Harry um novo sorriso. Puxou o pulso em suas mãos e trouxe o corpo pequeno para cima do seu, abraçando-o forte.

A posição não era as das mais confortáveis, mas transmitia um segurança inigualável. Por fim, Harry beijou a ponta do nariz do menor e o soltou. Por sua vez, Dougie levantou-se para ajeitar suas roupas, encaminhando-se para a porta e checando em seu relógio otempo que faltava para estar de volta.