Notas iniciais
Se você já se sentiu fora do lugar… como se estivesse vivendo na vida de outra pessoa… então talvez você entenda a Bella mais do que deveria. E isso… pode ser perigoso.

“Eu sempre acreditei que o amor era só mais uma mentira bem contada…

até encontrar a única coisa que parecia real demais para ser ignorada.”

POV BELLA

Algumas semanas são suficientes para mudar tudo.

Não de forma grandiosa, não como um acontecimento que divide a sua vida em antes e depois com clareza absoluta, mas em pequenos deslocamentos quase imperceptíveis, como se o eixo do mundo girasse alguns graus sem avisar… e, de repente, tudo começa a parecer diferente.

Foi assim com ele.

Jacob não entrou na minha vida como um evento. Ele se infiltrou.

Nos intervalos entre compromissos.

Nas mensagens curtas.

Nos encontros que não deveriam acontecer… mas aconteciam.

E, aos poucos, eu comecei a perceber uma coisa que me incomodava mais do que qualquer outra: eu estava me sentindo bem.

Não “bem” do tipo superficial que a minha família vendia para o mundo, mas um bem… silencioso. Orgânico. Sem esforço.

E isso era perigoso.

Porque coisas que não exigem esforço costumam ser as mais difíceis de abandonar.

Eu estava sentada no banco de madeira atrás do prédio do complexo naquela tarde, o sol batendo de lado, aquecendo minha pele de forma leve, enquanto eu observava Jacob sentado no chão, encostado na árvore, mexendo em alguma peça metálica que ele insistia em consertar sozinho. As mãos dele eram grandes, marcadas, com pequenos cortes antigos que contavam histórias que ele não precisava verbalizar.

Ele sempre fazia isso.

Tentava consertar coisas.

— Você não precisa fazer isso — eu disse, observando o movimento dos dedos dele.

Ele não levantou o olhar de imediato.

— Eu sei — respondeu.

— Então por que faz?

Ele deu um pequeno sorriso de lado.

— Porque eu consigo.

Simples assim.

Sem necessidade de provar nada.

Sem necessidade de impressionar.

E aquilo… me desmontava de um jeito que eu não estava acostumada.

Eu inclinei o corpo levemente para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos, sentindo o tecido do jeans roçar contra a pele enquanto o observava com atenção.

— Você sempre resolve tudo sozinho? — perguntei.

Ele levantou o olhar dessa vez.

Direto.

— Nem tudo.

Silêncio.

— E o que você não consegue resolver?

Ele me analisou por um segundo.

Como se estivesse escolhendo a resposta.

— Pessoas.

Meu coração bateu mais forte.

Micro.

Mas suficiente.

— Eu não sou um problema — murmurei.

Ele soltou um riso baixo.

— Eu não disse isso.

— Mas pensou.

Ele balançou levemente a cabeça.

— Eu acho que você é mais complicada do que quer admitir.

Silêncio.

Eu sorri.

— E você gosta disso?

Ele não respondeu imediatamente.

Mas o olhar dele…

Respondeu.

— Eu gosto de você — disse, por fim.

E ali…Ali estava.

Simples.

Sem drama.

Sem jogo.

Verdade.

Meu corpo reagiu antes da minha mente.

Um calor subiu pelo meu peito, espalhando-se pelo pescoço, pelos braços, até a ponta dos dedos. Minha respiração ficou mais curta, mais superficial, e eu precisei inspirar fundo para não demonstrar o quanto aquilo tinha me afetado.

Porque eu não estava acostumada com isso.

Com alguém dizendo o que sente… sem querer nada em troca.

— Você devia tomar cuidado com o que diz — murmurei, desviando o olhar.

— Por quê?

— Porque eu posso acreditar.

Silêncio.

E então ele se aproximou.

Devagar.

Sem pressa.

Como sempre.

— E qual seria o problema nisso? — perguntou, baixo.

Eu engoli seco.

— Acreditar nunca termina bem.

Ele ficou a poucos centímetros de mim agora.

Perto demais.

— Talvez dessa vez termine diferente.

Eu ri.

Fraco.

— Você não me conhece.

— Eu conheço o suficiente.

Silêncio.

Perigoso.

Porque parte de mim queria acreditar nisso.

E a outra parte… sabia exatamente o que acontecia com coisas que pareciam boas demais para ser verdade.

Elas quebravam.

Sempre quebravam.

— Eu quero te apresentar para os meus pais — eu disse de repente.

Erro.

Eu soube no mesmo instante.

Mas não voltei atrás.

Jacob franziu levemente o cenho.

— Tem certeza?

— Não — respondi, sincera. — Mas eu vou fazer mesmo assim.

Ele me observou por alguns segundos.

— Tá bom.

Simples.

Sem medo.

Sem recuo.

E aquilo…

Aquilo só me puxava mais.

A casa parecia ainda mais artificial naquela noite.

As luzes estavam mais fortes, os móveis mais alinhados, o silêncio mais pesado. Tudo parecia… preparado. Como se aquele espaço inteiro estivesse pronto para julgar.

E talvez estivesse.

Jacob entrou ao meu lado, postura firme, mas sem arrogância, os olhos atentos analisando o ambiente com calma. Ele parecia deslocado ali… e ainda assim, mais real do que qualquer pessoa naquela casa.

Renée foi a primeira a olhar.

E o olhar dela…

Foi imediato.

Avaliação.

— Então… esse é o seu amigo — disse ela, com um sorriso que não era um sorriso.

— Esse é o Jacob — respondi, firme.

Carlisle observava em silêncio.

Sempre observando.

— Prazer, senhora Higginbotham.— disse Jacob, estendendo a mão.

Renée não apertou imediatamente.

Micro pausa.

Suficiente para deixar claro.

— Interessante — murmurou ela. — Bella sempre teve… um gosto peculiar.

Meu estômago revirou e Jacob não reagiu.

— Ele é meu namorado, mãe — eu corrigi.

Silêncio.

Pesado.

— Claro que é — disse ela, sorrindo levemente. — Você sempre adorou fazer caridade para o proletariado.

Aquilo…

Aquilo foi calculado.

Cirúrgico.

Meu coração disparou.

Raiva.

Quente.

Imediata.

— Não fala assim — eu disse, a voz baixa, mas firme.

Ela me olhou.

— Eu só estou sendo honesta, meu anjo.

— Você está sendo preconceituosa e escrota.

— Eu estou sendo realista, meu bem...

Silêncio, o tipo de silêncio que machuca.

Jacob deu um passo à frente.

— Eu acho que já entendi — disse ele, tranquilo.

— Ótimo — respondeu Renée.

— Eu não estou aqui por vocês — continuou ele. — Estou por ela, pela Bella.

Silêncio.

E dessa vez…Foi diferente.

Porque ele não recuou, não se diminuiu e muito menos pediu aprovação.

E aquilo...foi a primeira vez que alguém enfrentou a minha família sem quebrar.

Meu peito apertou.

Forte.

Orgulho.

Perigoso.

— Vamos embora, Jake — eu disse, segurando a mão dele.

E eu senti.

O toque.

Quente.

Firme.

Real.

E aquilo…

Aquilo foi o suficiente.

O telefone tocou quando eu ainda estava com ele.

O som cortou o momento de forma abrupta, violenta demais para algo que deveria ser apenas… uma ligação.

Eu atendi.

— Bella… — a voz de Alice saiu falha.

Errado.

— O que aconteceu? — perguntei imediatamente.

Silêncio.

Respiração.

— Foi a Rosalie…

Meu corpo travou.

— Fala — eu disse, mais firme.

— Os pais dela sofreram um acidente.

O mundo não parou.

Mas mudou.

Instantaneamente.

— Onde?

— Hospital.

Eu desliguei.

Sem pensar.

— O que foi? — Jacob perguntou.

— A gente precisa ir. Agora.

O hospital cheirava a morte, não de forma óbvia.

Mas de forma sutil, desinfetante forte, Ar gelado, Luz branca demais e silêncio.

Sempre silêncio.

Rosalie estava sentada.

Mas não estava.

Os olhos fixos em algum ponto que não existia, o corpo imóvel, as mãos fechadas com força demais sobre o próprio colo. Bree estava ao lado dela, pequena, perdida, os olhos vermelhos, tentando entender algo que ninguém ali sabia explicar direito.

— Rosie… — eu chamei.

Ela não respondeu.

— Rosalie — repeti, mais baixo.

Nada.

— Eles morreram — disse ela.

Simples.

Sem emoção.

Sem quebra.

E aquilo…Aquilo foi pior do que qualquer grito.

Bree começou a chorar.

Baixo.

Contido.

Como se tivesse medo de fazer barulho.

Eu me ajoelhei na frente dela.

— Ei… — murmurei, segurando o rosto dela.

A pele fria.

Tremendo.

— Vai ficar tudo bem — eu disse.

Mentira, mas necessária.

Jacob estava atrás de mim.

Presente.

Firme.

E pela primeira vez…Eu senti.

Que talvez…Ele fosse o único lugar onde eu não precisava fingir.

E isso…Isso me assustou mais do que qualquer outra coisa.

Porque não era mais só querer.

Era precisar.

E quando você começa a precisar de alguém…

Você já perdeu.

E eu…

Eu nunca fui feita para perder.


Perder não era uma opção, nunca foi, mas naquela sala fria de hospital, com o som distante de passos ecoando pelos corredores e o cheiro insistente de antisséptico invadindo tudo, eu percebi uma coisa que me incomodou mais do que a própria morte: havia coisas que não podiam ser controladas.

E isso…

Isso era inaceitável.

Rosalie continuava imóvel, como se o corpo dela tivesse congelado no momento exato em que a realidade se tornou insuportável demais para ser processada. Os olhos ainda abertos, fixos em nada, a respiração tão leve que por um segundo eu cheguei a me perguntar se ela ainda estava realmente ali.

Mas ela estava.

Só não inteira.

Bree se agarrou ao meu braço de repente, os dedos pequenos cravando na minha pele com força suficiente para doer, mas eu não afastei. A dor era real. E naquele momento… real era melhor do que vazio.

— Eles vão voltar? — ela perguntou, a voz falhando no meio da frase.

Silêncio.

O tipo de silêncio que destrói qualquer resposta possível.

Eu senti minha garganta apertar, não por tristeza, mas pela necessidade de responder corretamente.

Porque naquele momento… tudo que eu dissesse ia moldar o que viria depois e eu não errava.

Nunca.

— Não — respondi, firme, mas sem ser dura. — Eles não vão.

Bree começou a chorar mais forte, descontrolada agorae Rosalie…

Ainda nada.

Eu me levantei devagar, olhando para ela com atenção.

Analisando.

Sempre analisando.

— Rosie… — murmurei, me aproximando.

Nenhuma reação, eu toquei o rosto dela.

Frio.

— Você precisa respirar — eu disse, baixo.

Nada.

— Rosalie, olha pra mim — insisti, segurando o rosto dela com mais firmeza.

E então…Ela piscou.

Uma vez.

Duas.

E finalmente…Me viu.

— Eles morreram — repetiu.

Como se estivesse testando a frase.

Como se ainda não acreditasse completamente nela.

— Eu sei — respondi.

— Eu não consegui falar com eles hoje — disse ela, a voz começando a falhar. — Eu ia… eu pensei em…

A respiração dela ficou irregular.

Rápida.

Errada.

— Ei… — eu puxei ela para perto, segurando o corpo dela antes que desmoronasse completamente.

E ela desmoronou.

De verdade dessa vez.

O choro veio forte, descontrolado, os dedos agarrando minha roupa como se eu fosse a única coisa impedindo ela de desaparecer completamente.

E naquele momento…

Eu senti.

Algo estranho.

Algo que eu não gostava de sentir.

Responsabilidade.

— Eu tô aqui — murmurei, passando a mão pelos cabelos dela.

E era verdade.

Eu estava.

E não só naquele momento.

Eu estaria depois também.

Porque agora…

Elas precisavam de mim.

E isso…

Isso mudava tudo.

Jacob colocou a mão nas minhas costas.

Leve.

Firme.

Presente.

E aquele toque…

Me ancorou.

Porque mesmo no meio do caos…

Ele estava ali.

E isso criava um contraste perigoso dentro de mim.

Dor…

E conforto.

Perda…

E presença.

E o pior de tudo…

Eu estava começando a associar uma coisa à outra.

O velório foi silencioso, elegante e frio.

Como tudo que envolvia dinheiro.

As flores eram caras demais.

As roupas escuras demais.

As pessoas… falsas demais.

Eu observava tudo.

Cada gesto.

Cada olhar.

Cada palavra ensaiada.

Rosalie estava ao meu lado o tempo todo, segurando minha mão.

Como se fosse o contrário.

Como se fosse eu que estivesse sustentando ela…

Quando na verdade…

Eu estava sustentando a situação.

Bree não soltava meu braço.

E aquilo…Aquilo dizia mais do que qualquer palavra.

— A gente vai dar um jeito — eu disse, baixo, enquanto o caixão era fechado.

Rosalie não respondeu, mas apertou minha mão e aquilo…

Foi suficiente.

Nos dias seguintes…tudo começou a cair.

Rápido.

Implacável.

As contas apareceram, as dívidas também e a casa… não era delas de verdade.

Claro que não era.

Nada nunca é.

— Vamos ter que sair — disse Rosalie, sentada no chão da sala, cercada por papéis.

A voz dela estava diferente.

Mais baixa.

Mais… real.

— Não — eu respondi.

Ela levantou o olhar.

— Bella…

— Eu disse não.

Silêncio.

— Eu resolvo — continuei.

— Você não pode resolver tudo — disse ela, quase sem força.

Eu sorri.

Pequeno.

Frio.

— Eu posso tentar.

E eu tentei.

Consegui um apartamento pequeno, nada parecido com o que elas tinham antes, mas suficiente.

Seguro.

Controlável.

Emprestei dinheiro.

Organizei documentos.

Resolvi contratos.

E enquanto fazia tudo isso…Eu percebi uma coisa.

Eu não estava fazendo aquilo por bondade.

Eu estava fazendo porque precisava ser necessária.

Porque quando alguém precisa de você…Essa pessoa não vai embora e eu não lidava bem com pessoas indo embora.

Nunca lidei.

Jacob estava comigo em tudo.

Silencioso quando precisava.

Presente quando importava.

E aquilo…começou a me viciar.

— Você não precisa fazer tudo sozinha — disse ele uma noite, encostado na porta do novo apartamento.

Eu suspirei.

— Eu sei.

— Mas faz mesmo assim.

Eu olhei para ele.

— Eu não gosto de depender de ninguém.

Ele deu um passo mais perto.

— E se não for dependência?

Silêncio.

— E se for parceria?

A palavra ficou.

Ecoando.

Perigosa.

— Eu não sei fazer isso — murmurei.

Ele segurou meu rosto.

Com cuidado.

Sempre com cuidado.

— Então aprende comigo.

Meu coração acelerou.

De novo.

— Você acha que é fácil assim?

Ele sorriu.

— Não.

— Então por que insiste?

Ele me encarou.

Direto.

— Porque você vale a pena.

Silêncio.

E ali… foi o momento exato.

O ponto sem volta, porque ninguém nunca tinha dito isso pra mim…

Sem segundas intenções.

Sem interesse.

Sem manipulação.

Só… porque acreditava.

E isso…Isso me quebrou de um jeito silencioso.

Perigoso.

Irreversível.

Eu encostei a testa na dele, respirando o mesmo ar e sentindo o mesmo ritmo.

— Você é a única exceção — murmurei, sem perceber.

Ele não entendeu completamente, mas não precisava.

Porque eu entendi e isso era o suficiente.

Porque eu sempre acreditei que o amor era uma fraqueza.

Uma falha.

Um erro que as pessoas cometiam quando deixavam de pensar.

Mas com ele…parecia diferente.

Parecia… possível.

E talvez…esse tenha sido o maior erro de todos.

Acreditar…

Que algo assim poderia durar.

Notas finais
Dizem que a dor aproxima as pessoas…mas, às vezes, ela não aproxima. Ela prende. E quando alguém vira o seu único lugar seguro…você já não está mais escolhendo ficar. Você está começando a não conseguir ir embora...