pov de Thomas

O despertador tocou às sete da manhã e os raios solares invadiam o aposento iluminando-o.
O quarto era bem grande, composto por dois banheiros, um closet dos uniformes, três camas e uma janela de parede inteira que ocupa quase toda a parede tendo vista para o penhasco e ao deserto.
Eu e Teresa nos arrumávamos nos banheiros e Minho dentro do closet, caso alguém saia do banheiro e veja uma visão totalmente desagradável.
– Bom dia, parece que é hoje... — disse sentando no banco do refeitório.
–... O que pra muitos é só a apresentação. — Minho continuou a minha frase.
– Vamos falar mais baixo, porque não seria uma boa coisa se todos aqui ouvissem nossa conversa. — Teresa contrariou, mas está certa. Se não, o quê a CRUEL pode fazer contra um exército de crianças, falar a verdade?
"O chanceler enlouqueceu e mentimos para vocês sobre a apresentação", não seria uma boa coisa a fazer.
Um homem entrou no refeitório e se pronunciou. Sua voz era grave e alta, e enquanto falava todos ficaram em silêncio:
– Bom dia, hoje os senhores estão dispensados da reunião do projeto por conta da chegada do chanceler sucessor.
No final fomos encaminhados a uma sala no outro prédio. Esse prédio é usado como depósito de armas, remédios, roupas e documentos. A sala era bem pequena, então a fila estava virando o corredor.
O uniforme era cinza e foi nos recebido com um coturno preto dentro de um saco transparente. Depois de almoçar, colocamos a vestimenta.
O zíper cruzava toda a blusa que ia até um palmo após a cintura, a faixa vermelha contornava o cruzamento e a gola da blusa, havia escrito a sigla CRUEL e acima um símbolo vermelho de um olho com uma labareda de fogo que vinha do canto e dava a volta ao seu redor.
– Mas que coisa brega! — Teresa gritou do banheiro.
– Não reclame!
– A única parte boa foi o coturno. Estou horrível! — parei na porta do banheiro, ela estava pegando a blusa e puxando para trás pressionando-a ao corpo.
– Até que não ficou tão ruim. — soltei uma risada no final, ela me soltou um olhar um tanto “me-poupe”.
– O quê é isso, Thomas? — ele veio até mim e ajoelhou — Você tem que botar a calça direito, e por dentro do coturno.
– Ah, mas...
– Shiu! — olhou para Minho e correu até seus pés — Vocês precisam aprender mais sobre essas coisas.
– Ninguém vai ver nossos pés. — Minho retrucou.
– Confia em mim.
“Todos compareçam à Chegada", esse nome é dado para a troca de chanceleres, e é feito na grande área aberta entre os prédios.
Na porta dupla ou a porta principal que dava a grande clareira havia dois guardas, um em cada lado.
Eles observavam todos os alunos de ponta à cabeça. Um dos guardas barrou o aluno. Não deu pra ver bem, mas ele estava agachado mexendo no coturno. Teresa estava certa novamente.
– Eu não disse?
A luz do pôr do sol deixava o ambiente meio alaranjado. O clima era fresco apesar do deserto, mas a floresta logo atrás de nós deixava uma brisa refrescante anulando o ar quente.
Nossas posições deixavam-nos perante a um dos prédios, a metade do corpo para o deserto e a outra para a mata. Os funcionários ficavam do outro lado de nós encarando-nos com uma expressão séria. Por causa da armação do tipo quartel, traçava se uma linha reta perfeita em conexão à trilha, que vai uns vinte metros à dentro da floresta. Pelo jeito o novo chanceler apareceria ali, andaria até uma bancada de madeira com um microfone, onde logo atrás é o pequeno lago com ligação ao penhasco montando um pequeno riacho.
Uma moça bem jovem de cabelos ruivos e longos subiu no mini palco e anunciou:
– O chanceler está a chegar.
Todos o observaram enquanto atravessava a trilha e subia no palco. Ele vestia um terno preto e por dentro uma gravata vermelha, seus olhos eram negros e um cabelo curto e castanho.
– Boa tarde, senhores. Chamo-me Kevin Anderson. Hoje é um dia importante. — ninguém fazia um barulho enquanto ele se pronunciava. — Para muitos, só estou me apresentando, mas a verdade é que estou também tomando o controle da CRUEL...
Um guarda parou ao lado de Teresa, aquilo foi quase um sussurro.
– Preciso que me acompanhe.
– Mas pra que?
– Vai querer arrumar sua calça aqui e esbarrar em todo mundo? — No final ele olhou para calça dela.
Teresa o seguiu, eu a perdi de vista quando entrou no mesmo prédio que nós saímos.
– O quê houve com ela? — Minho perguntou baixo igualmente ao guarda.
– Ela foi arrumar o uniforme.
Mas porque não aqui? Tem espaço suficiente.
Ela está demorando muito para chegar. "Não está acontecendo nada gente", olhei para trás, Teresa não estava na porta, nenhum sinal dela.
Tenho que ir atrás dela.
Olhei para o chanceler e tive uma ideia.
– Minho, vamos ver onde ela está?
– Vamos, eu não aguento mais isso.
Agachamos-nos e seguimos direto para dentro.
– Parem. — Um guarda nos parou.
– Vamos beber água. — Minho disse rapidamente.
– Os dois?
– É rápido.

Enquanto ele não olhava viramos o corredor e corremos.
– Por onde agente começa?
Parei botando meu braço no peito de Minho fazendo-o travar instantaneamente, deu para sentir a inércia o levando.
Boa pergunta. Por onde nós começaremos? Se o guarda a levou para longe de todos tem que ser um local isolado, dentro do prédio não deve ser porque quando acabar a apresentação vão acabar achando-a. Melhor, fora de área, já sei.
– Minho, vamos impedir um Berg de decolar.
A sala dos Bergs localizava-se no subterrâneo, afastada uns 50 metros do quartel general.
Descemos as escadas pulando dois em dois degraus até chegarmos a um cubo cinza, no qual cada parede tinha um portal; da direita o corredor encaminhava ao grande labirinto, o da frente dava a uma câmara dentro de uma caverna no deserto, restritas à nós crianças. Provavelmente uma variável da segunda fase, e a da esquerda nos levava ao nosso destino. Após corrermos cinco minutos chegamos a uma porta de formato circular com uma alavanca no centro.
– Com certeza deve ter alguém vigiando no outro lado. — soltei a alavanca quando ele me lembrou desse detalhe. Preciso de um plano, eu nem sei se ela está lá.
– Você se recorda do que aprendemos na aula de emergência e evacuação?
– O quê?
– O alarme fica do outro lado.
Ergui a sobrancelha e suspirei. Senti-me no lugar de Teresa quando empurrou a porta do dormitório e do seu olhar "é agora ou nunca”. Girei a alavanca dando um giro de trezentos e sessenta graus, e enquanto girava sentia-se a porta sendo empurrada. Completada a volta, empurrei o círculo de ferro para o lado. Havia uma escada descendo na lateral da parede.
– Rápido. — Sussurrei.
Escondemos-nos atrás de uma plataforma enorme onde em cima havia um Berg pousado, tinha um formato circular e deveria ter uns dez metros de raio.
O guarda que levou Teresa correu até a porta e a trancou. Esquecemo-nos de girar a alavanca.
– Não tem ninguém aqui, esquecemos de trancá-la. — Ele disse alto.
– Vasculhe o lugar, eu ouvi um barulho vindo daí. — Alguma voz feminina respondeu.
Enquanto ele rondava a primeira plataforma nos escondemos na segunda. O Berg seguinte estava com a rampa aberta e uma mulher carregando uma caixa de papelão para dentro, corremos pela frente da nave procurando por Teresa e nos abaixamos na lateral da plataforma. Ela pode estar dentro da nave, a mulher saiu e foi para trás do Berg trazendo Teresa contigo.
– Ei! Saiam agora daqui! — o sequestrador gritou apontando a pistola para nós.
– Thomas! — Teresa chamou tentando sair dos braços da moça.
Eu e Minho corremos em direção ao alarme. Toda plataforma tem um próprio, mas a última a mulher está tomando conta e as outras duas o guarda não vai deixar, então sobrou o da lateral da escada. Minho estava bem na frente, se não fosse essa maluquice toda no mundo apostaria ele ser um atleta profissional.
Eu acabei tropeçando e rolei, o homem prendeu meus braços contra o chão. O som estridente não deixava escutar nossos próprios pensamentos, o guarda virou a cabeça para trás e me soltou.
– Vamos logo, antes que os outros guardas cheguem. — A mulher gritou.
A rampa do Berg começou a se fechar, ele correu para dentro da nave dando um pulo para compensar a parte levantada.
A plataforma começou a girar enquanto suspendia do chão. O teto de ferro se abriu em uma medida proporcional à da plataforma concedendo um encaixe perfeito, a luz cegou os olhos porque o espaço estava escuro da iluminação fraca.
Umas pessoas entraram na sala, as roupas delas eram todas de preto como se fossem atiradores de elite, a plataforma já estava quase se encaixando a abertura.
Os atiradores miraram na lateral do Berg. O primeiro tiro fez sair umas faíscas, parece ter acertado algum centro de controle externo. A plataforma parou, olhei para trás e vi um painel de vidro enorme e um cientista parado inclinado para frente com as mãos nos controles, não tinha percebido o painel antes e acho que Minho — que está no meu lado agora — também não.
Um cheiro de alguma coisa queimando pairou pelo ar, chamas azuis com pontas laranja saíam debaixo do grande círculo de aço. Ele estava a alguns centímetros da plataforma com constante aceleração enquanto girava — parece que o tiro não fez efeito -, o homem dentro da cabine apertava uns botões, mas nada fazia parar.
O Berg acumulou força e velocidade e disparou acima, a abertura no teto fechava-se enquanto a placa de ferro que levantou a nave arriava juntamente. O cientista saiu da cabine raivoso e preocupado.
– Voltem aos seus dormitórios — um atirador ordenou debaixo da máscara negra.
***
Ficamos calados até a hora de dormir. Observei Minho antes de cair no sono ele olhava para o teto como uma pessoa bem próxima, deve ser difícil para ele — primeiro o seu pai enlouquece e não viu ainda seu corpo ou túmulo, segundo Teresa é raptada por motivos desconhecidos.
Coloco-me em seu lugar e olho para o teto. E se eu perdesse as pessoas mais importantes na minha vida? O teto seria um bom amigo nos momentos de solidão. Não suportaria ficar sem Minho e Teresa, as únicas pessoas que sobraram dessa confusão toda porque fui selecionado para permanecer com os adultos, no entanto, veio juntamente Teresa e logo depois Minho.
Por que a levaram? Será que ela fez alguma coisa muito séria? Ela é uma criança como todos, como poderá ter algo te nível de sequestro? Engano? Com certeza não, eles a raptaram. Não tenho absolutamente nada nas mãos para saber do assunto. "Não aconteceu nada com a gente", mas por que Teresa?
Visualizei Minho, estava de olhos fechados em um sono profundo. Eu havia perdido o sono enquanto eu próprio me questionava, mas minhas pálpebras ficaram leves até dormir.
A cama vazia onde deveria estar uma garota de doze anos, cabelos escuros, olhos azuis, altura média, deixando uma vista do único amigo no momento. Eu poderia ter jurado que ouvi a voz de Teresa. Quase um sussurro, chamando meu nome, seu cabelo negro voando nos ventos desta tarde com o sol iluminando seus olhos cristalinos, e agora o Berg carregando-a e disparando céu a cima expelindo uma chama azul e laranja que, juntando com a luz do pôr do sol, cerrava os olhos de consequência ao ambiente grande e obscuro. Cai direto em um poço sem nada até que não senti mais a respiração.