Before everything
5 Eu sou a cura
pov de Minho
O relógio digital marcava três e cinco da manhã quando acordei com o grito de Teresa. Acendi a luz do abajur e corri até ela, logo atrás veio Thomas.
– Teresa — ajoelhei ao lado de sua cama e peguei em seu braço. — Você está bem?
– Sim... — respondeu bufando.
– Que susto você me deu. — replicou Thomas, um tanto nervoso.
– Não é melhor ir tomar um pouco de água? — sugeri.
Todos nós fomos saciar a sede para acalmar o susto. Teresa chegou primeiro à porta, mas quando virou a maçaneta e empurrou alguma força contrária a fechou de volta. Ela cambaleou para trás e esbarrou em Thomas e, no mesmo segundo, ouviram-se barulhos de punho contra a porta e um som agudo de borracha, como estivesse arrastando alguém que tentara se prender ao chão.
Ficamos em choque. Devíamos abrir aquela porta, mas nossos corpos estavam sonolentos e recém-recuperados de dois sustos naquela noite. De repente a adrenalina subiu e Teresa suspirou e nos lançou um olhar "agora ou nunca", e abriu a porta praticamente se jogando para fora. Nada. Ela virou a cabeça para os dois lados.
– Não tem ninguém aqui.
– O quê? — Eu e Thomas falamos ao mesmo tempo.
Observamos o corredor, mas não havia nada. O bebedouro era no final do corredor e até lá não dissemos uma palavra.
– O quê foi aquilo? — Eu disse sentado na cama igual aos dois.
– Será que encontraram mais alguém infectado? — Disse Thomas.
– Igual... — Ela interrompeu.
– Igual o quê? — Thomas perguntou.
– Nada.
– Teresa! — Falei pouco exaltado.
– O quê foi?
– Você está estranha, porque não pode nos contar o que tá acontecendo?
– É mesmo, por quê? — Thomas replicou a pergunta.
– Não está acontecendo nada gente, vamos dormir.
No dia seguinte, a mesma rotina: reunião do projeto, almoço e sala de aula e dormitório.
No outro, nós acordamos, tomamos café, reunião e almoço.
– Amanhã vai ser a apresentação do chanceler.
– O chanceler ainda não se manifestou em relação a esse assunto. — disse Thomas.
– Ele é uma pessoa bastante ocupada, ele não vai se preocupar com isso. Além do mais, todo mundo já está sabendo. — Teresa deu um gole de suco.
Ao sair do refeitório uma mulher me parou e disse que precisava me informar uma notícia. A sala era pequena, as eram paredes de cor bege e um homem estava sentado em uma cadeira com uma mesa de metal à frente. Sentei-me na cadeira perante a mesa de metal e em frente ao homem.
– Minho... Temos uma notícia não muito boa pra te dizer.
– Sobre?
– Seu pai.
– O quê tem ele?
– Não sei como te falar, mas... Promete ser forte?
– Sim. — como assim, "ser forte"? — Continue.
– O fulgor tomou conta de seu cérebro.
Travei. Como assim tomou conta de seu cérebro? Como ele pode dizer essas coisas desse jeito? Estou errado por um lado, porque ele avisou para eu ser forte. Mas quando a pessoa confirma tem de falar de forma leve.
Pelo menos ele não disse "seu pai morreu".
– Tudo bem, Minho?
– Ah... Bom, iria acontecer alguma hora mesmo. — No fundo é verdade. Quero acertar o rosto dele, mas ele também está certo por um lado. — Quando aconteceu?
– Há dois dias.
Dois dias? Aquele barulho e a pessoa do lado de fora empurrando a porta ou, a pessoa que estava sendo arrastada... Era o meu pai, o chanceler, tem que ser. Falo ou não falo? Se eu falar, o que ele pode fazer?
– Que horas?
– Madrugada, mas por que...
– Eu sei — saí automaticamente.
– Se quiser pode ir para o dormitório. – ele não perguntou sobre o que eu disse, ainda bem.
Levantei da cadeira calado. Olhei para o moço, tentei dar um sorriso para agradecer porque eu não conseguia falar, mas não saiu muito bem. Parei no corredor. Pensei em ir para sala de aula, mas minha cabeça estava a mil por hora, então continuei em frente e fui ao dormitório.
Contei tudo para Thomas e Teresa. Não estava conseguindo dormir, já era meia noite e só ouvia o som da cama dos dois quando se mexiam ou até mesmo sua respiração. O tédio era tão grande que poderia sentir as paredes falarem, poderia dar um nome para o teto que foi meu melhor amigo naquele momento, o amigo que ouviria meu desabafo. Fingi que ele ouvia e desabafei mentalmente, em primeiro lugar porque meu pai era o melhor amigo. Ele que me botou no CRUEL. Não pelos experimentos, mas para me salvar. Eu sou imune à doença, mas meu pai não pensou assim quando me entregou ao CRUEL. Não posso perder mais ninguém, até mesmo o teto que estou olhando porque ele vai me escutar nas noites como essa. Eddie esse é seu nome. O chanceler nos colocou também para salvar o mundo e parece muita coisa, mas é a verdade porque eu sou igual a todos aqui e temos uma missão muito grande para ser cumprida, porém...
– Eu sou a cura do mundo.
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