Begin Again - Lost Stars
16 16th january: The Fall
Notas iniciais
Bella Swan
Eu continuei encarando o fogo por um momento, observando as centelhas subirem ao céu feito vagalumes, para iluminar a noite de uma forma diferente e totalmente nova. O mundo nunca esteve tão bonito, e eu quis guardar aquela visão para o resto da minha vida. Voltei para casa quando a fumaça tornou difícil respirar sem tossir. Subi as escadas me sentindo mais leve, como se tivesse carregado um peso nas costas por muito tempo e finalmente ele tivesse sido removido. Havia um alivio nisso, um frescor completamente novo.
Deitei na cama sentindo meu coração bater acelerado. Sim, bater. Como eu tinha me esquecido dessa sensação. Um sorriso verdadeiro se desenhou em meus lábios e eu fiquei surpresa por isso. Não era o maior dos sorrisos, mas ainda era um que fazia a musculatura da minha bochecha doer pelo esforço. Estava tão orgulhosa de mim mesma, por ter tomada essa iniciativa. Por estar reagindo, essa situação parecia tão surreal mais ao mesmo tempo eu queria que nunca acabasse. Eu estava aprendendo amar essa nova Bella, impiedosa e destemida. Corajosa e forte. Eu podia enxergar uma segunda chance para recomeçar. Eu não era mais a mocinha em perigo, eu poderia me tornar minha própria heroína.
Se eu estava me tornando uma nova pessoa por dentro também deveria me tornar por fora. Eu queria poder me olhar no espelho novamente sem ficar depressiva ou mal, eu queria poder me olhar em frente dele e sorrir a cada dia, dizendo ’’Sou uma vencedora, não porque eu nuca perco, mas porque eu consigo me levantar a cada queda e me tornar mais forte através dela’’ eu queria ser esta pessoa.
Com passos um tanto hesitantes eu me levantei novamente, seguindo em direção ao banheiro. Os olhos são os espelhos da alma, era o que diziam. Era por isso que eu evitava me encarar no espelho. Tinha medo do que estaria me encarando de volta, medo de enfrentar aqueles olhos quebrados como vidro estilhaçado, o vazio aterrorizante que denunciava a falta de uma alma. Mas eu não tinha mais medo, porque ela situação não iria durara para sempre.
Não foi surpresa encarar aquela garota esquelética com a pele de um branco doentio, as orelhas arroxeadas e fundas, e os lábios ressecados e cinzentos. Mas havia algo diferente ali no fundo dos olhos. Uma pontinha brilhante como fogo que parecia dar um certo brilho determinado a garota. Chegava a ser até irônico que desejasse ser uma vampira, mas tenha me transformado em um zumbi, o morto-vivo errado. Ia ser difícil, mas eu ia conseguir. Eu precisava conseguir. Precisava conseguir porque senão demonstraria, que ele exercia mais controle sobre mim do que eu mesma. Precisava vencê-lo nesses joguinhos mentais
Nunca gostei de maquiagem porque pesava meus olhos e dava sono, mas não consegui evitar em usá-la para me deixar com uma cara mais saudável. Se eu me tornaria outro alguém precisa abandonar velhos hábitos da doce e sonsa velha Bela Swan. Eu precisava ser forte na minha decisão, se bobeasse por um momento a dor me puxaria para baixo novamente. E eu não queria isso.
Eu pareço com um panda bizarro. Pensei quando terminei a minha brincadeira. Com os olhos pintados de um preto intenso, com direito a lápis sombra. Havia aplicado um pouco de blush na bochecha para dar mais cor e um batom cor de boca. Mas ainda sim tinha ficado estranho, porque eu nunca tinha feito isso na vida, sabia que devia ter prestado atenção nas dicas que minha mão havia dado quando era mais nova. Vai ver essa nova Bella, devia arriscar em algum momento ouvir punk rock, vai que eu gosto. Dei de ombros com o pensamento. Pelo visto as transformações de beleza não aconteciam do mesmo jeito que as dos filmes.
Melhor parecer um panda que um cadáver, ao menos eles eram fofinhos. Observando-me no espelho mais uma vez eu tive uma idéia. Desde os doze anos de idade eu usava lentes de contato por causa do meu pequeno problema de vista, antes disso eram óculos que eu sempre perdia ou esquecia em algum lugar. Também usava-os castanha como o do meu pai, porque era menos chamativo. Uma garota loira de olhos esverdeados me remetia aquelas garotas patricinhas babacas nos filmes, que eram sempre burras. Na minha cabeça infantil eu tinha um medinho de ficar assim quando crescesse, talvez tenha sido por isso eu começara a pintar os cabelos um pouco antes disso.
Aquela Bella era tão desconhecida para mim, que por um momento apreciei a idéia de voltar às raízes naturais. Aquilo me parecia uma boa idéia e eu quase podia ouvir uma lâmpada se acendendo em cima da minha cabeça, como nos desenhos animados. Sem pensar muito no assunto, eu enfiei com cuidado um dos dedos nos olhos tirando as lentes. Havia uma clara diferença entre a nitidez com relação a minha visão, mas eu ignorei porque tinha quase certeza que havia trazido de Phoenix meus velhos óculos de graus.
Ao me encara novamente no espelho, eu gostei mais do resultado. Meus olhos claros pareciam se destacar como dois faróis no escuro, e eu parecia muito mais com uma garota Punk que um panda agora. Tentei sorrir para mim mesmo mais ainda parecia uma careta, mas tudo bem eu teria tempo de melhorar isso. Prendi meu cabelo desta vez em um rabo de cavalo normalzinho. Voltando ao quarto eu troquei de roupa para algo mais quente, uma blusa fina e outra de moletom escuro com uma toca que eu coloquei em cima da cabeça. Peguei um pouco de dinheiro descendo a escada enquanto ouvia o ronco suave de Charlie.
Era um alivio saber que ele não tinha acordado, tinha certeza que ele seria um dos primeiros a ficar feliz com as minhas mudanças. Peguei as chaves da caminhonete mas antes de atravessar o batente da porta me deparei com o cabideiro onde Charlie guardava o coldre com sua arma de delegado. Houve uma época em que a idéia da morte parecia ser um alivio imediato, seria rápido. E então tudo o que restaria seria o mais puro e profundo nada. Mas naquela época eu era covarde e medrosa demais para tentar alguma coisa ousada como aquela. E eu havia prometido.
’’ Não cometa nenhuma imprudência, nenhuma idiotice’’ ele havia ordenado. Ele quase nunca pedia nada, e sim ordenava de forma imperativa. Ao contrario dele eu tinha palavra, eu cumpria as promessas com a qual me comprometia. Mas o que essa lealdade havia trazido para mim? Nada, só dor e tristeza. Então porque permanecer fiel a te o fim? Ele não fizera o mesmo, porque continuar como uma estúpida.
Eu acabará de ser imprudente, e isso me trousse o controle da realidade. Eu podia perceber tudo ao meu redor como nunca senti antes e isso era tão incrível. Por isso qual é o sentido de manter uma promessa falha?A velha Bella certinha certamente faria isso. Porque isso era uma forma de fortalecer a memória dela. Mas a nova Bella, não. Ela não se importa com a opinião das pessoas, faz o que quer e se sente bem com isso. Era isso que eu faria.
Presa por uma espécie de atração magnética eu me vi pegando a pistola, sentindo o metal frio e pesado contra meus dedos. Quando pequena Charlie sempre tirava as balas, com medo de por acaso acabasse atirando em mim mesma. Ele havia parado quando fiquei maior, e eu duvidava que ele tivesse voltado com esse habito depois daquela semana, afinal eu mal ficava na sala. Nunca suportara o barulho irritante da teve. Mas mesmo assim não pude deixar de admirar a capacidade mortífera que uma coisinha tão pequena como aquela poderia ter. A espécie de poder que ela trazia; poder de decidir quem vive e quem morre como deuses. Algo quem não deveria ser da jurisdição humana.
Por um curto momento o vazio agonizante com o qual eu constantemente lutava para reprimir, me alcançou se envolvendo ao redor de vim como uma cobra peçonhenta. O cansaço no momento parecia tão intenso e a liberdade tanto almejei tão perto que não pude evitar de contemplar a possibilidade. Era tão estupidamente simples de se fazer, só era necessário mirar e apertar o gatilho e então estava feito. Eu nem havia percebido que minha mão tinha se mexido até que senti o metal gelado entre meus dedos trêmulos roçar na minha têmpora. Fechei os olhos apreciando a sensação de ter a escolha literalmente sobre minhas mãos.
Era tão tentador. Eu nem precisaria passar pelas outras fases desgastantes da superação, eu não teria recaídas para me lembrar do quão difícil seria essa jornada. Eu não precisaria sofrer para tentar superar nem me recriminar por me apegar aos momentos, porque nada iria existir. Porque tudo seria tão rápido que eu sequer teria tempo de sentir culpa, remorço ou dor. Meu coração pulsava rápido quase como se eu tivesse tendo um ataque cardíaco, mas isso não me impediu de enroscar o dedo sobre o gatilho de forma mais firme. Apertei os olhos fazendo com que pontos de luz branca brilhassem no escuro e respirei fundo.
’’Bella, pare com isso agora mesmo!’’ Ordenou a voz aveludada parecendo extremamente furiosa
Meu coração perdeu a batida por um segundo, meus músculos travando-me no lugar. Abri os olhos arregalando-os em choque minha respiração saindo de forma ruidosa enquanto eu virava o meu corpo bruscamente em direção ao som. Meus olhos perscrutaram todo o lugar a minha volta não encontrando absolutamente nada que indicassem a presença de alguém. Quando meu coração voltou a bater novamente era de forma irregular e acelerada como minha respiração. Cambaleei para trás enquanto minha cabeça girava loucamente tentando encontrar uma justificativa plausível.
Então eu tinha finalmente enlouquecido. Eu não estava nem um pouco surpresa para falar a verdade, minha mente tinha agüentado bem mais do que eu esperava, considerando o inferno em que minha insignificante existência tinha se tornado. Meu psicológico tinha ficado fragilizado e caótico demais para agüentar o excesso de informação de hoje que, somado a alta carga de adrenalina e sentimentos anteriormente soterrados, haviam me feito entrar em colapso. Era tão inacreditavelmente irônico mais o amor tinha literalmente me levado a loucura. Agora sim Charlie possuía argumentos mais que suficientes para me despachar para alguma clinica psiquiatra bem longe daqui.
Mas porque justo agora? A voz poderia ter aparecido para mim quando achei os presentes ou quando os queimei em um ato de rebeldia, mas porque tinha que ser justo agora? Bem no momento em que eu decido quebrar a minha promessa estúpida? Seria essa uma tentativa do meu subconsciente de se apegar a alguma coisa referente a ele, considerando a minha iniciativa de superação? Isso quer dizer que talvez eu esteja no caminho certo? Que eu finalmente estava chegando na zona limite que me faria ver se eu era forte o suficiente para sustentar essa decisão?
Eu não sabia a resposta mas conclui que se eu realmente tinha entrado em pane que mal tinha em aproveitar, ao menos um pouco da minha loucura alucinógena? Eu precisava testar meus limites. Precisava ver se era forte o suficiente para encarar ele de frente sem sucumbir. A arma ainda roçava na minha cabeça e desta vez ao posicioná-la novamente, eu não fechei os olhos. Queria ter a certeza se realmente era coisa da minha cabeça, afinal vampiros tem maneiras de estarem em lugares sem de fato aparecer. Minhas mãos estavam úmidas mas não tremiam mais, o dedo indicador pressionado levemente o gatilho.
’’ Você prometeu... nada de idiotices, lembra?’’
A voz dele soou novamente tão claro e real como se ele estivesse ao meu lado, sussurrando com seu hálito gelado e adocicado em meu ouvido. Não pude evitar que os pelos da minha nuca se arrepiassem em uma reação normal a ele. Engoli em seco sentindo minha garganta seca como se eu tivesse caminhado no deserto por dez dias. Eu não tinha a certeza de que responder em voz alta me faria parecer mais louca ou faria a ilusão se dissipar. Talvez os dois.
Assim como você prometeu que eu viveria uma vida sem interferência sua? Como se você não tivesse existido? Lembrei-lhe, citando suas palavras com um amargor que salpicava minha língua. Meus olhos ardiam enquanto rodavam a sala vazia como se eu pudesse achá-lo ali.
’’ Por favor, não seja difícil. Cumpra com a sua promessa.’’
Ordenou ele como se estivesse impaciente, a frase soando terrivelmente com algo que ele falaria se estivesse ali. Talvez seja por isso que a raiva extinta que eu sentia antes, tenha se reacendido como uma fogueira a qual é adicionada álcool. Ele não tinha a porra de direito nenhum de exigir que eu faça algo que nem mesmo ele pode cumprir. Eu podia sentir a irritação queimar o meu nariz e fazer minhas mãos pinicarem para socar alguma coisa. Agora mais do que nunca eu queria meter uma bala na minha cabeça só para ter o prazer de mostrar que eu fazia o que quisesse, só para mostrar que suas palavras não tinham nenhum apelo sobre mim.
’’Nós dois sabemos que você não tem a determinação e impulsividade necessária para um ato como esse’’
A voz dele desta vez soava presunçosa e zombeteira, como se ele tivesse essa certeza por me conhecer bem o bastante, isso fez com que eu trincasse os dentes e pressionasse com mais força a arma contra a minha cabeça. Eu era uma pessoa diferente agora, com outro tipo de personalidade que ele desconhecia, eu podia fazer isso; pensei com o Maximo de determinação que tinha reunido, antes de fechar os olhos para segundos depois abri-los novamente com um grunhido de frustração.
’’ Eu te disse’’ ele retrucou com aquela risada angelical que agora só alimentava minha ânsia por descarregar todo o cartucho na arma em seu corpo duro como mármore, embora eu soubesse que o único efeito que resultaria seria uma camiseta esburacada.
Ele estava certo em dizer que eu não tinha determinação o bastante para isso, mas eu não podia deixar que suas palavras me tirassem do serio, eu precisava era focar minha determinação no meu atual objetivo. Porque somente desta forma eu venceria o controle que ele exerce sobre mim. Eu não lhe daria o gostinho de poder se gabar que uma garota se suicidou por não conseguir esquecê-lo. Não, ele não teria mais esse tipo de relevância na minha vida. Guiada por um impulso que eu não soube identificar, eu posicionei a pistola na minha cintura, encaixando-a no espaço vago entre minha pele e a calça jeans, ajeitando a blusa por cima do objeto em relevo.
Aquele era um objeto de segurança, tanto porque me trazia certo controle quanto porque me tornava impulsiva. Cansada, esfreguei as mãos no rosto, como se para me certificar de que não estava tendo pesadelos. Droga havia me esquecido que estava de maquiagem, mas agora não importava mais. Eu precisava comprar a tinta de cabelo de uma vez, antes que Charlie acordasse e deduzisse algo errado ao ver seu coldre vazio. Com isso em mente eu atravessei o batente, e caminhei pela grama do quintal até minha caminhonete. O fogo na caçamba sem nenhuma matéria para lhe servir de combustível, havia se extinguido. Restou somente uma fumaça espessa e cinzenta que rodopiava em direção ao céu mais claro.
O cheiro do banco de couro e do aromatizante de pinho preso no espelho retrovisor era de certa forma reconfortante, me trazendo um pouco de calma enquanto eu dirigia pelas estradas úmidas em meio a nevoa que começava se dissipar. O silencio já me era tão habitual que sequer me incomodava mas ainda sim eu precisava de algo com que pudesse me distrair para não pensar no que tinha acabado de acontecer. Mesmo assim, foi inútil porque enquanto eu mexia no botão para mudar as estações da radio, lembrei de quem havia ganhado aquele aparelho tecnológico de ponta. Ou melhor, das pessoas de quem eu havia ganhado.
Lembrava-me de que Emmett com seu jeito maroto tinha instalado o aparelho, no dia em que as coisas começaram a desandar. A questão do porque Edward não ter retirado o aparelho, como fez com os outro presentes, me deixou inquieta, batucando os dedos sobre o painel brilhante. E depois eu simplesmente não suportava olhar mais para aquela coisa que só reforçava a lembrança da longa lista de diferenças que havia entre nos dois. O sistema de som não era preso por parafusos ao painel, mas sim por uma variada seqüência de fios coloridos que se entrelaçava em um emaranhado. Utilizei as pontas irregulares do meu molho de chaves para cortar os fios encapados já que não tinha nenhum objeto cortante comigo.
No entanto depois do terceiro eu perdi a paciência, considerado seriamente em atirar contra aquela porcaria tecnológica, embora não o tenha feito. Em vez disso só puxei com rispidez o aparelho, tentando arrancar a força e estragando minhas unhas no processo. Depois de um tempo eu consegui, embora tenha cortado mais fios que o necessário. Eu só esperava não ter estragado alguma coisa importante no carro como as luzes dos faróis, eu poderia ganhar uma multa por isso. Não que algo como isso importasse no momento, afinal porte ilegal de armas garantia coisas mais serias, como alguns anos na cadeia. Mas como diz aquele ditado:’’o que os olhos não vêem o coração não sente’’
A única coisa de que me arrependia no momento, foi de não ter juntado essa porcaria junto aos outros presentes que agora se tornaram uma pilha de cinzas. Como eu tinha destruído meu sistema de som em um acesso de fúria tive que partir para o plano B, que no caso seria ouvir as musicas idiotas que estavam no meu celular, como eu estava fazendo anteriormente. Felizmente, logo pude identificar a placa verde e vermelha em neon que anunciava o thirtfyway vinte e quatro horas, o estacionamento do local se encontrava praticamente vazio naquele horário. Ótimo aquilo pouparia o tempo preciso que eu pudesse gastar na fila. Eu sempre evitava de ser vista em lugares que não me eram habituais, como o trabalho e a escola, por isso pretendia ser bem rápida para pegar o necessário.
No entanto ainda sim não pude evitar de ficar nervosa ao caminhar pela entrada fria devido o ar condicionado, a arma parecia pesar toneladas na minha cintura como se estivesse visível para qualquer pessoa que me encarasse por tempo demais. Era irracionalmente estúpido estar agindo como uma criminosa considerando que não havia feito nada condenavelmente errado, no entanto minhas mãos continuaram a tremer e suar enquanto eu caminhava até a pilha de cestos de plásticos, perto do único caixa aberto.
Katie Marshall, uma garota ruiva e sardenta do segundo ano da Forks High School, me encarou com um careta por um segundo, as sobrancelhas se franzindo sobre os olhos cor de terracota, como se eu fosse um inseto asqueroso e particularmente desagradável que tinha entrado no seu caminho. Depois disso voltou os olhos para a revista de fofoca que lia no meio do expediente, algo completamente antiético. Respirei fundo andando até a seção de beleza, tentando ignorar como isso me incomodou porque já deveria estar acostumada com esse tipo de tratamento.
Pode imaginar o tanto de fofoca e boatos maldosos que havia surgido depois que os... que eles foram embora. Aquela era uma noticia chamativa demais para passar em branco entre a população pacata e intrometida de forks, mas ao mesmo tempo trouxe coisas boas porque eu finalmente pude ver a verdadeira face de certas pessoas, sem a mascar estúpida de bajulação. Eu entrara em choque e me irritara profundamente ao descobrir, depois daquela semana na qual eu buscara deixar minha vida nos trilhos novamente, o quanto aquelas ’’historinha’’ tinham repercutido em toda cidadezinha. Algumas pessoas até acreditavam que eu tinha me suicidado, pelo amor de Deus. Eu odiava ser assunto de fofoca e era exatamente isso que tinha acontecido, era como se o mundo inteiro estivesse conspirando contra mim.
Basicamente as falsas suposições fizeram as pessoas se dividirem em dois grupos seletos de acordo com a opinião que tinham sobre o assunto, sobre a minha vida. Havia aqueles que se compadeciam com a minha historia, que tinham um pouco de empatia e piedade da pobre menina Swan que foi enganada pelo namorado rico e esnobe. Pensamento esse alimentado em maioria por donas de casas invejosas, que utilizavam dessa informação para justificar o desprezo que sentiam daquela família que obtivera a opção de morar em lugar melhor, e que ainda sim permaneceram embora sem a mesma monotonia que assolava suas vidinhas.
Outra parte desse grupo era composto por garotos que viam nessa nova situação uma chance de servir de ombro amigo ou quem sabe mais. Muito patético. O que mais me incomodava de fato nesse grupo era a demonstração exacerbada de compaixão como se isso de alguma forma mostrasse que eles me compreendiam, que me entendiam. Se eles de fato me entendessem não me olhariam como se eu fosse uma pobre coitada, como se eu fosse um cachorrinho que houvesse sido atropelado. Isso me irritava profundamente porque eu preferia o desprezo e o ódio a ter que lidar com esse tipo de coisa.
Felizmente eu não precisava me lamentar com relação a isso, já que desprezo por mim parecia ser uma característica essencial para participar desse segundo grupo. Esse na qual eu carinhosamente apelidei de esquadrão Anti-Bella. Agora é fácil entender o porque da minha citação anterior sobre ‘’mascaras caindo’’.Sempre tive uma noção de que boa parte dos bajuladores a minha volta eram falsos, mais ainda sim me surpreendi com a revelação de alguns integrantes como Jessica. Bom ela era fofoqueira, invejosa e amargurada então não era algo completamente inacreditável que no mesmo momento que eu fraquejasse ela me viraria as costas. A sobrevivência do mais forte também se aplicava ao ensino médio afinal.
Junto a Lauren, que sempre deixou claro com seu jeito indireto-direto que não ia com a minha cara, elas formavam as lideres desse esquadrão. Adolescentes tendiam a fazer cada estupidez para se enturmar, por isso eu relevava o fato de Katie Marshall ser influenciada a participar disso. Como uma ceita, o esquadrão vivia sobre o seguinte pensamento paradigmático de que eu, Isabella Marie Swan, Na tentativa de fisgar o ricaço buscando viver uma vida de conforto e luxo em suas costas, teria cedido rápido demais a ele. No entanto como um espírito livre, o mesmo se divertiu por um momento antes de se cansar e dar no pé para não precisar lidar com uma Ex chiclete e temperamental.
Ridiculamente fantasioso e patético.
Principalmente se for considerar o quão hipócritas elas são, porque eu poderia apostar todo o meu sangue no mercado negro que seria essa concepção de mordomia que elas teriam se tivessem estado no meu lugar. Eu sempre odiara completamente o fato de Ele gastar dinheiro comigo, afinal eu tinha um trabalho onde conseguia dinheiro o suficiente para gastar comigo mesma. Independência poderia ser meu nome do meio de tanto que me classificava essa característica. Sem contar que naquela época eu odiava esse detalhe por aumentar a lista de diferença entre nós dois.
Mas era nisso que elas se apegavam em uma tentativa falha de se sentirem um pouco melhores e recuperarem o ego esmagado pela rejeição colossal de serem trocadas por alguém que julgavam desinteressante e sem atrativos. Isso, é claro, porque se viam garotas muito mais sedutoras, bonitas e legais do que eu. confesso que tinha vontade de jogar na cara delas que fora a garota insignificante que teve ele em seus braços mesmo que por um curto período de tempo, mas não valia a pena. Fazer isso seria como discutir com uma criança; elas não me iriam dar ouvidos de qualquer forma como as verdadeiras crianças mimadas que eram.
Pisquei algumas vezes saindo de meus devaneios quando percebi estar na seção de luvas descartáveis de látex encarando uma prateleira fixamente feito uma idiota. Um pouco sem graça peguei um pacote virando rapidamente para o outro lado do corredor onde ficava os vidrinhos de água oxigenada. Encarei os vários volumes por um breve instante. Quando eu comecei a pintar meu cabelo de castanho avermelhado minha mãe havia me convencido a usar tonalizante, que desbotava com facilidade após vinte ou vinte e cinco lavagens, caso eu acabasse me arrependendo e quisesse voltar à cor natural depois. Coisa que nunca veio a acontecer ao longo desses oito anos. Mas ainda sim eu não tinha certeza se isso de fato era verdade, por isso era melhor prevenir do que remediar, pensei comigo mesmo ao dar de ombros e pegar o OX de 30 volumes.
Dei a volta para outro corredor e depois voltei alguns passos me inclinado para trás para pegar um pacotinho de pó descolorante. Quase havia me esquecido. Ao entrar no outro corredor eu me senti tensa, havia um grupinho de garotas do segundo ano que com certeza fazia parte do Time anti-Bella, ou esquadrão tanto faz. O problema era que eu teria que passar perto delas e eu não queria que me vissem o que de certa forma seria inevitável. Respirando fundo e trincando o maxilar, eu atravessei o corredor sempre encarando a prateleira de tintas para cabelo que estava no final do percurso, embora sentisse seus olhares queimando nas minhas costas.
Era isso que eu odiava nesse grupinho, o fato delas falarem mal de mim aos cochichos sempre com indiretazinhas estúpidas. Eram covardes que não tinham coragem de falar o que pensam na minha cara, com medo das conseqüências prejudicarem seus lindos rostinhos, o que de certo poderia acontecer. O que elas não sabiam era que eu me habituara tanto ao silencio que qualquer mínimo ruído soava como um estrondo para mim, era por isso que eu constantemente usava os fones de ouvido como agora; eles me ajudavam a distrair e preenchiam o silencio.
Mas algumas vezes quando só havia eu em um determinado local era quase impossível de ignorar que elas estavam fofocando sobre mim pelas minhas costas. Igual estava sendo agora. Por mais que eu tentasse focar meus olhos nos números que correspondia aos tons de cor das pequenas caixinhas, estava muito difícil. Principalmente porque eu de fato podia ouvi-las falando de mim, já que um dos fones de ouvido havia escorregado do meu ouvido. Se fosse outro dia qualquer eu me empenharia para ignorar esse tipo de cosa como eu fazia no resto dos dias. Mas hoje não era um dia como qualquer outro, eu estava entrando no meu limite, louquinha para encontrar um alvo para descontar meu excesso de frustração.
’’ Ei, Ei, olha ali! É a Swan. Será que ela vai pintar o cabelo?’’perguntou uma delas em um sussurro, parecendo verdadeiramente curiosa, embora eu não pudesse dizer quem foi por estar de costas.
’’ Se for fazer isso, será algo inútil. Até parece que fazer isso vai dar algum atrativo aquela mosca morta’’ Debochou outra de forma presunçosa arrancando risos das outras amiguinhas. Isso me fez trincar os dentes tentando conter minha raiva antes que voasse naquelas peruas de chiado esganiçado (vulgo risos).
’’Pensando bem, talvez fosse melhor ela comprar uma maquiagem para disfarçar aquela cara de morta, se bem que eu acho que nem isso iria ajudar.’’ Sugeriu mais outra delas em meio aos risos enjoativos que me deram vontade de enfiar pregos no ouvido.
Ao ouvir isso acabei por fazer um movimento brusco com a mão que fez com eu batesse em uma caixa de tinta derrubando uma fileira ao seu lado. Pude ver de soslaio que elas deram risadinhas sussurradas antes de se afastarem falando sobre alguma marca de batom. Respirando fundo algumas vezes para retomar o controle, eu me abaixei coletando as caixas para colocá-las em seu devido lugar, torcendo para que elas já estivessem na fila do caixa. — se tivesse uma— para ir embora. Por isso fui o mais lenta possível na tarefa de organizar as caixas de volta a fileira, pensando nas diversas formas de responder aquelas peruas. Mas ainda sim foi bom que eu não tivesse excedido meu nervosismo.
O caminho até o caixa também foi feito em câmera lenta, um esforço que eu percebi ser completamente inútil já que o grupo ainda estava lá fila. Eu mudaria para outro caixa de muita boa vontade se não fosse aquele o único a estar aberto. Tudo que me restou foi respirar fundo reprimindo a vontade de tacar a cabeça contra uma das prateleiras, e me posicionei atrás da ultima garota esperando que a fila andasse. Coloquei o outro fone de ouvido, tentando me concentrar na musica que estava terminando de tocar enquanto observava pequenas moscas rodarem em volta as lâmpadas tubulares florescentes.
O problema começou mesmo quando, ao invés de pagar as compras e sair, elas simplesmente continuaram lá prolongando a conversa com Katie Marshall. Por um momento eu fiquei estática, observando incrédula elas conversarem como se fossem as únicas no lugar. Depois olhei ao redor, confusa, me perguntando internamente se elas tinham ficado cegas para não verem que estavam congestionando a porcaria do único caixa. Pelo amor... Será que elas não viam que existiam pessoas que tinham coisas mais úteis que fazer, do que ficar conversando com alguém que esta em horário de expediente? Onde estava o imprestável do supervisor daquela garota? Ah sim provavelmente fazendo algo tão produtivo quanto coçar a bunda ou dormir no deposito.
Robert's got a quick hand(Robert tem uma mão ágil)
He'll look around the room, he won't tell you his plan (Ele dá uma olhada no lugar e não conta seus planos)
Bufei irritada com isso. Merda! Eu não queria ser forçada a falar com nenhuma delas tendo que aturar seus sorrisos forçados e falsas gentilezas. Um pouco impaciente, bati o pé de forma ritmada com a nova musica que tinha acabado de começar. Esperava que esse gesto se tornasse tão incomodo e irritante que elas tivessem a decência de perceber que estavam atrapalhando o andamento da fila, e que eu estava perdendo um tempo precioso em que poderia estar fazendo outra coisa. Como pintando o meu cabelo ou devolvendo a arma ao coldre antes que meu pai desse pela falta e eu acabasse mais encrencada do que já estava. Mas mesmo assim elas sequer pareceram notar o barulho, continuando a falar como se não tivesse mais ninguém no local.
He's got a rolled cigarette (Ele tem um cigarro enroladinho)
Hanging out his mouth he's a cowboy kid(No canto da boca, ele é um cowboy)
O cumulo para mim foi quando a mais próxima do caixa — com o cabelo marrom claro quebradiço, provavelmente por excesso de química—, se sentou naquela esteira de passar alimento enquanto as outras, uma garota baixinha de cabelo escorrido e outra de pele escura e cabelos volumosos, se encostaram ao resto da estrutura metálica. Aquilo foi uma baita demonstração de falta de semancol e respeito que me deixou muito indignada. Não importava se elas não gostavam de mim, agir de forma educada era algo essencial e diante daquilo eu não consegui ficar calada. Pigarreei na tentativa de chamar sua atenção, ato bem sucedido já que chamei a atenção das demais também.
— Com licença. – pedi gentilmente fazendo menção de passar mas elas não abriram espaço.
A mais perto de Katie Marshall desceu da esteira se colocando a minha frente de forma imperativa, enquanto me olhava de cima abaixo.
— Me desculpe, estou te atrapalhando? –perguntou ela em falsa inocência. Respirei de forma brusca balançando a cabeça lentamente de forma afirmativa. — Ah! Acho que você pode esperar mais um pouco, não é mesmo? Não é como se tivesse coisa melhor para fazer. – seu sorriso se tornou de escárnio quando viu meu rosto repentinamente ficar inexpressivo, interpretando da forma errada.
Yeah he found a six shooter gun (É, ele encontrou uma espingarda)
In his dad's closet hidden in a box of fun things(No armário do seu pai, escondida numa caixa de coisas estranhas)
As amigas em volta até tentaram prender os risos, embora tenham falhado miseravelmente. O timbre de suas vozes pareceu desbotar aos poucos, ficando distante como se eu houvesse enfiado a cabeça debaixo d’agua.
Para o que aconteceu a seguir existe muitas explicações, embora eu só tenha de fato pensado sobre isso muito depois. Aquela atitude poderia ter sido grosseira mas era algo banal se comparado a tudo o que eu havia aturado ao longo desses meses. No entanto esse estava sendo um dia particularmente exaustivo para mim, ao me esforçar o Maximo para reprimir a avalanche de sentimentos que tentavam me engolfar, havia chegado no meu limite de auto-controle. Então seguindo essa linha de raciocínio, uma hora eu teria que extravasar essa pressão que me sufocava, certo? Algumas vezes bastava somente uma pequena centelha para causar uma grande explosão. E foi exatamente isso que aconteceu.
And I don't even know what(E não sei nem o que aconteceu)
But he's coming for you, yeah he's coming for you(Mas ele virá atrás de você, é, ele virá atrás de você)
Aquele comentário insignificante se tornou o fósforo que fez inflamar a gasolina em mim, a adrenalina se alastrando pelas minhas veias como o fogo se alastraria sobre uma trilha de álcool. Agi pelo impulso sem sequer pensar nos atos que se sucederam, o calor do momento me guiando de forma inconseqüente. Por um curto segundo, sua voz soou novamente na minha cabeça, tentando me puxar de volta para a razão.
’’Bella, você não quer fazer isso’’ seu tom era contido mais eu podia identificar uma certa suplica.
No entanto minha mão já havia voado para o cós da minha calça alcançando a arma que se encaixava ali, meu dedo indicador se enroscando no gatilho. Meu rosto se contorceu em um sorriso satisfeito e irônico quando seu pedido não surtiu efeito nenhum sobre mim. Eu estava no controle naquele momento e não seria um pedido idiota que me pararia.
Ah, mas eu quero fazer isso, quero muito. Pensei alegremente enquanto puxava a arma da minha cintura em um átimo.
All the other kids with the pumped up kicks(Todas as outras crianças com sapatos caros)
You'd better run, better run, outrun my gun(É melhor vocês correrem, correrem mais rápido que a minha arma)
Três estampidos preencheram o ar gelado do mercado seguido por uma sinfonia de gritos estridentes que pareceram se misturar a trilha sonora em meus ouvidos. Musica esta que de certa forma parecia refletir o que estava acontecendo. Dei um passo para frente, sem me importar com o farelo de reboco que agora manchava minha blusa, depois que atirei para o teto. As garotas haviam se encolhido ao chão, algumas com a mão na cabeça como quando ocorre um assalto. O que não era minha intenção, mas era sempre bom ter um motivo para causar tamanho estardalhaço.
— Como pode ver, isso aqui não pode esperar. – afirmei de forma dissimulada, um sorriso de escárnio se formando de leve nos lábios ao dar outro passo para frente, passando pela garota que me tirou do serio. Sarah Campbell, me lembrei.
Encarei Katie Marshall de cima, como ela tinha feito antes, vendo-a tremer levemente enquanto observava de forma temerosa a arma que eu agora apontava para ela. A euforia havia voltado novamente desta vez mil vezes mais potente e intoxicante, fazendo minha razão afundar nas profundezas inacessíveis da minha mente. A sensação de vê-las ali rebaixadas ao nada, e com medo era inebriante e indescritível. Eu não era mais a garota bobinha e esquisita que servia de chacota, porque naquele momento eu tinha suas vidas em minhas mãos. O bem estar de cada uma ali dependia exclusivamente do meu poder de decisão, e eu estava adorando isso. Era a hora do acerto final.
All the other kids with the pumped up kicks(Todas as outras crianças com sapatos caros)
You'd better run, better run, outrun my gun(É melhor vocês correrem, correrem mais rápido que a minha arma)
— Me de todo o dinheiro. Agora. – ordenei encarando-a de cima como se fosse um pedaço de tralha desprezível. Vingança ou justiça, aquilo não importava muito no momento; visto que as duas eram de lados diferentes da moeda. — Melhor andar rápido, queridinha, não queremos que o zelador acabe por limpar seu sangue do chão, não é? – perguntei de forma retórica enquanto fazia uma cara inocente, quando vi que ela ainda me encarava de forma estática.
Após minha fala ela finalmente pareceu cair em si, e acenando um pouco nervosa, abriu a caixa registradora pegando as cédulas com as mãos tremulas para depois me entregar. Enfiei o dinheiro no bolso da minha blusa, sem conferir enquanto girava o corpo em direção a saída. Havia um cara que eu não havia visto antes, perto dos corredores e quando ele me viu, ergueu a mão em rendição ao perceber o que estava acontecendo. Andei em passos largos de costas até a saída, a arma em punho para garantir que eles não tentariam nenhuma gracinha. Eu não ia atirar mas eles não precisavam saber sobre isso.
Assim que as portas automáticas se fecharam me virei com agilidade adentrando meu carro e dando a partida no carro, afundando meu pé no acelerador cantando pneu para longe do estacionamento. Não me importei se estava quase chegando aos 90/h, o limite de velocidade do meu carro, eu só precisava sair daquele lugar. Na medida em que eu dirigia sem uma direção especifica, a adrenalina foi abaixando enquanto a realidade de meus atos se tornava claro. Encarei minha mão no volante e percebi que ainda segurava a arma com a outra. Visivelmente enojada eu a joguei no banco da carona, sentindo nojo da minha atitude aversa.
Parei o carro no meio fio de uma estrada qualquer, encostando minha cabeça no volante respirando fundo algumas vezes para acalmar meu coração. Bati a cabeça no volante algumas vezes, a buzina soando diversas vezes com esse gesto, como se pudesse forçar a sensatez á penetrar em minha mente, como se pudesse forçar a culpa á me consumir. Não funcionou. Eu reconhecia que o que havia feito era moralmente errado, me tornar uma criminosa não estava nos meus planos. No entanto eu não conseguia me arrepender do que havia feito, até então. Eu havia gostado de sentir a emoção do momento me tornar indestrutível, porque até agora essa havia sido a única vez em que eu verdadeiramente estive consciente de tudo o que estava a minha volta. Eu havia gostado de assustá-las, de vê-las me olhar com os olhos arregalados como o de um pequeno ratinho diante da cascavel.
Porém o que de fato me impedia de sentir algum tipo de remorço, era o fato dessa atitude ter criado um precipício de distancia entre a Bella certinha da qual eu queria me livrar e a Bella de agora. Essa pessoa cuja personalidade era irreconhecível. Ele havia zombado de mim, ridicularizado a minha tentativa de deixar o passado para trás. Ele havia duvidado que eu pudesse ser impulsiva, e eu fora; ele havia me implorado para não fazer aquilo, mas eu o ignorara e fizera. Começou primeiramente como um meio sorriso e um som baixo no fundo da garganta, aumentando gradativamente até que eu estivesse gargalhando tanto aponto de pontadas de dor surgirem na minha barriga, mas eu não me importei muito com isso ao encostar a cabeça de volta no apoio do acento, sentindo lagrimas quentes formarem trilhas no meu rosto devido a emoção.
Eu estava conseguindo, estava finalmente me livrando das amarras criadas na minha própria mente. Pouco me importava se naquele momento alguém passasse por ali e me achasse louca por estar rindo sozinha. Porque estar constantemente lutando contra a memória do ex –namorado cuja a voz as vezes se manifestava através da consciência, pode ser considerado um traço de loucura bem pior. Quando a crise de risos passou me sentia muito mais leve, preferia que as emoções tivessem escapado de mim daquela forma do que em uma crise de choro. Mas ainda sim, sentia que não era o suficiente. Eu precisava de algo substancialmente forte para cortar de uma vez todas as ervas daninhas que me prendiam ao chão. Precisava dizer adeus para verdadeiramente construir um futuro.
E de repente eu já sabia exatamente para onde ir para conseguir isso. O lugar que verdadeiramente deu inicio a uma historia de amor, que já estava fadada ao fracasso. Girei a chave na ignição tirando o carro do ponto morto enquanto manobrava o volante para de volta a estrada. Minhas memórias eram um pouco turvas por isso tive que me concentrar pra me lembrar a direção certa que eu tinha que seguir. Imaginei se naquela altura se Katie já havia ligado para a central policia avisando do assalto, ela tinha provas incontestáveis dos meus atos considerando as câmeras de segurança instaladas pelo mercado. Era muita ironia do destino que justo a filha do chefe de policia tivesse se tornado uma marginal. Eu não seria uma covarde, aceitaria as conseqüências do meu atos com todo o prazer mas antes eu precisava fazer isso.
Após alguns minutos dirigindo pela estrada um-zero-um para o norte, me afastando cada vez mais para norte longe o suficiente do centro da cidade, avistei uma figura maltrapilha que caminhava em passos lentos pelo meio fio da estrada. Meus olhos se desviaram por um momento, batendo de relance no banco da carona ao meu lado onde junto a arma repousava aquele estúpido sistema de som. Uma idéia se formou na minha mente de forma em que eu poderia me livrar daquela tralha e ainda sim fazer algo bom para alguém. Diminui um pouco a pressão do meu pé sobre o acelerador para me aproximar da figura e buzinei, chamando sua atenção.
Daquela distancia eu pude perceber que o mendigo tinha uma idade avançada, a pele um pouco flácida e manchada pela idade com olhos escuros e fundos. Abri a porta da cabine pegando o aparelho com minhas duas mãos e jogando para ele. O homem quase cambaleou um pouco ao segurar o aparelho entre os dedos esqueléticos. Ele examinou a peça por um instante antes de me encarar de forma mau humorada.
— O que espera que eu faça com essa porcaria, garota?
— Não sei – admiti franzindo o cenho por um segundo. — Talvez vender as peças para um ferro velho? Acho que pode conseguir dinheiro o suficiente para comida quente e roupas novas. – sugeri dando de ombros enquanto fechava a porta da cabine novamente.
Segurando o sistema com um dos braços ele apontou o dedo indicador a outra mão para mim, o rosto serie adquirindo uma áurea de quase sabedoria.
— Não é porque passo por necessidades, que estou disposto a aceitar o lixo dos outros. – e dizendo isso de forma rancorosa ele voltou a caminhar pela estrada, o aparelho ainda debaixo dos braços apesar do que disse.
Suspirei mordendo o lábio inferior observando sobre o vidro do para brisa cheio de gotículas, sentindo-me mal com minha própria ação. Eu entendia seu ponto de vista, as pessoas como eu deveriam achar que por viver em uma condição precária ele aceitava qualquer tipo de porcaria da qual não tinha mais utilidade. Enfiando a mão no meu cabelo por debaixo do capuz, eu puxei o cabelo que o prendia deixando as mechas caírem sobre meu pescoço. Em seguida enfiei a mão no meu bolso puxando o dinheiro que eu havia pegado sobre o protesto de assalto. Eu não me orgulhava do ato impensado em si, mas talvez dar um destino honrado aquela renda, doando-a para alguém que verdadeiramente necessitava, compensasse de alguma forma.
Com isso em mente amarrei as varias notas uma nas outras, formando um pequeno bloco de uma grossura considerável, de forma que não escapassem com o vento gelado lá fora.
— Ei, espere! – gritei inutilmente considerando que ele estava a pé e eu de carro, podendo alcançá-lo em um piscar de olhos como realmente fiz.
Ele se virou para mim novamente, parecendo desta vez muito irritado. Mas ele não teve tempo de praguejar nada porque eu já havia lançado o pacote pela janela, na qual ele capturou no ar habilmente.
— E isso? Ajuda? – indaguei com um meio sorriso. Ele parecia embasbacado enquanto analisava a grande quantia em suas mãos, como se fosse uma ilusão causada pelo excesso de bebida.
— Se isso ajuda? Mais do que ajuda! Que Deus lhe abençoe criança.– ele agradeceu com um largo sorriso que o rejuvenescia a ponto de eu perceber que ele não era tão mais velho que meu pai.
Assenti engolindo em seco, enquanto voltava a minha jornada que já parecia menor, ao identificar que agora estava chegando nos limites da cidade.
Pai.
Eu não havia parado para pensar em qual seria sua reação quando descobrisse o que eu havia feito. Desta vez a culpa realmente me afundou de modo que eu pude sentir todos aqueles sentimentos ruins que o luto proporcionou, se enroscarem em volta do meu coração fazendo com que esse se apertasse de forma desconfortável. Eu não queria que ele se chateasse mais ainda, principalmente considerando o martírio que eu transformei sua vida. Mas agora é tarde demais para me arrepender de algo que já estava feito, me restava somente encarar as conseqüências que isso estava me trazendo. Só não sabia se estaria verdadeiramente pronta para lidar com isso.
Depois de algumas horas, menos do que eu me lembrava, provavelmente causada pelo excesso de velocidade, finalmente cheguei ao fim da estrada aonde havia uma pequena trilha de terra. Arranquei a chave da ignição descendo do carro em um salto. O céu já estava mais claro naquele momento, embora o sol ainda não houvesse nascido. A neblina já havia se dissipado, deixando para trás uma certa umidade no ar que grudava na minha pele enquanto eu cada vez mais me embrenhava pela mata selvagem, longe da trilha como eu me lembrava. Tive que me concentrar em respirar fundo e manter o ritmo do meu coração regular, ao me ver presa dentro daquele enorme labirinto verdejante que tanto se assemelhava ao cenário que constantemente me atormentava.
Tentei me guiar através do crescimento do crescimento do musgo nas arvores, ou com a posição do meu relógio de pulso já gasto, no entanto meios alternativos de orientação como esses não eram muito confiáveis. O que tornava mais que possível que eu tivesse me perdido. Senti uma pontinha de arrependimento por não ter usado o método de João e Maria de jogar pedrinhas no chão, porque pelo menos eu saberia como voltar de novamente para a trilha. Talvez eu não devesse me preocupar tanto com isso considerando que tinha o dia inteiro pela frente para dar um jeito nisso, também era uma justificativa verídica para retardar meu encontro com os oficiais da lei.
Após um tempo significativo de caminhada, agradeci mentalmente por ter escolhido sair de casa de tênis; já estava difícil o bastante andar pelo terreno e irregular, imagine sem para uma pessoa desastrada como eu. ao menos não havia caído, embora estivesse esbarrado nas samambaias e escorregado na lama. Depois de rodar pela vegetação que sempre parecia igual, tendo que agüentar o recente zumbido das moscas no meu ouvido eu finalmente cheguei ao lugar que tanto me empenhei em buscar. Tive que atravessar um arco baixo formado por dois galhos de bordo e afastar um conjunto de samambaias, mas mesmo assim quase não o havia reconhecido por conta das diferenças causadas provavelmente pela ação do tempo e natureza.
O formato esférico não era mais tão simétrico como minhas lembranças turvas retratavam. A grama continuava rasteira embora não tivesse as flores silvestres e o brilho que a primavera trazia, que para mim parecia ser um detalhe característico do lugar. O único som que eu ouvia ali era o baixo piar dos pássaros nas altas arvores e o baixo som de um riacho ao leste. Com passos incestos e lentos eu adentrei o espaço sentindo minha respiração se alterar para algo mais ofegante, como se todo o esforço que eu tivesse feito até agora resultasse na fadiga de alguém despreparado para fazer algo do tipo. O que de fato eu era.
Minhas pernas tremulas falharam, fazendo meus joelhos baterem de forma agressiva na relva mas a dor naquele momento era insignificante. Desta vez eu me permiti relembrar de cada uma das lembranças que eu tanto tentava manter trancado no fundo na minha mente, deixei que todas as enxurradas de emoções que as acompanhavam também viessem até mim. Eu precisava me desapegar delas então que mal faria me recordar uma ultima vez? Minhas lembranças sobre ele eram um pouco embasadas mas as fotos que eu achei me ajudaram dar um toque a mais de realismo. Foi como se eu estivesse na beira da morte e toda a minha vida passasse diante dos meus olhos, o que de certa forma era verdade. A antiga Bella estava morrendo para dar lugar a outra.
Me lembrei da primeira vez que o vi no refeitório, dos vários momentos que meus olhos se encontraram com suas orbes douradas e intensas. E depois quando seus olhos pareciam tão negros como carvão ao me fitar na aula de biologia assim como também fitou com um ódio palpável aqueles caras em Port Angels. Vi cada um de seus sorrisos estonteantes na minha mente como se observasse um álbum de fotos, o timbre de sua voz agora reforçada pelas minhas alucinações. ’’você é minha vida agora’’. A lembrança de seu cheiro tão característico e que a nenhum outro se assemelhava, já estava quase totalmente desbotada. Revi novamente acena da clareira como se a mesma estivesse acontecendo a minha frente. Pude me visualizar sentada na relva enquanto com sua agilidade ele jogava o pedaço de tronco contra a outra em um estrondo.
Um grito gutural me escapou dos pulmões, arranhando minha garganta e me deixando sem fôlego. Afundei minhas unhas na terra puxando algumas graminhas com força como se isso pudesse aplacar a enxurrada que me desmontava de dentro para fora. Os pássaros nas arvores levantaram vôo simultaneamente para o céu claro de agora, o sol encoberto por uma grande camada de nuvens cinzentas. Meu nariz queimava com o ar áspero, e meus ardiam mas eu me recusava a derramar mais lagrimas por isso. Deitei na relva me sentindo esgotada agora que boa parte da adrenalina tinha passado, eu mal havia comido e era inacreditável que ainda não tivesse desmaiado de exaustão.
’’ Valeu à pena?’’ sua voz me perguntou em um sussurro que por um instante pareceu ser carregado por uma brisa fria.
Virei o rosto rodeando a clareira com os olhos e não encontrando nada como já se era de esperar. Meus músculos pesavam e doíam um pouco, eu nem sabia como voltaria de volta para a estrada. Me encolhi em posição fetal tampando os ouvidos com as duas mãos, como se isso fosse me impedir de ouvi-lo, considerando que ele estava na minha mente.
’’ Valeu à pena, não me ouvir e fazer algo impensado? Valeu à pena esquecer tudo o que você é pela ilusão de se livrar da dor?’’ continuou ele como se estivesse deitado no chão junto a mim como varias vezes já tinha acontecido.
Cale a boca. Isso não deveria estar acontecendo. Eu disse adeus, me desapeguei, porque não me deixa em paz, porque não me deixa viver minha vida? Pensei fechando minhas mãos com mais força nos meus ouvidos, sentindo as juntas dos meus dedos latejarem.
’’ Você deveria estar perguntando isso para si mesma, eu sou só uma manifestação da sua consciência. Se estou aparecendo é porque não quer verdadeiramente se livrar de mim.’’ Respondeu-me ele gentilmente quase em forma de consolo. Me levantei em um salto quando senti um braço se enroscar na minha cintura, mas quando olhei em volta novamente não havia ninguém.
Infiltrei a mão no meu couro cabeludo, puxando os fios da raiz como se a dor pudesse me fazer voltar à lucidez. Sentir coisas me tocando parecia ser um estagio bem grave de loucura, um estagio que possivelmente poderia me fazer ir direto para um hospício. Pela primeira vez no dia eu senti medo de que sua influencia sobre mim pudesse destruir o frágil muro de cartas que eu havia construído o meu redor. Talvez não tivesse sido uma boa idéia ter ido ali, ao invés de dizer a adeus eu havia fortificado suas lembras na minha cabeça, eu precisava sair daquele lugar o mais rápido possível, porque não sabia se era forte o suficiente para lutar contra aquilo.
Voltei a me infiltrar naquele bosque denso, um pouco desorientada pelo que havia acabado de acontecer. Eu não podia acreditar nas suas palavras porque fazer isso seria sucumbir por tudo que eu havia decidido lutar. E era exatamente isso que as vozes da minha cabeça queriam, as coisas que eu ouvia eram o que poderia me fazer ficar mais fragilizada. Eram mentiras, como todas as outras coisas que ele já havia dito para me ludibriar. Eu queria me livrar das lembranças porque só sem elas eu conseguiria seguir em frente.
’’Tudo o que eu falo é o que você queria ouvir caso de fato ele estivesse aqui.’’ Retrucou a voz como em resposta ao meus pensamentos confusos.
Cale a boca, cale a boca, cale sua maldita boca! Gritei em pensamentos enquanto me desviava das raízes bulbosas correndo como se estivesse de fato sendo perseguida. A vegetação em volta parecia sempre a mesma mas lutei para conseguir me situar.
’’ Você só quer que eu fique quieta porque sabe que o que falo é verdade. Você tem medo de encará-la porque a ilusão que criou é muito mais suportável’’ diagnosticou como se fosse à porcaria de um psicólogo e entendesse tudo o que se passava na minha mente.
Arrependi-me amargamente de ter esquecido meu celular com o fone de ouvido dentro da cabine da minha picape, porque desta forma eu poderia me distrair com mais facilidade, o que também facilitaria meu trabalho em calar minha mente. Por isso na falta de coisa melhor comecei a contar meus passos como um mantra que regularizaria minha respiração. Eu me recusava a responde-lo porque fazer isso seria compactuar com a minha própria loucura. Seria aceitar que de fato eu tinha entrado em parafuso, por isso ignorar me parecia uma idéia muito mais sensata.
’’Isso, continue a agir de forma infantil ao me ignorar quando nós dois sabemos que estou certo’’ seu tom de voz era impaciente e irritadiço.
Sua fala me fez revirara os olhos enquanto apressava ainda mais os passos. Porque retrucar com a própria mente era algo bem normal e comum de se fazer, pensei com ironia sem conseguir me conter a sua fala. O que me fez apertar os punhos ao entrelaçar meus braços em frente ao corpo de forma mimada, ao ver que não havia conseguido cumprir com o que eu queria. Continue o ignorando, mandei a mim mesma retomando a minha meta. Deixar que suas palavras lhe afetassem, é abrir uma brecha para que ele finque suas raízes ainda mais fundo dentro de nós. Ele é como uma erva daninha que precisa ser podada para que possamos voltar a florescer.
Mas eu devia saber que tentar caminhar em um terreno lamacento e íngreme enquanto se esta visivelmente abalada, daria em merda, mesmo para pessoas que não eram tão desastradas como eu. E realmente não deu em outra. Em um instante eu caminhava com o Maximo de agilidade constante que alguém despreparado poderia manter, e no outro estava tropeçando em uma raiz grossa e traiçoeira que havia brotado do nada no chão. Ao menos consegui amortecer a queda com os braços não que houvesse ajudado em alguma coisa. Tanto é que, não pude evitar em grunhir de irritação ao sentir minhas mais recentes escoriações e um latejar insistente sobre meus joelhos que haviam atingido com força o chão de pedra irregular.
Virei para cima, respirando fundo, indignada que fosse a segunda vez a acontecer algo do tipo justo no dia em que deveria me comportar como uma badass. Valeu forças ocultas do universo, valeu! Pensei ironicamente juntando o Maximo de dignidade que havia me sobrado. Em minha cabeça eu pude ouvi-lo rir, um som agudo e absurdamente doce como se fossem sinos de vento. Isso me fez trincar os dentes ao lembrar do dia do jogo de baisebol em que algo semelhante aconteceu, para logo em seguida balançar a cabeça contrariada. Não fique conjurando lembranças, me auto recriminei. Você disse adeus, lembra? Parte desse processo é não voltar atrás com as decisões. Por isso continue a ignorá-lo, ele não é real, suas palavras não são e nunca foram reais.
’’Ah mas eu sou real. Tão real quanto sua pequena mente pode me tornar.’’ Sussurrou ele, o hálito gelado me fazendo estremecer, desta vez por um motivo completamente diferente da forma com a qual eu estava habituada.
Isso porque naquele instante seu timbre falsamente gentil, havia me remetido a lembrança de outro vampiro psicótico que me levou a beira da morte. Senti suas mãos acariciarem meus cabelos, agora livres do capuz, liberando espaço em meu pescoço. Em seguida, toques tão leves feito asas de borboletas como se tivesse trilhando um caminho até meus braços com a ponta dos dedos.Eu podia sentir meu coração bater rápido e alto que quase parecia ecoar pela floresta, meu sangue resfriando enquanto a sensação de medo se alastrava.
’’Acho que isso quer dizer que sou muito real’’ ronronou ele, rindo de forma presunçosa e quase macabra.
Então eu soltei um berro de pânico, porque aonde eu sentia o seu roçar invisível passei a ver uma trilha de manchas verdes arroxeadas se formar diante dos meus olhos, como se fossem hematomas de uma surra ou sintomas de uma doença infecciosa feito lepra. Percebi com horror segundos depois que aquilo talvez representasse a sua influencia sobre mim, desta vez os estragos eram visíveis aos meus olhos, exteriorizados sobre a minha pele como uma doença que me matava lentamente. Engolindo em seco passei a esfregar com força a minha pele avidamente como se as marcas fossem sumir feito sujeira enquanto me arrastava de costas pelo chão querendo me livrar de seu toque.
Parei bruscamente quando minhas costas bateram contra a copa de uma larga arvore. Mesmo assim meu frenesi continuou como se houvessem jogado um monte de aranhas em mim e eu não conseguisse parar de me debater. Minha pele pinicava e ardia devido ao atrito mas não me importei, naquele momento de desespero só pensava que precisava tirar aquelas coisas que me faziam sentir suja, nem que para isso eu precisasse arrancar a minha pele junto. No entanto quando eu pisquei novamente, minhas mãos e antebraços pareciam normais com a pele de marfim quase impecável, as únicas manchas sendo algumas sardas claras sobre as juntas. Quase impecável porque longos talhos tinham sido abertos por todos os lugares onde minhas unhas, agora sujas se sangue, haviam passado.
A náusea me atingiu de tal forma que eu não pude evitar em me dobrar de lado e expelir todo o meu excesso café da manhã bem ali no chão da floresta. Depois que não havia mais nada a se jogar fora do meu estomago eu respirei fundo, sentindo o gosto ruim na minha boca e, infiltrei minhas mão trêmulas no couro cabeludo puxando os fios com força, em uma quase punição, enquanto me encolhia no chão como um animal machucado. Eu podia sentir o frescor tão agradável do controle escorregar por entre meus dedos como areia. Quis bater minha cabeça contra á arvore que agora eu me reencostava, por ter sido estúpida o bastante para achar que ir até a clareira seria uma boa idéia. O que diabos eu estava esperando de uma coisa estúpida dessas? Era obvio que ir a um lugar de grande peso significativo só acarretaria no fortalecimento das memórias que eu queria esquecer. Mas eu tinha que pender para meu lado melodramático ao querer que a despedida fosse no lugar onde as coisas tinham de fato se iniciado com um único beijo. Que idiotice a minha, isso não era um filme onde no final tudo acaba bem.
Em um átimo eu me levantei, retomando a direção em uma corrida fervorosa, como se estivesse sendo perseguida por um vilão de filme de terror. Algo inútil considerando que o meu vilão vivia na minha mente, mas talvez isso só tornasse o mais horrível de todos. Afinal eu nunca poderia me livrar, de fato dele. Evitei pensar sobre essa perspectiva que me aterrorizava. Para a minha felicidade notei que já havia percorrido a maior parte do caminho, sendo agora possível identificar a diferença de espaço entre as arvores onde, anos antes, o ser humano havia desmatado para construir a estrada. Foi questão de minutos para que eu me deparasse com a trilha de terra que eu anteriormente havia evitado, preferi seguir por ela para evitar de me perder novamente. Suspirei um pouco aliviada quando me vi de frente para a minha velha caminhonete, agradecendo que desta vez meu senso de direção tivesse me auxiliado.
Respirei fundo ao entrar na cabine do carro ligando o aquecedor de forma quase automática. Eu podia sentir meus músculos latejarem e pesarem agora que a adrenalina havia abaixado um pouco. Meu estomago doía por ter comido tão pouco de manhã e perdido o almoço,
Pela cor do céu já deveria ser ao menos umas três a quatro horas da tarde. Eu havia perdido boa parte do dia tentando encontrar aquele lugar, por um segundo desejei nunca ter tido aquela péssima idéia. A uma hora daquelas toda a cidade com certeza sabia do meu roubo ao supermercado local, a policia provavelmente estava a minha procura pela cidade.
Eu podia imaginar Charlie acordando normalmente, e tomando seu café da manhã como sempre, antes de ir pescar com Billy como me havia dito ontem. E então o telefone tocando, sendo um de seus companheiros de trabalho a avisar o que eu tinha feito e que estava desaparecida até então. Podia vê-lo colocar a mão na cabeça cansado, antes de olhar o seu coldre vazio no cabideiro perto da porta. Meu coração se retorceu com as imagens mas eu não recuei diante dela. Eu merecia isso, merecia sentir a dor das conseqüências de minhas ações. Eu estava pronta para enfrentar minha punição, por isso em nenhum momento enquanto dirigia de volta para cidade eu diminui a velocidade ou mudei o curso da estrada. Eu podia sentir meus olhos lacrimejarem mas não derrubei nenhum lagrima com os olhos focados no céu cinzento a minha frente, apreciando a beleza do momento.
Eu só parei quando ouvi os sons agudos de sinalização das viaturas atrás de mim, que exigiam que eu parasse o carro no meio fio da estrada. Arranquei a chave da ignição e peguei a arma que desancava no banco da carona, para depois descer do carro segurando os objetos com as mãos pára cima, demonstrando que eu não iria resistir a prisão. E como para comprovar isso depositei a pistola do chão chutando-a em direção dos policiais que se posicionavam atrás das portas abertas das viaturas que usavam como escudo para o caso de um possível tiroteio. Não resisti quando o Policial Stanley, que eu conhecia pelas vezes em que já havia ligado para o meu pai da delegacia, veio em minha direção recitando meus direitos pela advertência de Miranda enquanto me algemava.
Enquanto seguíamos para a delegacia, pude ver algumas vezes Stanley me lançar olhares penalizados provavelmente por saber como meu pai ficaria abalado com isso. Mas tentei ignorar sempre olhando para a janela sem emitir qualquer ruído. Eu não ia inventar argumentos para algo que sabia que tinha feito, então era muito mais viável fiar calada do que interpretar essa cena lamentável. Fiquei em uma cela separada até que eles ligassem para o meu pai, para tratar da minha situação delicada, já que pela lei eu podia responder pelos meus crimes sozinha.
Reencostei minhas costas na parede encardida, a cama de metal enferrujado estalando com o movimento, enquanto apoiava meus cotovelos sobre as pernas e esfregava os dois olhos com força. Eu me sentia tão cansada naquele momento como se não tivesse dormido a vida inteira e agora os efeitos disso estivesse recaindo sobre meus ombros. E isso pesava muito, talvez fosse melhor simplesmente desaparecer porque, ao que parecia, eu só complicava a vida das pessoas a minha volta. Fora uma idiotice tentar lutar contra algo que eu não poderia vencer. Doía admitir para mim mesma mas eu não podia vencê-lo, não importa o quanto tentasse. Nada teria esse efeito e agora eu podia ver isso com clareza.
Quando percebi que as vozes da minha cabeça não iriam sumir, eu imaginei que teria que ignorá-las até que isso acontecesse, como se fossem um zumbido chato de uma mosca nos meus ouvidos. Mas aquilo já era a prova de que estava falhando em uma batalha que estava fadada ao fracasso.’’...Se estou aparecendo é porque não quer verdadeiramente se livrar de mim.’’ Ele dissera e por mais vergonhoso que pudesse ser era verdade. Eu não queria esquecê-lo nunca, porque isso seria aceitar que sua maldita promessa fosse cumprida e eu desesperadamente, temia isso. Eu surtara quando descobri os objetos escondidos sobre o assoalho, mas houve uma parte em mim, ignorada no momento, que amou esse fato. Porque ter deixado aqueles objetos significava que ele se importava, nem que fosse um pouco, com a nossa historia com o que vivemos.
Aquele gesto foi o suficiente para reacender aquela chama incandescente que sempre me tomava quando eu estava com ele. Mas eu me encontrava apavorada e machucada. Eu tinha tentado viver minha vida, mas a cada dia que passava as memórias em minha cabeça se tornavam turvas e desbotadas. Encontrar aquilo foi um triunfo, mas eram somente objetos. Eles eventualmente quebrariam, rasgariam, envelheceriam e então tudo o que me restaria seria o nada novamente. Mas talvez não. Muitas vezes as lembranças se perdem e a paixão se apaga, no entanto com a magoa isso era difícil de acontecer. Por isso me aticei com falsas suposições distorcidas que me fariam enlouquecer. Que ironia, eu achava que estava lutando para me esquecer mas na verdade estava lutando para me lembrar. Fui auto enganada pelo meu próprio coração, tem traição pior?
Agora fazia sentido, as imprudências, as ilusões eu só estava me colocando sob pressão para ver se as lembranças se fixavam melhor em minha mente. Por isso quis tanto uma despedida, aquilo seria o estopim que me forçaria a lembrar de detalhes que haviam acontecido. A queima dos objetos... Eu queria que Alice de fato tivesse visto aquilo, por isso havia pegado a arma de Charlie e quase me suicidado e depois o roubo na loja, ela tinha que ver que eu estava emocionalmente instável que poderia cometer uma loucura. E então talvez isso os forçasse a intervir apesar da promessa dele. Claro, agora fazia sentido o porque a despedida teria que ser na clareira, eu queria dar tempo para que eles pudessem fazer isso. O quão loco era aquilo, eu estava mesmo louca. Talvez até com sintomas de psicopatia para conseguir bloquear todas as verdadeiras intenções por traz dos meus atos, que eu julgava impulsivos.
E eu agora reflito: realmente valeu a pena sofrer tudo isso? Durante toda essa jornada para seguir em frente eu tive que mudar quem eu sou, encarnar na pele de outra pessoa completamente reversa. Mesmo que agora eu perceba que eu tenho que tomar as rédeas da minha vida, eu não posso fazer isso fingindo ser outra pessoa. Isso nunca foi seguir em frente, em todos aqueles momentos eu só fingia que sim. Fingia que poderia viver daquele jeito, porque viver sobre a pele de uma outra personalidade parecia muito mais atraente do que aceitar a realidade. A realidade na qual que ele me deixou e talvez nunca fosse voltar, mas o importante era o que eu ia fazer agora? Continuar vivendo de forma vazia enquanto o tempo passava ao meu redor ou tentar lidar com isso e reagir?
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Senti seus braços frios me rodearem enquanto sua respiração gelada batia na minha nuca.
’’ Não se preocupe, você não estará sozinha. Eu estarei sempre por perto te esperando de braços abertos para quando você se cansar’’ disse ele em sua costumeira voz aveludada. Desta vez eu não tive nenhuma reação exagerada, simplesmente puxei minhas pernas para o peito e encostei minha cabeça sobre os joelhos aceitando que teria que lidar com isso também.
Não tive que esperar muitos minutos até ouvir um burburinho próximo a minha cela, mas não levantei minha cabeça até ouvir os barulhos das trancas da minha cela sendo destravadas. Charlie acompanhado por Stanley apareceu, suas roupas estavam desajeitadas assim como seu cabelo como se ele tivesse se vestido as pressas para organizar outra equipe de busca como acontecer a momentos atrás. Mas foi seu olhar que me quebrou por dentro, ele parecia imensuravelmente chateado, a aparência exaurida por conta disso. Stanley nos deixou a sós por talvez ver que aquele era um assunto de pai e filha.
— Tem idéia do quão decepcionado eu estou com você, Isabella? – questionou ele andando alguns passos e parando em frente a cama em qual eu me encontrava. — Sei que disse varias vezes que queria que você reagisse de alguma forma, mas não esperava que você chegasse a esse estremo. Assaltando a loja de conveniência, isso não é você, Bells. Não é essa a educação que eu e sua mãe ensinamos a você. – ele engoliu em seco, colocando um dos braços na cintura enquanto o outro alisava o bigode.
Eu podia ver dali como seus olhos pareceram marejar assim como os meus ao ouvir suas palavras duras e me desesperei, porque meu pai não era conhecido por ser sentimental. E se ele estava daquele jeito era porque tinha sido algo estremo.
— Sabe o que mais me machuca? – continuou ele com a voz ressentida e falha. — É que talvez seja a minha culpa. Minha culpa por não tentar mais ainda quando vejo que você se deteriora a cada dia, minha culpa por deixar uma arma carregada ao seu alcance. Se você tivesse atentado contra sua própria vida, meu Deus, Acho que nunca iria me perdoar por possibilitar isso.
Eu funguei, algumas lagrimas traiçoeiras escapando pelos meus olhos em rastros quentes pela minha pele. A situação me parecia ainda pior porque realmente eu já tinha cogitado sobre essa hipótese, bem na sala de estar de casa.
— Não é sua culpa. – afirmei com a voz rouca.
— É sim. – disse ele parecendo irredutível, e diante a sua certeza achei melhor não insistir. — Eu me sinto tão impotente vendo você desse jeito, sendo que você não aceitar ajuda. Como acha que me sinto vendo minha pequena garotinha sofrer desse jeito por um maldito garoto que não merece? Para nós vocês, filhos, são a coisa mais preciosa que existe e me parte ao meio ver que não consigo fazer nada para te ajudar. – sua voz tremeu um pouco na ultima frase.
E então eu desabei. Durante todo o dia eu fui como uma bomba, prestes a explodir se não aliviasse a pressão e foi exatamente o que aconteceu no supermercado, e depois com o ataque de risos. Agora foi a hora de eliminar toda a enxurrada de emoções que se converteram em um choro compulsivo. Eu me sentia a pior pessoa do mundo, Eu só queria tirar todo o sentimento de culpa e tristeza do meu pai e transfira-la para mim, para não ter que vê-lo daquele jeito. Eu merecia sofrer e já estava acostumada com isso. Em um átimo eu saltei da cama envolvendo o pescoço do meu pai enquanto o abraçava com força, como se pudesse perde-lo. Ele seria a minha motivação, ele, Renée... Todas as pessoas que estavam a minha volta. Porque eles mereciam que eu reagisse depois de tudo que tiveram que agüentar por mim.
— Se eu não puder ser forte, me diga honestamente, você ainda me amaria do mesmo jeito? – questionei inutilmente sentindo seu cheiro familiar e reconfortante, enquanto molhava sua camisa com as minhas lagrimas. — Porque eu sinto como se meu mundo inteiro tivesse desmoronado, e tudo o que restou são destroços e entulhos sem valor. Eu achei que a melhor forma para me recuperar disso fosse tentar esquecer. Começar do zero. Mas eu não consigo, porque as coisas que vivi me moldaram para ser quem eu sou, eu não quero ser outra pessoa se não eu mesma. Mas não consigo fazer isso sozinha, não consigo ser forte sozinha. E eu estou tão cansada de fingir que consigo, que esta tudo bem. – desabafei em uma enxurrada limpando as lagrimas do meu rosto com as costas da mão, enquanto me ensinava um pouco para trás para ver seu rosto.
Seus olhos castanhos derreteram como chocolate, de forma carinhosa enquanto ele segurava meu rosto de forma firme para que eu não desviasse de seu olhar.
— Eu te amaria independente da atrocidade que você cometesse, Porque você é minha filha. Você não tem que tentar ser forte o tempo todo, porque ninguém é. Não se preocupe com isso, okay? Desta vez iremos fazer do meu jeito.
Eu concordei com a cabeça, me sentindo incapaz de responder nada, e reencostei minha cabeça de volta no seu ombro aproveitando o aconchego de seu abraço, enquanto respirava fundo algumas vezes. Desta vez eu me sentia pronta para enfrentar o que estava por vir, se isso no futuro colocasse um sorriso orgulhoso de volta aquele rosto tão significativo para mim.
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