Era o fim do ano e o fim de outra fase na vida de Dougie. O garoto acabara de terminar o colegial e, a partir de agora, considerava-se quase um adulto. Os planos que regeriam essa nova fase estavam em processo de amadurecimento, idéias e possibilidades se reviravam e se debatiam na cabeça do garoto.

A idéia que surgiu naquele dia pareceu combinada. Ela apareceu na cabeça dos dois ao mesmo tempo e na exata hora em que Sam fez sua pergunta. Na hora, a mulher achou que fora a responsável por criá-la na mente dos dois jovens. No entanto, ela já havia sido cogitada, mas ignorada imediatamente.

O lugar era a casa dos Poynter durante uma tarde do final de semana. Harry assistia a um filme com Dougie, Jazzie e Sam. O primeiro encontrava-se sentado em uma extremidade do sofá de três lugares da sala e o loiro esticava-se deitado ao longo do mesmo, a cabeça apoiada sobre os braços em uma almofada e os pés envolvidos em meias descansavam no colo do amigo. A menina enrolava-se em uma coberta no sofá à esquerda deles enquanto Sam, debruçada na bancada da cozinha, divertia-se com a comédia na TV.

Durante um comercial, Sam chegou ao cômodo com dois potes grandes de pipoca. Entregou um à filha e o outro deu nas mãos de Harry, que apenas colocou uma porção na boca entregando-o logo para Dougie. Este nem notou a movimentação, segurou desatento ao pote sem nada pegar dele e apertou-se mais dentro de seu casaco. A reação não passou despercebida aos olhos de mãe, o que fez com que Sam imediatamente buscasse uma coberta e a entregasse a Harry, que a esticou sobre o pequeno corpo ao seu lado e em parte de suas próprias pernas. Sam sempre sorria admirada ao presenciar aquelas discretas demonstrações de afeto para com o filho.

\"Já está trabalhando, querido?\" a mulher cruzou as pernas ao se sentar na poltrona vazia, virando-se para Harry, antes do filme voltar. O garoto sorriu respondendo que sim e de repente toda a atenção da sala estava na conversa dos dois; inclusive Jazzie, que estava quase adormecida, ajeitou-se melhor no sofá.

Dougie rapidamente se levantou, arrancando o pano de Harry e fazendo Jazz rir pela cara divertida de indignação feita pelo mais velho. Mesmo a pergunta não tendo sido direcionada a ele, o mais novo se sentiu na obrigação de complementar a resposta.

\"Na verdade, mãe, ele que anda pagando alguma das contas na casa dele, sabia?\" Dougie começou orgulhoso, um sorriso estonteante em direção ao mais velho enquanto Harry revezava sua atenção entre a conversa com Sam e os olhos de Dougie.

\"É mesmo, Harry?\" Sam questionou, segurando uma risada divertida ao perceber o súbito interesse do filho mais velho.

\"Não é muita coisa, eu tento sempre ajudar. Assim, eu provo pros meus pais que já tenho responsabilidade e desse jeito fica fácil ganhar mais liberdade...\"

\"Ah, é? Então você trabalha para poder pedir as coisas aos seus pais ao invés de espernear e fazer birra quando não consegue o que quer? Realmente, muito maduro.” Comentou admirada “Estava vendo Dougie?\" Sam direcionou um olhar cobrador na direção do filho, os olhos semicerrados. Dougie sorriu sem graça e revirou olhos quando a mãe não olhava. Já havia entendido o recado.

A conversa e as indiretas para Dougie continuaram por algum tempo sendo depois monopolizada pelas inúmeras atribuições de Dougie a Harry, até finalmente o assunto alcançar a verdadeira razão dessa parte da história. Sam perguntou se Harry tinha planos de levar a liberdade e responsabilidade adquirida à diante. E rapidamente perguntou ao filho sua opinião.

\"Claro, já pensei algumas vezes nisso...\" o mais velho se manifestou, sendo acompanhado por um aceno de Dougie. Este agora tinha as pernas levantadas no sofá e os joelhos abraçados para se manter aquecido. O olhar dele não saia um minuto das expressões de Harry.

\"É, na idéia de... Morar sozinho.\" enfim, disseram a última parte do pensamento em uníssono.

E lá estava ela. A idéia de morarem sozinhos... Juntos se revezando agora entre as duas mentes, sendo processada ao mesmo tempo entre os dois. Os azuis logo se encontraram e estava ali a confirmação de um futuro traçado com duas linhas, mas que, no final, sempre se entrelaçariam.

Deixando o mundo ao redor sem contato, Sam só fez tirar a filha da sala e deixar os dois garotos conversando sobre o que acabara de lhes ocorrer. Jazzie não entendia o porquê da privacidade, ela queria estar lá também, discutindo as possibilidades desse novo plano, mesmo sendo poucos anos mais nova que os dois e de não ter idade ainda de pensar em sair de casa. Apesar de tudo, ela queria planejar junto com eles, mas fora arrastada de má vontade para a cozinha pela voz séria da mãe.