Behind Our Blue Eyes
2 Capítulo 1
A primeira vez ocorreu quando Dougie tinha doze anos e seu lagarto fugiu do viveiro. Sam logo avisou que não queria que aquela coisa rastejante ficasse andando perdido pela casa. No entanto, além de um bicho de estimação, Zukie era um companheiro nas noites em que Dougie não tinha sono e ficava falando até tarde da noite. Bem baixinho; não apenas para que seu amigo ouvisse, mas também para que sua voz fosse omitida dos ouvidos atentos de Sam. Além de nos dias chuvosos e frios do inverno rigoroso, quando Dougie não podia sair para brincar na rua e passava a maioria do tempo trancado no quarto.
No dia que Dougie acordou e encontrou o viveiro caído da bancada e o mesmo vazio, chegou ao colégio de olhos inchados, arrastando sua mochila pelo chão. Não olhou para ninguém a sua volta, nem mesmo cumprimentou seus amigos mais próximos. Apenas se sentou na carteira marcada pela professora, cruzou os braços sobre a mesa e debruçou seu rosto ali; escondendo seus olhos e abafando seus soluços.
\"Daqui a pouco você encontra ele...\" uma voz soou perto ao mesmo tempo em que uma mão grande passou entre seus fios claros, desarrumando-os.
\"Espero que seja por mim, e não pela minha mãe\" respondeu com a voz aborrecida e abafada. O mais novo logo se deu conta que não havia comentado sobre o acontecimento da manhã e levantou rapidamente o rosto, lembrando-se de enxugar as bochechas marcadas pelas lágrimas. \"C-como você sabe?!\"
\"Ah, Dougs, poucas coisas te deixam abatido desse jeito. Só sua mãe e seu lagar-...\" Harry começou o pensamento ajoelhando-se ao lado da cadeira do amigo, apoiando os braços na mesa do mesmo. Dougie agora olhava diretamente para o maior, os soluços reduzidos e a respiração mais calma.
\"E você\" Dougie interrompeu, sorrindo de lado discretamente. A primeira vez naquele triste dia.
O sorriso não passou despercebido por Harry, que suspirou satisfeito e honrado. Ele já havia percebido que não precisava se esforçar muito para semear um sorriso no rosto do loiro. E ser capaz disso era muito mais precioso que qualquer recompensa. Talvez porque não é todo mundo, nem todo dia, que sente o sabor de ser o motivo da felicidade de alguém.
Harry, de início, achava Dougie extremamente extrovertido e desatento. Mas eram apenas crianças! No entanto, acabou descobrindo que aprendera a amar cada detalhe daquele garoto, inclusive seus defeitos e manias. Gostava de saber que era retribuído com o mesmo sentimento. E como ele sabia? Não conseguiria explicar se tentasse. Era algo tão natural que se igualava à releitura de uma velha receita de bolo onde, de vez em quando, um ingrediente diferente e mais interessante era acrescido à lista. Na verdade, ele apenas sabia quando o assunto era Poynter.
Assim o mais velho assistiu Dougie crescer e mudar. Enquanto acompanhava seu próprio crescimento no olhar do mais novo.
\"Você podia me ajudar. Meu quarto está naquela bagunça. De repente, Zukie está escondido em baixo de alguma roupa e...\"
\"Claro, Dougs. Mas sua mãe vai fazer o almoço?\" questionou o moreno, rindo por dentro ao ver a luz que iluminou o rosto do pequeno ao ter a idéia. Passariam o dia procurando pelo animal se fosse preciso.
\"Ela sempre faz, e adora quando você vai lá.\" Dougie riu por fim, sentindo o calor das mãos de Harry envolver as suas, apertando-as de uma maneira acolhedora.
O professor anunciou sua chegada à sala de aula, interrompendo todas as conversas aleatórias. Harry se levantou em um salto, depositando um beijo entre os fios aloirados do menor. Olharam-se uma última vez e ambos tiveram a certeza que mesmo que a procura fosse em vão, encontrariam juntos uma maneira de resolver o problema.
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