Begin Again - Lost Stars
18 Because the after would be only after.
Notas iniciais
Stefan Salvatore
02:02 A.M.
— Eu poderia roubar sua acompanhante por algumas musicas?— questionou-me Mike quando a musica Bye Bye Bye do N’Sync passou a tocar.
Era como se ele estivesse esperando um momento oportuno como aquele, que teve direito até mesmo uma trilha sonora combinando. A contra gosto eu me separei de Isabella, quebrando aquela estranha conexão que havíamos estabelecido durante aquelas danças, embora meu rosto tenha permanecido impassível. Isabella também pareceu não gostar dessa interrupção mas pareceu sem graça de recusar o oferta que acabou aceitando. Eu me afastei da pista de dança seguindo até a cozinha para pegar outra latinha de cerveja, tentando ignorar o estranho desconforto que se instalou no começo do estômago, assim como o estranho vazio que pareceu resfriar meu sangue e diminuir o nível de adrenalina e endorfina.
Sem nenhum outro lugar para ir eu voltei para a sala, me reencostando na parede em um canto e observando de forma soturna o casal que ali parecia se destacar para mim. Abri a latinha e tomei um gole que me desceu amargo, enquanto eu me lembrava da conversa que havia tido a mais de uma semana atrás com Newton, quando Isabella fora a La Push. Me lembrava da forma tremula que ele havia surgido na minha porta quase tão pálido e de aparência doente quanto naquele dia em que levou um tiro, mas eu estava tão surpreso que a única coisa que me limitei a fazer foi dar espaço para que ele entrasse. Quando ele fez isso pude ver que ele estava mesmo era transtornado, por isso me sentei no sofá esperando que ele se sentisse confortável para começar a falar.
E ele realmente o fez, o que me surpreendeu muito. Naquele dia fazia quatro anos que o irmão dele, Will, havia morrido e por culpa dele segundo o mesmo me contou. Quando ainda morava em Los Angeles, tendo cerca de catorze anos, sua mãe, Karen, havia descoberto que seu pai Richard lhe havia traído. E o pior de tudo era que foi com uma garota menor, três anos mais velha que Mike na época, e que estudavam na mesma escola. As brigas se tornaram constantes, mas os dois se recusavam a deixar a casa como se isso desse uma vantagem para o outro, sem contar a discussão sobre quem ficaria com a guarda dos garotos, coagindo-os a escolher com quem eles queriam ficar, o que implicava em indiretamente dizer qual deles os garotos amavam mais.
E para o adolescente Mike toda essa situação era difícil de lidar. Ele passou a ter insônia, não conseguia se alimentar direito e como conseqüência acabou perdendo peso drasticamente, tendo suas notas escolares despencadas também. Mas nenhum deles pareciam perceber isso, exceto will é claro que se via muito mais indignado com a situação, por que a causa de toda essa discórdia estudava na sua sala, no entanto ele não sabia o que fazer com relação ao irmão a não ser tentar confortá-lo da melhor maneira que podia. Mas adolescentes tem uma mente muito fraca, e tendem a fazer besteira ao escolher a opção mais fácil para um alivio imediato.
E com Mike não foi diferente. No começo foi só de uma forma experimental, que pareceu dar certo. Sempre que chegava em casa e ouvia aqueles dois discutindo novamente, ele pegava o saquinho com a erva e saia de casa em sua bicicleta. Depois de algumas tragadas em um lugar mal movimentado ele já se sentia com a cabeça nas nuvens e sem nenhuma preocupação. Ele achava que tinha tudo sobre controle, usava de forma esporádicas o que não o deixaria viciado. Mas todos eles pensam assim. Acontece que as brigas na casa de Mike se tornaram mais freqüentes ao ponto de sua mãe começar a ganhar alguns hematomas, e sem perceber Mike começou a usar mais vezes que o necessário essa válvula de escape.
Kevin que naquela época era seu fornecedor lhe apresentou outros tipos de entorpecentes, assim como lhe fez a proposta de se tornar vendedor. Onde ele receberia algumas gramas de substancias, e ele deveria vender até setenta e cinco por cento, e os outros vinte e cinco ele poderia ficar como forma de pagamento. E ele aceitou sendo a forma mais viável de sustentar seu vicio. Sua vida então se tornou um grande e imenso vazio borrado, ele freqüentava a festas, dormia com varias garotas e vendia o produto, nessa ultima função ele até que era bom no que fazia. No entanto certo dia em uma festa, Will descobriu. Eles brigaram feio com direito a alguns socos, deixando bocas e supercílios cortados. E Mike por muito tempo se recriminou, pela ultima lembrança do seu irmão vivo, com os olhos decepcionados, tenha sido registrado por sua mente confusa e drogada.
Seu irmão ficou desaparecido por dois dias, mas Mike achou que ele só estivesse dando um tempo para pensar, que ainda estivesse chateado o bastante para não querer vê-lo, seus pais pareceram finalmente se preocupar com alguma coisa que não o divorcio e contataram a policia. Somente dois dias depois eles acharam o corpo do seu irmão com exatamente dois buracos de tiros no estomago. Ele nunca odiou tanto esse numero. Somente aquele acontecimento marcante pareceu tira-lo do entorpecimento em que ele havia se afundado. A única pessoa que verdadeiramente se importava com ele estava morto e o mais estranho e irônico, é que foi preciso um desastre como esse acontecer para seus pais fazerem as pazes.
Quando voltou novamente para escola estava determinado a largar esse tipo de vida, tinha certeza que era isso que seu irmão iria querer. Mas as coisas não ocorreram da forma que ele tinha planejado, principalmente quando foi informar para Kevin que estava pulando fora. Bom Kevin não aceitou isso numa boa, dizendo que o chefe não iria ficar nada feliz em perder um dos seus melhores vendedores por assim dizer, e no meio daquela conversa tentando convencer Mike a continuar com o negocio ele acabou revelando que havia sido ele a dar dois tiros em seu irmão Will, que segundo o mesmo havia ido lhe confrontar para deixar Mike em paz senão meteria a policia no meio. Tomado pela ameaça ele acabou atirando no Will. Ouvindo aquela ameaça ele partiu para cima de Kevin, mas acabou levando a pior. No final Kevin o deixou largado no meio de um beco com um quilo de drogas que ele deveria vender para ‘’a barra não ficar preta’’.
Mike então tomado pela sensação de impotência, foi até a baia de santa Monica e jogou aquilo no oceano. Ao voltar para casa ele encontrou algumas gramas de cocaína que pareceram ser o bastante para que ele tivesse uma overdose; ele não suportava a realidade de saber que a causa da morte de seu irmão fora sua. Seus pais o encontraram caído perto da cama com uma seringa ao lado, convulsionando e com febre e imediatamente ele foi levado para o hospital. Algumas horas depois de uma cirurgia de emergência, ele encontrou sua mãe aos prantos e seu pai parecendo um tanto transtornado. Finalmente eles haviam percebido o quanto aquela situação toda do divorcio tinha afetado os filhos. Pena que era tarde demais.
Mike ficou seis meses em uma clinica de reabilitação mesmo sofrendo com o luto, ele sabia que era o certo a se fazer. No entanto recebeu uma carta de ameaça de morte endereçada a si e sua família de Kevin, e movido pelo medo eles se mudaram para o lugar mais longe e imprevisível de todos: Forks, que era uma cidade pequena e de chances remotas dele ser encontrado. Ele realmente viu nessa oportunidade uma chance de recomeçar do zero, ser uma pessoa diferente. Ser uma pessoa melhor.
— O que mais me da raiva nisso tudo é que ela perdoou a traição dele. Sei que é errado, mas odeio minha mãe por isso. — disse ele quando finalizou o seu relato.
— E as investigações policias? Elas não deram em nada? Porque você não foi depor sobre isso que aquele desgraçado fez?— eu questionara um tanto indignado e curioso com relação ao assunto.
Mas sua resposta se limitou a ser um sorriso amargo.
— Tá de brincadeira? Ele conseguiu burlar a segurança da minha clinica de reabilitação, o que me garante que ele não tenha amigos na policia ou em outro lugar? O quartel para qual eu trabalhava era muito influente em Los Angeles.
Pendi a cabeça assimilando a sua resposta antes de dizer:
— Bem pensado. — e depois minha expressão endureceu quando eu fiz a pergunta mais vital, na qual me reprimi fazer quando o vi. — Mas o porque você esta aqui se abrindo comigo desse jeito?
— Primeiro porque você disse que eu podia contar com você, naquele dia da delegacia. Segundo porque ninguém mais sabe disso a não ser meus pais e você agora, e eu tenho me sentido sufocado guardando isso para mim mesmo, vendo meus pais continuarem suas vidas como se nada tivesse acontecido. Como se eu nunca houvesse tido um irmão, e eles nunca tivessem passado por uma crise no casamento.— desabafou ele, a expressão desmoronando enquanto ele apoiava os cotovelos sobre os joelhos para depois afundar o rosto entre as mãos parecendo frustrado.
Irônico como apesar de ter me mudado de Mistic Falls, as pessoas ainda me buscavam por conselhos ou simplesmente para lhes confortar como um perfeito bote-salva vidas. Primeiro, Isabella depois Mike... queria saber o que eles viam de tão reconfortador em mim para se abrirem deste jeito. Talvez eu devesse optar por uma carreira na psicologia porque como as coisas andavam...
— Eu só...— recomeçou ele hesitando um pouco antes de continuar. — Sentia que devia essa explicação a você, por ter salvado minha vida na boate. Nós mal nos conhecíamos e aquilo foi um grande ato de coragem e idiotice. A única coisa que me alivia é que não preciso mais viver a mercê do medo de que ele ira aparecer outra vez.— confessou a voz se tornando um pouco lamentosa e baixa.
A empatia dentro de mim se inflamou ao ponto de apagar o remorso que eu havia sentido ao matar Kevin. Mesmo que houvesse sido um ato impensado e guiado pela emoção momentânea, eu havia feito uma coisa boa. Nesse caso o fim realmente justificava os meios. Era bom saber que mesmo alguns dos meus atos estúpidos e egoístas tinham ajudado alguém no final. Isso me fazia sentir uma pessoa melhor.
— Você não deve nada a mim. Fiz aquilo por que achei o correto, e só me arrependeria se tivesse tido essa oportunidade de salvar uma vida e a tivesse ignorado. — o contrariei entrelaçando os dedos das mãos sobre os joelhos. Eu havia sido um baita hipócrita com relação a essa frase porque quantas vezes não tive a chance de poupar a vida de uma pessoa e a ignorei? Quantas vezes eu ignorei as suplicas das minhas vidas em prol a meu beneficio e prazer próprio?
Mike ergueu o rosto passando a mão sobre o mesmo, que voltou úmida.
— Eu também gostaria de pedir a sua permissão para uma coisa.— informou ele parecendo desta vez um pouco nervoso e temeroso, ao passar a mão sobre a nuca.
— Se for algo que estiver ao meu alcance...— dei de ombros com um pouco de descaso.
— Eu gostaria de saber se posso tentar uma aproximação com relação a Bella. Eu não quero que pense que usei a historia do meu irmão como uma espécie de coerção para que você me achasse uma pessoa mais digna. Eu sei que ela se machucou com Edward e gosto o bastante dela para não fazer o mesmo. Eu... realmente gosto dela, e gostaria de ser uma pessoa com a qual ela possa contar. — em nenhum momento quando começou a falar sobre seu pedido seu olhar cruzou com o meu se mantendo focado nas sua mãos como se fossem alguma coisa importante.
Se ele tivesse feito isso teria notado como eu enrijecera subitamente com relação a citação do nome de Isabella. Ou como as minhas mãos se fecharam em punhos bruscamente assim como a minha respiração passou a sair de forma mais pesada. Assim como também teria visto meu olhar praticamente fuzilador. Percebendo segundos depois a situação na qual me encontrava eu relaxei as minhas mãos, fechando os olhos por um segundo e respirando fundo algumas vezes para pensar com clareza. Isso me fez lembrar da Swan com a sua respiração aeróbica.
Isabella minha amiga, solteira com pretensões de ter pequenos relacionamentos casuais mas sem nenhum envolvimento amoroso. Isabella, minha amiga emocionalmente quebrada e fragilizada que eu tanto tinha cuidado nas ultimas semanas, tentando estabelecer uma relação de camaradagem e cumplicidade. Isabella, minha amiga que até então livre para se envolver com qualquer pessoa que desejasse e que eventualmente iria me deixar, como todas as pessoas que tiveram alguma passagem pela minha vida. Respirei fundo com esse pensamento.
— O que quer dizer com isso? Por acaso esta pedindo minha permissão? — minha voz saiu em um tom mais rude do que eu planejava e mesmo que tenha notado eu não fiz nada para disfarçá-la. — Eu disse que faria o possível para te ajudar se fosse algo que estivesse ao meu alcance. E isso não está. Eu não sou dono de Isabella, só amigo, ela tem livre arbítrio para escolher quem quiser. Então se quiser investir nisso vá em frente só não conte com qualquer auxilio meu. — conclui da forma mais verdadeira que pude tentando manter meu rosto impassível.
Não era porque eu achava Mike alguém que não a merecia, que significava que ela pensava da mesma forma. Eu não iria impedir Isabella de ter um futuro ou arrumar pretendentes só porque eu possivelmente poderia não estar incluso dessa nova fase da sua vida. Só porque eu era egoísta demais para deixá-la voar para longe de mim
— E-eu sei.— disse ele parecendo acuado como se estivesse preste a enfrentar uma alcateia. Nem mesmo eu que verdadeiramente enfrentei uma alcateia de lobos gigantes, fiquei com aquela expressão de " vomitar tripas".— Eu só não queria que ficasse algum tipo de clima, a gente é amigos, cara.
De repente a idéia de Mike tentar conquistar Isabella me pareceu algo hilário da qual eu não conseguia levar a serio. Ele era praticamente um mariquinha, um covardão que estava quase se borrando na minha frente, isso porque ele não conhecia Isabella que conseguia ser mil vezes pior que eu. Seria muito engraçado de se ver, ele tentando conquistar Isabella, disso eu tinha certeza assim como o de que ela não cederia tão fácil a investida de seu primeiro pretendente, tanto por conta de sua frágil condição sentimental tanto porque ela não era idiota.
Um sorriso se formou no canto dos meus lábios ao imaginar isso, o que o fez arquear as sobrancelhas loiras um pouco confuso. Mas eu somente me inclinei para trás, sentindo minhas costas estralarem, enquanto balançava a cabeça em negação, não querendo compartilhar o rumo dos meus pensamentos com ele. Mordendo a parte interna da minha boca eu me levantei apertando de forma amigável o ombro de Mike.
— Bom se é assim, boa sorte camarada, porque você vai precisar. — eu lhe dissera.
Mas olhando Isabella e ele agora dançando, enquanto ele sussurrava umas idiotices nos ouvidos dela, fazendo-a rir. Aquela situação não parecia mais tão engraçada, pelo contrario parecia tão impossível e intragável de se aceitar que fazia minha bebida descer com dificuldade e amargor pela minha garganta.
— Você não tenta nem disfarçar, não é a toa que os garotos vivem tirando sarro. — disse uma vinda do meu lado esquerdo, e quando olhei de soslaio vi uma Ângela encostada de forma casual na parede a cerca de cinco passos de mim. A maquiagem clara parecia destacar seus olhos puxados- de alguma ascendência oriental bem diluída com o passar das gerações- mesmo que estivesse usando seus óculos agora, o que parecia ser a única coisa a se destoar na fantasia.
— Porque você parece tão sóbria? — questionei verdadeiramente interessado. Sua frase soou com uma clareza vocal na qual alguém embriagado ou ao menos alterado não teria coordenação.
Ela suspirou, apoiando uma das pernas na parede também.
— Alguém tem que estar consciente o bastante para dirigir o carro. — observou ela com um dar de ombros de descaso, antes de acrescentar apressadamente. —- Não que eu me importo, sou a que menos curte exagerar na bebida então esse cargo meio que se tornou integral.
— Entendo, você não curte muito festas. — pressupus instigando-a a continuar com essa linha de raciocínio.
— Mais ou menos. Teria curtido mais se eu pudesse ter vindo com a fantasia que escolhi, no entanto Lauren me intimou a vim de uma das Spaces para não pagar de ridícula. Teria me identificado mais se estivesse de princesa Léia. — desabafou ela fazendo uma leve careta.
— Que bobeira, os garotos vieram em um duo e nem por isso se descabelaram. e no final não deu o mesmo?afinal pelo que eu vi vocês estão em trio— conclui de forma gentil mais verdadeira.
Ma ela balançou a cabeça como se eu fosse bobo demais.
— Você tinha que ter visto quando ela viu a fantasia do Tyler, quase teve um Avc, mas ele se limitou a dizer " um rei tinha que vir fantasiado de rei"— sua imitação do jeito malandro do Tyler me fez rir pele tamanha semelhança. — Ela só deixou isso para lá, porque já tinha feito sua entrada triunfal com eu, Katie e mais duas garotas do primeiro ano que vierem fantasiadas das outras integrantes, embora eu não as tenha visto mais desde o começo da festa. — explicou-me tombando de leve a cabeça no final como se realmente estivesse curiosa sobre o paradeiro das outras.
— Certo, acho que isso é bem a cara deles mesmo. — concordei forçando um meio sorriso, enquanto a conversa parecia se esvair definitivamente. Eu realmente não estava no clima para qualquer tipo de conversa, mesmo que tenha verdadeiramente apreciado nossa pequena interação. Isso por eu podia identificar o som característico das risadas de Isabella em meio a multidão com a minha audição apurada, o que me acabou deixando desconcertado o bastante para desviar o olhar e me deparar com a cena de Newton rodopiando Isabella feito uma boneca de trapos, enquanto ela gargalhava em aparente felicidade.
Foi automático, minha mão se fechou feito garras em volta da lata de cerveja, fazendo com que ela praticamente estourasse sob minha palma. Angela fez um ruído de surpresa praticamente pulando para trás com o ruído alto, mas eu mal me mexi ao sentir o liquido espumante, gelado e grudento escorrer por entre meus dedos, que furaram e amassaram a latinha como se fosse uma mera folha de papel. Um gesto tão simplório mas que deveria sempre ser meticulosamente calculado, para não ter o emprego de força demasiada da qual eu dispunha de sobra. Por isso me obriguei a respirar fundo para clarear minha mente e não fazer alguma besteira, nada de bom acontecia quando eu perdia o controle das minhas emoções, e esquecia por alguns milésimo de que eu possuía força de mais de quinze homens, sendo essa a razão de eu lutar constantemente para estar no controle de todas as minhas ações. Se eu tivesse me lembrado disso provavelmente não teria havido toda aquela historia com Travor, na qual, a propósito, poderia estar vivo á uma hora dessas.
— Se você estava tentando desviar do assunto, não esta funcionando — começou Angela retirando-me dos meus devaneios momentâneos —com essa reação funcionou menos ainda.
Segui seu olhar me deparando com a latinha que agora gotejava na pequena poça que havia se formado embaixo dela. Não era exatamente impulsivo um ser humano fazer isso mas era incomum, por isso tomei o cuidado de tampar os arrombos que meus dedos haviam feito, ao tacar a latinha para o quintal pela porta na qual estávamos próximos.
— Do que exatamente estamos falando? — questionei com a voz monocórdia sem me virar, apos limpar as mãos no tecido da calça.
— Você sabe... — pelo canto do olho pude vê-la mandar uma olhadela para o casal que eu antes observava, antes de se voltar para mim mexendo as sobrancelhas de forma sugestiva.
Franzi a sobrancelha como se tivesse falando algo em outra língua, completamente diferente e nova.
— Não.— falei lentamente. — Por favor elucide a minha mente.
Ela bufou revirando os olhos, em um gesto que me lembrou muito uma certa loirinha nervosa.
— Tá muito na cara que Mike gosta da Bella, acho que até Jessica sabe disso tanto é que o forçou a vir com ela em uma tentativa desesperada, que acabou não dando certo ao julgar pela forma em que esta se afogando em vodca na cozinha. — disse ela fazendo uma pequena careta do que pareceu ser pena e solidariedade.
— E? — insisti arqueando uma das sobrancelhas em desafio, querendo saber até a onde seu raciocínio iria levar, embora já tivesse certeza.
— Eu só quero entender o porque você esta deixando ele tentar conquistá-la. Todo mundo vê o modo que vocês dois se olham. — explicou ela esbaforida fazendo gestos com as mãos para exemplificar.
Desviei o olhar me ajeitando melhor contra a parede dura as minhas costas. Era irritante e incomodo saber que todo o esforço que fazia para disfarçar meus olhares sobre ela, aparentemente não eram nem um pouco convincentes as pessoas de fora. Mas talvez o fato de Isabella ser desligada para perceber esses tipos de sinais, fosse um fator positivo para mim. Mas nem sempre, tive que admitir com relutância, afinal ela não parecia perceber o evidente interesse de Black, nem agora com Newton.
— Isabella é livre para escolher com quem deseja ficar, somos somente amigos. — afirmei com descaso mesmo que tenha tido dificuldade para pronunciar as palavras.
— Nunca vi uma pessoa pronunciar com tanta amargura o titulo de amigo. — observou ela me olhando com empatia. — Muitos relacionamentos se iniciam com uma amizade sem prevenções, eu e Ben somos um exemplo disso.
— Você esta certa em dizer isso sobre outros casais, mas nós dois somos uma exceção com relação ao estereótipo "amigos se pegam" e eu realmente não gosto dela dessa forma.- admiti com sinceridade.
Era divertido passar meu tempo com Isabella porque estávamos sempre fazendo piadas que zoasem um ao outro, e eu gostava dessa familiaridade de voltar a ter uma vida próxima do normal sem nada de interessante que não fossem festas para ir. Eu amava Isabella como amiga, apesar de estar constantemente questionando minhas ações com relação a isso. Eu não estava apaixonado por Isabella, e Deus sabe o quão fácil isso seria se estivesse. Mas infelizmente meu coração ainda se acelerava ao pensar em Elena, minha boca ainda ficava seca ao lembrar de nossos momentos juntos, e eu ainda não conseguia gozar sem pensar nela. Aquilo que aconteceu na boate foi um mero relapso de loucura, por eu ainda estar preocupado com a Swan. Não iria estragar uma bela amizade só porque eu não conseguia manter meus pensamentos exclusivamente na cabeça de cima.
Ângela suspirou voltando seus olhos para a pista de dança assim como eu, que agradeci mentalmente por sua desistência com relação ao aluno.
— Eu acho que você esta com medo. — começou ela depois de um momento de silencio, e eu senti vontade de bater minha cabeça contra a parede por voltarmos outra vez a esse tópico. — Com medo de aceitar que isso que esta sentindo é mais que uma amizade. Você tem medo de que as coisas entre vocês mudem caso ela descubra, tem medo da rejeição ou de acabar magoando-a. — os olhos de Ângela inflamaram com a empatia como se ela pudesse entender todos os sentimentos conflitantes que se ampliavam e brigavam dentro de mim por espaço. A sensação era desagradável, ela podia enxergar através de mim como se eu fosse uma parede de vidro, não gostava de me sentir exposto desta forma.— Por isso busca explicações para o que ainda não consegue entender. Tenho certeza que justifica sua recente aversão pelo Mike por achar que ele não é uma boa influência a ela, ou que ele pode machucar mais ainda o coração dela. Assim como está tentando se convencer de que o aperto que sente no estomago... — ela cutucou-me no lugar sobre a camiseta para fazer mais ênfase a suas palavras. — É simplesmente o sentimento protetor de irmão mais velho que amigos têm em comum.
Eu fiquei quieto sentindo suas palavras pesarem sobre meus ombros como uma verdade que eu tanto tentei ignorar. Engoli em seco sem saber o que fazer com essa constatação que acabava de se revelar inegável contra os meus olhos.
— Você esta supondo que eu esteja apaixonado por Isabella. — senti vontade de rir ao admitir isso em voz alta por que era isso que ela parecia achar, tentando se basear em sintomas que claramente só representavam uma tensão sexual mal reprimida. A quantidade de bebida parecia estar fazendo um pouco de efeito no momento, tornando minha mente um pouco mais leve. — Tudo bem então, vamos supor que você esteja certa? O que me aconselha a fazer Dra. Weber? — questionei em tom de desafio. Aquilo era a coisa mais idiota que eu estava ouvindo, mas queria saber até onde ela levaria sua suposição com relação a isso.
— Não estou afirmando que esteja apaixonado. — discordou ela com o resto serio tentando conter certa irritação pelo meu aparente deboche. — Sejamos francos, Stefan, está sentindo algo a mais por ela, algo que ainda não consegue definir mesmo que fale para si mesmo que só se trata de uma ’’atração física’’— ela sorriu em escárnio fazendo aspas com as mãos enquanto pronunciava as palavras com escárnio. Eu enrijeci em menção a suas duas ultimas palavras, me sentindo um tanto acuado por ela parecer saber exatamente o que se passava em minha mente. — Talvez você devesse simplesmente parar de tentar enquadrar o que sente em uma categoria. Só... Viva... Sinta. Faça as coisas que sente vontade, porque ninguém consegue verdadeiramente controlar seus sentimentos. — opinou ela apertando de forma compreensiva o meu ombro, em uma estranha espécie de consolo.
Fiquei em silencio por alguns segundos absorvendo a profundidade de suas palavras, mesmo que ainda estivesse relutante. E de certa forma ela tinha razão. Não a quanto estar possivelmente apaixonado por Isabella, mas a tentar controlar seus próprios sentimentos. Por mais que tentasse fazer isso eu sempre acabava falhando miseravelmente; a prova disso era Elena. Tão fisicamente parecida com Katherine; mas ainda sim tão divergentes nas personalidades o que com certeza contribuiu para que eu me apaixonasse novamente. Nem para mim que possuía a opção de desligar a humanidade escapava dessa sina. É claro que no começo havia o alivio, sentir que as coisas que antes pareciam tornar minha vida absolutamente agonizante, reduzidas a nada.
Mas a escolha de bloquear os sentimentos era pior. Porque eu só estava procrastinando com relação a enfrentar essas situações que me incomodam, e isso acabava virando uma bola de neve enorme. Que acabava se tornando muito mais trabalhoso de se resolver depois. Por isso escolhi não desligar minha humanidade quando sai de Mistic Falls; porque não estaria vencendo os meus demônios interiores e sim mostrando o quanto eles me assustavam e tinha relevância sobre mim; ao ponto de eu preferir fugir em vez de enfrentá-lo. Eis então a duvida que martelava em minha cabeça; desde que eu acabei percebendo sentir coisas diferentes por Isabella: Investir mesmo sabendo que alguém iria sair ferido dessa historia?ou recuar com medo do que isso poderia resultar?
— Então esse é o veredicto de uma futura psicóloga.- afirmei depois de alguns minutos de silencio, mesmo sabendo que estava sendo covarde por me esquivar novamente, mas eu sentia a necessidade de desviar a conversa em outra direção e não pensar sobre isso no momento.
Eu havia vindo justamente nesta festa para me divertir. Sem precisar me preocupar com lagrimas, sentimentalismos e corações partidos.
— To dando muita pinta não é mesmo?— questionou ela com um meio sorriso torto.
— Só um pouco. — admiti juntando meu polegar e o indicador para mostrar a porcentagem. — Tem alguma faculdade em mente?
— Ben e eu estamos planejando cursar em uma das Ivy leagues, Mesmo que a nossa nota do SAT tenha sido alta é muita tensão até as cartas de aceitação chegarem. Nós queremos cursar na Brown, mas se formos aceitas em universidades diferentes vai ser muito mais difícil; considerando que estaremos longe de todas as pessoas que conhecemos. — desabafou ela encarando Ben que agora puxava uma Jessica beba e emburrada para a pista de dança tentando animar à amiga; que estava na fossa. Eu quase que inconscientemente sorri para a cena, porque ele realmente era um ótimo amigo.
— Acho que essa é uma preocupação na qual todo adolescente tem. adquirir independência mesmo que seja através da distancia da família. O medo de falhar sem um suporte nesse momento tão decisivo. — refleti por um momento encarando o nada, tentando encontrar a melhor forma para abordar esse assunto, já que ela parecia buscar uma espécie de consolo. — Mas a sua família sempre estará aqui para você, então não deve ter medo de voar em direção aos seus sonhos. Se o que você e Bem sentem for verdadeiro; não ira esvanecer através de apenas alguns quilômetros de distancia.
Ângela tombou a cabeça de lado me olhando com curiosidade explicita.
— Você é realmente bom com as palavras, fala como um poeta apaixonado. Não hesite com relação a correr trás do que você quer, porque querendo ou não o redemoinho que cresce dentro de você já esta caminhando para algo maior do que imagina. — sua ultima frase fez com que os pelos da minha nuca se arrepiassem, porque parecia que ela estava citando uma antiga profecia que estava para se realizar.
Engoli em seco desviando meu olhar do seu, um pouco atordoado com a intensidade deles.
— Por sorte ainda temos mais de dois meses para remoer esses assuntos. — comentei a fim de encerar o assunto, ao me desencostar da parede e me posicionar na sua frente. — Por agora vamos só curtir o momento. Concede-me essa dança?
— Claro. — ela respondeu com um meio sorriso ao se deixar ser levada para a pista de dança outra vez.
04:31 A.M
— Toma. Põe uma musica legal para não ficar esse silencio esquisito. — disse Isabella com a voz grogue ao jogar seu celular para mim enquanto cambaleava-andava no meio da pista e não no meio fio como certamente ela deveria fazer. Ela já tinha uma péssima mira quando lúcida, embriagada, então, era um outro nível. Por sorte eu tinha ótimos reflexos devido a minha permanente condição sobrenatural, o que me permitiu capturar o aparelho no ar antes que ele se espatifasse no chão ou se embrenhasse na floresta.
— Qual é a senha? — perguntei por reflexo ao dar de cara com o padrão na tela acesa.
Ela bufou em deboche, revirando os olhos ao dizer:
— Como se você não soubesse, bisbilhoteiro do jeito que é...
Eu só sorri em menção a suas palavras enquanto formava o padrão de triangulo, porque essa afirmação era verdadeira. Apertando alguns botões, eu coloquei para reproduzir musicas de forma aleatória.
— Por que esta reclamando? Você também sabe a minha. — afirmei com um meio sorriso, querendo implicar com ela.
— Sei porque é a data do meu aniversario, o que é um pouco bizarro se quer saber. — admitiu ela me observando pelo canto dos olhos, um sorriso frouxo dançando entre os lábios.
— Em minha defesa; eu ainda não te conhecia quando coloquei a senha. — me defendi de forma esquiva levantando as mãos para o alto em rendição. Um gesto aparentemente engraçado, principalmente para pessoas embriagadas, já que a fez rir como se eu fosse um palhaço.
— Verdade. — concordou ela os risos desbotando aos poucos. — Mas eu nunca iria adivinhar que você soubesse dançar tão bem a coreografia de Grease. Você sabia até mesmo imitar o "jeito Danny" de ser. — ela parou seu percurso para exemplificar, mexendo os quadris e fazendo a penteada de cabelo característica do personagem.
— Depois dessa acho que devo tomar cuidado para não perder meu posto de melhor cover de Danny Zuco. — zombei com um sorriso torto. — Mas respondendo sua pergunta implícita... Eu tenho uma quedinha pelos anos oitenta, e essa é uma das muitas coisas que também temos em comum. Gosto da forma em que os filmes daquela época retratavam os adolescentes; com toda a complexidade de se decidir a profissão da vida, a faculdade e a independência que isso trás, a experiências a serem conquistadas com o aflorecimento da sexualidade, as festas e a entrada no mundo adulto. — Isabella alternava olhares entre mim e a rua a sua frente, enquanto caminhávamos juntos pela rodovia parcialmente iluminados pelos postes de luz. Seu olhar brilhando em apreciação com a minha descrição detalhada, e por um instante me senti constrangido pela intensidade deles.
— Todos esses detalhes são retratos muito verídicos sobre o que acontece nessa época tão conturbada da vida e por isso marcaram e continuam marcando gerações. São coisas como o estilo bad boy de Danny influenciado pelo Elvis, assim como a famosa escorregada no corredor da escola do Club dos cinco; que se tornam ícones da cultura pop. Lexi era completamente apaixonada por essa época, então acho que de certa forma, esse meu gosto foi adquirido por conta da sua influencia. — terminei dando de ombros e desviando os olhos para o extenso bosque que nos ladeava. Aquilo não era totalmente mentira; eu nutria uma grande admiração nostálgica por essa década em particular; que foi permeada pela companhia e comentários idiotas de Lexi. Eu inclusive me recordava de ter falado algo semelhante a isso para Rebekah, quando tentava lhe distrair para pegar a adaga naquela confusão toda de achar a cura para o vampirismo de Silas; que obviamente não saiu como o planejado. Aquilo havia acontecido a poucos meses atrás, mas parecia algo longínquo de mais.
— Merda! — exclamou Isabella retirando-me dos devaneios momentâneos; ao tropeçar no nada subitamente. — Odeio essa porcaria, nem sei como agüentei ficar tanto tempo sentindo meus pezinhos sendo torturados. — resmungou ela se abaixando para tirar seu salto alto, passando a andar descalça segurando o par pela parte do calcanhar. — por isso eu não os uso, sempre me fazem tropeçar.
— Tenho que admitir que até eu me surpreendi nesse requisito. Eu pensei que você ia tropeçar durante a nossa performance, e nós dois pagaríamos de ridículos. — impliquei de forma brincalhona, colocando as mãos dentro dos bolsos da calça, o som da musica que escapava do celular ficando um pouco mais abafada por conta disso. No meio daquele quase breu duas luzes de faróis brilharam, se aproximando e crescendo cada vez mais. Isabella não pareceu perceber isso, pois continuou caminhando em meio a pista enquanto falava:
— Para sua informação eu não fico tropeçando toda hora, okay? É só eu prestar bastante atenção no chão onde ando que...
Puxei-a pelo braço com agilidade, tirando-a do meio da pista bem no momento que um Chevrolet prateado passava zunindo no mesmo lugar onde segundos atrás ela estava. Isabella emitiu um ruído agudo com o susto, as mãos se fechando feito garras nos meus antebraços como um gato assustado.
— Acho que olhar só para o chão não é o bastante. — minha frase zombeteira pareceu desperta-la do susto, porque ela empurrou meu abdômen para se desvencilhar antes de se virar para o carro que desaparecia na escuridão. Gritando uma serie de impróprios para o motorista com o velocímetro acima do permitido; utilizando em excesso seu linguajar chulo. Aquela cena de uma garota baixinha com o rosto vermelho xingando mais que um marinheiro era cômico demais para que eu assistisse sem rir. O que por conseqüência fez com que ela direcionasse sua ira para mim.
— Ri mesmo seu desgraçado, porque não foi você que quase foi atropelado. — ela praticamente rosnou me dando pequenos socos que eram bem dolorosos, mas a sua rima não intencional fez com que a crise aumentasse em vez de diminuir devido sua reação. Percebendo isso ela bufou passando a andar com maior rapidez para criar um certo espaço entre nós dois.
— É assim que me agradece por salvar sua vida? Com socos e ofensas? — questionei com diversão em um tom mais alto devido a distancia que ela insistia em interpor entre nós.
— Quando você é um babaca ao rir de sua amiga, sim! — concordou ela embora soubesse que essa era uma pergunta retórica.
Agachei-me para capturar seus sapatos, que ela havia se esquecido feito uma cinderela moderna e com apenas um andar mais ágil, eu estava novamente acompanhando seus passos. Afinal Isabella não era tão rápida na sua versão alterada.
— Eu que deveria estar irritado por estar sendo guiado á um lugar misterioso, da qual você não faz questão de me dizer onde fica. Sem contar sua total falta de senso de direção, que deve piorar muito quando esta bêbada. — ressaltei observando pelo canto dos olhos sua pequena figura com os braços cruzados.
— Primeiro de tudo; eu não estou bêbada só levemente alterada. — fez questão de pontuar levantando o dedo indicador como se estivesse em sala de aula. — Segundo; meu senso de direção é muito bom, okay? Caso contrario eu não teria encontrado sua casa sendo que só havia visto o caminho uma vez. Terceiro e ultimo; para onde vamos é uma surpresa, na qual você poderia esperar um pouquinho considerando que estamos quase chegando. Você deveria fazer menos perguntas, sabia?
— Você disse essa mesma frase em nossa primeira conversa. — notei com um pouco de surpresa reconfortante.
Suas sobrancelhas se franziram um pouco enquanto ela pensava no meu comentário.
— É verdade. Hoje é dia vinte e quatro de junho, faz exato um mês que nos conhecemos, parece que faz mais tempo não é? — perguntou ela se virando um sorriso quase nostálgico no rosto. Eu nunca me acostumaria exatamente com a rapidez com a qual ela parece mudar de humor, mas essa inconstância era uma das coisas que eu mais gostava nela.
— Sim. — concordei com um suspiro enquanto sentia o vento gelado contra a minha camisa fina mesmo que não estivesse exatamente com frio, já que sobre os meus ombros repousava a minha blusa com temática escolar.
Isabella estremeceu um pouco se encolhendo com os braços cruzados para tentar manter seu calor corporal.
— Cadê a sua jaqueta? — questionei ao notar somente agora que ela havia vindo com uma.
— Eu esqueci no seu carro; dentro da casa estava quente então eu nem dei com a falta dela. — disse ela parecendo uma criança pidona, com os olhos úmidos por conta do vento forte assim como o nariz que começava a se avermelhar levemente.
— Se você tivesse me passado as coordenadas do seu ‘’lugar misterioso’’, nós poderíamos ter vindo no meu carro que tem aquecedor. — informei em um tom que se assemelhava muito a de uma bronca.
— Eu não sou tão louca ao ponto de deixar você dirigir quando já bebeu mais de quatro latinhas de haineken, sendo que sua direção já é duvidosa quando você esta sóbrio. — brincou ela me olhando de soslaio ao me dar uma cotovelada de leve nas costelas.
— Bom agora é só mais tarde para recuperá-la, quando Tyler for levar meu carro.
Ela fez uma careta quando eu relembrei esse detalhe. Tyler parecia estar bastante sóbrio quando aceitou cuidar do meu carro, apesar de ter vomitado no começo da festa.
— Eu realmente espero que a minha jaqueta não fique suja com os fluidos dele e da Lauren, porque ele com certeza vai transar com ela no seu carro, porque eu vou te esganar se isso acontecer. — me alertou ela com um sorriso maroto.
Franzia a testa um pouco desacreditado enquanto refletia sobre seu alerta.
— Como você tem certeza?
— Fora o fato de que Jessica trancou todos os quartos para evitar que algum engraçadinho quebrasse algo valioso? Ou talvez tenha sido o sorriso sacana e o fato dele ter aceitado sem hesitar as suas chaves, e estar parecendo muito acordado quando já fazia mais de quatro da matina? — questionou-me ela em escárnio arqueando as duas sobrancelhas bem definidas.
— Merda, Tyler! — praguejei comigo mesmo ao pensar no trabalho que teria para retirar resquícios de esperma do meu estofado de couro sintético. Minha desgraça fez Isabella rir, se esquecendo momentaneamente do frio.
— Bom eu não posso culpar você por ser tão desligado... atchim! — sua frase foi interrompida por um espirro súbito, que fez com que ela mordesse o lábio inferior com raiva. — Merda! Ficar doente de novo não. Sabia que deveria ter ouvido o meu pai e trocado essa quase calça legue. — resmungou ela para si mesmo apertando o passo para chegar logo ao lugar misterioso.
Retirei a jaqueta dos meus ombros sentindo o vento frio açoitar minha pele como pequenos caquinhos de vidro, mas eu não ficaria doente ou morreria por ficar exposto a isso por algum tempo. Coloquei a jaqueta sobre os ombros encolhidos de Isabella, que se virou para mim surpresa antes de dar um sorriso grato.
— Obrigada. — fungou ela enfiando uma das mechas que se soltavam do seus cabelos atrás da orelha. E então entrelaçar seus dedos sobre a minha, mão não sem antes pegar seus saltos que eu ainda segurava. A mão dela era minúscula e macia apesar de estar gelada em exposição a temperatura que nos rodeava.
— E chegamos. — anunciou ela depois de alguns minutos de uma caminhada em um silencio confortável.
O céu desta vez se encontrava em um tom de azul claro puxado para o cinza, que parecia ser característico dessa cidadezinha minúscula e cômoda por conta da sua constante cobertura de nuvens. Nós nos encontrávamos sobre a ponte que passava sobre o rio Calawah, e que também fazia parte da rodovia 101 que passava pela cidade inteira. Por isso o chão parecia ser o de piche normal, no entanto longas grades de ferro ladeavam aquela parte da pista, para impedir que os carros corressem o risco de caírem no rio e fossem levados pela correnteza.
O lugar era bonito de fato, assim como vários locais da cidade, eu podia ver e ouvir o barulho do rio se movendo assim como o cheiro salgado da água que se movimentava a apenas alguns metros abaixo dos meus pés. Mas ainda sim era um local comum na qual eu poderia ter chegado dirigindo pelo meu carro normalmente. Tentei não deixar que sobre isso se tornasse irritação, porque eu sabia que Isabella enxergava as paisagens que nos rodeavam de uma forma diferente por conta da sua alma artística.
Vendo-me paralisado no lugar ela se separou de mim, andando de forma confortável até as grades de proteção verdes cujo metal tinha um pouco de ferrugem devido a constante exposição com o clima úmido. Isabella depositou os sapatos no chão antes de se sentar lá mesmo, colocando as pernas no vão das grades.
— O que você esta fazendo? — a pergunta irrompeu pela minha boca sem que eu nem mesmo percebesse, meu coração martelando rapidamente dentro do meu peito.
Vendo meu tom de alarme misturado com preocupação ela tratou logo de me esclarecer:
— Calma, eu só to sentando aqui para poder apreciar melhor a visão. Não é como se eu fosse me jogar daqui. — ela riu da possibilidade.
Mas eu não achei muita graça. Por um instante me ocorreu a idéia de que ela ia escorregar por entre os espaços dos cabos de ferro; ela era bem pequena e magra então seria muito fácil passar por ali.
— Então esse é o seu ’’lugar misterioso’’? — perguntei querendo esquecer do assunto que tinha se tornado o foco no momento. Andei a passos lentos para me posicionar sentado ao seu lado, assim também nenhum carro correria o risco de nos atropelar.
— Não seja tão esnobe. — mandou ela empurrando de leve meus ombros enquanto eu encarava o rio abaixo de nós, tendo uma visão mais ampla da água cinzenta que tinha certo contraste com o verde da vegetação que o ladeava lá em baixo. Era uma queda e tanto se acontecesse. — Foi nessa ponte que eu fui rendida quando voltava para forks no dia 16 de janeiro.
Franzi as sobrancelhas sem saber o que falar depois dessa informação inusitada.
— Hum... obrigada por compartilhar suas experiências antes de se tornar presidiária? — a frase saiu mais como uma pergunta do que um comentário. O que fez Isabella rir da minha falta de jeito.
— Eu sei que é estranho. — disse ela se recuperando dos risos antes de suspirar e encarar o céu que se mesclava junto ao rio a nossa frente. —Mas foi olhando o crepúsculo nesta ponte que não adiantava fugir do passado, mas também não adianta fingir que ele não me afetava. Porque isso só iria me fazer sofrer mais ainda. Mesmo que o resto do dia tenha servido como um grande aprendizado para mim, foi nesse exato momento que eu tomava a decisão de me render que eu de fato resolvi reagir diante da situação de marasmo que eu me encontrava. — admitiu ela em um sussurrou enquanto brincava com as mangas da blusa que repousa sobre seus ombros. — Bom, sei que o crepúsculo e o amanhecer do sol são coisas diferentes, mas acredito que os dois possuam a mesma beleza singela e tocante que me fez desmoronar.
— Eu não tenho nada a dizer se não agradecer por compartilhar esse lugar tão significativo comigo. Você não sabe o quanto esse gesto significa para mim, Isabella. — respondi de forma sincera depois de alguns segundos organizando minha cabeça. Ela meneou a cabeça antes de se virar de forma repentina em minha direção.
— Posso te fazer uma pergunta? Eu juro que não é nada muito pessoal, é só uma curiosidade. — garantiu ela rapidamente quando me viu abrir a boca para impor condições.
Balancei a cabeça de forma afirmativa, um tanto quanto curioso.
— É algo meio bobo. — avisou ela abaixando o olhar enquanto morda o lábio inferior parecendo sem jeito. — Porque você me chama de Isabella, Swan e até Miss Simpatia mas nunca de Bella?
— Acho seu nome bonito de mais para ter uma abreviação. Sem contar que desta forma como se apresentou a mim na nossa primeira conversa, mesmo que agora eu saiba que só fez aquilo para me manter afastado. — ela sorriu de leve com o fato verídico, de uma forma quase saudosa. — Também conclui que como todo mundo te chamava de Bella, era possível que Ele também o fizesse. Por isso gosto te de chamar de Isabella; porque fora o seu pai eu seria o único a te chamar desse jeito. — admite vendo a abaixar a cabeça de forma tímida suas maças do rosto adquirido um delicado tom de rosa. — Mas posso te chamar De Bella se isso te incomoda.
— Não! — ela quase gritou levantando a cabeça em um átimo para depois ver o quão pareceu afoita, diminuindo o tom de voz. — Quero dizer não precisa. Você já me chama desta forma a tanto tempo, que eu acho que seria esquisito você mudar de uma hora para a outra. — se justificou parecendo um pouco nervosa. O que quase de forma inconsciente me fez rir.
— Claro. — concordei.
— Posso te fazer outra pergunta? Ela não é pessoal, e mesmo que não me responda eu já meio que sei a resposta. — afirmou ela apoiando as mão ao lado das minhas pernas cruzadas. — Você passou Spray preto no seu cabelo, daqueles que sai com água para encarnar o Danny não é mesmo?
— É claro que nã...
Mas ela não me deixou terminar colocando o dedo indicador sobre os meus lábios, enquanto se encolhia para mais perto de mim de forma animada olhando para o horizonte a sua frente.
— Shhh! Esta finalmente começando. — disse ela com os olhos vidrados na paisagem que se transformava a sua frente.
Aos poucos os primeiros raios de sol foram traspassando as nuvens escuras mesmo que o sol em si não estivesse aparecendo totalmente. As nuvens cinzentas clarearam ao ponto de que as cores amarelo e laranja se mesclassem em um rosa e roxo provenientes dos primeiros raios da manhã, em uma paisagem estonteante e surreal que parecia ter sido pintado de aquarela, sendo refletido como num espelho mais escuro pelo rio abaixo. Era lindo, algo que acontecia todos os dias mas éramos ignorantes demais para sequer notar a obra de arte da natureza que se formava na nossa frente. No entanto não foi essa imagem que me tirou o fôlego.
E sim da pessoa sentada ao meu lado. Os primeiros raios da manhã batiam no cabelo de Isabella dando um reflexo mais arruivado como se fossem faíscas de uma fogueira, mesmo que o vento bagunçasse os cachos quase desfeitos do mesmo, que agora balançavam livremente na brisa úmida como se também fizessem parte da paisagem. Sua pele no momento se assemelhava a de uma boneca de porcelana apesar do fraco rubor nas bochechas, assim como as sardas claras que salpicavam a região abaixo dos olhos e acima na ponte do nariz. As sobrancelhas bem delineadas e os grandes cílios faziam parte da obra de arte, mas o que mais se destacavam eram seus olhos.
Sempre de uma cor clara de verde como um lago estável, ou as folhas das arvores de uma cidade ensolarada; agora eram como um show de cores estonteante, refletindo azul roxo laranja e dourado na borda da irís. Era como se eu tivesse o privilegio de ver fenômenos tão distintos em um mesmo lugar, coexistindo como irmãos. A aurora boreal e o nascer do sol. Isabella nunca pareceu tão irresistivelmente bela como parecia no momento. Representando uma figura etérea de um artista na qual pessoa alguma conhece, representando um anjo das antigas escrituras.
— Lindo, não é mesmo? — comentou ela alternando olhares entre a paisagem a sua frente e eu.
Minha boca parecia muito seca naquele momento, e eu tive que piscar algumas vezes para assimilar a sua fala e poder responder.
— Sim. — minha voz saiu rouca por um motivo que não conhecia, embora eu tivesse a certeza de que não estávamos falando da mesma coisa.
’’Só... Viva... Sinta. Faça as coisas que sente vontade, porque ninguém consegue verdadeiramente controlar seus sentimentos.’’
Ângela tinha razão. Ninguém consegue controlar de verdade seus sentimentos e emoções, muito menos os atos que fazemos quando estamos sobre os efeitos deles. Por isso quando, naquele momento, grudei meus lábios sobre os de Isabella em um ato um tanto quanto impulsivo, eu simplesmente fechei os olhos e aproveitei a sensação sem me preocupar sobre o quão culpado eu poderia me sentir depois. Porque o depois seria só depois. E no momento eu estava vivendo o presente.
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