Before - League of Legends III
6 Savon
"Era óbvio que isso ia dar #&+*@", Savon pensou, contrariado.
Tinha sugerido para aquela garota teimosa que saíssem antes que o caldo entornasse ainda mais pro lado deles, que eram os penetras daquela festinha particular. Mas ela escutou? Escutou? Que nada. Preferiu fazer o oposto. Agora estava presa por falsidade ideológica, invasão de propriedade e tentativa de atentado à segurança pública. Portanto, seria julgada.
O que não era problema dele, uma vez que já tinha problemas demais para poder se envolver com o dos outros. Especialmente os problemas de uma garota teimosa feito ela. Especialmente esses!
Contudo, antes que percebesse, ele estava empregando o seu módulo (roubado) de invisibilidade para entrar no tribunal da Liga. Aquele módulo, por sinal, tinha exercido um grande papel na sua decisão de estar ali. Pois, preocupado, ele tinha pesquisado sobre a garota doida que conheceu no baile demaciano.
"Isabel Adhit". Acontece que ela tinha criado a tecnologia que o fazia ficar invisível, alguns anos atrás. A mesmíssima tecnologia que tinha salvado sua pele de diversas confusões. Não que isso o fizesse achar que devia alguma coisa para ela. Afinal, a garota provavelmente tinha ficado rica com aquilo. Mas seria um desperdício deixá-la aprisionada em algum lugar do Instituto.
Acompanharia de perto. Se ela fosse inocentada, menos mal. Se não, ele poderia libertá-la. A vida como fora-da-lei com certeza era melhor do que a vida de dentro-da-cana.
A parte do acompanhar de perto realmente era um pouco problemática. Primeiro porque se tratava de um julgamento muito importante, já que era a maior pista para o mistério do ataque de Aatrox. Segundo porque a acusada era uma inventora reconhecida entre os membros da Liga. Terceiro porque o acontecimento envolvia o retorno de um certo Brandon Beck, de quem se dizia estar morto.
Savon conhecia Brandon Beck e sabia há quase um ano que ele não estava morto, então não fazia ideia de que isso era segredo. Se soubesse, teria tentado vender a informação para algum chefão do crime graúdo. Talvez para um dos Rosas Negras. Enfim.
Um julgamento tão badalado não era exatamente fácil de penetrar. Especialmente porque os prédios do Instituto contavam com tecnologia de ponta e sabiam reconhecer o sistema de camuflagem que permitia a invisibilidade.
A menos que você meio que já tivesse visitado o lugar antes de tal data e conhecesse os dispositivos capazes disso. Então, mapeando-os após longas visitas, você tivesse uma ideia específica dos pontos cegos que pudessem ser explorados. Esse era Savon. Sem ninguém perceber, ele estava na sala, esperando o julgamento começar, ao lado de dezenas de membros da imprensa, da Liga, invocadores, testemunhas, curiosos e partes interessadas.
— Vamos começar, sim? – A Alta Conselheira Vessaria Kolminye falou, para ninguém em especial, ao tomar o lugar na cadeira mais alta, reservada à maior autoridade do lugar. Aos seus lados, em cadeiras de menores alturas, sentavam Swain e Jarvan IV. – É certamente uma situação excepcional e estamos tratando-a como tal. Ela será, portanto, julgada por mim, a Alta Conselheira. – Ela fez uma pausa de expectativa. – E mais ninguém.
Murmúrios de espanto tomaram conta do lugar. Savon quase caiu para trás. Aquilo nunca tinha acontecido antes. Prova disso era que não se previa essa situação em nenhuma lei do Instituto. Como ela mesma disse, era uma situação excepcional. Embora ele se perguntasse se era tão excepcional assim. Era quase como se eles estivessem usando o caso como pretexto para outra coisa.
— Eu quero começar entendendo a situação. – Vessaria falou, elevando a sua voz sobre a multidão de comentários acerca do caráter excepcional do julgamento. – Senhorita Adhit, se importa de contar exatamente o que aconteceu?
— Em seis palavras: Pior. Festa. De. Aniversário. De. Todas. – Ela respondeu, arrancando uma alta gargalhada de Sivir, que sentava mais pelo meio do tribunal.
— Campeã, por favor, controle-se. – A Alta Conselheira pediu, com um olhar de reprovação. – E a senhorita não está se ajudando. Mas talvez um pouco de direcionamento nos faça bem, sim? Eis o que sabemos com certeza: A senhorita se disfarçou como a princesa Cateline Laurent, uma membro da realeza demaciana, para invadir inapropriadamente um baile e, ao lado de um cúmplice, – Savon se encolheu de preocupação num canto, embora estivesse invisível. – arquitetou a liberação de um monstro neste nesmo baile repleto de não-combatentes, ocasionando na destruição de patrimônio inestimável e colocando dezenas de vidas em risco. Até aí, apenas fatos?
— Quando você fala assim, parece pior. – Isabel respondeu, levemente envergonhada. – Mas o homem não era meu cúmplice. Como você pode ver, ele não está aqui comigo.
— O que isso deveria provar?
— Que eu sou corajosa. E só me associo com pessoas igualmente corajosas, que assumem as suas responsabilidades. Que se levantam contra a injustiça e a opressão, especialmente quando ela vem de organizações muito antigas e muito malvadas. – Disparou, antes de acrescentar. – Respeitável Alta Conselheira.
Savon se encolheu ainda mais. O que lhe deixava curioso era que só parte daquilo tinha sido insultando a ele. O resto parecia fazer parte de um joguinho muito específico entre as duas. Um joguinho no qual a Alta Conselheira parecia ter prazer em entrar:
— E contra qual organização antiga e malvada a senhorita estava se levantando quando assumiu a identidade de uma princesa da casa Laurent?
— Eu entrei lá com a intenção de investigar o paradeiro do monstro Aatrox. – Mentiu. Savon estava com ela quando encontraram a criatura ao acaso. Ainda assim, se sentiu orgulhoso. Se fosse ela, usaria uma desculpa semelhante. – Temi que ele poderia ser usado com más intenções e fui averiguar em que condições estava. Meu foco era o bem-estar da Liga.
— Mesmo? – Os olhos de Vessaria brilhavam. – E como você descobriu que ele poderia estar lá?
— Tive um bom palpite baseado nos vitrais demacianos, que mostravam uma criatura extremamente parecida com Aatrox. – "Boa, garota", pensou Savon. Ela respondia tão rápido e naturalmente que mesmo ele se sentia levado a acreditar que só podia ser verdade.
— E como você sabia a aparência dele?
— A Liga tem um membro que o conheceu pessoalmente. Marc Tryndamere.
— Isso não responde a minha pergunta.
— A maior parte dos membros fundadores da Liga conhece a história de Marc e sabe sobre Aatrox. E eu conheço a maior parte dos membros fundadores da Liga, logo...
— Sim, os membros fundadores... – Comentou a Alta Conselheira, em tons de malícia. – É sabido que, junto da senhorita, vários deles formam uma espécie de grupo à parte da própria Liga. Devemos supor que, além de fragmentar o poderio do Instituto e rachar nossa moral coletiva, seu grupo também dedica parte do próprio tempo a falar sobre histórias do passado de Marc Tryndamere?
— Você pode supor o que você quiser. – Ela respondeu, provavelmente mais ríspida do que pretendia, mas menos do que gostaria. Dessa vez, Sivir bateu palmas enquanto Savon olhava apreensivo para a Alta Conselheira, temendo que ela se irritasse com a situação. Seu semblante, no entanto, permanecia calmo.
— Muito bem. – Concluiu. – De fato, Marc Tryndamere, um dos membros fundadores, estava presente nesse dia. Felizmente, ele aceitou o nosso convite para testemunhar sobre o ocorrido. Para aqueles que não estão cientes, desde que eu assinei o acordo da soberania de Freljord, – Uma salva de palmas irrompeu de alguns presentes. Sivir e seus companheiros permaneceram calados, com esta de braços cruzados. – uma triste guerra civil irrompeu nas montanhas gélidas, o que tem afastado alguns dos nossos campeões das suas tarefas. Por isso, é uma honra poder contar com Tryndamere Espada Demoníaca nos nossos relatos.
O bárbaro se levantou e se encaminhou até uma cadeira diante dos juízes, ou juíza, no caso. A espada que tomava o lugar do seu braço se arrastava pelo piso de madeira do tribunal. Para Savon, ele parecia estranhamente calmo, especialmente se comparado com a última noite em que se viram, onde ele deitou um Darkin super poderoso na porrada.
— Você pode nos contar mais sobre a noite em questão?
— Eu deitei um Darkin super poderoso na porrada. – Resumiu. "Viu?", pensou Savon. – Nada mais.
— E como você sabia onde encontrá-lo?
— Brandon Beck me falou. – Parte do público prendeu a respiração, a outra parte cochichou intensamente entre si.
— O Brandon Beck? O fundador da Liga?
— O único. – Respondeu, lacônico.
— Muito bem. Ouvimos algo parecido e estamos averiguando a veracidade disso. Até onde sabemos, Brandon Beck está morto. – Decretou Vessaria. – O que você tem a dizer sobre Isabel Adhit?
— Não conheço. – Tryndamere a olhou rapidamente. – Não me importa.
— Obrigada, Tryndamere. – Concluiu.
Diversas testemunhas foram chamadas a seguir: Garen, Fiora, o próprio Jarvan falou. Savon estremeceu quando deram uma descrição física dele e a Alta Conselheira se certificou de que ele fosse procurado para depor, mas se acalmou quando ninguém falou nada muito pesado contra Isabel. Apesar disso, o poder final de decisão da Alta Conselheira, que claramente não se dava bem com Isabel, o preocupava. Até que a testemunha final foi chamada:
— Os rumores eram verdadeiros, para vocês que só tinham ouvido sobre o que aconteceu de fato até aqui. Quero chamar aqui o senhor Brandon Beck.
Uma nuvem de comentários tomou conta do lugar, com burburinhos vindo de todos os lados. Sivir soltou um grito de alegria quando Brandon Beck entrou, enfim, pelas portas do tribunal dos invocadores, sendo recebido por algumas exclamações de surpresa:
— Senhor Beck, é uma surpresa positiva vê-lo tão... vivo. – Vessaria comentou quando ele se sentou, dando um risinho assustador, mas que ela com certeza imaginava ser amigável.
— Ninguém está mais feliz do que eu. Eu queria, inclusive, que o meu retorno fosse numa ocasião mais agradável, com uma grande piscina e churrasco livre para todos. – Parte do público aplaudiu o comentário, com Sivir gritando muito de aprovação. – É uma pena que a situação tenha que ser tão sombria. Mas me vejo feliz, Alta Conselheira, de ver o caso ser julgado por tão eficiente mente como a sua. Tenho certeza de que logo chegaremos a um resultado justo.
— Ah, Brandon. – Vessaria balançou a mão, lisonjeada, deixando de lado a formalidade. – Você sabe mesmo como resolver situações difíceis. O que seria da Liga sem você?
— Ora, eles passaram todos esses anos sem mim, mas com você. Se eu realmente ergui esse império, e tenho lá minhas dúvidas disso, foi você quem o manteve, Vessaria.
Savon achou que fosse vomitar com tamanha rasgação de seda, mas entendia porquê Brandon era o mais inteligente entre todos aqueles, mesmo Isabel. Ele não se deixava levar pelas emoções. Podia estar odiando aquilo, mas não deixava ninguém perceber. O próprio Savon não perceberia, se não estivesse deduzindo pelo comportamento dos outros.
— De qualquer forma, espero que, com o seu retorno, possamos fazer grandes coisas juntos. Especialmente com os terríveis acontecimentos recentes. A tragédia com o povo de Piltover, sinceramente... – Vessaria comentou, solenemente.
Brandon concordou com a cabeça: – Viktor, Sejuani e Lissandra estão se provando verdadeiras dores de cabeça. Para todos nós, imagino.
— É verdade. Mas a Liga e o Instituto vão prevalecer. Como sempre, aliás. – O último comentário também foi seguido de aplausos. – Falemos do que importa, porém. Isabel Adhit. Você foi quem deu voz de prisão nela.
— Ah, Isabel. – Brandon disse, com afeto. – De fato, fui eu o responsável por colocá-la nessa situação. Quero ressaltar, porém, que ela é uma das maiores mentes desse século, uma grande amiga e uma excelente pessoa. Ninguém está acima da lei e certamente os fins não justificam os meios, mas ela estava munida de boas intenções. Inclusive, eu fui movido pela mesma rede de informações que ela. Se nós dois pudemos descobrir o paradeiro de Aatrox, quem mais não poderia tê-lo feito?
— Apesar disso, a interferência dela só causou mais problemas. – Vessaria apontou.
Brandon riu: – É verdade. Mas se a cada dez interferências ela causar problemas em uma...
— E isso acontece?
— A minha experiência afirma que sim.
— Muito bem. Obrigada, Brandon. Seu testemunho foi extremamente... esclarecedor.
— O prazer é meu, Alta Conselheira. – Então se virou para a audiência, levantando de sua cadeira. – É um prazer estar de volta, pessoal.
Uma rodada de aplausos o seguiu até que ele encontrasse o seu lugar. Vessaria pediu um tempo a todos para discutir com Swain e Jarvan até que retornasse com o veredito:
— Bem, após analisar os fatos apontados, e tendo em vista a situação como um todo, declaro o meu entender: A senhorita Isabel Adhit agiu de boa fé em prol da Liga, numa exibição de proatividade semelhante àquela que nos levou a criar a Liga. Suas intenções justificam suas infrações mais leves e os resultados anulam as mais pesadas. Esperamos, no entanto, que a advertência seja reforçada com uma multa em ouro, no valor da destruição do Palácio Real, na esperança de que isso conserte o transtorno causado aos demacianos. Parece certo, príncipe Jarvan?
— Muito certo. – Ele respondeu, com um sorriso amigável.
— Valeuzão. – Agradeceu Isabel, fazendo um sinal de positivo com o polegar enquanto se perguntava quanto de ouro que não tinha e teria que gastar.
— Fique fora de problemas. – Vessaria aconselhou, afetuosamente.
— Sempre, Alta Conselheira. – Isabel respondeu, num tom ambíguo entre respeito extremo e ironia extrema, que Savon captou novamente. Ela não conseguia esconder o desdém da Alta Conselheira.
Contudo, ele respirou aliviado. Ela estava livre. Ele continuava foragido. Tudo estava certo. Exceto que agora Brandon Beck parecia encará-lo. O cientista estava sentado relativamente perto dele, mas um pouco na sua frente. Tinha virado a cabeça e parecia examinar com a atenção a área onde ele estava invisível. Até que ele franziu as sobrancelhas e voltou a olhar para a frente.
Savon aproveitou o momento para sair, uma vez que a imprensa começava a se amontoar ao redor de Brandon Beck, Isabel Adhit e Vessaria Kolminye, enquanto os membros fundadores comemoravam e aquela Sivir fazia uma estranha dança da vitória.
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