Begin Again - Lost Stars
19 Pretend I do not remember
Notas iniciais
Stefan Salvatore
"... O máximo que iria acontecer caso você fizesse aquilo, seria eu fingir que não me lembro"
"Seria fingir que eu não me lembro"
"Fingir que eu não me lembro"
Quando Isabella me disse isso naquele dia da boate, eu não levara muito a serio porque ela havia acabado de tirar uma com a minha cara; sem contar que ela estava bêbada. Quem no mundo presta atenção nas baboseiras que uma pessoa bêbada diz? Depois houve toda aquela situação com Travor, da qual eu preferia não recordar, e essa conversa toda acabou indo parar no escanteio. No entanto o que eu jamais esperaria é que Isabella levasse a serio sua palavra, principalmente quando eram pronunciadas sobre a indução de álcool; o que comprovava mais uma vez que os bêbados falavam a verdade, mesmo que de forma não intencional.
Eu esperaria todas reações possíveis depois do meu ato impensado; irritação seguida de ofensas vindo da parte dela; uma crise de histeria como a que quase teve depois de uma brincadeira insinuativa; ou até mesmo algo mais dramático, como me dar um tapa na cara e sair pisando fundo sob a promessa de nunca mais olhar para mim novamente. Algo totalmente justificável; mas Isabella não seria a garota que eu conheço se não fosse a força da natureza imprevisível que é. E talvez fosse por isso que ela constantemente me deixava perdido.
As sensações ainda eram muito vividas na minha mente; a forma em que seus lábios eram macios contra os meus com um leve resquício de sabor de gloss de tuti-fruti, assim como seu hálito gelado era doce embora tivesse um pequeno toque amargo; algo que não fez a mínima diferença enquanto nossas línguas se entrelaçavam de forma erótica e gostosa enquanto um calor agradável se espalhava do centro do meu corpo para o resto dele. Quando nos separamos em busca de ar, ao invés de reagir como os exemplos citados acima, Isabella simplesmente encarou-me no fundo dos olhos, ofegante, e esboçou um sorriso amplo antes de entrelaçar sua mão no cabelo da minha nuca, e me puxar para outro beijo de perder o fôlego.
Nós havíamos ficado ali por alguns muitos minutos, até que Isabella bocejasse dando seus primeiros sinais de cansaço; e nós dois seguíssemos até a minha casa cujo caminho dali era curto. Quando ela acordou mais tarde, com uma leve dor de cabeça agiu normalmente sem tocar no assunto, como se nada demais houvesse acontecido. Eu deveria estar satisfeito, quase feliz, porque não era exatamente isso que eu queria? Que continuássemos a nos falar normalmente, sem nenhum tipo de estranhamento? Então porque diabos eu me sentia tão incomodado, quase magoado, por ela agir como se aquele momento fosse algo insignificante?
E ao pensar numa resposta plausível para isso, as palavras profundas de Ângela vinham na minha cabeça me fazendo hesitar um pouco sobre as minhas antigas certezas concretas. ’’... querendo ou não o redemoinho que cresce dentro de você, já esta caminhando para algo maior do que imagina’’ aquela frase em especifico parecia estar marcada no meu cérebro com ferro quente, sendo conjurada diversas vezes na minha mente de forma involuntária como uma sina, que a cada dia mais parecia estar perto de se concretizar. Aquilo me deixava temeroso por não saber em que exatamente meus sentimentos estavam se transformando.
Essa questão me manteve absorto na maior parte do fim de semana; o que me rendeu algumas zombarias por parte de Tyler no trabalho, assim como broncas severas daquele porco estúpido do Dowling, como se não me bastasse ter que fazer hora extra para compensar minha falta de sexta. Mesmo que tenha reservado um pequeno período para caçar e refletir na floresta, acabei do voltando do mesmo modo: sem nenhuma resposta conclusiva sobre esse tema. Isso, é claro, até uma manhã nublada de segunda feira quando estacionei meu carro na garagem dos Swan's.
Isabella surgiu rapidamente sem que eu precisasse buzinar para anunciar minha chegada. O cabelo loiro estava preso em um coque desleixado com uma piranha, usava uma blusa branca de manga fina devido ao calor de verão que aos poucos se mostrava presente, mas essa cidade ainda era Forks, não podíamos nos esquecer. E como tal se caracterizava pelo clima chuvoso e frio a maior parte do tempo, sendo as estações do ano pouco evidenciadas. Isabella sabia disso já que dobrado em seus braços havia uma jaqueta de botão jeans, e uma sacola preta com algo volumoso dentro. Minha coragem se atiçou mais me contive.
— Oi — me cumprimentou ela ao bater a porta do carro e afivelar o cinto de segurança.
Rapidamente busquei em minha cabeça, algum tema ou assunto para se iniciar, já que se dependesse da Swan, ela ficaria calada o resto do dia, mesmo que não existisse problema algum.
— Tudo bem, escuta essa. — pedi ao dar a ré para sair do acostamento. — ’’Uma loira está no restaurante. Ela chama o garçom e, quando ele se aproxima, ela se levanta e fala baixinho no ouvido dele: — Onde é o banheiro? O garçom responde: — Do outro lado. A loira se aproxima do outro ouvido do garçom e diz: — Onde é o banheiro?’’
Isabella me encarou por um longo instante até que eu ficasse um tanto desconfortável, para depois balançar a cabeça, desacreditada, afundando no banco ao meu lado enquanto revirava os olhos.
— Essa piada foi tão ruim que eu nem sei o que dizer. — disse ela arqueando levemente uma das sobrancelhas, embora ela estivesse curvando a boca em desaprovação eu podia ver o brilho de diversão em seus olhos verdes.
— Mas a graça esta exatamente nisso. As piadas ruins são feitas para rirmos do quão idiota e sem noção elas são, e é isso que acaba alegrando nosso dia. — brinquei dando uma piscadela marota enquanto dirigia a caminho da rodovia 101.
— Se é o que acha não serei eu a destruir a sua crença. — afirmou ela em um humor sarcástico, dando de ombros como se fosse à dona da razão. Titulo esse que ela afirmava ser seu porque questões obvias de sempre estar certa. —Saiba que existem diversas pessoas loiras, na qual eu também estou incluída que quebram esse paradigma preconceituoso. — ela estreitou os olhos de leve enquanto observava a paisagem passar com velocidade pela janela do carro.
—Você tem que admitir que meio divertido, apesar de não ser algo a se levar a serio. — pedi desviando meus olhos da estrada para ela. — Eu sempre as usava para zombar de Lexi por conta de estereótipos empregado nelas, e ela odiava muito minhas piadas embora algumas conseguissem arrancar risos dela. Vocês duas iam se dar bem, tem bastante coisa em comum.— relembrei com um meio sorriso, Lexi sempre me enchia de socos com as minhas zoações mas era mais para repreender do que machucar o que tornava essas lembranças nostálgicas.
— Ta aí uma coisa que eu não sabia sobre Lexi, você costuma falar muito sobre ela, mas mesmo assim eu ainda não sei como era a aparecia dela. Bom agora eu sei que ela é loira — pontua ela de forma distraída, antes de direcionar os olhos para a minha face esperando uma resposta.
— Lexi também mantinha os cabelos longos, quase como se quisesse fazer cosplay de Rapunzel. — brinquei sorrindo de forma melancólica. — Eu não tenho certeza, mas acho que trouxe algumas fotos dela comigo para Forks. Vou procurar qualquer dia destes e depois te mostro. — prometi encarando firmemente seus olhos antes de dar uma piscadela marota.
— Ótimo, espero que saiba que promessa é uma divida para a vida toda. — pontuou ela com um ar meio ameaçador, mas logo em seguida seu rosto relaxou visivelmente enquanto se ajeitava no banco da carona colocando os pés no estofado e abraçando os joelhos antes de acrescentar — Gostaria de pedir outra coisa se não se importar.
Minhas sobrancelhas se ergueram em curiosidade, me lembrava muito bem da ultima vez que ela pediu algo importante para mim, na qual fui forçado a fazer uma promessa que nunca verdadeiramente poderia manter.
Ela suspirou parecendo cansada, mas tomou meu silencio como um sim.
— Não aja de forma tão sarcástica sem estar bravo. Já estou habituada com a sua forma cavalheiresca de agir que sempre contradiz a sua imagem de bad boy. Então não faça mais isso, é meio estranho. — pediu ela me encarando de soslaio ao morder o lábio inferior compulsivamente.
Franzi a testa em confusão, tentando encontrar algum momento em que havia sido sarcástico de forma rude sem estar verdadeiramente puto, eu nunca era rude com alguém sem motivo isso era algo mais característico do meu irmão, mas ainda sim concordei com ela.
— Okay, vou deixar esse encargo com você para que aja um equilíbrio na nossa relação. — impliquei de leve buscando arrancar um meio sorriso como eu geralmente fazia, eu sentia como se houvesse crescido um precipício entre nós deste aquele dia do beijo, e estivéssemos em um constante impasse.
Aparentemente não fui bem sucedido considerando que ela simplesmente forçou um sorriso antes de desviar os olhos rapidamente para a janela, parecendo querer evitar o meu olhar. Era obvio que ela havia ficado tensa em menção a palavra "relação" que deve ter lhe remetido a lembrança do beijo, assunto esse que ela parecia evitar. Por isso ela desviara o olhar, por que sabia que se me encarasse por muito tempo deixaria transparecer a verdade que ela queria camuflar. Os olhos de Isabella não conseguiam mentir, mesmo que desculpas falhas deixassem a sua boca.
Suspirei, me sentindo repentinamente cansado, ao encarar a estrada enquanto o silencio incomodo perdurava por alguns minutos. Eu odiava isso, parecia que havíamos voltado a estaca zero novamente, quando não sabíamos exatamente o que falar ao outro sem ser invasivo ou grosseiro demais. Mexi no radio deixando em uma estação qualquer, que tocava musicas country de fossa para preencher aquela distancia entre nós dois. Passando os olhos pelo interior do carro de forma distraída eu me deparei com a sacola preta que agora repousava em cima do seu colo.
— O que tem nessa sacola? — questionei sem conseguir conter minha curiosidade.
Isabella franziu a testa antes de olhar na direção que eu apontava.
— Uma roupa melhorzinha, todas as garotas tinham combinado de vim com algo um pouco diferente no dia da apresentação, e eu não quis pagar de diferentona. — vendo minha expressão em branco em puro desentendimento ela estreitou os olhos. — Você se esqueceu que hoje é o dia daquela apresentação do treinador Clapp, não é mesmo? Eu sabia que isso ia acontecer. — seu tom tinha um que de conformação mas eu sabia que ela estava chateada.
Isabella era assim, gostava das coisas certas na hora certa sem nenhum tipo de problema que pudesse atrapalhar sua rotina. Mas ela era assim mesmo, metódica e perfeccionista, o que tornava difícil para ela na maioria das vezes aceitar mudanças. Por isso ficou traumatizada com a partida do seu ex-namorado babaca, assim como foi rude e ríspida comigo no começo, por estar não conseguir lidar com minha estranha e repentina aproximação. Isabella não era do tipo que lida bem com mudanças, estando ela acostumada com sua zona de conforto.
Forcei uma risada sem graça, que soava muito falsa.
— Não. — aquilo não soou com a firmeza que eu queria, precisei me esforçar para empregar mais confiança. — Claro que não!— um pouco melhor, mas ela continuava me encarando com a face inexpressiva, embora a curvada boca para baixo e os olhos semi-cerrados, mostrassem seu visível tédio para o que acontecia a sua frente. — Eu estava só... Pensando em algumas peças que terei que encomendar para o concerto da sua picape se eu quiser terminar tudo em...
— Por favor, você consegue mentir melhor que isso — informou-me ela erguendo a pequena mão para parar minha diarreia verborrágica. — Serio eu sou a pior mentirosa do mundo, se sua mentira não colou comigo é porque ela foi mais que péssima.
— Tudo bem. — concordei com um suspiro resignado. — Talvez eu tenha esquecido que hoje seria o dia da apresentação.
Ela revirou os olhos para a minha afirmação feita de mal gosto.
— Então, talvez tenhamos sorte por você saber dançar essa modalidade, se fossem passos ensaiados estaríamos definitivamente ferrados. — comentou ela com a voz apática ao olhar a paisagem que da janela. — Você tem estado bastante disperso desde o fim de semana.
— Não sou o único a estar disperso. — ressaltei com rispidez, sentindo-me acuado com seu olhar avaliador. — Olhe só para nós dois, mal conseguimos trocar palavras um com o outro como se fossemos desconhecidos!
Mais direto que isso eu acho que é impossível, mas eu jogaria verde para ver até a onde ela manteria essa força e continuaríamos nessa contradição.
Ela teve a decência de parecer envergonhada, corando levemente ao desviar o olhar para o colo e morder o lábio inferior.
— Sinto muito se você teve essa impressão. — pela primeira vez naquele dia o semblante dela parecia aberto e até vulnerável. — Mas a verdade é que... faltam menos de duas semanas para as aulas se encerrarem, estando as cartas das universidades prestes a chegar... estou um pouco nervosa. — admitiu ela encarando-me através dos cílios ao mostrar o seu receio.
Era muito provável que esse não fosse o verdadeiro motivo pela qual ela estivesse criando uma distancia entre nós dois, mas essa questão com certeza assolava a mente dela, o que mostrava o quão absorto com os meus problemas e questões eu estava para não ter percebido isso. Para a maioria dos adolescentes deixar a escola marcava uma nova fase na vida deles, não para mim que já revivi esse processo um milhão de vezes durante minha eternidade. Isabella não seria uma exceção a esse caso, e talvez tenha sido exatamente por isso que ela aceitou minha ajuda. Porque o ano já estava acabando e ela não tinha feito nada verdadeiramente proveitoso para si mesmo.
Respirei fundo, optando por deixar para abordar esse assunto mais tarde por mais que me incomodasse com isso; concentrando-me no ronco suave do carro para organizar minhas idéias e encontrar as melhores palavras para confortá-la.
— Hey, não se preocupe com isso. Tudo vai dar certo no final. — disse de modo suave tentando lhe tranquilizar. Quis abraçá-la mas fiquei temeroso com a sua reação diante de um ato intimo como esse dado as circunstancias. — Na minha escola anterior minha vida esteve turbulenta demais para que eu tivesse oportunidade de fazer o SAT. Então acho que estou no mesmo barco que você. — dei um sorriso companheiro de lado, dizendo basicamente que ela não se ferraria sozinha.
Pude ver seus olhos brilharem em curiosidade com relação a minha antiga e turbulenta vida, mas ela não perguntou nada, respeitando aquela espécie de acordo de não cobrar sobre o passado do outro.
— Você não parece muito preocupado com relação a isso. — comentou por fim com a testa vincada e a boca torcida em incredulidade.
— É porque eu disfarço muito bem. — dei uma piscadela marota que foi retribuído com um dobrar de lábios de diversão e zombaria, como se ela estivesse pensando na minha péssima mentira a minuto atrás, e no quanto ela destoava a minha afirmação.
— Mas agora é serio. — avisei mudando minha expressão para uma mais firme querendo chamar sua atenção para o assunto que eu não queria desviar. — Eu sei que com a chegada da faculdade teremos novas responsabilidades, que são acrescentadas quando entramos no mundo adulto. O que causa certo medo e estranhamento. — Isabella olhava suas próprias mãos parecendo concentrada em absorver o que eu dizia. — No entanto eu me recuso a deixar esse tipo de preocupação me tomar por agora, porque isso não é algo que acontecera num futuro tão próximo. Ainda teremos o tempo de recesso inteiro para refletir sobre o assunto.
Eu tinha mesmo a incrível capacidade de discursar temas delicados, como se eu fosse, como se eu fosse alguma espécie de psicólogo que conseguisse ler a alma das pessoas. Lexi gostava de zombar de mim dizendo que eu era ’’um filosofo enrustido, preso em devaneios e sempre refletindo’’. Ela também costumava dizer que eu era bom com as palavras, bom em confortar as pessoas como se as persuadisse. Lembrei-me da maneira com a qual informei a Caroline que não planejava voltar a Mistic Falls, mas ao mesmo tempo consegui estabilizar seu estado de espírito. E era em momentos como esse que eu percebia que ela não estava totalmente errada.
— Isso foi meio poético. — ela parecia testar se a palavra se encaixava nessa definição. — Fico me perguntando quando teve tempo para refletir sobre isso.
Provavelmente no mesmo momento em que você descobriu como o futuro adulto parecia assustador.
Mas eu não disse isso, só esbocei um sorriso sem mostrar os dentes, como a maioria dos sorrisos que ela dava, e disse:
— Acredite, tempo é o que não me falta. — E ela não tinha como saber o quão literal eu estava sendo. — Mas caso ainda fique meio neurótica com isso, pense em quantas festas de faculdades teremos. Pense no tanto de farras que vamos ter, quando estudarmos juntos. — Minha voz soava sonhadora, como se eu pensasse nas possibilidades que teríamos. Mas eu não pensava realmente, era só um artifício que eu estava utilizando para animá-la.
— Como você tem tanta certeza que seremos aceitos na mesma universidades? Eu posso ser aceita em uma e você em outra, então perderíamos contatos e nunca mais nos veríamos. — sua expressão com a sobrancelha levemente arqueada mostrava que ela era uma pessoa que pensava em todas as possibilidades, e optava pela mais plausível mesmo que corresse o risco de parecer pessimista.
Mas eu somente mordi o lábio inferior para tentar conter minha diversão, por sua tentativa falha de me desanimar.
— Pensei que me conhecesse o bastante para saber que eu consigo ser bastante persuasivo quando me convém. — afirmei com um sorriso cafajeste que na maioria das vezes havia me rendido uma noite boa de foda.
Isabella arregalou os olhos com a proximidade entre nossos rostos, trancando a respiração em um ato muito comum de quando ela ficava nervosa.
— N-nossa! Acabei de lembrar que não terminei os exercícios de trigonometria da aula passada. — disse ela abrindo de forma afoita o cinto de segurança, enquanto olhava para todos os lugares que não fossem o meu rosto. Ela quase caiu para fora do carro ao abrir a porta, tamanha a ânsia em estabelecer um espaço entre nós dois. — Então, acho melhor me apressar antes que o professor chegue em sala de aula. Nos vemos depois! — se despediu ela se afastando de mim mais rápido que um demônio foge da cruz, me deixando um pouco atordoado e confuso com a sua ação.
Se em algum momento considerei mera impressão a hipótese dela estar me evitando, essa duvida fora sanada no mesmo momento com sua agitação. Eu tinha certeza absoluta que a minha fala havia lhe remetido a lembrança da nossa conversa dentro do carro na noite da festa na casa dos Stanley’s, na qual ela esboçara um incomodo semelhante. Aquilo só evidenciava o que eu já pressentia; não seria nada fácil confrontá-la com relação ao beijo, mas não era algo que eu estava disposto a deixar passar batido. Mesmo que não soubesse a razão exata para isso.
Respirando fundo optei por deixar esse assunto para outro momento, pois outra coisa martelava na minha cabeça desde o discurso motivacional que eu havia feito. Eu lhe dissera que planejava cursar a mesma faculdade, quando na verdade nunca havia de fato pensado nisso. Por quanto tempo eu planejava estar presente na vida de Isabella? Eu prometera a mim que lhe ajudaria a superar seu ex-namorado mostrando outra forma de curtir a vida. Quanto tempo isso poderia durar até que acontecesse?
Eu sabia que idéia de me manter ligado a alguém era tentadora e agradável, mas por quanto tempo eu poderia fazer isso antes que ela percebesse a minha imutabilidade? Perceber que o melhor amigo dela não envelhecesse, enquanto aos poucos suas marcas de expressão se evidenciavam, seus cabelos clareavam e sua vitalidade desbotava? Era inevitável que o tempo viria para ela, embora não para mim. Chegaria um dia que eu teria de abrir a mão de sua companhia, que teria que deixá-la ir por mais que meu coração se retorça ao pensar na possibilidade.
Caroline estava certa em dizer que estou me apegando demais, Isabella deveria ser somente mais uma entre os muitos humanos que entraram na minha vida, e a deixaram. Então porque meu apego por ela parecia maior? Porque éramos parecidos? Porque éramos duas pessoas quebradas? Porque éramos duas rochas estáticas no tempo, enquanto a maré nos contornava? Porque nos entediamos mutuamente e não tínhamos pena um do outro? Porque eu era um ser carente de atenção e afeto que se agarrava a primeira pessoa que demonstrasse um pouco de compreensão?
Não importava a razão, percebi ao apoiar minha cabeça no volante do carro, de forma derrotada. Eu continuava sendo um hipócrita filho da puta tentando ajudá-la a superar uma partida dolorosa quando planejava deixá-la sozinha da mesma maneira.
[...]
Nem as piadas sobre como eu havia deixado a festa na calada da noite para evitar a limpeza no dia seguinte, feitas por Tyler e do Mike ajudaram a levantar o meu humor sombrio e decadente. Eu concluirá que aquele era um dos dias em que se é preferível ficar em casa sem ver ninguém, junto com uma garrafa de Bourbon e musicas depressivas de fossa. Sentia-me tão mentalmente exausto com todos aqueles sentimentos conflitantes dentro de mim, que só queria ficar sozinho para refletir e entender sobre eles ou extravasar escrevendo no meu diário. Mas sabia que não poderia ir embora sem deixar Isabella magoada, por isso eu estava fazendo um esforço para me manter atento às aulas.
Parecia que todo muito desejava falar comigo naquele dia em especial, o assunto que corria pela escola ainda era sobre o show que eu e a Swan demos na festa de sexta feira. Aquilo era tremendamente irritante porque a ultima coisa que eu queria no momento era socializar, minha carranca seria e as poucas e ríspidas palavras não eram o suficiente para demonstrar isso? Aparentemente não. Ainda tinha Mike me perguntando se Isabella havia comentado algo sobre ele para mim, e tudo que eu quis fazer naquele momento foi dar um soco na cara dele para que ele calasse a boca. Mas não o fiz, ele não tinha culpa pelo meu mal humor. Embora de certa forma estivesse contribuindo para que piorasse.
— Terra, para Stefan! — disse Isabella estralando os dedos sem frente aos meus olhos. — Você escutou alguma coisa do que eu disse?
Pisquei rapidamente, tentando me situar. As três primeiras aulas tinham finalmente acabado, e eu não dormira nelas para que o tempo passasse mais rápido, por mais que aquele fosse o meu desejo. Agora eu e Isabella nos encontrávamos no refeitório lotado de falatório, depois que eu a buscara no final de sua aula como de costume. Eu tinha certeza que havia feito essas coisas embora minha mente estivesse um pouco lenta no momento. Olhei para frente vendo que ainda faltavam cinco pessoas na nossa fila do lanche.
— Não, me desculpe. — pedi esfregando minhas duas mãos no rosto em uma tentativa de ficar mais desperto e atento. Nem havia notado estar preso em devaneios. — Será que você pode repetir o que disse?
Ela bufou mordendo a parte interna da bochecha para conter uma irritação evidente.
— Eu perguntei se posso ler a introdução que você escreveu para o trabalho de biologia de hoje. — repetiu lentamente, como se eu tivesse algum problema mental, colocando as mãos na cintura demonstrando sua impaciência.
Franzi o cenho com a luz fraca do local que irritava meus olhos, totalmente perdido sobre o que ela estava falando.
— Tinha outro trabalho para hoje? — me perguntei tentando encontrar alguma coisa sobre isso na minha mente. Só depois que Isabella ficou vermelha de raiva que eu percebi que falara isso em voz alta.
— Tinha! Serio, Stefan, qual é o seu problema? Você sabia muito bem que o trabalho era para hoje, eu até liguei ontem à noite para você falando disso. — exclamou ela com indignação olhando-me de maneira mortal.
O pior é que eu me lembrava da ligação, lembrava-me de estar concentrado demais no tom sonolento da sua voz do que no conteúdo em si que ela transmitia. Naquele instante percebi que aquela atitude era algo muito estranho, digna de um Stalker.
— Calma, tenho certeza que se sair agora consigo ir a minha casa pegar o trabalho e voltar antes da aula começar. — garanti olhando meu relógio de pulso e calculando mentalmente o tempo que eu levaria para ir e voltar antes do professor chegar. Talvez eu tivesse que deixar o carro se quisesse ir mais rápido.
— Até parece, faltam cerca de vinte minutos! Você nunca conseguiria chegar a tempo a não ser que fosse a duzentos por hora, ou fosse flash! — ressaltou ela exaltada, sua voz alguns tons a cima pareceram chamar a atenção das pessoas a nossa frente, e de alguns grupos com mesas mais próximas. — Você diz que eu estou dispersa, mas é você que parece viver no mundo da lua. Caramba! Esse trabalho vale vinte pontos na media, podemos ser reprovados caso não entreguemos. — disse ela infiltrando as mãos pelos cabelos, puxando-os pela raiz com força.
Eu entendia o quanto as notas eram importantes para ela, e o quanto ficava nervosa com isso. Isabella já havia me contado que odiava fazer trabalhos em duplas ou em grupos, justamente por ter medo de contar com alguém e essa pessoa dar para trás. Era difícil para ela confiar nas pessoas, por mais que fosse em relação a coisas insignificante como aquelas. Mas ouvi-la gritar comigo, só me fizera reagir de forma ríspida em reação a confusão que se estalara em minha cabeça, que me deixava desorientado.
— Eu já entendi Isabella! — gritei perdendo a pouca paciência que me restara. — Caso eu não chegue a tempo, eu vou justificar a minha culpa nisso. Então relaxa que você não vai ficar sem a porra da sua nota azul. — conclui saindo a passos firmes e do refeitório, tentando controlar a minha respiração que saia de forma brusca como se eu fosse um touro raivoso. Ouvindo um burburinho se instalar sobre os alunos, que cochichavam sobre algo que só devia respeito a mim e a ela.
Certamente eu entendia a expressão atordoada com a qual eu a deixei, afinal eu nunca me irritara com ela ao ponto de gritar com ela. Sempre aguentava seus humores azedos, assim como suas ofensas gratuitas sabendo que aquilo era só um mecanismo de defesa dela. Sabendo que ela não fazia por mal, que ela muitas vezes nem percebia que estava sendo horrível.
Mas hoje eu não estava conseguindo encontrar a calma com a qual eu sempre lidava com isso.
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