Tryndamere odiava grupos. Fizera parte de um na infância, antes de morrer e se descobrir um imortal, na época em que ser imortal era importante. Atualmente, sem fazer muito esforço, ele conseguia pensar em dois ou três imortais que conhecia. Brandon sozinho provavelmente já acumulava mais mortes do que todos juntos.


Havia tentado com as Lendas. Durou menos ainda. Confiar em pessoas trazia falhas que traziam decepções. Ele preferia trabalhar sozinho. Tendo uma lâmina afiada e poucas interrupções, nenhum serviço se mostrava difícil. Não tinha essa oportunidade desde que se filiara a Freljord. Especialmente dado o seu relacionamento “enrolado” com a rainha deles, Ashe.


Ainda assim, Tryndamere conseguia se sentir relativamente livre e acomodado no reino gélido e isolado. Caçava ursos do tamanho de árvores com frequência e adorava. A caçada, o combate, o suor e o sangue (dos outros) que se misturavam em seu corpo. Talvez não fosse a vida ideal, mas parecia boa o suficiente. Ele estava, talvez pela primeira vez, em paz. Isso foi até três semanas, quando Brandon apareceu.


— Ei, Marc. – O cientista perguntou quando o bárbaro lhe apontou a espada serrada. Tinha ouvido seus passos por toda a montanha e preparado uma emboscada para o invasor, esperando qualquer um, exceto ele.


Brandon estava diferente do que ele se lembrava. Os cabelos estavam brancos novamente e uma barba curta cobria a metade inferior de seu rosto, fazendo-o enfim não parecer com uma criança perdida. Os olhos negros continuavam afiadíssimos, embora parecessem desprovidos de uma alegria outrora portada. O canto do lábio se dobrava em um sorriso presunçoso que ele nunca vira no rosto do cientista:


— Achei que tivesse dito o que aconteceria caso viesse atrás de mim. – O bárbaro comentou com indiferença.


— Eu tenho certeza que você só disse para não te procurar. Eu lembraria de alguma ameaça.


— O que você quer?


— Muitas coisas. – Devolveu com uma ironia ácida que Tryndamere não esperava. – Posso precisar de você para algumas. – Ele indicou com a cabeça o topo da montanha onde o castelo real de Ashe ficava. – Todos vocês.


— Esqueça. – Tryndamere respondeu, recolhendo a espada para encaixá-la nas costas e se virando.


— Eu sei onde o Aatrox está. Sem truques. – Tryndamere parou. Brandon sabia que ele estava escutando. – Eu posso te levar até ele e te ensinar a derrotá-lo, se me der um exército.


— O que você está tramando? – Perguntou, encarando-o com os gélidos olhos azuis.


— Desde que consiga matar Aatrox, você se interessa? – Perguntou, mais frio do que qualquer coisa naquele deserto congelado.


Ele se interessava? Importava? Não enquanto brandia a espada demoníaca com que fizera um pacto contra o Darkin naquele salão repleto de pessoas confusas. Tinha feito tudo que Brandon dissera e agora ganhava sua recompensa. Vingança. Seus olhos brilhavam em um vermelho intenso quando seu braço-espada se chocava contra a espada do Darkin.


— Você se lembra de mim? – O bárbaro gritou quando suas lâminas se chocaram. O Darkin permanecia sem expressão.


Aatrox saltou em sua direção, deixando uma rachadura do chão envernizado quando Tryndamere desviou, girando na direção oposta apenas para voltar a atacá-lo com a espada pela diagonal. Aatrox levantou a própria espada o bastante para que o espaço entre as lâminas serrilhadas prendesse a do bárbaro. Com um suave movimento, ele arremessou Tryndamere pela espada até o outro canto do salão, onde ele se chocou com uma pilha de copos de vidro.


Ele mal sentia dor. A espada demoníaca acoplada ao seu corpo cuidava disso, mas nada fazia para aplacar sua ira. Pelo contrário, o silêncio do Darkin praticamente o deixava cego de ódio. Ele não conseguia ver em seu caminho nada além do humanoide vermelho gigante.


— Por que você não me matou? – Exclamou de frustração para a figura silenciosa. Aatrox não se mexia a menos que Tryndamere tentasse atacá-lo.


Ele girou novamente, impulsionado pela espada, e brandiu a espada descuidadamente na direção do Darkin com toda a sua força. Aatrox podia lhe desferir um contra-ataque fatal ali, se quisesse, mas alguma coisa indecifrável em seu âmago o fez preferir retribuir a violência do golpe. Quando as espadas se chocaram, todos os vidros do castelo racharam.


Tryndamere e Aatrox continuaram se golpeando com tamanha intensidade enquanto todos que ainda estavam ali assistiam do lado de fora, não interferindo como Brandon tinha garantido que fizessem. Nenhum dos dois podia explicar porque fazia aquilo. Eram guerreiros centenários versados em diversas artes de combate e hábeis como ninguém com espadas em mão, então por quê? Por que preferiam chocar infrutiferamente suas espadas, desperdiçando energia?


Para sentir um ao outro, é claro. Praticamente se podia sentir o poder emitido nas colisões jubilar de alegria no ar enquanto se desfazia em som e calor. O ódio irradiado de ambos que inflamava o ambiente como a explosão de dezenas de sóis. O passado que ambos carregavam se desfazendo como uma colcha de retalhos sendo descosturada, desconstruída.


E os outros, os forasteiros, os espectadores, nunca entenderiam o que presenciavam. Nunca saberiam o que acontecia além dos fatos, além do visível. Eram também guerreiros, imortais e construtores. Maquinadores. Tinham sentimentos e paixão. Mas nada daquilo bastava para entender a relação que se desenrolava diante de seus olhos. Era impossível compreendê-la sem dela fazer parte, integrar-se, entregar-se.


E os guerreiros se entregavam. Tinham sido feitos um para o outro, desde o início, não restava dúvida. O último Darkin contra o último Tryndamere. Era assim que havia de ser. Não havia acaso ou destino que separasse aquelas espadas, que os impedisse de se encontrar. Tryndamere percebia agora que todos os anos de sua vida não passavam de um prólogo para aquele momento. Aquele era o seu momento.


Suas espadas se chocaram mais uma vez e foram repelidas para trás. Os olhares de ambos se cruzaram por um milésimo de segundo que se estendeu pela eternidade. Vermelho com vermelho. Então eles se atacaram sabendo que seria a última vez.