Before You Go
3 Kissing a Fool
Notas iniciais
Todos estavam conversando animadamente enquanto desfrutavam da bela ceia de Natal que estava servida. Lindy e Jeffrey tinham caprichado e montado diversos pratos. Tinha opção para todos os gostos.
— Esse ano vocês se superaram, o jantar está delicioso. — Thomas disse enquanto levava um pedaço considerável de carne até a boca.
— O tempero está uma delícia. Vocês estão de parabéns. — Angela limpou delicadamente a boca antes de falar. Grissom havia comentando que a ceia com a sua família era a melhor parte da noite e ela confirmava a fala dele. — Devia investir no seu lado culinário também, Jeffrey.
— Eu amo a arte da cozinha, mas se eu arrumasse mais uma empreitada, Laura iria colocar a minha cabeça a prêmio.
— Mamãe iria surtar se isso acontecesse. — Sara falou para Angela. Elas estavam sentadas uma ao lado da outra. — Minha mãe morre de ciúmes da segunda esposa dele, se ele arrumasse uma terceira… seria capaz dela expulsá-lo de casa.
— A segunda esposa é a empresa, certo ? — Angela temia pela resposta.
— Claro. Vocês consomem muito tempo dele.
— Desculpe pelo relacionamento abusivo.
Grissom escutava a conversa atento. Parecia que as duas estavam se entendendo muito bem. Ambas personalidades eram parecidas e se houvesse algo que não agradasse a elas, dificilmente iriam deixar transparecer. Mas, elas não pareciam estar sendo apenas cordiais uma com a outra. O assunto fluía muito bem.
— Griss, você se importaria em me ajudar com a sobremesa ?
— Jamais, Lindy. Vamos lá.
Os dois rumaram em direção a cozinha. A governanta fechou a porta e ele estranhou o movimento, iriam sair logo em seguida e não tinha necessidade de fechar. Lindy parou encostada na ilha e encarou o rapaz.
— Algo de errado?
— Você parece estar muito apaixonado por Angela e isso é muito bonito.
— Ela é maravilhosa, Lindy. Eu sei que você já deve ter escutado eu falar isso diversas vezes sobre outras namoradas. — Cruzou os braços na altura do peito e apoiou-se na mesa. — Mas ela despertou alguma coisa adormecida.
— Eu fico feliz com a sua felicidade. Você sabe muito bem que eu torço sempre por você.
— Mas… ? Você não me trancou aqui para dizer o óbvio.
— A porta está aberta. — Ela riu. — Você está certo, não vou afirmar o óbvio.
— Então, sem delongas... — Apontou para ela aguardando a conclusão do pensamento.
— Você pode achar que eu estou ultrapassando qualquer limite mas eu não posso deixar de dizer. Eu acho que você apenas está alugando o seu coração para essa menina incrível.
— Como assim, Lindy ?
— Meu menino. Você sabe muito bem quem é a dona do seu coração.
Ela encerrou o assunto e saiu da cozinha deixando ele sem reação alguma. Ele sentiu os joelhos bambearem um pouco e precisou se segurar para escorregar. A fala dela foi como abrir a caixa de Pandora dentro de si. Ele se sentiu um pouco tonto com todo aquele sentimento guardado que começou querer romper o cadeado.
Respirou fundo e voltou para a sala de jantar. Sentou-se ao lado de Angela e a olhou fixamente em seus olhos. Precisava ter a certeza que sentiria o seu coração palpitar quando a olhasse no fundo dos seus olhos.
— Você está bem, Griss ? Aconteceu alguma coisa ?
— Estou bem, honey.— Meneou a cabeça discretamente. — Estou muito bem.
— Acredito em você. — Deu um rápido beijo em sua bochecha e voltou a atenção para a fala de Laura.
Lindy olhou de relance para Gilbert. Não tinha se arrependido de ter ultrapassado a barreira com ele. Talvez ele precisasse escutar de outras pessoas, o que ele mesmo não estava admitindo para si.
Depois de todos se fartarem com a ceia, resolveram terminar as suas taças de vinho junto a lareira. A temperatura continuava a cair e o calor produzido pela queima da lenha era mais que o suficiente para aquecê-los.
— Pessoal ! Meia noite. Feliz Natal para todos. — Elizabeth anunciou após o relógio badalar o som agudo que ecoava pela sala. — Que possamos nos lembrar do real significado dessa data.
Aos poucos eles foram se abraçando e desejando um feliz natal. Os casais aproveitavam para trocar um rápido beijo e algumas palavras carinhosas. Aproveitaram o momento para também trocar os presentes que estavam dispostos debaixo da gigantesca e bem decorada árvore.
— Feliz Natal, Sidle !
— Feliz Natal, Arthur !
A intenção era trocar um breve abraço mas acabaram demorando um pouco mais que o habitual. Parecia que seus corpos energizavam quando estavam unidos. Sara percebeu que tinham excedido e deu um passo para trás.
— Espero que você goste do seu presente. — Ele entregou uma embalagem vermelha e ela prontamente abriu o embrulho.
— Eu amei, Griss. — Era um belo quadro com diversos exemplares de borboletas azuis. Ele sabia o quanto ela gostava do inseto e era fascinada por sua infinidade de cores e desenhos. — Vai ter um espaço especial na minha sala. Agora pegue, é a sua vez.
Ela observava atentamente enquanto ele rasgava o embrulho. Ela tinha improvisado o presente dele de última hora. O original estava guardado em seu quarto, não teria coragem de entregá-lo devido às circunstâncias.
— O médico e o monstro. Um clássico que faltava na minha biblioteca. — Ele a abraçou novamente, mas dessa vez de forma breve. — Já vai ser a minha próxima leitura. Quero saber o que você quis me dizer com esse presente.
— Não racionalize, Arthur ! É só um livro.
— Sidle, teve um natal que você me deu um cartão com os seus dados pessoais. E o motivo ? Porque eu não te procurava mais. Você quer que eu acredite que esse livro não significa nada ?!
Ela adorava aquela história. Quando Grissom estava morando em Londres, ele havia retornado para os Estados Unidos apenas para comemorar o Natal em família. Sara teve a brilhante ideia de entregar um cartão com os seus dados e os seus telefones.
“Caso você tenha perdido o meu contato. Esse cartão vai ser útil, guarde na sua carteira.”
Todos ficaram na sala conversando por mais um tempo. Jeffrey colocou o vinil de Peter, Paul e Mary que havia ganhado de Diana para tocar. A caçula sabia que seu pai adorava o trio folk. A voz suave do trio declamava 500 miles enquanto eles ficavam em silêncio para aproveitar a melodia.
— O papai adorou o presente. Acertou na mosca, Dy.
— Eu sei agradar o coroa. Eu acho que esse ano todos ficaram satisfeitos com os presentes. Não estou escutando ninguém esbravejando no canto da casa.
— Todos estão abismados que este ano ganharam presente de você. Esse silêncio significa que os nossos cérebros ainda estão processando essa informação.
— Eu devia ter comprado para você uma mordaça. Errei no seu presente.
— Não seria uma má ideia, viu. Tem alguns momentos calientes que esse artefato é bem proveitoso.
— Ei, meninas. Nós estamos aqui. Não estraguem o nosso momento. — Jeffrey ficou horrorizado com a fala da sua filha mais velha. Não queria escutar jamais sobre suas vidas sexuais.
Sara e Diana começaram a rir. Sara ficou ruborizada quando percebeu que seu pai tinha escutado a sua fala. Diana aproveitou para provocar mais ainda sua irmã. Aos poucos as pessoas foram se retirando para os seus aposentos, já tinham avançado boa parte da madruga e precisavam descansar.
Grissom e Angela estavam se preparando para dormir, quando ele encontrou um embrulho com a etiqueta escrita Arthur sobre a sua mala. Somente Sara o chamava assim, provavelmente ela teria feito uma surpresa para ele. Enquanto Angela estava no banheiro, aproveitou para descobrir o seu segundo presente.
Era um livro. Cem sonetos de Pablo Neruda.
Abriu o livro e encontrou uma pequena dedicatória e um post-it amarelo marcando uma página. Ficou curioso para ler a dedicatória e saber sobre o que se tratava a marcação. No entanto, Angela retornou para o quarto e o chamou para deitar ao lado dela.
Deixaria para depois.
No quarto ao lado, Sara estava acordada e sem sono algum. Sua mente estava trabalhando em um ritmo acelerado e ela não conseguia frear os seus pensamentos. Sentia o seu coração pulsar com violência em seu peito e parecia que o ar ia falhar a qualquer momento em seu pulmão. Respirou fundo e tentou se acalmar.
Plugou os fones do seu iPod nas orelhas e escolheu uma playlist aleatória para ouvir e relaxar. Não foi um dia fácil e ela precisava admitir. Tinha decidido em seguir o conselho de sua irmã, iria viajar nos próximos dias e de preferência deixaria o celular desligado para evitar qualquer tipo de contato. Iria reconectar-se consigo e alinhar os seus pensamentos e sentimentos.
Em dado momento, Sara sentiu ódio de si mesma quando teve vontade de beber água e havia esquecido de levar uma garrafa para o seu quarto. Ponderou se realmente valia a pena sair debaixo dos cobertores quente e macios para atravessar a casa até a cozinha. Quando deu conta já estava descendo as escadas em busca de bebida.
Viu a luz do abajur do escritório do seu pai acesa mas ignorou por hora. Abriu o armário e pegou uma garrafa de água, não iria cometer o mesmo erro novamente. Passou novamente pelo escritório de seu pai e imaginou que ele pudesse estar ali, talvez tivesse perdido o sono como ela. Entrou e viu uma silhueta conhecida sentado de costas.
— Arthur ?
Grissom quando escutou a voz de Sara respirou fundo e soltou o ar pela a boca. Levantou-se e virou-se na direção dela. Ela estranhou a movimentação dele, ele não parecia estar muito bem. A luz do abajur iluminava o seu rosto sério.
— Por que você não me contou antes, Sara ?
— Como assim ? Contar o quê ?
Ele levantou o livro e só então ela pode ver sobre o que se tratava. Era o presente original que ela havia comprado para ele. Sentiu o seu corpo tremer quando viu ele segurando o livro aberto na página marcada por ela.
— Me responde, Sara. — A voz dele subiu um tom e ela deu um passo para trás.
— Onde você achou isso ?
— Eu conheço o amor como uma coisa que se esvai, tão instável quanto uma pena em um córrego. Veja, eu vi o amor. Ele veio a mim, colocou seu rosto frente ao meu para que eu pudesse te ver — Ele lia a dedicatória escrita com a caprichada letra dela. — O que isso significa, Sara ?
— Onde você achou isso ? — Ela repetiu a pergunta com os olhos marejados. Não queria que as coisas acontecessem daquela forma.
— Página 52. Soneto XVII. Isso tudo com marcações suas Sara. — Ele apontava para o livro de capa amarela. — Uma dedicatória com a data de hoje.
— Grissom, eu não sei como esse livro foi parar em suas mãos, mas…
— “Te amo sem saber como, nem quando, nem onde'' — Ele recitava um trecho do soneto de Neruda. Sua voz falhava em diversos momentos. — “Te amo diretamente sem problemas nem orgulho: assim te amo porque não sei amar de outra maneira.”
Grissom apoiou o peso do corpo sobre a mesa. Cruzou as pernas e ficou balançando o livro em direção a Sara. Seus olhos estavam marejados e sentia o seu rosto queimar em brasas. Seu peito parecia fazer uma força sobrenatural para conter as batidas fortes do coração.
— Por que só agora, Sara ?
— Eu não sabia o que fazer em relação a gente. Eu me vi completamente perdida com as minhas emoções e não estava preparada para encarar uma vida ao seu lado.
— Sara ! Você foi bem enfática quando disse que eu tinha confundido a nossa amizade. Só eu sei o quanto foi difícil reconstruir o meu peito em frangalhos e me recompor. — Passou o dorso das mãos no rosto limpando suas lágrimas. — Quando eu finalmente dou um passo à frente, eu recebo essa bomba nas minhas mãos.
— Grissom. Eu jamais brincaria com os seus sentimentos. Eu não faço ideia em como esse presente foi parar nas suas mãos. A minha intenção era entregá-lo, mas quando eu cheguei aqui e vi você feliz ao lado da Angela, eu descartei essa possibilidade.
— Você ainda não respondeu a minha pergunta. Por que agora ?
— Não quero ter essa conversa nesse momento. — Ela virou-se em direção a porta mas foi impedida por ele. Delicadamente ele segurou o seu braço e a puxou para trás novamente. — Griss, por favor.
— Eu mereço uma resposta. — A voz embargada dele precedeu um soluço. Ele se esforçou ao máximo para não chorar na frente dela mas foi vencido pelas lágrimas pesadas que escorriam pelo o seu rosto.
— Foram nove meses longe de você. Nove meses sem ao menos escutar a sua voz ou receber uma mensagem de texto. Mas eu sempre fui acostumada com isso. — Ela abriu um sorriso melancólico. — Só que dessa vez foi diferente. A sua voz dizendo que me amava sempre ecoava na minha cabeça quando eu me distraía, até os meus alunos repararam no meu sorriso bobo.
— Então porque mentiu quando eu fui sincero sobre os meus sentimentos com você ?
— Como eu já disse. — Ela estava muito tranquila. De uma forma estranha, ela sentia-se leve em poder externar tudo aquilo. Parecia que estava aliviando uma angústia presa em seu peito. — Eu não sabia o que fazer em relação a isso. Gil, eu não queria ser só mais uma namorada sua. Não queria que você me prometesse amor eterno, nada disso. Eu só não queria colocar à prova tudo o que construímos.
— Eu fui muito sincero com você. Não foi nada fácil ter aquela conversa com você ano passado
— Não pense que eu duvidei dos seus sentimentos. Em momento algum isso me ocorreu.
Grissom soltou o livro na mesa e passou as mãos espalmadas em seu rosto. Estava muito confuso, aquilo nunca tinha acontecido com ele. Durante o jantar, quando Lucy disse que o seu coração tinha uma única dona e ele encarou os olhos de Angela, ele tentou convencer que a pessoa sobre quem a governanta falava era ela.
No entanto, o seu interior tentava gritar que Angela não era a dona. Apenas uma inquilina.
— Você não precisa e nem deve fazer nada a respeito disso, Gil. Eu vou seguir a minha vida da mesma forma como vinha fazendo e aconselho você a fazer o mesmo.
Ele ficou mudo prestando atenção nas palavras dela. Sara estava calma como explicasse um conteúdo que tivesse total domínio para os seus alunos. Grissom também sentiu mais leve quando confessou os sentimentos que carregava durante anos por ela.
— Só peço que também não me trate com indiferença. — Levou sua mão ao rosto dele. Limpou as lágrimas com delicadeza e viu quando ele fechou os olhos sentindo o seu toque.
Grissom colocou suas mãos na cintura dela e vagarosamente puxou seu corpo para junto ao seu. Enlaçou os seus braços e apertou ela contra o seu peito. Céus ! Como era bom senti-la tão perto do seu coração. Afagou os cabelos macios e beijou-lhe o topo da cabeça.
Aquela cena não era inédita.
Eram tantos abraços trocados durante os anos, que se algum dos familiares tivesse testemunhado aquele momento, encararia com total naturalidade.
Sara colou o seu rosto no peito firme de Grissom. Suas lágrimas molhavam o pesado moletom preto que ele usava, pode sentir quando ele apoiou a lateral do seu rosto no topo da sua cabeça. Não queria terminar aquele abraço mas sabia que não podia andar sobre uma corda bamba.
— Eu ainda amo você. — Ele sussurrou lentamente ao ouvido dela. Apertou ainda mais o seu abraço e torceu para que aquela frase não surtisse um efeito inesperado nela.
Ela levantou a cabeça e tentou encontrar com o seu olhar. Escutar aquilo pela segunda vez tinha sido tão forte quanto a primeira vez. Ficou perdida na imensidão daquele olhar azul e não notou que suas bocas se atraíam como um forte imã.
O primeiro contato havia sido suave e delicado. A mão de Grissom procurou o rosto macio de Sara e a segurou entre as suas mãos. Quando ambas as bocas se abriram e deram espaços para as línguas explorarem, sentiram suas pernas tremerem. Era uma explosão de sentimentos, havia anos de espera por aquele momento.
O beijo tranquilo era acompanhado de carinho mútuo. Grissom repousou a sua cintura na mesa e trouxe Sara para cima de si. O beijo casto, começava a dar lugar para algo mais sagaz. Queriam apagar anos de distância com aquele beijo.
Sara conteve um gemido alto quando sentiu os lábios dele deslizarem pela extensão de seu pescoço. Quando ele suspendeu a cabeça, deslizando o seu lábio inferior em sua pele, ela capturou o seu lóbulo e passou a sua língua macia. Ele retesou quando sentiu a língua quente brincar em uma de suas áreas erógenas.
O mundo era só deles.
Grissom a levantou na altura do quadril e Sara enlaçou as pernas em sua cintura. O beijo começava a tomar proporções perigosas. Ele girou os seus corpos em busca do sofá que tinha dentro do escritório e enquanto caminhava a passos largos até o móvel a luz do cômodo foi acesa.
— O que está acontecendo aqui ?
Sara soltou as suas pernas e Grissom rapidamente a segurou pela cintura a fazendo pousar no chão em segurança. Jeffrey estava parado na porta do escritório com um olhar furioso para os dois. Sara sentiu um nó na garganta, nunca tinha visto aquele olhar do seu pai.
— Eu fiz uma pergunta para vocês dois. — Ele deu um passo à frente e foi em direção a eles.
— Jeffrey, nós podemos conversar… — Grissom tentava se recompor. Passou a mão nos cabelos desorganizados e ajeitou a sua roupa.
— Gilbert, eu estou com vontade de quebrar todos os seus ossos. Como você é capaz de fazer uma coisa dessas dentro da minha casa e com a minha filha ? — Ele virou o olhar para Sara que estava assustada e tinha os olhos marejados.
— Jeffrey, somos adultos e medimos as nossas consequências.
— Cale a boca. — Apontou o dedo em riste para Grissom. — O que eu vejo são dois adolescentes irresponsáveis aqui. Você não passa de um moleque, Gilbert. Se fosse homem não teria essas atitudes. A sua namorada está no seu quarto dormindo e você está aqui, dentro do meu escritório aos beijos com Sara.
— Pai, calma por favor. — Sara que observava tudo chorando e quieta, foi em direção ao seu pai. Ele a repeliu levantando a mão. — Foi um erro o que aconteceu aqui.
— Você...Sara. Como é capaz de submeter-se a isso ? Me explica como consegue ?
— Não precisa tratar Sara dessa forma. Eu sou o culpado disso, ok ?
Jeffrey ignorou a fala de Grissom e continuou encarando a sua filha mais velha. Ele estava com o rosto vermelho e mantinha o punho fechado o tempo todo. A cada movimento que ela fazia para aproximar-se, ele a repelia.
— Eu sei que erramos mas não precisamos ter essa conversa nesse momento. — Grissom entrou na frente de Sara e tentou aproximar-se de Jeffrey. O pai de Sara bateu com as duas mãos espalmadas no peito de Grissom, o empurrando para trás. — Não precisamos chegar a esse ponto, Jeffrey.
— Pai, para ! — Sara tomou a posição de Grissom e segurou os braços do seu pai. — Essa não é a solução.
— Se eu não chegasse aqui a tempo, o que iria acontecer ? Porque vocês não pareciam estar nenhum pouco preocupados com o mundo. — Jeffrey elevou o tom de voz e Grissom temeu que isso despertasse o restante da casa. Não queria prolongar aquela conversa por mais tempo. — Dois irresponsáveis.
— Escuta aqui, Jeffrey. Eu já tenho idade para arcar com os meus erros e não vou aceitar levar sermão dessa forma. Eu não preciso explicar nada para você. — Grissom levantou o dedo em riste e Sara tentou segurar o seu braço para reprimir o movimento.
— Você sempre foi petulante, Gilbert. Você até pode ter idade mas não passa de um moleque.
— Gilbert, para ! Estamos errados. — Sara sussurrou para ele e o puxou para trás. — Não tem o que ser discutido.
— Que discussão é essa ? — Thomas e Elizabeth apareceram no escritório. Com os cabelos bagunçados e os roupões desalinhados. — Vocês querem acordar a vizinhança inteira ?
— Pergunte aos dois o que estava acontecendo aqui ou o que poderia acontecer caso eu não interrompe-se.
Beth encarou seu filho e Sara. Pela expressão dos dois algo de muito grave tinha acontecido. Thomas tentou interpelar seu filho mas ele se mantinha em silêncio e Sara apenas tentava conter as suas lágrimas. Os dois se sentiam como adolescentes acuados pelos pais, no entanto eram adultos com 26 e 30 anos.
— Alguém vai me explicar o que está ocorrendo aqui ou eu vou dar asas à minha imaginação ?
— Beth, eu e Gilbert cometemos um erro. — Sara limitou-se a responder. — Tomamos atitudes impensadas e precipitadas.
— Traduza atitudes impensadas como Gilbert traindo Angela. — Jeffrey disse em um fôlego só. Sua real vontade era partir para cima de Grissom mas não iria descer o nível a tal ponto. — Os dois se prestaram a tal papel.
Beth ainda processava a informação que tinha acabado de receber. Procurou o olhar de seu filho e só então confirmou a fala de Jeffrey.
— Isso é verdade, Gil ? — Angela era a última no meio do grupo reunido no escritório. Levantou-se assustada quando ouviu a voz alterada de seu namorado e desceu para averiguar qual era o problema. Sabia que tinha algo de errado, os gritos não condiziam com a personalidade dele. — Jeffrey tem razão ?
Grissom saiu em direção de Angela que subia as escadas correndo. Ele não queria que ela fosse exposta daquela maneira. Ela era uma mulher incrível e não merecia passar por tamanha humilhação. Ele que tinha sido o idiota e insensível naquela história. Trancados no quarto deles, ele tentava a todo custo pedir desculpas pela atitude dele.
No cômodo ao lado, Sara era consolada por sua irmã Diana. Ela estava desesperada e muito envergonhada com toda a situação.
— Sara, me escuta, por favor. Não adianta ficar desesperada dessa forma.
— Dy, foi muito doloroso encarar as pessoas. Eu não sei onde eu estava com a minha cabeça quando deixei isso acontecer.
— Sara, já aconteceu ! Agora não adianta entrar em desespero. Espera os nervos se acalmarem e depois sentem para conversar.
Sara sentou- se resignada na cama. Com os olhos fechados, ela relembrava os olhares de censura que o seu pai lançava enquanto eles tentavam conversar. A sua atitude tinha sido impensada mas no momento ela não conseguia raciocinar direito. Sua mente gritava para ela se afastar dos lábios dele, mas o seu corpo parecia encaixar como um polo positivo de um ímã.
— Eu preciso sair daqui. Não quero ter que encarar a nossa mãe e o nosso pai nesse momento.
— Você não vai a lugar algum, Sara. Você vai ficar quieta onde está. Vai deixar para resolver os seus problemas pela manhã. — Diana sentou-se ao lado de sua irmã e abraçou o seu corpo delgado. — Eu estou do seu lado e vamos enfrentar isso juntas.
— Obrigada, Dy. Mas eu tenho que passar por isso sozinha. Eu fui irresponsável e em momento algum pensei em Angela. Fui hipócrita com os dois.
…
— Deixe ao menos eu levá-la até ao aeroporto. — Grissom estava parado na porta do quarto onde eles estavam dormindo.
— Gil, eu não preciso dos seus favores. Eu acho que o clima já está pesado o suficiente para ter uma nova discussão. Eu não quero os seus favores e sinceramente… — Angela respirou fundo e fechou os olhos. — Não quero precisar falar com você.
Grissom apenas assentiu. Iria respeitar o pedido dela. Eles conversaram durante muito tempo e Angela permanecia impassível mas em momento algum alterou o seu tom de voz. Ela sabia que não precisava de escândalos, naquela história ela era a única que tinha razão.
— Eu não queria te expor dessa forma. Tudo o que eu posso pedir são desculpas.
— Você poderia ter pensando sobre isso quando decidiu beijá-la. Ou melhor. — Deu uma risada irônica e balançou as mãos próximas ao rosto. — Poderia ter pensado sobre isso quando ingressou em um relacionamento comigo.
Ele abaixou a cabeça envergonhado. Na realidade ele não tinha argumentos para expor. Grissom nunca tinha traído nenhuma de suas ex-namoradas. Apesar de sempre estar apresentando mulheres novas para a sua família, traição nunca tinha feito parte de sua índole. Ele já tinha estado com diversas mulheres e seus relacionamentos sempre acabavam pelos mesmos motivos: falta de tempo ou dedicação dele.
No entanto, com as duas mulheres que eram incríveis e o aceitava com todos os defeitos, ele havia vacilado. Angela era uma pessoa incrível e dona de uma inteligência louvável. Ela sempre o apoiava, mas também o cobrava quando achava necessário. Além de um relacionamento — que ele julgava ser sólido — eram amigos.
— Querida, o seu táxi já está lá embaixo aguardando. — Beth apareceu na porta atrás de Grissom. Ele pode sentir o olhar pesado de sua mãe em suas costas. — Thomas vai ajudá-la com a mala.
O patriarca da família Grissom entrou no quarto lançando um olhar furioso sobre o seu filho. Educadamente pegou a mala de Angela e abriu espaço para ela sair do quarto. Gilbert ensaiou pedir perdão novamente, mas paralisou com o olhar de sua mãe.
Jeffrey e Laura estavam na antessala para se despedir de Angela e pedir desculpas pela forma como o Natal havia se encerrado. O pai de Sara ofereceu-se para pagar todo o translado, mas cordialmente ela recusou. Não queria se vitimizar.
Ela esqueceria Gilbert assim que saísse daquela casa.
Parado no alto do mezanino, Gil assistia Angela entrar no táxi amarelo. Seria algumas horas até ela pousar na Califórnia novamente. Diana estava parada ao lado dele observando toda a cena. Sentiu a espinha gelar quando sua mãe olhou para o topo da escada.
O clima estava tão tenso, que sentar do lado de fora no meio da neve não seria uma má ideia.
— Onde está a sua irmã ?
— Não faço idéia. — Respondeu séria.
E ela realmente não sabia. Mesmo insistindo para que ela não saísse de casa naquelas condições, foi informada por Lindy que Sara tinha saído nas primeiras horas do dia. Sua mala ainda estava ali, mas nada impedia que ela não voltasse para a casa dos seus pais.
Grissom foi até o seu quarto e pegou um pesado casaco preto. Iria atrás de Sara, ela não poderia ter ido tão longe. Era o que ele esperava. Em posse da chave da sua Land Rover e de sua mala, ele desceu as escadas para buscar o seu carro na garagem.
— Agora podemos ter uma conversa séria. De homem para homem. — Jeffrey parou em frente ao filho de seu sócio. Estava desalinhado, provavelmente não devia ter pregado os olhos durante a noite.
— Não vamos ter conversa alguma. — Grissom ensaiou dar um passo à frente mas bateu nos ombros do homem à sua frente. — Eu vou repetir: não precisamos chegar a esse estágio.
— Assuma as suas atitudes, Gilbert. — Laura segurou o braço de seu marido que realmente parecia disposto a trocar socos com o filho de Thomas. — Tenho certeza que os seus pais não o criaram para ser covarde.
— As pessoas com quem eu devo ter algum tipo de conversa não estão nesta casa. Agora se você me der licença, eu preciso sair.
Thomas chegou na sala e ficou assustado com a cena. Seu filho e o seu sócio pareciam dois touros esperando o momento certo de atacar. Entrou no meio dos dois e pediu que Laura levasse Jeffrey para outro cômodo.
— O que estava pensando em fazer ?
— Estou tentando ir embora, pai.
— Vá, mas saiba que eu não aprovo nenhum pouco essa conduta.
Thomas acompanhou o seu filho até a garagem. Com a promessa que iriam conversar sobre aquela situação em outro momento, ele deu partida em seu carro. Durante o trajeto, tentou ligar para Sara, mas o seu celular estava desligado. Dirigiu mais alguns minutos até chegar ao centro do vilarejo. Viu o carro dela estacionado perto da livraria de James.
— James ? — Grissom abriu a porta e sino acima da porta anunciou a sua chegada. A livraria estava vazia. — James ?
— Gilbert, me desculpe. Estava ocupado no estoque da loja. — O senhor veio dos fundos segurando alguns exemplares novos. — Em que posso ajudá-lo ?
Grissom apenas apontou para o carro de Sara estacionado na entrada da livraria. Ele sabia que ela estava ali. Quando eram adolescentes, sempre iam juntos à livraria de James. O senhor sempre os recepcionava em seu sótão com um café forte e biscoitos artesanais preparados por sua esposa Amber.
— Não posso ajudá-lo, Gil. Se não for nada ligado aos livros ou termos uma conversa, não tem nada que eu possa fazer por você.
— James, por favor. Eu sei que ela está aqui e que também pediu para você mentir a respeito disso. — Ele ensaiou um sorriso tímido. — Mas eu não pediria para você passar por cima da sua bela Sara se não fosse necessário.
— Eu posso ser velho e estar fraco. Mas se essa menina derramar mais uma lágrima, eu juro que eu arrebento você. — James suspendeu o balcão e permitiu a entrada de Grissom.
— A fila de pessoas dispostas a me baterem está grande, James.
Grissom entrou na casa do velho livreiro e trocou um breve cumprimento com Amber que estava sentada na frente da TV. Subiu as velhas escadas de madeira que davam acesso ao sótão. Há 20 anos atrás você poderia entrar ali e encontraria as mesmas coisas. O sofá coberto por almofadas azuis, uma poltrona reclinável cinza e uma mesa de madeira.
Sara estava de costas e encarava as árvores cobertas pela neve. Via alguns pedestres encolhidos devido ao frio e outras crianças se divertindo com os flocos de gelo que caíam do céu. Grissom pegou uma cadeira de madeira e colocou ao lado da poltrona onde Sara estava sentada.
— Algumas coisas não mudam. — Ele também olhava pela grande janela de vidro. Sara tinha percebido a presença dele assim que ele entrou no sótão. — Espero que não fique chateada com James por me autorizar a subir.
Ela apenas balançou a cabeça em negativa. Abraçou suas pernas e jogou o cobertor vermelho sobre o corpo. Grissom uniu as pontas dos dedos e levou até o seu queixo. Não sabia como iniciar uma conversa. Durante a discussão, havia escutado duas vezes que ela tinha se arrependido de ter o beijado, mas ele não se sentia assim.
— Eu sei que você quer o seu espaço e eu vou respeitar isso. Mas preciso te entregar uma coisa que anda comigo há 8 anos. — Ele pegou a sua carteira e retirou um pequeno pedaço de papel já um pouco desgastado pelo tempo.
Ele esticou o papel amarelado para Sara que exitou em aceitar. Pela primeira vez desde que ele entrou no cômodo, ela o encarou. Os olhos azuis estavam cansados e sem o brilho usual. Ele beijou o topo de sua cabeça e saiu em silêncio.
Sara ficou analisando o papel antes de abrir. Era uma folha de caderno ainda com o canhoto. Quando finalmente abriu o bilhete, encontrou a letra bem desenhada de Grissom. Era uma pequena carta dedicada para ela
Te amei desde a primeira vez que te vi .
Na cozinha com o cabelo sob um boné de beisebol.
Não consegui encontrar palavras para dizer uma única coisa
Eu nunca conheci alguém que poderia fazer eu me apaixonar assim
Agora não consigo imaginar minha vida
Sem você ao meu lado
Não posso deixar você ir
Eu nunca vou deixar você ir.
Arthur Grissom.
O bilhete estava datado com o dia do baile de formatura dela. Ele escondia os seus sentimentos por ela desde aquela época.
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