Behel - Cronicas de outro mundo.

4 Rose - Deixe-me vê-la.


Lagrimas escorriam em meu rosto enquanto abraçava as minhas pernas, em canto do quarto. Dra. Rachel havia me soltado daquela maldita camisa de força, mas eu estava chorando por um motivo que não tinha nada a ver com aquela maldita clínica, eu estava chorando por estar sozinha, estava chorando pela morte da Arya, por ter sido engada por quem achei que era meu amigo, e por meu melhor amigo não estar comigo.

Apertei as minhas pernas em um abraço me encolhendo mais. “Steev onde você está?”

A porta do quarto se abriu revelando a bruxa da Dra. Rachel. Ela andou em mina direção com um prato com comida e um copo de água.

— Roselly querida, isto é para você, pode comer. – Ela se abaixou e colocou o prato na minha frente.

Olhei para o prato e virei o rosto, eu estava com fome, mas não queria comer.

— Você deveria comer garota, vai acabar morrendo deste modo. – Ela estava com os braços cruzados.

— Por que não me solta? – perguntei sem olha-la

— Está solta.

— Eu não quis dizer naquela maldita camisa de força, e sim desta maldita prisão que você chama de clínica. Estou presa aqui e não adianta você negar.

— Não estou negando. E se não quiser comer, não coma. – Ela pegou o prato do chão. – Mas acredite ficar sem comer não vai tirar você daqui, só vai fazer com que morra. E não gastaremos dinheiro enterrando você ou fazendo algum velório, como você é uma menina órfão, será apenas cremada.

— Eu sei! – gritei. – Eu sei que não tenho ninguém, eu sei que estou sozinha, mas não precisa ficar jogando isso na cara. – Lagrimas e mais lagrimas escorriam em meu rosto. – Eu não gosto de como você fala, ou de como estou sozinha, não gosto de nem mesmo ter Steev comigo.

— Eu não me importo. – Dra. Rachel se virou e andou em direção a porta.

— Espere! – Gritei. – Irei comer... Mas me responda algumas coisas.

— Diga. – Falou ela, se virando para mim e trazendo o prato de volta.

— Existe alguma possibilidade de eu sair desta clínica? – Perguntei pegando o prato.

— Sim. Mas seu estado mental tem que estar normal.

— O que quer dizer com normal?

— Eu já lhe disse que está diagnosticada com surto psicótico, quando conseguimos que se recupere, estará apta a receber alta. Caso contrário, não. Mas preciso que me ajude, o tratamento leva tempo, terá que se comportar e fazer tudo que lhe for pedido, se fizer, terá alguns privilégios.

— O que tenho que fazer? — perguntei enquanto comia.

— Para começar quero que me conta sobre você. Me conte quem é você e como tem sido a sua vida.

— Achei que você tivesse uma fixa minha e soubesse bastante. – Mais uma garfada cheia de arroz.

— Eu tenho, e eu sei. Mas faz parte do tratamento você me contar, assim podemos chegar na raiz do problema e eliminá-lo.

Ela estava sem a prancheta, o que me deixava muito melhor, mas o fato de ter que contar tudo para ela, era o que me preocupava, eu tinha certeza que iria começar a chorar a qualquer momento.

— Roselly para que você não se sinta mal, eu sei que que você não gosta de mim e me contar sobre a sua vida não ajudaria muito, então vou lhe dar este gravador para que você fale. – Ela me entregou um gravador pequeno e preto. – Quero que fale tudo, todos os dias, pode ser a hora que quiser. É como um diário de voz.

Peguei o gravador e o olhei. “Acho que assim pode dar certo”.

Dra. Rachei se abaixou e pegou o prato e copo com água, ambos estavam vazios.

— Deixarei você aqui, logo chegará cama e mais algumas coisas para você. – Dra. Rachel saiu do quarto e fechou a porta. Então liguei o gravador e comecei a gravar.

—----------------- GRAVAÇÃO DE ROSE Nº 1 —-----------------

A pior parte não foi apenas o divórcio e sim a mudança, o juiz determinou que eu iria ficar com a minha mãe, e a minha irmã com o meu pai. No início foi bem chato, pelo menos eu poderia visitar o meu pai e a minha irmã com bastante frequência, mas após a minha mãe decidir se mudar para o Rio de Janeiro. Eu nunca mais pude vê-los, apenas por chamadas de vídeo pelo Skype.

Então, minha mãe adoeceu, não gosto de lembrar disso, foi horrível, passava a maior parte do tempo sozinha em casa ou no hospital. Parei de ir para a escola, não aguentava, quando estava na escola só conseguia pensar na minha mãe naquele hospital sozinha. É horrível você está em casa com medo que o telefone toque e seja do hospital. É a pior sensação possível, a agonia de pensar que um notícia ruim pode chegar a qualquer momento. Não tinha nem vontade de comer.

Minha mãe gostava muito costurar e fazer crochê, então eu sempre levava linha para ela, era a única coisa que ela poderia fazer naquela cama de hospital, e ainda só podia fazer com uma supervisão, porque parece que ela não podia ficar sozinha com uma agulha de crochê no hospital, acho isso totalmente errado, ela deveria pelo menos poder fazer isso.

Todos os dias no horário de visita eu iria visita-la, mas nunca havia visto o Steev, até aquele dia. Fui visita-la como fazia.

— Rose – Sorriu Dra. Ângela. – Chegou mais cedo hoje.

— Pois é. – Dei um sorriso um tanto quanto forçado, não queria que ela soubesse que não estava mais frequentando a escola. Dra. Ângela, era uma das medicas que cuidava da minha mãe no hospital, e neste tempo que estava indo no hospital passava algum tempo conversando com ela de vez em quando nos corredores. – Hoje não teve aula, pois foi reunião de pais.

— Sério? Nossa por que não me disse? Eu poderia ter ido, já que sua mãe está impossibilitada e seu pai mora longe. – Ela se sentou ao meu lado no banco, onde eu sempre ficava esperando até dar o horário de visita. O banco ficava de frente a recepção, mas eu não gostava muito de conversar com as recepcionistas daquele hospital, elas sempre estava fazendo alguma coisa e quando falavam com você, nunca olhava na sua cara, sempre olhando para tela de um computador e digitando tão rápido que os meus olhos quase não acompanhavam.

— Angel, você sabe que não gosto que as pessoas façam coisas para mim, principalmente coisas que a minha mãe poderia fazer se estivesse bem. Me sinto como se ela não estivesse aqui, prefiro pensar que ela está ocupada com alguma coisa, ou esqueceu de ir na reunião.

Quando deu o horário de visita, entrei na sala e fechei a porta, comigo estava um sacola com linhas de crochê e uma agulha escondida.

La estava ela, sentada coberta com um lençol branco e sorrindo para mim, mesmo ela estando pálida e fraca, com olheiras em seu rosto e a falta de cabelo, ainda era linda, a mais linda de todas.

— Mãe, como se sente hoje? – Falei enquanto fechava a porta.

— Hoje estou um pouco melhor. – Ela sorriu.

— Trouxe algumas linhas e agulhas desta vez. – Sorri enquanto me sentada ao lado dela na cama. – Só não pode deixar a Angel pegar. – Ri, tirando tudo da sacola.

Ela sorriu para mim e fez sinal para que eu não tirasse nada da sacola, então voltei a pôr de volta lá dentro.

— Tenho um presente para você amor... – Ela tossiu. E pegou de debaixo do travesseiro um ursinho feito de crochê, ele tinha a forma de um menino, mas ele era todo de uma cor, marrom, seus olhos eram de botões um preto e um braço, e na suas costas um zíper, na barriga também continha botões 3 deles todos pretos, mas nenhum era do mesmo tamanho.

— Mãe... Ele... é lindo! – Peguei o ursinho e sorri, e à abracei e beijei sua testa. – Amei! Sério eu amei de verdade.

— Quem bom que gostou... – Ela tossiu outra vez, e passou a mão em meu cabelo. – Eu te amo meu bebê. Bom... Qual vai ser o nome dele? – Ela estava falando suavemente, dava perceber que ela não estava nada bem, e estava fazendo um esforço tremendo para se manter acordada. Era sempre assim, no horário de visita ela se mantinha acordada um pouco até não aguentar mais.

Olhei bem o ursinho e sorri. – Vai ser Steev. – Sorri. – O que acha mãe?

— Achei, um ótimo nome. – Ela pegou o Steev e falou alo no ouvido dele que no momento não tinha entendido, mas agora eu sei o que ela falou.

“Steev de mim para você, Rose deve cuidar e proteger”

— Eu te.. – Mamãe deixou Steev cair, achei que ela estava dormindo até escutar o piro barulho a minha vida, um apito que fez com que eu perdesse a respiração e o todo o ar que eu tinha nos pulmões de foram como um bexiga esvaziando. A minha visão e linha de raciocínio haviam se esvaído. Olhei para ver de onde vinha o barulho mesmo já sabendo, tudo estava em câmera lenta para mim, olhei o monitor cardíaco e ele mostrava um linha verde. Neste momentos a porta de abriu com força e vários médicos entraram correndo, um deles me puxou, então tudo voltou ao normal para mim. Comecei a gritar para que me largassem, gritei para que me deixassem vê-la, gritei e gritei, mas tudo era em vão, eu estava sendo arrastada a força para fora do quarto. Soquei um dos médicos que me segurava com toda a força que tinha, e mordi alguém, mas tudo era em vão.

Não queriam me soltar, a porta do quarto estava trancada e eles não me deixavam passar. Gritei mais e mais, comecei a socar todos que estavam na minha frente, então a porta se abriu, e um dos médicos saiu do quarto e tirou a máscara do rosto.

— Roselly, fizemos tudo que foi possível. – O médico olhou em meus olhos, ele estava dizendo que a minha mãe estava morta. Ele estava dizendo que eu não tinha mais mãe.

Gritei com toda força que eu tinha, o que não era muito, gritei até perder a voz, perdi também a força nas pernas, meu coração estava acelerado, e tudo estava rodando, a falta de ar havia voltado, dessa vez mais forte.

— Socorram ela! – Gritou alguém. — Ela está tendo um ataque.

Desmaiei.

—--------- CLINICA PSIQUIÁTRICA DR. DON VALLET ----------

Parei a gravação pois não estava conseguindo mais falar por conta do choro. Coloquei o gravador do meu lado, me deitei abraçando minhas pernas, lembrando daquela cena no hospital.

— Steev, onde você está? – Adormeci ali no chão.