Begin Again
1 Prólogo
Notas iniciais
Um som começou a invadir o quarto e só então a garota deitada na cama percebeu. Era o seu despertador tocando uma das suas músicas favoritas: "Break Free" da Ariana Grande.
Ouviu um pouco mais dos seus versos antes de desligar o alarme. Diziam que finalmente a garota da música não precisava mais do garoto, que ela havia encontrado sua liberdade.
– Quem dera. – Ironizou, levantando e indo até o banheiro. Ouvira essa canção quase todos os dias desde seu turbulento término com seu ex namorado Dallas. Mas é como o ditado diz: "O que vem fácil, vai fácil."
Ainda se lembrava do dia em que o conheceu... Numa boate no centro da cidade de Nova York. Enquanto ela dançava no meio da pista ao som de Katy Perry, ele bebia com os amigos numa mesa próxima. Chamou a atenção da garota de cara, era do tipo atlético, moreno, alto e charmoso. Sem falar do ar de perigo que trazia, o que menos a importou. De acordo com ela, comia perigo no café da manhã.
Eles ficaram algumas vezes em todas as outras noites que frequentaram o local. Mas não demorou muito para o moreno se tornar possessivo. As proibições começaram "fofas". Ele a proibira de usar blusas curtas, saias justas. Até que começou a proibir que ela fosse a boate.
Apaixonada, atendeu quase todos os pedidos de seu amado.
Ele não gostava que ela usasse salto, mas ela usava.
Ele odiava o jeito que ela jogava o cabelo, mas ela não se importava.
O Principal é que ele detestava o amor que ela tinha pela música.
Segundo ele, ela a amava mais do que ao moreno, o que não deixava de ser verdade e foi comprovado dois anos depois, quando recebeu uma bolsa para a Universidade de Música de Miami. Ainda se lembrava da terrível briga que eles tiveram.
"- Dallas! Eu tenho uma notícia pra te dar! — Ela disse, animada quando o moreno entrou pela porta e sentou no sofá. — Eu ganhei uma bolsa na Universidade de Música de Miami (U.M.M.).
– Hum, legal. — Ele não mudou sua expressão. — E você disse que não, certo? — Deu de ombros, sem se importar. Ally não acreditou no que ouvira. Seu sorriso se desmanchou e a expressão de dúvida surgiu.
– Como? — Pediu. Ele sorriu, irônico.
– Gata, é simples. Você me ama? — Ela assentiu, cautelosa. — Então não vai pra lugar nenhum, já que eu não vou pra Miami, você não vai. Recusa logo isso. — Dallas se levantou, sendo impedido por uma pequena mão em seu braço. Os olhos de Ally marejaram. Ele não a apoiaria?
– Pois é Dallas, mas eu já tomei a minha decisão. — E...?
– Eu vou pra Miami. — Sussurrou.
– Fale com a boca, Allycia. Detesto quando sussurra. — Bufou. Ela engoliu em seco e ergueu a cabeça para repetir as palavras que, sabia, o fariam surtar.
– Eu vou pra Miami.
– O QUE? QUEM VOCÊ PENSA QUE É? — Gritou, jogando-a no sofá. — QUEM É ELE?
– Ele quem? — Perguntou, assustada.
– O OTÁRIO COM QUEM VOCÊ ME TRAIU PRA PODER ENTRAR NESSA UNIVERSIDADE!
– Dallas, eu... — Ele a interrompeu de novo.
– Qual é Allycia, nós dois sabemos que não foi com o seu "talento" que você entrou. — Sorriu. — Eu só quero o nome do cara que dormiu pra poder ir pra Miami. — Ela se levantou do sofá, as lágrimas caindo pelo seu rosto. Levantou a mão e fechou os olhos ouvindo o estalar dos seus dedos no rosto do moreno. — OLHA AQUI SUA VADIAZINHA!
– Sai da minha casa agora. — Disse, abrindo a porta e apontando pra que ele seguisse.
– VOCÊ NÃO VAI...
– Sai da minha casa, Dallas!
– ALLYCIA, SE EU SAIR POR ESSA PORTA...
– VAI SER PRA NUNCA MAIS VOLTAR! — Ela completou, gritando. — SAI DA PORCARIA DA MINHA CASA E NÃO VOLTA NUNCA MAIS, DALLAS CENTINEO! — Ele se direcionou até a porta e saiu. — E VADIA É A SUA MÃE! — Gritou, antes de bater a porta na cara dele."
Lágrimas caíam pelos seus olhos novamente, ela abriu a torneira, tentando apagar as olheiras e as marcas de onde havia chorado. Respirou fundo e se olhou no espelho. Hoje completavam oito meses desde que ele a deixou.
Saiu do banheiro e voltou ao quarto. Pegou o sua blusa de listras azuis favorita com uma calça laranja e o salto que o moreno detestava, mesmo assim, ela nunca deixou de usar. Em poucos minutos, estava devidamente vestida. Pegou seus fones de ouvido e ouviu a tranca da porta quando saiu de seu apartamento.
– Bom dia dona Ally!– Cumprimentou o porteiro do prédio. Os cabelos brancos brilhando ao sol de Miami. Era uma pessoa extremamente simpática, além do emprego de porteiro, cuidava das suas netas enquanto sua esposava trabalhava em um orfanato. Ela conseguiu sorrir pela primeira vez no dia.
– Bom dia seu Zé!– Passou pelo velhinho e acenou enquanto escolhia uma das músicas de sua longa lista. Passou por uma um tanto, hum, instigante. Seu ex namorado nunca entendia essa música, mas ela sim. Então deu play enquanto andava pelas ruas de Miami Beach a procura de começar o seu dia no lugar que mais amava. O café da Dorothy.
Todos os dias ela precisava tomar pelo menos um duplo descafeinado lá. Tinha virado parte de sua rotina. Além do que, Dorothy era a loira mais amável que já tinha conhecido. Mesmo depois de sua mãe morrer, ela resolveu manter o café. Afinal, ele carregava o seu nome e Ally a admirava por isso.
Foi despertada de seus devaneios por uma mensagem. Trish.
Ally, querida, eu lamento, mas hoje não poderei tomar café com você. Estou indo conhecer os pais do Dez no interior (me deseje sorte). Nos vemos no jantar, ok? xoxo, Trish.
A morena riu, consigo mesma. Dez e Trish estavam namorando a séculos, não era de se admirar que os pais dele quisessem conhecê-la. Afinal, sua melhor amiga era uma pessoa adorável (a pesar de ser controladora).
Cruzou os dedos desejando-a toda sorte e percebeu que a música tinha parado quando encontrou o olhar de Dorothy, a observando, curiosa.
– Hey Dory. Como está?– Perguntou, tirando os fones e guardando o celular no bolso do jeans.
– Bem, Ally. O de sempre?– Ela assentiu, se encaminhando para a mesa de sempre.
Ao lado da janela direita, o movimento estava bem calmo para uma quarta feira. Também pudera, não passavam das nove horas, e era mês de setembro. Quase férias.
Na cafeteria, tudo estava igual, as mesmas pessoas de sempre. Um casal de velhinhos que estavam prestes a completar suas bodas de 30 anos, sorriu para a garota. Duas irmãs brigavam pelo último pedaço de panqueca a umas mesas de distância. Ally sorriu triste, percebendo que todos tinham alguém, menos ela.
Começou a brincar com o cardápio, tão bem feito, tão belo. Mas sua atenção foi desviada para a porta quando o sininho bateu e de lá saiu um garoto loiro, alto, que parecia um pouco perdido. Carregava uma câmera em uma das mãos e era muito bonito. Seu rosto branco contrastava com seu cabelo e a franja lisa caía em sua testa. De onde ele poderia ser? Ela nunca o tinha visto nessa cafeteria antes. Teria o reconhecido se fosse o caso, um rosto como o dele parece impossível de esquecer.
– Aqui está Ally. Uma torre de panquecas e um duplo descafeinado. — Dorothy sorriu, franzindo a testa quando percebeu pra onde ela olhava. — Algum problema?
– Quem é ele?– Perguntou. — Quer dizer, eu nunca o vi por aqui antes. — A loira riu.
– Esse é novo mesmo. Mas acho que já o vi antes, é o filho de uma das amigas da minha mãe.– Sorriu. — Bom, eu já vou querida. Qualquer coisa sabe que pode me chamar. – Ela ia saindo, quando disse: - Por que não tenta falar com ele? Sei que é tímida, mas ele é um garoto lindo e eu vi o jeito que o olhou.– Deu uma pequena risada e seguiu em direção a cozinha, quando Ally corou.
O loiro entrou dentro da cafeteria e foi em direção ao balcão, conversando com Dorothy. Eles se abraçaram, ele devia ser mesmo filho da amiga da mãe dela. Perguntou mais alguma coisa e a loira apontou para uma mesa na frente da morena, a qual ele sentou alguns segundos depois dela desviar o olhar. Quando finalmente o olhou de novo, percebeu que estava sendo encarada e sorriu de lado. Os olhos dele eram ainda mais bonitos, castanhos, como se de repente houvesse um mar de chocolate ao leite em suas orbes. Era o sabor preferido dela — não que isso importasse -. Ele a encarou tanto que ela apontou para o banco em sua frente como se dissesse "Não prefere me olhar sentado comigo?" E se arrependeu no minuto em que ele o fez.
– Oi. — Disse. Um timbre doce que embriagou os sentidos dela por alguns segundos.
– Oi. — Respondeu.
– Você vem sempre aqui?– Assentiu. — Que bom, porque eu não. — Eles riram.
Não demorou muito até estarem conversando e contando histórias. O seu nome era Austin e quando ela perguntou onde nasceu, ele espondeu "Não foi no Texas se é isso que quer saber."
Ele adorou que ela se chamava Ally e a deu um apelido: "Alls" e ela começou a chamá-lo de "Aus".
Ela adorou o jeito como ele jogava a cabeça para trás e ria como uma criança toda vez que ela contava algo sobre suas aventuras com Trish.
Ele a achava engraçada e ela achou estranho, porque o seu ex não achava.
Ele adorava panquecas e cappuccino e ela riu do jeito como seus olhos se fechavam quando ria demais.
Ela sentia o coração bater mais forte quando ele sorria. Algo que não sentiu nem mesmo com Dallas.
Ele disse que nunca tinha visto uma garota tão bonita e que precisava de pelo menos uma foto dela e ela riu, tímida quando ele tirou uma de surpresa, enquanto ela tomava café.
Ele a disse que nunca conheceu uma garota que tinha tantos cds do Maroon 5 quanto ele. E ela disse que adorava a nova música deles. E de repente lá estavam os dois cantando no meio do café, como um show ao vivo usando duas colheres como microfones.
Ele estendeu a mão para ela quando terminaram de tomar seu café e os dois saíram de mãos dadas andando até o carro dele.
E quando ele perguntou sobre relacionamento, ela quase mencionou o cara que havia destruído seu coração. Mas ele percebeu que ela tinha ficado desconfortável e mudou de assunto.
– Você gosta desse filme?– Ela perguntou, rindo.
– Ah, qual é, Alls. É o melhor filme de Natal que existe. Além do mais, a minha irmã adora.– Ele fez bico e ela riu novamente, revirando os olhos quando ele disse o quanto amara sua risada.
E quando ele a abraçou, e ela sentiu aquele choque percorrer seu corpo, Ally finalmente percebera: O que passou, passou. O amor não apenas destruía, ele ressurgia. Há tempos não se sentia do mesmo jeito que se sentiu naquela quarta feira entediante e parada no café da Dorothy em Miami. Tudo por causa do sorriso de Austin Moon e de suas histórias toscas de natal.
Talvez fosse cedo demais pada dizer que viu o amor recomeçar — pelo menos para ela — mas dentro do peito da garota, naquele exato momento, algo mudara.
"But on a Wednesday in a cafe
I watched it begin again."
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