Before You - 3 Temporada
2 MINHA MÃE
“Algumas mães ensinam as filhas a amar…
a minha me ensinou a vencer.”
POV BELLA
Eu acordei antes do despertador.
Não foi um despertar suave, daqueles em que o corpo ainda está meio preso ao conforto do sono, mas a mente começa a se organizar devagar. Foi imediato. Brusco. Como se algo dentro de mim tivesse decidido que descansar já não era mais prioridade. Meus olhos abriram no escuro do quarto, e por alguns segundos eu permaneci imóvel, encarando o teto, sentindo o próprio corpo… estranho.
Havia uma tensão leve nos meus músculos, como se eu tivesse dormido contraída. Meu peito subia e descia mais rápido do que deveria, e eu só percebi isso quando tentei desacelerar a respiração e não consegui de imediato. Meus dedos se moveram sobre o lençol, arranhando levemente o tecido, como se buscassem alguma coisa que eu não sabia nomear.
E então… veio.
Jacob.
Não como uma lembrança comum, organizada, lógica. Veio em fragmentos sensoriais. A forma como ele me olhou. O tom da voz dele, baixo, firme, sem esforço. O sorriso. Aquela maldita sensação de ser… vista.
Meu estômago se contraiu.
Eu fechei os olhos por um segundo, inspirando fundo, tentando reorganizar aquilo dentro de mim, tentando colocar cada coisa no lugar certo, como eu sempre fazia com tudo. Porque sentir não era o problema. O problema era não controlar.
— Ridículo… — murmurei para mim mesma, a voz baixa, ainda rouca de sono.
Eu virei o rosto no travesseiro, pressionando a bochecha contra o tecido frio.
Não era amor, não podia ser.
Amor era uma construção. Uma escolha. Uma sequência lógica de decisões que você fazia conscientemente. Aquilo… não. Aquilo tinha sido imediato demais, instintivo demais.
Perigoso demais e mesmo assim…meu corpo reagia como se quisesse mais.
Eu passei a mão pelo rosto, exalando devagar, sentindo uma leve irritação crescer sob a pele. Aquela sensação de perda de controle… eu odiava. Sempre odiei.
— Isso não significa nada — sussurrei, como se falar tornasse aquilo mais real, mais controlável.
Mas no fundo…eu já sabia.
Significava.
E esse era exatamente o problema.
Porque quando algo significava demais… sempre cobrava um preço depois, e eu ainda não sabia qual seria o preço dele, mas sabia que viria.
Sempre vinha.
O som leve de passos no corredor me fez abrir os olhos novamente. Ritmo preciso. Controlado. Familiar. Eu não precisava olhar o relógio para saber que já era hora. Naquela casa, até o tempo parecia seguir regras invisíveis, rígidas demais para serem quebradas sem consequências.
Eu me levantei devagar, sentindo o chão frio sob os pés descalços, o corpo ainda levemente pesado, mas a mente… desperta demais. Fui até o espelho.
E ali estava ela.
A versão de mim que minha mãe via.
Ou melhor… a versão que ela queria corrigir.
Meu cabelo estava desalinhado, caindo de forma natural demais sobre os ombros. Meus olhos ainda carregavam traços do sono, levemente inchados, e havia algo no meu rosto… algo que não se encaixava com a imagem perfeita daquela casa.
Imperfeição.
Eu inclinei levemente a cabeça, analisando meu próprio reflexo com o mesmo olhar que eu sabia que Renée usaria. Frio. Crítico. Preciso.
— Você seria bonita… se se esforçasse — murmurei, repetindo o que eu já sabia que ela diria.
E então…
A porta abriu.
Sem bater.
Nunca batia.
— Ainda de pijama? — a voz dela veio suave demais, como sempre.
Eu não virei imediatamente. Continuei olhando meu reflexo por mais um segundo antes de responder.
— Eu acabei de acordar.
— Então acorde mais rápido.
Simples.
Direto.
Eu me virei.
Renée estava impecável. Como sempre. Vestido claro, cintura marcada, postura perfeita. O cabelo alinhado de forma milimétrica, a maquiagem leve o suficiente para parecer natural… mas trabalhada o suficiente para esconder qualquer falha.
Ela não tinha falhas.
Ou pelo menos… não as que permitia serem vistas.
— Hoje temos convidados no almoço — disse ela, caminhando até mim. — Você vai descer apresentável.
Eu assenti.
— Claro.
Ela parou na minha frente, analisando meu rosto com atenção, como se estivesse avaliando um objeto.
— Você precisa aprender a valorizar o que tem — disse, inclinando levemente a cabeça. — Ou alguém vai fazer isso por você… e não da forma que você gostaria.
Meu estômago revirou.
Micro. Rápido.
Mas eu mantive a expressão neutra.
— Eu vou me arrumar.
Ela sorriu.
Mas não era um sorriso.
Era aprovação condicional.
E então saiu.
Como se nunca tivesse estado ali.
Eu fiquei parada por alguns segundos depois que a porta se fechou.
Sentindo.
Pensando.
Respirando.
Porque conviver com ela nunca era apenas… conviver.
Era sobreviver.
E eu já estava ficando boa nisso.
Muito boa.
O café da manhã estava exatamente como sempre.
Organizado demais. Silencioso demais. Perfeito demais.
A mesa longa, os pratos alinhados, os talheres posicionados com precisão quase obsessiva. O cheiro de café fresco se misturava com o aroma leve de pão quente, criando uma sensação confortável que não combinava com o ambiente. Nada ali combinava com conforto.
Carlisle já estava sentado.
Postura impecável, expressão neutra, o tipo de presença que ocupava espaço sem realmente estar ali. Ele lia alguma coisa no celular, os olhos atentos demais para alguém que deveria estar apenas conferindo mensagens.
Eu observei.
Sempre observei.
E então vi.
Um nome.
Esme.
O dedo dele deslizou rápido pela tela quando percebeu minha presença.
Rápido demais.
— Bom dia, princesa — disse ele, guardando o celular.
— Bom dia, pai — respondi, puxando a cadeira.
Silêncio.
Mas não vazio.
Nunca vazio.
Renée entrou logo depois, como se o tempo dela fosse perfeitamente sincronizado com o restante da casa. Ela se sentou, cruzando as pernas com elegância, pegando a xícara de café sem pressa.
— Emmett já saiu — disse ela.
Claro que já.
Ele sempre estava um passo à frente.
— Treino? — perguntei.
— Sempre — respondeu Carlisle, com um leve orgulho na voz.
Eu peguei o garfo, mas não comi.
Minha mente… não estava ali.
Ela estava em outro lugar.
Em outro momento.
Em outra pessoa.
Jacob.
E eu odiava o quanto isso estava começando a se repetir dentro de mim.
— Você está distraída — disse Renée, sem me olhar.
Eu ergui os olhos.
— Não.
Mentira.
Ela sorriu de leve.
— Está.
Silêncio.
— Com o quê? — perguntou, finalmente me encarando.
Perigo.
— Nada importante.
Ela inclinou a cabeça.
— Então não deveria parecer tão interessante.
Eu segurei o garfo com um pouco mais de força.
Quase imperceptível.
Mas suficiente.
— Eu só estou pensando — respondi.
— Pensar demais é um defeito — disse ela, calmamente. — Pessoas inteligentes sabem quando parar.
E ali…
Ali estava o jogo.
Sempre foi.
Controle.
Sempre controle.
Depois do café, eu não fui para o meu quarto.
Eu fui até o escritório e ele estava lá, como sempre.
Félix não fazia parte da família, ele era apenas quem limpava a sujeira, escondia os segredos e cuidava da família perfeita. Ele era mais que um simples empregado, segurança ou braço direito dos Higginbotham.
Mas era mais presente do que qualquer um dentro dela.
Encostado na mesa, postura relaxada, mas olhar atento. Ele não precisava fingir nada. Nunca precisou.
— Você não costuma aparecer aqui cedo — disse ele, sem surpresa.
Eu me aproximei devagar.
— Eu não estou com sono.
Ele me observou por um segundo.
— Não é isso.
Silêncio.
Eu parei na frente dele.
— Então o que é?
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Você está diferente.
Meu coração bateu mais forte.
Rápido.
— Diferente como?
— Distraída — respondeu. — Mas não como de costume.
Claro.
Ele sempre via.
— Conheci alguém — eu disse, antes de pensar.
Erro.
Ou não.
Ele não reagiu imediatamente.
— Quem?
— Um amigo do Quill.
— Nome.
— Jacob.
Silêncio.
Mas não vazio.
— E? — ele perguntou.
Eu respirei fundo.
— Eu não sei ainda.
Ele assentiu devagar.
— Mas quer saber.
Sim.
— Talvez.
Ele deu um pequeno sorriso.
— Cuidado.
Eu ri.
Baixo.
— Todo mundo diz isso.
Ele me olhou direto.
— E você nunca escuta.
Silêncio.
— Eu não gosto de não entender as coisas — murmurei.
— Então entenda rápido — ele respondeu.
Simples assim, como sempre.
E talvez…Era por isso que ele era um dos únicos que eu realmente confiava.
Porque ele nunca fingia que o mundo era melhor do que realmente era.
E eu… também não.
Ou pelo menos…Não mais.
O complexo Higginbotham tinha uma lógica própria.
Não era apenas um conjunto de prédios ou um espaço urbano planejado com precisão exagerada, era um ecossistema inteiro construído para sustentar uma ilusão. As árvores eram podadas com precisão cirúrgica, as calçadas sempre limpas, as fachadas brilhando como se fossem recém-pintadas todos os dias. Era bonito… mas não era vivo. Nada ali respirava de verdade. Tudo parecia existir para ser visto, admirado, invejado.
E talvez fosse por isso que, quando eu estava com eles…
Parecia diferente.
Alice estava falando sobre alguma coleção nova como se aquilo fosse o assunto mais importante do mundo, os olhos brilhando, as mãos se movendo com entusiasmo enquanto ela girava no próprio eixo para mostrar um vestido imaginário. Jasper a observava com aquele olhar silencioso, atento, como se cada detalhe dela fosse digno de ser memorizado. Rosalie estava encostada na parede, cruzando os braços, fingindo desinteresse, mas ainda assim presente. Quill e Paul discutiam sobre algo irrelevante, rindo no meio da frase, completamente confortáveis em serem exatamente quem eram.
E eu…
Eu estava ali.
Não perfeita.
Não moldada.
Não controlada.
Só… ali.
— Você tá estranha hoje — Alice disse de repente, parando na minha frente e me analisando com intensidade.
Eu arqueei uma sobrancelha.
— Eu sempre sou estranha...
— Não — ela balançou a cabeça — Hoje é diferente.
— Diferente como? — perguntei, cruzando os braços.
Ela estreitou os olhos.
— Como se você tivesse encontrado alguma coisa.
Silêncio.
Eu desviei o olhar.
— Talvez eu tenha.
Rosalie soltou uma risada baixa.
— Ah não… — murmurou — Lá vem problema.
E talvez ela estivesse certa, porque problemas nunca começam com caos.
Eles começam assim pequenos, silenciosos e quase bonitos.
— Ele tá ali — disse Quill, apontando com o queixo.
Meu corpo reagiu antes da minha mente.
Um leve aperto no peito.
Um calor subindo pela pele.
Uma respiração que mudou de ritmo sem minha permissão.
E então eu vi.
Jacob.
Encostado no banco de madeira perto da quadra, os cotovelos apoiados nos joelhos, a cabeça levemente baixa, como se estivesse concentrado em algo que não era o mundo ao redor. A luz do fim da tarde batia nele de um jeito diferente, mais quente, destacando os traços do rosto, a curva do maxilar, a forma como o cabelo caía de maneira despretensiosa.
E de novo…
Nada nele parecia ensaiado.
Nada nele parecia precisar de aprovação.
E isso…Isso me puxava de um jeito que eu não conseguia explicar.
— Vai lá — murmurou Alice atrás de mim.
Eu não respondi.
Só fui.
Cada passo parecia mais consciente do que deveria, como se eu estivesse atravessando alguma linha invisível que não poderia ser desfeita depois. O som dos meus próprios passos parecia mais alto do que o normal, mesmo com o movimento ao redor.
Ele levantou o rosto antes mesmo de eu chegar perto.
Como se sentisse.
Como se soubesse.
E então…Ele sorriu.
Não um sorriso grande.
Não um sorriso ensaiado.
Só… real.
— Você voltou — disse ele.
Simples.
Direto.
Como se isso importasse.
E o pior…
Era que importava.
— Eu moro aqui praticamente — respondi, tentando manter o tom neutro.
Ele deu um pequeno sorriso de lado.
— Ainda assim.
Silêncio.
Eu parei na frente dele, mais perto do que o necessário.
— Você não parece alguém que gosta desse tipo de lugar — comentei.
— Eu não gosto — respondeu.
— Então por que vem?
Ele deu de ombros.
— Porque algumas pessoas fazem valer a pena.
Meu coração bateu mais forte, rápido demais e errado demais.
— E quem são essas pessoas? — perguntei, inclinando levemente a cabeça.
Ele me encarou.
Direto.
Sem desviar.
— Tô descobrindo ainda.
Silêncio.
E então…Eu reparei.
No pequeno aparelho atrás da orelha dele.
Discreto.
Quase imperceptível.
Mas ali.
— Você usa aparelho auditivo — eu disse, mais como constatação do que pergunta.
Ele não se incomodou.
Nem hesitou.
— Uso.
— Desde sempre?
Ele negou levemente com a cabeça.
— Desde o acidente.
Silêncio.
O tipo de silêncio que muda o peso do ar.
— Que acidente? — perguntei, mais baixa agora.
Ele desviou o olhar por um segundo.
Não como alguém que quer esconder…
Mas como alguém que precisa escolher como contar.
— Eu era criança — começou, a voz mais calma — A gente tava na estrada. Eu, minha mãe… meu pai.
Eu não me movi, nem respirei direito.
— Um carro atravessou o sinal — continuou — Rápido demais.
A mão dele se fechou levemente sobre o próprio joelho.
Micro.
Mas eu vi.
— Eu lembro do barulho — disse ele — Lembro de tudo ficando… confuso. Alto demais. E depois… silêncio.
Meu peito apertou.
— Minha mãe morreu na hora — completou.
Silêncio.
Pesado.
— E seu pai?
— Ficou paraplégico.
As palavras vieram sem drama.
Sem peso exagerado.
Mas exatamente por isso…
Elas pesaram mais.
— E você…?
Ele tocou de leve o aparelho atrás da orelha.
— Eu sobrevivi.
Sobrevivi.
Não “fiquei bem”.
Não “me recuperei”.
Sobrevivi.
E aquilo…
Aquilo dizia tudo.
Eu senti algo estranho dentro de mim.
Não era pena.
Eu nunca senti pena.
Era outra coisa.
Algo mais profundo.
Mais perigoso.
Conexão.
— Você fala disso com muita facilidade — murmurei.
Ele deu um pequeno sorriso.
— Não é facilidade — disse — é que aconteceu.
Simples assim.
Sem vitimização.
Sem necessidade de aprovação.
E naquele momento…
Eu entendi por que ele me desestabilizava tanto.
Porque ele não fingia.
E eu…Eu fui criada dentro de uma mentira perfeita.
— Você escuta tudo? — perguntei, quase sem perceber.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Nem tudo.
— Então… você pode não estar me ouvindo agora?
Ele deu um passo mais perto.
Diminuindo a distância.
— Eu tô ouvindo você.
Minha respiração falhou por um segundo.
— Tem certeza?
Ele sorriu e foi lento.
— Eu presto mais atenção em você do que em qualquer outra coisa aqui.
Silêncio.
E então…
Algo mudou.
De novo.
Mas dessa vez… mais forte.
Mais claro.
Como se alguma coisa dentro de mim tivesse finalmente decidido parar de resistir.
— Você devia tomar cuidado — murmurei, mais baixo.
— Com você? — ele perguntou.
Eu assenti levemente.
— Eu não sou fácil.
Ele deu mais um passo.
Agora perto demais.
— Eu não gosto de coisas fáceis.
Meu coração estava acelerado.
Meu corpo quente.
Minha mente…
Silenciosa.
E isso nunca acontecia.
Nunca.
A música que vinha de longe mudou.
Mais lenta.
Mais suave.
Quase como um sussurro e por um segundo…
Tudo pareceu parar.
Não o mundo.
Mas o que importava.
— Bella… — ele disse, mais baixo.
Meu nome na boca dele soou diferente.
Mais certo.
Mais real.
E eu senti.
De verdade.
— Você quer isso? — ele perguntou.
Simples.
Direto.
Sem pressão.
Sem jogo.
Escolha.
Eu respirei fundo.
E pela primeira vez…Eu não pensei.
— Quero.
E então…
Ele me beijou.
Não foi rápido.
Não foi urgente.
Foi… cuidadoso.
Como se ele estivesse testando.
Como se estivesse me dando espaço para recuar.
Mas eu não recuei.
Minha mão subiu até a camisa dele, segurando o tecido com força suficiente para manter ele ali. Meu corpo reagiu antes da minha mente, se aproximando mais, diminuindo qualquer espaço que ainda existia entre nós.
E o beijo…Mudou.
Ficou mais profundo.
Mais firme.
Mas ainda assim…
Gentil.
Como luz.
Como… algo que não machuca.
Minha respiração ficou irregular, meu coração acelerado, minha pele sensível demais a cada pequeno toque. Eu senti os dedos dele na minha cintura, firmes, mas cuidadosos, como se ele soubesse exatamente o quanto podia ir sem ultrapassar.
E aquilo…
Aquilo era novo.
Porque comigo…
Nada nunca foi gentil.
Nada nunca foi leve.
Nada nunca foi… assim.
Quando nos afastamos, foi devagar.
Sem pressa.
Sem quebra.
Minha testa ainda encostada na dele, minha respiração misturada com a dele, o mundo voltando aos poucos, como se estivesse reaprendendo a existir ao nosso redor.
— Você tá bem? — ele perguntou, baixo.
Eu ri.
Fraco.
— Não sei.
Ele sorriu.
— Eu acho que isso é bom.
Silêncio.
E então…
Eu entendi.
Não com lógica.
Não com controle.
Mas com algo mais profundo.
Mais instintivo.
Mais perigoso.
Jacob não era só alguém que eu queria.
Ele era alguém que fazia o mundo parecer… diferente.
Mais claro.
Mais simples.
Mais… possível.
E talvez…
Esse tenha sido o meu maior erro.
Porque luz…Sempre cria sombra.
E eu ainda não sabia…O quanto essa luz ia me cegar.
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