Begin Again - Lost Stars
22 This Sandra Dee Says Fuck Fake Friends
Notas iniciais
Bella Swan
Foi muita ingenuidade minha achar que o dia seguinte seria normal como qualquer outro. Claro que não, quanta estupidez. Estávamos falando de Forks, uma cidadezinha insignificante onde se uma velhinha trocasse de dentadura, estaria na manchete da primeira pagina do jornal matinal. Então era obvio que o fato do recém- chegado galã da escola ter beijado a esquisita na frente da classe inteira, tenha virado a noticia mais comentada daquela manhã.
E eu fui notificada disso assim que pus meus pés no estacionamento, sendo bombardeada por burburinhos e olhares maldosos que fuzilavam nossas mãos entrelaçadas, o que me fez quase arrastar um Stefan confuso escola a dentro. O engraçado é que Stefan e eu sempre andávamos de mãos dadas, em um habito adquirido com a convivência, e as pessoas não pareciam ligar antes, mas de repente esse gesto pareceu virar um símbolo de revolução. Aquilo era tão ridículo.
Nas aulas então, nem quero citar. Por mais que eu me esforçasse em ouvir a explicação do professor, era impossível não escutar os cochichos as minhas costas, assim como os que vinham das carteiras na frente. A historia que corria era a de que Stefan havia se declarado para mim, e que lhe dei um fora em estilo novela mexicana; porem aparentemente eu só estava fazendo charme, para depois aparecer causando no estacionamento. Via-se a grande criatividade que tinham em distorcer historias, bem que podiam esse tempo com algo mais útil, como cuidar de suas próprias vidas.
Após o final da aula de espanhol, caminhei em direção aos armários para deixar minha mochila antes de seguir para o refeitório. Jessica e Lauren pareciam me esperar, encostadas perto do alarme de incêndio, ao julgar pela forma que endireitaram a postura quando me viram chegar. Torci para que fosse impressão, ao ignorar suas expressões ansiosas quando passei por elas em passos apressados. Jessica me chamou em voz alta, fazendo com que algumas cabeças se voltassem em minha direção.
Eu mereço, meu Deus, pensei ao me virar um tanto à contra gosto.
— Desculpe, meus fones estavam muito altos. — menti ao retirar um deles do ouvido, dando um sorriso meio sem graça como se estivesse envergonhada por tê-la ignorado. — O que você estava dizendo? Precisa de ajuda com algo que a Srta Gomez estava explicando?
— Não é nada disso. — afirmou ela se aproximando junto a Lauren. — Só que... Soube pelo pessoal que você e Stefan estão juntos agora... E me magoou um tiquinho você não ter me contado antes. Poxa, pensei que fossemos amigas. — Brincou ela me dando um leve tapinha no ombro com a expressão de falso ressentimento, embora seus olhos fossem opressivos de tão avaliativos.
Seu cinismo era tanto que senti vontade de rir, embora não tenha feito. É claro, que Jessica viria direto a fonte averiguar se o boato era verdadeiro, por qual motivo ela reforçaria a ideia da nossa amizade se não por buscar arrancar alguma coisa de mim? Era capaz de que estivesse magoada por não ser ela a responsável pelo boato. Mas tudo bem, já estava acostumada com aquele seu joguinho de fingimento, onde me fazia de ignorante com relação aos boatos maldosos espalhados por ela nos últimos meses, e ela fingia não se sentar comigo apenas pela popularidade.
— É que aconteceu tudo tão rápido, que na hora eu nem me lembrei disso. — justifiquei com um sorriso ingênuo ao colocar uma mecha solta atrás da minha orelha, sem corrigir sua afirmação, porque ao contrario do que ela pensava, minha vida privada não era de domínio publico.
— Eu sabia que isso ia acontecer uma hora ou outra, vocês meio que já se comportavam como namorados. Não é verdade, Law? — perguntou Jessica ao se virar para a amiga, que parecia mais concentrada em digitar algo no celular.
— Claro, só um cego não perceberia a tensão sexual entre os dois. — respondeu a loira sem tirar os olhos da tela, mostrando um claro descaso com aquele assunto. Ao menos ela era verdadeira, ao demonstrar que pouco se importava ao que era referente a mim.
Mesmo assim suas palavras tiveram o efeito de fazer uma queimação se espalhar por todo o meu rosto. Stefan e eu não nos comportávamos como namorados. Okay, sempre andávamos de mãos dadas e algumas vezes ele inclinava para cochichar algo engraçado em meus ouvidos, mas isso não quer dizer nada. Éramos melhores amigos, então era completamente justificável termos certa intimidade. Se bem que visto de fora, esses gestos devem parecer algo típico de um casal. O que eu estava pensando? Stefan e eu éramos amigos (com benefícios agora) não importava a definição que as pessoas de fora davam a nós. Nós sabíamos o que éramos um para o outro. As palavras de Jessica me confundiram, e era através disso que ela conseguia arrancar a verdade das pessoas, eu precisava me concentrar. Foco Isabella, diga alguma coisa!
— Hmm... — e o premio de melhor resposta do ano vai para mim!
— É realmente uma pena que vocês estejam começando justo agora, com a faculdade tão próxima... Você sabe, a maioria dos namoros a distancia não costuma dar certo, mas torço para que você e Stefan sejam uma exceção.
Eu não era burra o suficiente para ignorar a farpa camuflada entre sua genuína preocupação, no entanto não deixei que ela percebesse o quanto sua fala tinha me atingido, ao invés disso vesti minha melhor mascara de dissimulação.
— Ah, não. — discordei com o sorriso mais doce possível, porque sabia que não revidar diretamente iria desestabilizá-la. — Stefan e eu decidimos por cursar a mesma faculdade. Só estamos esperando as cartas de aceitação chegarem nessa ou na próxima semana, sabe como é? Para organizar as coisas de mudança e tudo mais. Já você e Mike vão cursar a mesma faculdade juntos, não é?
Percebi que estava certa em minha ultima suposição ao ver seus olhos escureceram em menção ao seu futuro com o quase namorado, estava claramente surpresa por eu ter virado o jogo contra ela. Mesmo não sendo a melhor das pessoas, jessica nutria algo verdadeiro por Mike. Algo que a fizera estragar todos os seus relacionamentos anteriores.
— Mike e eu não estamos mais juntos, você não soube?— seu sorriso simpático era duro, seus olhos me fulminavam. — Terminamos tem tipo umas duas semanas. — Ela revirou os olhos como se aquele período fosse muito grande, mas sua tentativa de parecer indiferente não funcionou muito bem, com o tom esganiçado que ela alcançou no final.
— Sinto muito. — e realmente sentia, mesmo que fosse só uma pequena e insignificante parcela de mim. Contudo não me surpreendia, eles sempre terminavam e voltavam a todo instante, porem daquela vez parecia definitivo ao julgar pela forma em que Jessica estava mal.
Detalhes que eu não notara antes, por estar dispersa com meus próprios dilemas, clarearam em minha mente; como o fato dela ter enchido a cara na festa após me ver dançando com Mike ao ponto de capotar no sofá em um quase coma alcoólico no final da noite. E até mesmo agora, olhando-a mais de perto pude notar que estava com uma aparência meio apática e com orelhas que a maquiagem não cobria muito bem.
— Não iria dar certo de qualquer forma, mesmo. — ela deu de ombros tentando soar indiferente, papel esse em que falhou. — Ele quer ficar perto de casa por isso vai para Seattle University. Já eu sonho alto e se minha carta de aceitação da UCLA chegar vou para a Califórnia. Não posso deixar uma chance dessas passar, mesmo que para isso precise abrir mão de coisas importantes em prol do meu futuro, entende?
Senti-me um pouco incomodada por Jessica estar compartilhando seus anseios e medos comigo; não éramos tão próximas assim, na verdade eu tinha certeza que Jessica me odiava. Mesmo que fosse um tipo de ódio camuflado, mas ainda sim era latente. Porem eu não era insensível o bastante para não me compadecer com a sua situação, só que esse tipo de conversa não era algo casual, que se dizia a uma pessoa no meio do corredor. Principalmente se esse alguém tinha um limitado tempo reservado para seu estomago vazio que já começava a protestar de fome.
— Perfeitamente. — Pestanejei tentando encontrar palavras de consolo que finalizasse aquela conversa rapidamente, pelo canto dos olhos eu via a maior parte das pessoas se encaminhando para o refeitório. — Essa é sua decisão e não cabe a eu julgá-la, porque você sabe o que é melhor para si mesma. Se tem uma coisa que eu aprendi até agora é que relacionamentos amorosos sempre serão efêmeros, eles acabam seja em vida ou em morte.
Aquela ultima frase estranhamente fez um arrepio percorrer minha coluna, embora eu não soubesse muito bem o motivo. A sensação fora incomoda por isso optei por ignorar me focando na conversa a minha frente.
— Diz por experiência própria?— Ela inclinou levemente a cabeça para o lado, no que parecia ser um comentário inocente se eu não estivesse com a guarda baixa o bastante para que aquilo me acertasse como um tapa.
E era exatamente por isso que eu optava por não ser legal com ninguem. Jessica era uma cadela que sabia exatamente onde atingir as pessoas, tanto para arrancar algo quanto para feri-las. Seu erro foi acreditar que esse jogo não servia para duas pessoas, pensei ao me recuperar do choque de suas palavras, sentindo minha sobrancelha se arquear de forma automática, um sorriso maldoso se formando em meus lábios.
— Claro que não, digo isso após presenciar seus inúmeros fracassos neste meio. — respondi da forma ferina que irritaria qualquer um. Minha resposta inesperada calou todos em um raio de dez metros da gente, como se minha voz tivesse ecoado feito um trovão. Até Lauren levantara o rosto do celular mediante do clima pesado que repentinamente se instalara.
Gargalhadas estrondosas escaparam das nossas bocas, ao tentarmos disfarçar a vontade que tínhamos de pular no pescoço uma da outra. Minha mão coçou para atingir aquele rosto cheio de maquiagem, mas ao invés disso, eu finquei as unhas na minha palma, forçando um sorriso largo até minhas bochechas doerem.
— Awww! É por isso que somos amigas.— afirmou Jessica ao me puxar para um abraço desconfortável e duro, antes de sussurrar no meu ouvido entre dentes. — Vadia.
— Piranha. — rebati com um sorriso congelado, apertando meus braços em torno de suas costelas com força, na esperança vã de causar um hematoma.
Quando se afastou ainda estava rindo de forma escandalosa, mas as pessoas ao nosso redor pareciam ter voltado as suas ocupações, como se nada houvesse ocorrido. Vaca mas brilhante, essa era a definição de Jessica. Ela sabia como manipular as pessoas, isso ninguém podia negar.
— Bom... Eu e a Law já vamos na frente, antes que acabem com todas as quesadillas, mas quando você chegar a mesa nós terminamos a conversa!— se despediu ela, alegre, ao enganchar seu braço com o de Lauren e praticamente guiar a loira, que do contrario daria de cara com um dos armários de tão emersa que se encontrava no aparelho em suas mãos.
Um suspiro de alivio me escapou, ao observá-las se afastarem cada vez mais no corredor. Não pude deixar de pensar no quão miserável me sentiria ao estar na pele delas, sempre se aproximando das pessoas por interesse, e nunca sendo verdadeira com ninguém. Tão hipócritas e vazias, como as barbies em que se espelhavam. Por isso eu não me preocupava em fingir ser algo que eu não era, já me cansara dessas farsas que sempre eram usadas para conseguir agradar as pessoas a nossa volta.
Andei os poucos passos até o meu armário em cima, desbloqueando rápido com a combinação. Ao abrir a porta azul escura de tintura lascada, alguns cartõezinhos multi-coloridos cairão no chão, fazendo-me agachar curiosa para saber do que se tratavam. No começo pensei que fossem panfletos de anuncio de festa, ou até relacionado ao baile de formatura que estava próximo. Porém, mal precisei abri-las direito, para me deparar com uma serie de ofensas feitas a mim, que me arrancaram alguns risos de diversão, embora soubesse que o objetivo delas era fazer o contrario.
Havíamos voltado novamente para o ginásio? Porque aquilo sem duvida era algo infantil para quem já estava praticamente com o pé na universidade. Okay, era perfeitamente aceitável que existissem pessoas que me odiavam, e eu de certa forma respeitava isso, porque seria muito mais estranho se todo mundo gostasse de mim. E se eles queriam declarar isso abertamente, tudo bem! Que fosse olhando diretamente nos meus olhos. A única coisa que eu não garantia era que sairiam com o nariz intacto, porque ai seria demais. Mas, fala serio! Eles temiam mesmo esta garota magricela por algo que aconteceu, tipo há quase cinco meses? Talvez pensassem que eu possuísse um canivete suíço no meu sapato; o que não era verdade só para deixar claro. Se bem que os anéis que eu usava serviriam como um ótimo soco inglês...
— Porque não me esperou no final da sua aula? Estava tentando fugir de mim?— indagou uma voz próxima, bem humorada, tirando-me dos meus devaneios. Stefan me observava encostado despreocupadamente no armário ao lado, em uma perfeita pose de bad boy.
Estralei a língua em decepção.
— Droga! Lá se vai meu plano super secreto de fugir para o Caribe, para aproveitar minhas férias de verão.— brinquei ao jogar minhas mãos para o alto em falsa frustração, o que fez seus olhos verdes acinzentados se iluminarem.
— Isso certamente explica o porque você estar tão dispersa a manhã inteira, sabe? Você é uma péssima mentirosa. — ele inclinou, então, a cabeça de lado parecendo ponderar. — Se bem que talvez, eu devesse ter deixado que fugisse sem mim. Tenho certeza que aproveitaria muito mais sozinha, as chuvas torrenciais e os furacões comuns nessa época do ano.
Mostrei-lhe a língua como uma criança mal criada em resposta a sua provocação, escancarando mais a porta do meu armário a fim de criar certa barreira entre nós. Seu riso de diversão ecoou como se não houvesse nada entre nós dois. Virando-me novamente para o armário, tentei esconder de forma um pouco afoita as folhas coloridas antes que ele visse e fizesse perguntas desnecessárias. O que se provou em vão, visto que agora ele me encarava com os braços apoiados em cima da porta.
— O que é isso? Cartas de amor dos seus mais novos admiradores secretos? — seu tom soou acido mesmo que ele tentasse soar descontraído, o que me deixou confusa com sua mudança abrupta de humor.
— Está mais para ameaça de morte. Isso aqui são as cartinhas das suas fãs, que não gostaram nem um pouco de saber sobre nós dois. — expliquei pendendo levemente a cabeça para o lado, antes de retirar minha mochila dos ombros e ajeitá-la no espaço mínimo vazio dentro do armário.
— Pensei que fosse você a mais nova celebridade. — disse ele com os olhos brilhando em deboche e diversão, sabendo do quanto eu estava odiando toda essa atenção que estávamos recebendo.
Parei de tentar socar minha mochila para dentro do armário, para lhe dirigir um olhar de advertência que só fez seu sorriso se alargar.
— Não depois daquela cena na quadra, Romeu. Parece que alem de dividir meus holofotes com você, terei que me acostumar com isso aqui também. — afirmei após conseguir ajeitar os objetos, fechando a porta com um ruído metálico, para depois dobrar novamente as mangas da camisa social azul de botões que eu roubara na minha ultima visita a casa do Stefan. Camisa essa que apesar de caber duas de mim era bem confortável. Para se ver como o nível de nossa intimidade tinha crescido.
— Faz parte. — concordou ele ao balançar a cabeça conformado, colocando um dos braços ao redor dos meus ombros, me dando um leve selinho antes de começarmos a caminhar para o refeitório. — Afinal, uma pessoa não é famosa sem ter seus haters.
O intervalo seguiu incomodo. Alem de perder um pouco do apetite com os olhares que pareciam nos avaliar o tempo inteiro, como se estivéssemos na porcaria de um reallity show, tive que agüentar esses olhares vindos na mesa onde sentava também. Ao começar por Tyler e Eric que mandava umas piadinhas de duplo sentido para Stefan, que me fazia sentir como se fosse um maldito pedaço de carne. Stefan até ficava sem graça, por saber que eu odiava esse tipo de coisa meio machista, e tentava mudar de assunto, mas eles sempre abriam brecha para ’’ parabenizá-lo’’. Olá? Olha eu aqui, um individuo independente que não gosta de ser tratado como objeto, sentado somente a duas cadeiras de distancia de vocês! Senti vontade de dizer, embora não o tenha feito por saber que garotos tendem a ser estupidamente imaturos daquele jeito mesmo.
Jessica e Lauren nem olharam muito para minha cara. Lauren porque costumava a me ignorar o maximo que podia, e Jessica porque com certeza ainda estava com raiva das farpas que trocamos no corredor, embora não fosse admitir isso em voz alta. Mike foi o que acabou atraindo minha atenção, ele estava calado e até mesmo cabisbaixo, mesmo que forçasse um leve sorriso quando eu lançava um olhar preocupado a sua figura. Mike geralmente era um tagarela, que em seu estado normal iria puxar uma conversa, que seria sustentado completamente por ele.
Já Ângela expressou a sua felicidade, assim como Ben, por Stefan e eu sermos um casal. Ela ainda citou uma conversa que teve com ele, sobre os sentimentos conflituosos que o mesmo esteve nutrindo por mim. Conflituoso? Ele não tinha dito que só se sentia atraído por mim? Foi o que eu pensei, confusa, enquanto ela narrava o dito momento. Mas depois conclui que o ’’conflito’’ em questão era o seu medo da minha reação, ao admitir que também se sentia atraído por mim. Era muito fofinho o fato de Stefan ter tido medo de perder minha amizade. Será que ele não percebia o quanto era importante para mim? É claro que eu nunca disse isso com palavras, até porque ele me provocaria como o bastardo que era. Porém no fundo acho que ele já sabia, ele tinha que saber...
Talvez tenha sido essa minha necessidade de ter ele por perto, que me fizera aceitar essa ideia maluca e destrutiva de amizade colorida. Eu havia ficado confusa e muito nervosa, tentando encontrar uma explicação plausível para o porque Stefan havia me beijado. Minha mente, no entanto, pareceu ter um momento de clareza quando ele gritou daquele jeito comigo. Percebi então que naquele momento estava prestes a perdê-lo. E aquilo me deixou com medo. Eu não podia deixar que ele desistisse de mim, não quando ele fora tão persistente ao ponto de penetrar nas muralhas que eu construir para me proteger. Não queria voltar a ser aquela figura miserável cuja única companhia era a solidão. Não! Ele me tornara uma pessoa melhor e eu gostava disso.
Então, sim, vendo toda a minha frágil estabilidade emocional sendo ameaçada, eu aceitei aquela proposta em um ato desesperado e impulsivo. Foi a única forma que eu achara de mantê-lo perto de mim, mesmo que estivesse com medo de tudo dar errado no final, e ele acabasse me deixando. Porque era isso que as pessoas faziam comigo. Porem ele era diferente, eu sentia isso. Eu não sabia exatamente explicar, só precisava dele comigo. Stefan era minha ancora, era o meu céu que com a sua gravidade sempre me puxava para o momento presente.
Meu temor nessa situação toda era que nossa relação mudasse de alguma forma, o que surpreendentemente não pareceu acontecer. Ele ainda me tratava de forma normal, só que havia uma certa hesitação em seus atos agora, mesmo que eu soubesse que ele só estava tentando me dar um pouco de espaço para me acostumar com a ideia, não tornava as coisas mais confortáveis. Sempre que tomava a iniciativa de me beijar, ele acariciava minha bochecha com o polegar ao erguer de leve meu queixo, como se para pedir permissão; me dando desta forma também a liberdade escolher entre aceitar ou recuar.
E eu nunca recuei.
Eu não me sentia incomodada em beijar Stefan, pelo contrario era até reconfortante. Fácil e leve, como respirar. Talvez porque fossemos amigos a cima de tudo. E eu realmente gostava disso... de beijá-lo. Gostava como a boca dele sempre tinha um sabor meio amargo de álcool ou café, que eu sabia serem suas bebidas preferidas. Também gostava de como sua pele era quente contra as pontas dos meus dedos, ou como o cheiro dele era agradável. Parecia tão certo estar daquele jeito com ele, porem a insegurança sempre me deixava com um pé atrás. Stefan era alguém encantador demais para não se apaixonar, por isso eu precisava tomar cuidado para não misturar as coisas.
Naquele mesmo dia algumas horas depois, Stefan me deixou direto em casa depois do meu turno na loja, porque ele faria hora extra até mais tarde para pagar pelo dia da festa que faltou. Eu até tentara argumentar que podia voltar sozinha numa boa, mas ele fora irredutível em sua decisão. Senti um pouco de remorço, portanto fiz questão de lhe comprar um lanche perto do meu trabalho para que ele não desperdiçasse o seu horário de janta. Já em casa, enquanto tomava um banho relaxante apos outro dia exaustivo de trabalho, relembrei do comentário inconveniente de Lauren feito pela manhã, o que desviou o foco dos meus pensamentos para a certeza de que, em algum momento próximo, minha intimidade com Stefan iria aumentar.
Porque era exatamente nisso que implicava uma amizade colorida cuja definição mais clara seria amigos que transam. ’’... Eu me sinto atraído por você...’’ fora o que ele dissera, o que obviamente significava que não permaneceríamos só nos beijos. Okay... Porem, Stefan não era um bárbaro homem das cavernas, ele não me forçaria a transar com ele como muitos namorados babacas pelo mundo. Stefan era praticamente um gentleman com aparência de bad boy. Ele não me pressionaria para fazer isso, se queria que eu retribuísse seus gestos espontaneamente. O que me dava a oportunidade de enrolá-lo o maximo possível com relação a essa questão, mas eu não queria magoá-lo.
O que me deixava receosa em toda essa questão era que até nove meses atrás minha perspectiva sobre o assunto era completamente nula. Em meu ultimo relacionamento realmente desejei ter esse tipo de contato mais intimo, embora soubesse que talvez nunca fosse possível. Ele era um vampiro, mil vezes mais forte que eu e minha frágil estrutura humana. Qualquer aperto mais forte dele poderia esmagar meus ossos e até mesmo me levar à morte, era o que ele constantemente frisava. Naquela época me contentava só de ficar perto dele, e receber seus beijos que nunca chegavam a avançar o sinal. No fundo nutria a pequena esperança de que pudesse dissuadi-lo de sua decisão com o tempo. Por isso gostava de testar seu limite, provocando-o para ver até aonde ele se manteria fiel a palavra.
Então porque eu estava nervosa, desta vez? Perguntei-me ao desligar o registro de água com a mão tremula. Era melhor que fosse com Stefan, alguém que eu conhecia e em quem eu confiava, do que com um desconhecido em um banheiro de boate qualquer, que me faria acordar sozinha no dia seguinte. Não me importava se minha primeira vez não fosse com um cara pela qual eu estava apaixonada, porque não estávamos na merda de um livro onde a mocinha entregava sua pureza como uma demonstração de amor. Stefan era o mais próximo de melhor amigo que eu tinha, por isso me sentia segura em saber que ele seria atencioso e cuidadoso comigo. E isso era mais do que eu podia desejar.
Era idiota que eu tivesse dando tanta atenção a esse detalhe, porque seria horrível como todas ’’as primeiras vezes’’ são. Meu primeiro beijo, por exemplo, foi com 14 anos com um carinha da minha sala de trigonometria em Phoenix. Foi uma droga porque o beijo tinha muita saliva, e porque nos primeiros segundos houve uma batida de dentes. Possivelmente minha primeira vez seria uma droga porque iria doer. Era essa expectativa sobre o assunto que estava me deixando nervosa. As coisas aconteceriam naturalmente, assim como os beijos pareciam ser, então tudo o que eu precisava fazer era ficar calma. Isso, ficar calma. Foi a partir desta conclusão que respirei fundo e religuei o registro para terminar o meu banho.
O assunto, porem, permaneceu na minha cabeça pelo resto da noite.
Fez um pouco de sol no dia seguinte, embora houvesse um vento gelado que contrapunha isso, portanto optei pela boa e confortável blusa de moletom. Stefan passou na minha casa para irmos à escola, e apesar de ter trabalhado até mais tarde na noite anterior, ele não tinha marcas de insônia visíveis, ao contrario de mim que já estava habituada a elas. Ele possivelmente notou que estava imersa em pensamentos durante o caminho, mas não questionou. Porem sabia que o faria mais tarde. Esse era um dos principais motivos para evitar me perder em devaneios ao seu lado, se bem que o habito tinha se tornado mais corriqueiro desde que nos aproximamos.
Sob olhares atravessados, Stefan se despediu de mim com um selinho antes de cada um seguir para a sua sala. Algo com a qual eu teria com que me reacostumar por um tempo. Os professores estavam dando atividades de recuperação, só um ou outro tirano que ainda estava fazendo avaliações, sendo estas nem um pouco difíceis para quem prestou atenção nas ultimas aulas. Quando o sinal para o intervalo tocou, fui direto para o meu armário guardar a minha bolsa. Havia um Post it colado a porta, e por um segundo eu pensei que fosse outra daquelas cartinhas ofensivas, e estava prestes a amassá-la se não tivesse reconhecido a letra.
’’ Fui a Port Angeles resolver umas coisas relacionadas a minha herança, mas volto a tempo de te levar para o trabalho. Até lá, tente não enlouquecer com a abstinência da minha presença, embora eu imagine o quão árdua seja esta batalha.
Stefan."
Idiota, foi à palavra que me veio a mente, mesmo que um sorriso bobo houvesse se desenhado nos meus lábios involuntariamente.
Claro que ele tinha de ser prepotente até nas pequenas coisas, teria sido muito mais simples se ele houvesse mandado uma mensagem de texto. Algumas vezes no mês, ele tinha que ir á Seattle resolver algumas coisas relacionados a sua herança ou coisa assim; certa vez ele deixara escapar que possuía uma produção de vinhedos na Itália e esse tipo de coisa deveria envolver atenção e fiscalização da sua parte, eu sei lá. Nem sabia como ele lidava com essa burocracia, deveria dar uma dor de cabeça danada. Nas poucas vezes que ele se ausentou eu passei o tempo em La Push, ou até mesmo em casa. Confesso que estava curiosa para saber o que havia acontecido para ele sair no meio da aula.
— Cartinhas de amor? Tá aí uma coisa que eu sinto falta dos começos de relacionamentos.— disse uma voz falsamente saudosa, mas bastante conhecida.
De novo? Isso já tá virando perseguição, elas não tem mais o que fazer?
— Sim, é melhor você não se acostumar muito com esses tipos de demonstrações românticas, elas somem depois de uns três meses.— aconselhou Jessica concordando com Lauren, ao me guiar pelo mar de pessoas até o refeitório, sendo que eu ainda nem tinha guardado minha mochila. — Depois eles só pensam em sexo, sexo e mais sexo.
— Isso quando não se enjoam e tentam te dispensar por Sms.— complementou Lauren. Porque ela não continuava a me ignorar, usando o celular para ter um pretexto plausível?
— Para tudo há exceções, não é porque nunca encontrou uma, que elas não existem.— Rebati na defensiva, tentando aparentar a convicção que eu não possuía. Stefan não era esse tipo de pessoa, ele não estava comigo só pelo sexo. No entanto estávamos no começo disso tudo, e eu não podia me assegurar de que o que ela disse não era verdade. Não se conhece uma pessoa por inteiro em tão pouco tempo, como eu conhecia Stefan. O que tornava perfeitamente cabível suas afirmações. Argh! O que estou pensando? Aquilo era completamente ridículo. Porque estava dando ouvidos a elas?!
— Ah, minha cara e inocente Bella.— Suspirou Jess como se eu fosse ingênua demais.—Todo homem muda depois da primeira vez com a garota.
A forma em que ela compôs aquela frase abriu margem para um duplo sentido da qual eu fui vitima em primeira instancia. Do contrario aquele comentário teria passado em branco se não fosse à reação que não consegui conter. Por quê?! Por que ela tinha que tocar nesse assunto quando fora ele minha principal fonte de insônia do dia anterior?
— Espera... você é virgem? — havia ares de riso de chacota em sua face, que me fez querer negar até a morte.
— Não. — Rápido demais, você só piorou as coisas, talvez fosse melhor se simplesmente tivesse se mantida calada! Minha consciência praguejou.
— Ah, é sim. — Lauren tinha convicção em sua voz, assim como um sorriso maldoso nos lábios. — Você não estaria tão corada de vergonha se não fosse.
Era injusto que Jessica tivesse pegado essa informação do ar com apenas uma reação do meu rosto, mas nada poderia eu fazer sendo ela praticamente um cão farejador para essas coisas. Que grande merda fui arranjar! Era provável, se o anuário já não tivesse saído, que embaixo da minha foto estivesse ’’a virgem’’ como definição. Mas se elas queriam que eu admitisse estavam perdendo saliva, eu nunca admitira aquilo em voz alta para elas. Nunca!
— Isso não quer dizer nada, eu fico corada a todo o momento. — desconversei ao me desvencilhar de seus braços e apertar o passo. Quanto mais cedo chegássemos ao refeitório, mais chances delas se distraírem e esquecere o assunto eu teria.
— As pessoas não ficam envergonhadas a toa, Bella. — afirmou Jessica, os saltos fazendo barulhos no chão enquanto ela tentava acompanhar meu compasso. — E você não deve se envergonhar em ser virgem. Mesmo que seja estranho, tipo muito estranho mesmo, você o ser nessa idade. Mas até que é bonitinho, sabe? Você estar se guardando para o casamento e tudo mais.
Sua resposta me fez estancar no corredor, perplexa.
— Não estou me guardando para o casamento, para falar a verdade eu nem sei se quero me casar um dia! — Exclamei horrorizada com teoria mirabolante que as duas tinham feito com apenas uma única informação. Então só porque eu não era uma vadia que sai dando para todo mundo, elas me transformaram em uma beata radical?
— Não precisa negar, Bella. Não estamos te julgando por isso.— disse Lauren, o rosto compreensivo. — Afinal porque motivo mais você usaria tantos anéis, se não para esconder seu anel de castidade?
Devia ser muito estranho visto de fora, uma adolescente abrindo e fechando a boca como um peixe semi-morto por não saber o que falar. Mas eu estava em choque por conta da lógica sem lógica que elas estavam usando para explicar suas suposições. Jessica iria espalhar aquilo pelos corredores como vingança pela minha resposta atravessada do dia anterior, como se fosse a verdade e as pessoas iriam acreditar porque já fizeram isso antes. Senti vontade de rir como uma maluca em desespero, porque era pior do que eu imaginava.
— É por isso que me sinto no dever de te dar um conselho de amiga para amiga, Bella.— começou Jéssica de modo conspiratório, vendo minha gagueira momentânea.— Garotos atraentes como Stefan, não costumam ser pacientes com esse tipo de coisa. E desculpe a analogia, mas o que ele não tem em casa vai procurar na rua.
Minhas feições endureceram com sua fala. Ela parecia verdadeiramente sentida em dizer isso, a vaca era boa mesmo nesse tipo de jogo. Eu me sentia como a Sandy de Grease, com duas Betty’s Rizzo cantando Sandra Dee pelas minhas costas para zombar de mim; mas estava cansada de ser tão complacente com essas duas peruas. Eu tentei estabelecer um bom convívio entre nós, mas chega de tentar ser boazinha com elas.
— Acho que se Stefan queria uma vadia para foder, ele teria procurado uma das duas na esquina onde trabalham. — assegurei com insolência, antes de me virar quase desfilando pelos corredores, me sentindo uma heroína de filme de ação com grandes explosões acontecendo a minhas costas. Ou quando vencia Stefan no Mortal Kombat X , era como se aparecesse ‘’Isabella ganhou! Gloriosa vitoria. Fataliti.
Mas aquilo era só a Sandra Dee aqui dizendo: foda-se os falsos amigos! Eu não precisava mesmo deles.
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