Before - League of Legends III
7 Tryndamere
Tão logo o julgamento acabou, Brandon Beck foi cercado por uma multidão. Perguntas voaram como flechas em sua direção, bombardeando-o com diversos temas acerca do seu desaparecimento de 5 anos.
Tryndamere não se fez de rogado e saiu da corte tão rápido quanto pôde, preferindo esperar pelos outros do lado de fora. Não queria estar ali e não fazia questão de esconder aquilo. A verdade era que tinha feito tantos acordos “com o diabo” para conseguir o que queria que era possível que passasse o resto da longa vida fazendo coisas que não queria.
Eram tantos os compromissos que o prendiam que um homem comum se sentiria sufocado. Ele estava mais para irritado. Tinha aquela Espada Demoníaca com a qual tinha feito um acordo em troca de poder, transformando a si mesmo, se é que era possível acrescentar mais ao caldo, em um monstro. Era o marido de Ashe, a rainha sem um reino, que travava agora uma grande guerra contra outras duas facções freljordianas, portanto assumia de guerreiro e rei o manto. Além disso, tinha feito o pior acordo de todos: uma promessa a Brandon Beck.
Não ignorava as consequências do que tinha acontecido da última vez em que o ajudou a “salvar o mundo”. O que o irritava era que, aparentemente, todos os outros ignoravam. Ao ver aqueles campeões comemorando o seu retorno não tinha sentido nada além de nojo. Como era possível que eles não enxergassem que por trás de toda boa intenção de Brandon Beck existia uma tragédia?
Mesmo Ofélia, de quem o cientista claramente gostava acima de várias coisas, tinha sido tragada vítima da espiral de acontecimentos incontroláveis que permeavam a existência dele. E Tryndamere já tinha lidado com muita porcaria na vida para continuar se sujeitando àquele tipo de coisa.
Apesar disso, não tinha nenhuma opção melhor. Ou foi disso que o bárbaro se convenceu ao aceitar se unir novamente ao cientista para “salvar o mundo”. A contradição de tudo aquilo era o que fazia ferver o seu sangue com o fogo da raiva, especialmente enquanto era deixado esperando pelo fim das explicações sobre a vida do precioso Brandon Beck.
Quando, enfim, o cientista saiu, acompanhado da Alta Conselheira Vessaria, o bárbaro se levantou do tronco onde estava sentado para se aproximar de ambos, que trocavam palavras um tanto ácidas:
— Foi um renascimento e tanto esse seu. – Vessaria comentou. – Do homem que se recusava a reconhecer nossa influência para alguém que se rebaixa a nós para salvar uma garotinha. E tudo porque ela queria ver um baile de verdade.
— Se ela fosse só uma garotinha, você não daria esse show todo. E eu não faria tanto esforço para salvá-la. – Ele respondeu com simplicidade. – Além disso, os bailes demacianos são os melhores, não posso julgá-la. Se bem que nem você podia, mas aqui estamos.
— Não sei que jogo você está jogando, mas deveria tomar mais cuidado. Aparecer assim em público, francamente. – Vessaria alertou, deixando sua irritação aparecer, pela primeira vez. – Nossa paciência tem um limite e você e seus amigos parecem determinados a ultrapassar. Hoje, eu podia ter trancado sua amiga numa cela pro resto da vida dela. Eu quero que você pense nisso da próxima vez.
— Já deu o seu recado. – Tryndamere interferiu, irritado. – Agora vaza.
Vessaria pareceu prestes a responder o bárbaro, mas mudou de ideia e preferiu ignorar, com um pequeno sorriso: – Estamos contando com você para resolver um outro probleminha causado por Viktor, Brandon Beck.
Ele não respondeu, apenas a observou enquanto ela se afastava, sendo então seguida por alguns invocadores. Tryndamere pigarreou, chamando sua atenção:
— Então?
— Não seja impaciente, Marc. – Brandon sugeriu, balançando a mão.
— Não me chame assim. – Grunhiu.
— Ok. – Assobiou. – Agora, Savon, se você quiser, por favor, desativar este dispositivo de camuflagem.
— Savon? – Tryndamere perguntou, confuso, antes do explorador apertar um botão na sua cintura e se tornar visível novamente.
— Ei, senhor Beck, tudo bem? – Savon cumprimentou, meio encolhido, com receio de que alguma das pessoas que saíam do tribunal o vissem. – E aí, Tryndamere. Deu show lá em Demacia, hein?
E estendeu a mão para cumprimentá-lo. O bárbaro o deixou no vácuo, voltando a encarar Brandon com impaciência:
— Eu tenho pressa.
— Lá vem ela. – Brandon comentou, acenando para a garota que saía do tribunal ao lado de vários campeões.– Isabel, aqui.
A garota de cabelo meio tingido de roxo correu na direção deles. Tryndamere não tinha reparado muito nela, mas agora que a via mais de perto, percebia como era jovem.
— Ei, Brandon, você… – Ela começou, mas se deteve ao ver Savon. – Você!
E se voltou irada contra ele, sendo impedida por Brandon, que se colocou entre os dois.
— Agora não, agora não. – Pediu, antes de gritar para os campeões da Resistência. – Eu já venho falar com vocês!
E apertou um botão no relógio que levava no pulso, fazendo com que os quatro fossem transportados até um outro lugar: Uma grande sala dourada, cheia de mesas cobertas por peças e itens. Algumas coisas brilhavam, outras faziam barulho, mas todas pareciam fantásticas aos olhos de Isabel, embora irritantes para Tryndamere.
Em uma das mesas, trabalhava um homem que todos os quatro conheciam, embora de maneiras totalmente diferentes. Tryndamere olhou para aquela figura com ódio, apertando o punho com força.
— Senhor Kristofer. – Savon foi o primeiro a falar. – É um prazer revê-lo.
— Oh, Bulles. – Kristofer parou o que estava fazendo para se aproximar dos visitantes. – Soube que você agora é um fora da lei, parabéns. – Então se virou para Isabel. – Senhorita, não tive a oportunidade de lhe agradecer apropriadamente por ajudar a me libertar.
— Não precisa. – Ela respondeu, meio lisonjeada, antes de se voltar para Savon. – Vocês se conhecem?
— É uma longa história. – Savon falou.
— Ah, que bom. Você vai ter tempo de me contar depois de me explicar por que me abandonou.
— Eu te falei pra gente fugir!
— Por que a gente fugiria se não fizemos nada de errado?
— Mas fizemos!
— Fizeram mesmo. – Brandon interrompeu.
— Tá, mas ainda bem que fizemos, né. – Isabel sorriu para ele. – Se não fosse essa coincidência, não teríamos nos encontrado.
— Não foi coincidência. – Ele respondeu de uma maneira sombria. – Você foi atraída até lá e ainda facilitaram a sua entrada, tudo para te colocar num tribunal. Seu disfarce nunca enganaria ninguém. – Ele fez uma pausa, sob o olhar indignado dela. – Sem ofensa. E Aatrox também não estava exatamente escondido, eles queriam que ele fosse encontrado.
— Quê? Olha, mesmo que os Rosas pudessem fazer tudo isso…
— Jarvan IV está morto e LeBlanc está se passando por ele sem ninguém saber. – Brandon a interrompeu. – Vessaria assinou um decreto que deu soberania a Freljord e isso estourou uma guerra civil entre Sejuani, Ashe e Lissandra. Viktor está com um pequeno exército de Máquinas de Combate. Para piorar, um cronodisplata inexperiente abriu rachaduras entre o Vazio e nossa realidade em Freljord nessa semana, enquanto enfrentava o exército de Heimerdinger. – Enumerou. – Agora, eu não sei o que você e sua Resistência têm feito, mas não tem sido eficiente. E não posso fazer nada para ajudar porque tenho sido perseguido pelos Kindred nos últimos anos.
— Eu... eu não sabia. – Ela comentou, desconcertada.
Ele deu um sorriso compreensivo: – É claro que não, querida, não se preocupe. Mas temos que nos apressar. Eu preciso de você lidando com esse problema imediato.
Então ele ligou uma projeção de tela com um grande mapa de Runeterra repleto de pontos vermelhos que piscavam sem parar. A grande maioria estava muito próxima entre si, se resumindo entre Piltover, Zaun, Noxus e Freljord, com alguns alcançando Shurima.
— Essas são as "falhas" que encontramos. – Kristofer explicou, em sua voz calma. – Pequenas rachaduras no tempo. Normalmente, elas não são tão perigosas, mas tantas assim de uma só vez... Precisamos fechar todas.
— Quem fez isso? – Savon perguntou, impressionado pela quantidade de pontos na tela.
— Ekko. Um aliado de Viktor, aparentemente. Assim como Brandon e Zilean, ele parece ter um certo grau de controle temporal.
— Cronodisplasia. – Brandon resumiu, distraído.
— E como fechamos essas falhas? – Isabel quis saber.
— Essa é a parte fácil. – Kristofer explicou, exibindo uma pequena esfera metálica que cabia na palma da sua mão. – Tivemos tempo para construir algo para remediar esse tipo de coisa. O problema é que algumas dessas rachaduras estão em lugares que Brandon e eu não podemos ir.
— Noxus. – Isabel sugeriu, para o assentimento de Kristofer.
— É o lar das Rosas Negras, não temos chance de entrar lá tranquilamente. Somos muito conhecidos. O mesmo vale para Zaun, que fica tão perto de Piltover que vocês podem ir também. E, se vocês forem mesmo com o Tryndamere, Freljord é obviamente a parada final, então não faz sentido irmos.
Brandon concordou: – Nós vamos para Shurima. De lá, tentaremos parar o que quer que o Viktor esteja fazendo, mas vocês precisam entender que não temos mais tempo. Não podemos deixar essas batalhas se estenderem assim. Nosso mundo não suporta mais isso.
— Eu achei que a Liga servisse para isso. – Savon interferiu.
— A Liga é controlada por Vessaria. Não podemos fazer nada que ela não queira.
— A maioria da Liga está do nosso lado. – Isabel argumentou. – Todos os fundadores e muitos outros.
— Mas as pessoas estão? Ou eles acham que a Resistência é uma espécie de panelinha interna da Liga que prejudica a coesão do grupo? Vocês estão caindo nas armadilhas de Vessaria. – Ele explicou, cansado. – Todos estamos.
— Além disso… – Kristofer acrescentou, com todos se virando para ele. – Mesmo que a Liga esteja do nosso lado, só devemos usar seu auxílio em último caso. Estamos tentando evitar uma guerra, não precisamos de um exército.
— Não é hora de escolher lados, só precisamos salvar o mundo agora. – Brandon concordou.
— Para deixar os Rosas governarem?
— Podemos lidar com eles apropriadamente depois. Agora, só precisamos continuar vivos.
Isabel parou para refletir. Era muita coisa para absorver, mas Brandon podia ter razão. O que significava que ela precisava
— Ninguém quer saber o que eu acho? – Tryndamere perguntou, com muita irritação, do canto onde estava.
— Na verdade… – Kristofer começou, carregado de ironia, mas foi interrompido por Brandon.
— Fale.
— Não vai funcionar se eu levar esses dois. Você quer velocidade e eficiência, não posso fazer isso sendo babá.
— Ele não é um poço de simpatia? – Savon sussurrou para Isabel, que assistia incomodada.
— Esses dois são muito eficientes. Não vão te atrasar. – Brandon garantiu.
— Então mande-os sozinhos. – O bárbaro decretou, antes de prosseguir. – Na verdade, por que você está escutando esse idiota que tentou te matar?
— Com licença? – Kristofer contestou, indignado. – Eu estava passando por uma fase.
— Ele tem me ajudado. – Brandon concordou. – Bastante.
— Te ajudado? – Marc riu. Uma risada rouca e seca, congelada como sua terra natal. – Em que ele te ajudou mais: na incapacitação de Doran ou na morte de Ofélia?
— Ok, eu acho que já fomos longe demais. – Isabel disse, levantando a voz sobre o clima de tensão, olhando para Brandon com receio. – Vamos todos respirar, sim?
Brandon encarou Tryndamere por algum tempo, com uma expressão indefinida. O bárbaro não recuou diante disso, com a revolta crescendo em seu estômago.
— Como eu dizia… – Brandon prosseguiu, fingindo que nada tinha acontecido. – Isabel já salvou a minha vida e ela trabalha com a Resistência. E Savon é um ágil… faz-tudo. Eu confio nos dois e garanto que eles serão úteis.
Tryndamere grunhiu, mas, relutantemente, concordou: – Eu não vou ajudar esses dois. Se não puderem me acompanhar, que fiquem para trás. Entendido?
— É você quem vai ter que dar duro pra acompanhar a gente. – Isabel afirmou, desafiadora. – Seu brutamontes.
Savon arregalou os olhos e Kristofer deu uma risadinha. Brandon sorriu de admiração para ela, mas Tryndamere só fingiu que não ouviu enquanto preparava a sua mochila para a partida.
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