Before - League of Legends
16 Capítulo quinze
Notas iniciais
Após ouvir a previsão do ancião, a ordem se calou. Cada um tomava para si uma conclusão diferente, mas todos chegavam na mesma solução embora ninguém se atrevesse a externar o que pensava, temendo receber algum tipo de censura dos companheiros.
– Eu estou com um pouco de dificuldade para entender o que você está querendo dizer… – Começou uma moça, entre as sombras indistinguíveis que a cercavam, cobrindo a sua face.
– A mesma dificuldade que eu tenho para entender o que vejo, suponho. – Respondeu o ancião, com a sua rouca voz.
Não era verdade. Ele entendia muito bem. Mas, especialmente com aqueles dons e tendo em vista com quem ele conversava, a cautela se fazia necessária.
As visões sempre foram uma parte constante na vida do ancião, mas nunca vieram daquela forma. Ele sequer podia julgar os acontecimentos e as consequências que essa traria. Apenas uma certeza podia ser adquirida no mar de desespero e dor que estava se libertando em um futuro próximo: Brandon Beck não deveria ser salvo.
– Sei no que está pensando. – A moça falou, astutamente. Ela era mais inteligente do que deveria e ninguém era capaz de silenciá-la, embora muitos houvessem tentado. – Não abrirei mão do mundo deles. Nem dele. Ainda não.
– Está sugerindo que arrisquemos tudo que demos a vida para proteger, mesmo que a previsão diga para fazermos o contrário? – Um rapaz questionou, irritado. Uma forte neblina o cercava sem trégua.
– Estou sugerindo dar o benefício da dúvida para ele. – Ela retrucou, em um tom que encerrava a questão. – Por enquanto.
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Kassadin observava do topo de uma árvore o grande grupo que chegava no portal roxo que levava para Icathia. Era o dia mais incomum de sua vida. Um grupo menor havia precedido aquele. De qualquer forma, ambos eram estranhos. Enquanto um era composto por Trolls e homens de armadura além de ser liderado por uma mulher de gelo, o outro tinha estranhos aparelhos aéreos e algumas criaturas de origem contestável.
Ele podia ver segredos hediondos mesmo nos seres humanos aparentemente normais que ali estavam. Muito sangue estava nas mãos daquelas pessoas, não fisicamente, mas ele via quantas mortes o passado de muitos abrigava. A culpa os motivava? Kassadin não conhecia a culpa bem o suficiente para tirar uma conclusão, preferindo anotar aquilo para uma pesquisa futura.
A última pesquisa requisitou que ele devotasse quase metade da vida, mas ali ele havia chegado ao final. Apenas para descobrir que o lugar mais secreto de Runeterra na verdade não era nada secreto. Não quando milhares de pessoas entravam nele em apenas uma noite.
Ele viu o grupo do Instituto entrar gradativamente no portal roxo que redirecionava as pessoas para Icathia. Estava se mordendo para entrar também, mas só o faria depois que tivesse a certeza de que ninguém podia vê-lo. Embora a sensação de ser observado não sumisse, era como uma voz fria descendo por sua espinha na forma de calafrios. Algo também atípico em sua vida.
Muito abaixo dele, o grupo discutia as suas táticas. Eram uma equipe recém-reunida e sem o seu líder.
– Até resgatarmos o Brandon, as ordens são com a Ashe. De acordo, rainhagem? – Sivir falou. Uma linha imaginária separava os invocadores e a Liga. Se era medo ou respeito, ela nunca saberia. E desejava do fundo do coração nunca descobrir.
Ashe assentiu. A mão que carregava o arco tremia levemente, o suficiente para ninguém perceber, mas para trazer a verdade que ela temia. Ela estava amedrontada. E a visão da cidade de Icathia não ajudava muito.
Icathia era uma cidade-fantasma. Abandonada pelo seu mundo e por qualquer forma de vida, exceto as mais sombrias que decidiram se abrigar ali. Situada na areia, a maior parte das casas estava se desfazendo, com rachaduras por toda a parte. No centro, uma grande torre que atraía raios roxos se erguia imponente.
– Estão ligando a Dobra. – Comentou Doran, o único que não estava impressionado com tudo aquilo. Ashe só não sabia como. A situação toda a apavorava mortalmente. A presença de inúmeros Trolls hostis, seres comuns em sua região, não melhorou o seu estado de espírito.
– Ok, acho que eles não estão vindo bater um papo amigável. – Sivir comentou, olhando de relance para Marc. O seu último encontro com um Troll não havia sido tão positivo para eles. – Ou para jogar xadrez. Bem, de qualquer maneira, eu odeio xadrez.
– Ashe, deixe-nos cuidar disso. Vão atrás do Brandon. – Katarina pediu, indicando os invocadores e a si mesma. Ashe não ficava confortável em abandonar mais de noventa por cento de seu poder bélico, aqueles eram apenas Trolls, sem nenhum peso-pesado entre eles.
– Não temos tempo para enfrentá-los, teremos que seguir, rainha. – Doran falou para ela, com a sua típica calma. Ashe assentiu, aflita.
– Annie, Amumu, Tryndamere, Fiddlesticks, Zilean, Sivir, Ezreal e Doran, atrás de mim! – Ela falou, gesticulando enquanto os Trolls avançavam. – Braum, fique com a Ofelia e sempre ao meu lado!
– Boa sorte. – Ela ouviu Katarina dizer enquanto davam a volta pelo exército de Trolls que avançava na direção dos invocadores.
A torre era simplesmente gigante. Dois homens de armadura estavam de guarda na entrada dela. Ashe mirou cuidadosamente antes de atirar duas flechas comuns, sem as pontas feitas por Doran. Ela não sabia exatamente o motivo, mas não estava atirando para matá-los. Eles mereciam, não mereciam?
Dentro da torre, as escadas caracóis paravam em quatro andares antes de chegar ao topo. Ela sabia o que aconteceria, assim como Doran também sabia, embora ele tivesse percebido antes. Mais Trolls e homens de armadura surgiam das sombras, debaixo das escadas, de dentro de armaduras velhas abandonas e de qualquer lugar que pudesse esconder algum deles.
Ela olhou para Doran, que assentiu. Teriam que se separar se quisessem chegar em tempo. Aquela era uma luta que podiam vencer. Bater em Trolls ou em soldados? Era a especialidade deles. Mas podiam lutar contra o tempo?
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– Seus companheiros chegaram. – Kristofer informou para Brandon. Estavam sozinhos no topo da torre. Lissandra, Tesla e Trundle estavam se preparando para o que viria. Ganhando tempo para a Dobra. Brandon sabia disso e torcia para que seus amigos notassem, antes que fosse tarde.
– Você não deveria estar lá? No momento, eu prefiro morrer sem ouvir a sua voz. – Ele falou. Sentia a Dobra usando-o como condutor. Usando o tempo em seu coração para abrir um portal que traria coisas ruins. Um portal que ele havia construído. A ironia era tanta que ele quase sentia vontade de rir. Mas não podia. Havia colocado todos em perigo vez após outra, e ainda assim estavam ali para salvá-lo.
– Quero dar uma chance para eles vencerem. Ver o que acontece, sabe? – Ele sorriu, apanhando um dado no casaco e brincando com ele.
– De que lado você está jogando, Kristofer?
– Digamos que há mais lados nessa guerra do que você pensa. Quer falar sobre isso? Temos mais alguns minutinhos. – Ele mostrou o relógio para Brandon. Quinze minutos separavam o mundo de seu fim.
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– Eu ainda não acredito nisso. – Ofelia comentou, indignada, enquanto eles subiam as escadas em espiral.
– Eu fiz o que achei certo. – Ashe respondeu, torcendo para ter tomado a decisão correta ao deixar Annie e Amumu enfrentarem sozinhos o exército do primeiro andar.
O resto do grupo não se atreveu a contestar a decisão e os pequeninos tampouco reclamaram, na ocasião. Aquela confiança era o que matava Ashe. Quem dera todos fossem como Ofelia e a contestassem. Se alguém se ferisse, teria sido porque confiaram nela. A rainha. A herdeira. A arqueira. A confiável e sempre correta Ashe.
– Chega disso, precisamos nos apressar. – Marc falou, sério. Em seu íntimo, ele também não concordava com a decisão. Ashe nunca havia estado em uma guerra de verdade, com sangue e mortes. Ele via pelo modo como ela lutava, pelo modo como ela atirava. Por sorte, ele era mais do que qualificado para dar um fim em pessoas.
No andar de baixo, Annie e Amumu tentavam impedir o exército de aniquilá-los. Amumu chorava alto e suas lágrimas de alguma forma repeliam os Trolls e os soldados. Diferente dele, Annie não usava a água e sim o fogo, o seu fogo mágico que desintegrava os oponentes sem muito trabalho. Mas para cada um que caía, mais dois vinham para a desforra.
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Era um mar de cadáveres. Katarina conhecia aquilo desde pequena, tendo crescido como a filha de um general de Noxus, ainda assim a cena a deixava enjoada toda vez. Ela reconhecia alguns dos corpos caídos e lamentava que outros não teriam um enterro digno pois nunca saberiam as suas identidades.
No calor da batalha, ela nem podia se dar ao luxo de pensar nisso. Suas facas, uma atrás da outra, eram direcionadas nos inimigos. “Caíam, malditos, caíam”, ela pensava e eles caíam. Assim como os seus companheiros. Assim como Mandrake jazia morto no chão.
Muito tempo atrás, seu pai a ensinara como não perder a cabeça em uma batalha. “Tenha uma referência sempre, algo que não a deixe esquecer onde está até que tudo termine”. A referência dela eram os inúmeros trovões que podiam ser ouvidos por toda a Icathia. Mas dessa vez, ela queria esquecer onde estava.
Sua mente tentava a todo custo esquecer o treinamento. Esquecer por um segundo que ela era uma máquina assassina e tentar ter sentimentos na batalha. O peito de Mandrake estava escurecido de sangue ao redor de onde a lança o espetara. Ela olhou para o céu, como se quisesse uma resposta. Mas Deus não a responderia, nem atenderia às suas preces. Ela era um monstro assassino tentando ser uma heroína, e agora via o preço que isso custava.
A única benção que os céus trariam seria a chuva, que a permitiria chorar sem que ninguém notasse. Porém nem a chuva mais densa limparia o sangue em suas mãos. Não importava mais, ela afundaria em um mar de sangue se fosse necessário. Runeterra nunca seria trocada pela preservação de sua alma já condenada.
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– Trundle. – Marc falou. O Rei dos Trolls estava do jeito que ele se lembrava, mas Marc não era exatamente o mesmo daquele tempo. A diferença residia em suas costas, na forma de uma grande espada construída por Doran. – O resto de vocês pode subir, eu fico com ele.
– Na verdade, ninguém vai atravessar esse lugar. – O Rei dos Trolls sorriu, desdenhoso, deixando à mostra seus dentes amarelados. Com um gesto de sua clava, ele criou na escada um enorme pilar de gelo que não deixava espaço suficiente para ninguém passar.
– Você é divertido. – Marc sorriu de volta antes de ir até a escada e socar o pilar sob o olhar atônito do Rei dos Trolls. O pilar e a mão do bárbaro quebraram, mas com um simples rugido dele, seus poderes de cura se ativaram e ela voltou ao normal. – Só que não o suficiente para apagar a minha raiva. O único cara que faz isso, tá no topo dessa torre. Se ele chegar em tempo, eu não te mato. Caso contrário…
Trundle começou a tremer. Não de medo. Ele estava empolgado. O bárbaro que outrora fora uma presa fácil poderia ser algo mais agora. Aquele confronto o interessava, que Tesla cuidasse do resto da Liga.
– Vão. – Ele se limitou a dizer, puxando a espada das costas e sem retirar o olhar do Rei dos Trolls.
Doran olhou preocupado para Marc. Não gostava de vê-lo cedendo ao lado animal. Mas que escolha tinham, afinal?
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Annie sangrava no chão, abandonada em um canto vazio. Após muitas tentativas, um dos oponentes havia conseguido feri-la. Amumu continuava de pé, mas não podia ajudá-la. Mal podia ajudar a si mesmo enquanto enfrentava combatentes experientes.
Ela via a vida curta que teve passando por seus olhos em flashes indistintos. “Será que é assim que o Brandon vive?”, ela se perguntou, quando não conseguiu mais reorganizar as suas lembranças de uma forma coerente. A Ordem Cinza. Seus pais foram os líderes dela, ambos feiticeiros, ambos poderosos. E ela? Não poderia ser diferente. Ao seu lado também jazia o urso que ela enfeitiçou aos dois anos de idade.
O Instituto era o único lugar que a concedia proteção diplomática. No mundo lá fora, qualquer um a mataria em troca da gorda recompensa que havia pela garota. Ironicamente, pessoas que não tinham muito a ganhar eram seus assassinos. Sacrifícios, assim como ela. Uma lágrima correu por seu rosto quando percebeu isso.
“Vou morrer sozinha e desprezada, como sempre estive. Após todos esses anos brincando com o fogo, finalmente me queimei.”, ela pensava. A ferida nem doía mais, ela apenas morreria ali, sangrando como um animal abatido.
– Não se mova. Eu estou aqui para te ajudar. – Ela ouviu uma voz doce sussurrar, seria Deus? Ou o seu pai? Ela não conhecia a voz de um e não lembrava da voz do outro. Mas, quem além deles podia aparecer para ajudá-la? E, com esse pensamento tranquilizante, Annie adormeceu, torcendo para que não fosse para sempre.
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Quatro mil invocadores partiram do Instituto. Agora, ao final da batalha, entre feridos e mortos, ninguém era capaz de contar mais do que mil deles.
– Senhora, devemos ir ajudá-los. – Um invocador tocou no ombro de Katarina, que estava ajoelhada na lama, acariciando alguns dos poucos fios de cabelo que restavam em Kiersta Mandrake. – Senhora?
– Eu já ouvi. – Ela falou. Alguém desavisado pensaria que ela estava calma, mas a voz que saía de sua boca era vazia. A chuva não era um consolo. Cada gota que caía, machucava, e os trovões diziam que a batalha ainda não havia acabado. Para quem? Mandrake estava morto, assim como tantos outros.
Ela se levantou. Alguém precisava se levantar. “Seja forte.”, ela falou para si mesma, “Por eles.”.
– Quero que alguns de vocês fiquem aqui. Separem os corpos. Vou dar um enterro digno para cada um deles. Cada um. – Mesmo os Trolls estavam cumprindo apenas ordens, eram guerreiros em um campo de batalha e ela respeitava isso. Ela sabia quem era o culpado pela morte de Mandrake: Tesla.
O genial Tesla. Eloquente, interessado, motivado. Como ela não percebeu? Estivera cega para tantas coisas. E, alheias ao que acontecia ali, Noxus e Demacia queriam guerrear entre si. Ha! Ela gargalhou histérica ao perceber aquilo:
– Não é genial? – Ela falou para os invocadores próximos. – Digo, o fim do mundo está acontecendo e eles querem fazer guerra. E nós? Nós nos sentamos e perguntamos: “quando?”. Olha como estamos, vocês conseguem ver a ironia, não conseguem?
Então ela caiu de joelhos novamente. Suas mãos seguravam com força a areia que havia se tornado lama com a chuva. Se não fossem destruídos ali, por uma raça de Deuses conhecida como Observadores, seriam destruídos pelas mãos de seus líderes. Ela não precisava lutar, sabia o resultado. Perderiam tudo, e a sua punição seria ficar viva para ver aquilo acontecendo.
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– Ele não era apenas um cientista? – Sivir perguntou, ao ver Tesla esmagando a sua faca favorita com as mãos.
– Bom, adicione Brandon e Kristofer na lista de cientistas que você conhece e note o motivo dele ser tão forte. – Ezreal respondeu, ocupado em derrubar alguns homens de armadura com o seu talismã místico.
Ezreal e Sivir haviam ficado no terceiro andar com Tesla e seu pequeno exército. Ela achou que seria um desafio, no máximo, levemente complicado. Mas Tesla era diferente de qualquer um que ela já houvesse enfrentado. Ele era forte, rápido e, diferente da dupla, não tinha objeções para matar.
– Tão previsíveis quanto cães. Nem sequer sabem o motivo pelo qual lutam. – Ele comentou, desdenhoso. Poderia estar enfrentando a suposta rainha de Freljord, o seu espantalho mortal (que ficou muito triste ao ter que abandoná-lo para seguir o grupo da Liga) ou até mesmo o mago do tempo.
Ao invés disso, tinham deixado a escória para ele. Uma piadista mercenária e um explorador idiota. Aquilo era um insulto maior do que ele poderia suportar e, segundo suas suspeitas, nem matá-los saciaria a sua raiva. Contudo, não custaria nada tentar.
Ele investiu em Ezreal, que lançou um disparo místico em sua direção. A magia bateu no peito de Tesla e se dissipou, sem sequer alterar a expressão do cientista.
– Você ousa me atacar com o resquício de uma civilização alquebrada? – Ele rugiu, segurando com força o talismã em forma de manopla, fazendo pequenas rachaduras no artefato.
– Eu ouso! – Sivir respondeu, girando seu bumerangue de quatro pontas na direção dele e cortando-o na mão quando ele tentou segurá-la também.
Enfurecido, Tesla arremessou Ezreal para longe, com a colisão do explorador com a parede de pedra fazendo um grande estrondo. Ele se virou para socar Sivir, mas a Sedenta por Sangue na arma dela havia feito o seu trabalho, criando um escudo com a quantidade de sangue retirada de Tesla.
– Pelo visto, Doran continua criando armas. Mas – Ele segurou o bumerangue pelo buraco do centro, onde Sivir também o segurava, e arremessou também a mercenária para a parede, ficando com a arma por breves instantes antes de atirá-la com desprezo ao chão. — isso não é o suficiente para me deter.
– Ooook. Hora do plano B, ou fim do show. – Sivir falou para Ezreal, que estava caído ao seu lado. Ela poderia fazer uma piada sobre as pedras que quase quebraram a sua coluna, ou sobre o corte que fizera em Tesla, ou sobre qualquer outra coisa. Mas aquele cientista louco não merecia nada além de um soco bem plantado pelas mãos furiosas dela.
– Sem problemas. De qualquer forma, eu acho que já descobri o ponto fraco dele. Hora de contra-atacar. – Ezreal falou, determinado. “Resquício de uma civilização alquebrada”, é? Ele mostraria o seu poder, era tão guerreiro e tão capaz quanto os outros.
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O braço de Tryndamere girou de baixo para cima, e então de cima para baixo, e então novamente de baixo para cima. Sua sequência inabalável de golpes geralmente era usada para exterminar vários oponentes de vez, mas Trundle não era um oponente exterminável. Ou, pelo menos, o abate não viria de maneira fácil.
A clava do Rei dos Trolls era tão poderosa quanto a espada de Doran, do contrário, uma das duas já teria se partido com a força dos golpes. Tryndamere não estava tão furioso quanto queria, não era bem do Rei dos Trolls que sentia raiva, nem de Lissandra, Kristofer, ou qualquer um desses. Quanto mais avançava ali, mais distante ficava do seu nêmesis, o verdadeiro recipiente de seu ódio.
– Você gasta mais energia para atacar do que eu para me defender. Tem certeza de que sabe o que está fazendo? – Trundle debochava. Haviam muitas maneiras de se vencer uma luta e ele conhecia todas profundamente. – Quando eu te matar, talvez eu parta o pescoço de sua rainha. Ou eu te deixo vivo para ver?
– Você cala a boca e me deixa te cortar. – Tryndamere falou, impaciente. Não aguentava mais ouvir a voz daquele Troll. Nenhum inimigo que sobrevivia muito tempo ao corte de sua espada era interessante de se conviver. – Além disso, você não vai querer decidir a luta pelo cansaço. Eu garanto.
E então, ele voltou para a sua sequência de golpes enquanto o Rei dos Trolls recuava cada vez mais, apenas defendendo os golpes. Silenciosamente, ele havia aceitado o desafio. Um deles cairia sem levar um golpe sequer.
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– Ashe. Você se parece tanto com ela, até o arco é o mesmo. – Lissandra falou, levemente emocionada. Ela queria o melhor para as irmãs Avarosa e Serilda, eram as Três Irmãs, afinal. Poderosas o suficiente para viver em qualquer tempo. Tudo o que precisavam fazer era se curvar perante os Observadores e então elas também seriam agraciadas com a imortalidade. Comandariam o mundo até os dias atuais, mas elas foram tão teimosas…
– Você não é digna de falar dela, Bruxa Gélida. – Ashe flexionou o arco na direção de Lissandra, enquanto Braum ficava ao seu lado, erguendo o grande escudo de gelo.
– Você pretende repetir um erro histórico? Se submeter àqueles que sempre nos desprezaram? – A bruxa perguntou, apontando para Ofelia e Zilean, os membros do Instituto.
– Pretendo corrigir um erro histórico, e te liquidar aqui. Vocês quatro – Ela falou para Fiddlesticks, Zilean, Doran e Ofelia. — subam. Parem essa loucura de uma vez por todas. Salvem o mundo.
– Parece muito confiante de que pode me segurar aqui por mais do que cinco minutos. – Lissandra comentou, enquanto seus dedos de gelo tomavam uma forma pontiaguda. Uma gota de suor escorreu pelo lado do rosto de Ashe, mas as suas mãos não tremiam mais. Ela agora era fria como o gelo. Por Avarosa.
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– Você realmente está me ignorando? Eu estou tentando te contar uma história aqui, sabe? – Kristofer tentou inutilmente estabelecer uma conversa, como fazia pelos últimos minutos.
Brandon estava impassível. Não queria ouvir mais nada. Nem faria diferença se ele quisesse, sua mente não conseguia distinguir absolutamente nada. Quanto menos seu coração batia, mais ele conseguia ouvi-lo. E menos ouvia o mundo exterior. Um som suave. Uma pedra vermelha batendo. Batendo. Batendo. E então, parando lentamente.
“Tudo bem, Brandon.”, ele pensava consigo, “Era assim que o mundo estava antes de você surgir. Calmo. Sereno. Talvez até feliz. Eu mudei alguma coisa? Trouxe alguma felicidade para alguém? Minha morte vai entristecer alguém? E se ninguém chorar por mim, eu ficarei feliz ou triste? Eu deveria estar lutando? Mas, por quem? Pai, mãe, eu estou voltando, um pouco atrasado, mas me deixem entrar…”
– Saia de perto dele, Kristofer! Acabou! – Zilean gritou para o cientista sentado no chão, brincando com o dado. Kristofer se limitou a virar a cabeça e olhar entediado para o grupo que chegava.
– Sim, você tem razão. Acabou. – Ele se levantou, retirando um pouco de poeira da roupa. – Ele é de vocês.
Kristofer caminhou até a beirada do topo da torre. O Instituto realmente havia feito uma carnificina lá embaixo, dali de cima ele era capaz de ver a pilha de corpos que ainda não tinham sido separados. Uma obra de arte. Como estariam os outros andares? Muitos morreram? Quantos de cada lado? Ele precisava saber.
– Não! Não! Ele não pode… Não pode estar… — Kristofer ouviu Ofelia exclamando ao fundo. Haviam preferido ignorá-lo temporariamente para “salvar” Brandon. Da maneira que o grupo estava fragmentado, ele percebia que fizeram isso por todo o caminho. Uma busca inútil. Brandon estava morto. A Dobra estava apenas reunindo a última centelha de energia que faltava para abrir seu portal.
– Você é um monstro. – Zilean falou, para o divertimento de Kristofer que soltou uma gargalhada sem se conter.
– Somos todos monstros, Guardião do Tempo. E, ao mesmo tempo, somos vítimas. Há planos dentro de planos por aqui. Prendam-me, matem-me, nada trará Brandon Beck de volta. Nem fechará esse portal. Como você disse, acabou.
Doran não sabia como reagir. Não sabia o que fazer ou dizer. Sua mente andava em círculos. Tudo morre. Ele sabia disso. Mas nada o prepararia para aquele momento. Ele sempre consertava problemas. Como consertar esse? Suas mãos procuraram nos bolsos, achando peças de engrenagem, velhas, papéis amassados, uma seringa… A seringa!
– Se afastem. – Ele falou para Ofelia e Zilean, que cercavam o corpo. Ofelia, em meio às lágrimas, arrumou tempo para ouvir o que ele dizia, embora não conseguisse se mover. Até Kristofer se virou para ver o que Doran faria. Então, ele injetou a cura para o vírus Zaunita em Brandon.
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– Insetos! Por que vocês não morrem de uma vez?! – Tesla estava furioso. Seu peito e costas estavam repletos de cortes, mas ele não conseguia mais tocar em Ezreal e Sivir.
– Seu poder se divide em três aspectos. – Sivir falou, fazendo uma dança enquanto se desvencilhava de Tesla.
– Endurecimento, força e velocidade. – Ezreal enumerou, enquanto lançava uma rajada no último dos homens de armadura de pé.
– Mas, quando você manifesta um, não pode manifestar o outro.
– Ou seja, você não pode bater em um de nós, pois vai apanhar do outro. E seu orgulho te impede de ficar só na defensiva por muito tempo, não é?
– Heh. Não se achem especiais por isso. Eu vou matá-los bem lentamente da próxima vez que tocá-los. – Tesla falou, tentando manter a calma que não tinha. Sua mente se enchia de fantasias de tortura que ele reservava para a dupla. Então, ele caiu no chão inconsciente.
– Er, foi desleal, mas eu não aguentei. Tive que fazer isso. – Falou Kassadin, com o pedaço de madeira que usou para derrubar Tesla em sua mão. Então ele apontou para Amumu, Annie e Marc, que estavam no chão. – São seus amigos?
– Sim, eles são! – Ezreal exclamou. – Quem é você? É algum invocador do Instituto?
– Ah, não, senhor. Sou um andarilho simplório. Um pesquisador ousado. Meu nome é Kassadin. – Ele fez uma curta reverência.
Kassadin havia subido com Amumu e Annie depois de, com algum trabalho, derrubar os inimigos restantes. Ele conseguiu estabilizar Annie após várias tentativas e poderia até tê-la deixado com as pessoas que ele viu na entrada, mas não sabia se eram amigos ou inimigos. A única coisa óbvia que ele poderia fazer era continuar subindo.
Então, ele tinha encontrado Marc, caído junto com um Troll particularmente gigante. Ambos deveriam ter desmaiado devido à exaustão, pois estavam sem um arranhão sequer. A pior parte era carregá-los pelas longas escadas em espiral, mas ele conseguiu e ali estava.
– Não que eu não esteja grata, porque, acredite, eu estou grata pra caramba. Mas por que você os trouxe? – Sivir questionou, enquanto limpava um pouco de suor da testa. Seria um erro pensar que Tesla tinha sido um oponente fácil, pelo contrário, qualquer um que o enfrentasse sozinho teria sido derrotado. Ela estava grata por ter companheiros ao seu lado.
– Vi pessoas com problemas. Decidi ajudar. Além disso, eu descobri Icathia antes de vocês. Antes do outro grupo também. – Ele deu de ombros enquanto explicava.
– Bem, o outro grupo pretende trazer uma raça de Deuses através de uma ovelha gigante para nos aniquilar. Quer entrar no nosso time e chutar uns caras malvados? – Sivir perguntou. O tempo que tinham era curto, se é que já não havia acabado por completo. Provavelmente não, pois eles ainda estavam vivos.
– Desculpe, ovelha gigante? – Kassadin inquiriu, confuso.
– Droga, eu quis dizer máquina. Sabe, eu conheci uma ovelha com o mesmo…
– Vamos! – Ezreal falou, carregando Amumu e se dirigindo para as escadas. Não podiam perder mais tempo.
– Depois eu te conto. Se sobrevivermos, lógico. Mas se ambos morrermos e formos para o mesmo lugar, também posso te contar. – Sivir piscou para ele, enquanto carregava Marc com facilidade. Ele era pesado para Kassadin, mas a mulher era uma lutadora, e não uma pesquisadora.
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Lissandra derrubou Braum e se virou ao ouvir um zunido vindo em sua direção. Suas mãos ágeis deram conta de segurar a flecha da rainha de Freljord.
– Suas armas falharam. – Ela falou, enquanto partia a última flecha com um Gume do Infinito na ponta. – O que você pretende fazer agora?
– Sobreviver por mais dois minutos. – Ashe sorriu. A mão do arco estava congelada, ela sabia que provavelmente a perderia, assim como perderia aquela luta. Não tinha experiência o bastante para um confronto daqueles. Mas Lissandra tinha séculos de experiência na ponta dos dedos.
Lissandra olhou com desprezo para Ashe. Ela certamente esperava um desafio maior. Uma guerreira e não uma princesinha mimada sem habilidade. A Liga em si não era nada, Ashe parecia ser o único atrativo entre o grupo de Brandon e ali ela estava, ajoelhada e ferida.
– Congele. – A Bruxa Gélida falou, mal mexendo os lábios, desgostosa. Um brilho rápido passou pela mão livre de Ashe. Se ela pretendia pegar uma flecha era tarde demais. O túmulo de gelo se ergueu ao redor da rainha e a luta terminou. Braum gritou e Lissandra soltou mais estilhaços de gelo no gigante guarda-costas sem nem olhar para ele, subindo as escadas.
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– O que isso deveria fazer, mago? – Kristofer perguntou para Doran, extremamente divertido. Então, o corpo de Brandon começou a rachar enquanto crescia. A cura se baseava em uma regeneração tão rápida que o vírus não encontrava espaço para se modificar e evoluir. Ele já havia usado para recuperar a cronodisplasia de Zilean, mas nunca em alguém com cronodisplasia. E nunca em uma situação que não envolvesse o vírus Zaunita. Mas o desespero exigia medidas desesperadas.
De dentro do corpo expandido e sem vida de Brandon, outro Brandon surgiu. Nu. Os cabelos brancos cederam para os loiros. O rosto maltratado pelo tempo teve a sua jovialidade devolvida. O tempo, perdido em um futuro que não existia mais, voltava para Brandon Beck. Em vários lugares de Runeterra, o tempo podia ser sentido embora a maioria das pessoas não percebesse.
– Brandon? – Zilean perguntou, cautelosamente para o jovem cientista nu que tentava se levantar e compreender o que acontecia ao seu redor.
– Não pode ser! – Pela primeira vez na noite, Kristofer ficou surpreso. Não era aquilo o que estava nos planos, não era o que estava previsto. – O que você injetou nele, seu maldito?
– Feche o portal, Kristofer. – Brandon se sentia como se tivesse acordado de um longo sonho. Um sonho que começara dois anos atrás e finalmente se encerrava. Não se lembrava de nada após a sua morte recente, mas tinha quase certeza de que algo acontecera. Ele viu… Alguém. – Se os Observadores vierem, apenas a Lissandra vence.
– Haha. Observadores? Você realmente acha que eu pretendo trazer os Observadores de volta? O portal está ajustado para outro lugar. É assim que eu venço. – Ele respondeu, gargalhando. Aquilo não mudava nada, a vitória era dele. Não era?
– Não, é assim que você perde. – Brandon respondeu, com um sorriso. Lissandra estava ali. Ela havia ouvido Kristofer. Como ele dissera, haviam muitos lados naquela guerra. Agora era apenas o momento de Lissandra descobrir.
– Kristofer, seu traidor imundo. – Ela falou. A sua voz ficava mais gélida com a ira. Kristofer não parecia tão assustado, ele também estava furioso. Brandon olhou para Ofelia. O rosto dela estava manchado de lágrimas. Sim, haviam quem chorasse por ele. Era por essas pessoas que ele lutava. Sem a cronodisplasia de uma vez por todas, aquilo se estampava claro como o dia em sua mente.
– Doran, precisamos sair da linha de fogo. – O cientista falou, mas Doran acenou negativamente com a cabeça. Então, Brandon entendeu que Lissandra e Kristofer não importavam mais para aquela equação, precisavam fechar o portal se quisessem salvar Runeterra.
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– Você se injetou com isso de novo? – Sivir perguntou para Ashe, impressionada.
– Bom, eu tive um palpite de que eu sobreviveria no gelo com um pouco do poder do Marc. Porque ele sobrevive a qualquer coisa. – Ela suspirou. Marc, Sivir, Ezreal e Kassadin a haviam encontrado congelada, mas viva, graças à seringa que ela guardava desde que Doran lhe deu. – Me desculpem, eu não consegui detê-la.
– Vamos ter outra chance, ela está lá no topo, certo Braum? – Marc questionou, o gigante estava vivo mas muito ferido.
– Sim. Ui. Ai. Ela. Ai! Subiu. – Kassadin estava tratando dos ferimentos de Braum enquanto ele respondia.
– Descanse, valente guerreiro. Você já fez muito por nós. – Ashe falou para Braum, enquanto subia as escadas com o grupo. Sua mão, como o resto, havia se regenerado.
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Lissandra e Kristofer eram dois gigantes. Brandon nunca havia percebido quão insignificante era quando se colocava fazendo frente a qualquer um deles. Suas chances eram inexistentes. Mas, por sorte, não precisava mais enfrentá-los, eles já faziam isso entre si.
Lissandra soltava as suas poderosas magias seculares de gelo, mas Kristofer era veloz o suficiente para desviar delas. Ele tentava se aproximar de Lissandra, o que seria um suicídio na mente de qualquer um, mas não na de Kristofer. Ele era poderoso o suficiente para encarar a Bruxa Gélida de perto.
– Ok, esse sistema é muito complicado para mim. Você consegue entender? – Doran perguntou para Brandon, enquanto observava o console da Dobra.
– Eu construí. – Ele respondeu. – Contudo, Kristofer o modificou bem o suficiente. Não podemos fechar. Mas eu posso mudar a localização.
– Para onde? – Ofelia perguntou.
– Para o Vazio entre as dimensões. Nada que exista ali deve nos afetar. Se é que existe algo. – Brandon digitou rapidamente no console, não tinham tempo para mais nada.
Então, sua Liga chegou ao topo. Marc, Ashe, Sivir, Ezreal, Kassadin, além dos desacordados Amumu e Annie. Seu coração se encheu de alívio, eles estavam bem, embora ele não deixasse de se perguntar onde Katarina estava.
– Eu não vou esquecer esse insulto, Kristofer. – Lissandra falou, ao notar que a Liga estava presente e ninguém de seu exército havia retornado. Ela enviou uma garra de gelo para fora de Icathia, do topo da torre. – Tampouco esquecerei de você, rainha dos porcos. – Ela disse, ao notar que Ashe estava viva e bem.
Então, ela se transportou para onde a garra estava, ficando fora do alcance de todos.
– Não tente fugir também, Kristofer. Estamos em maior número. – Brandon falou, exausto, mas aliviado. – Acabou.
Kristofer bateu palmas lenta e debochadamente. Seu sorriso irônico continuava estampado no rosto.
– Como eu disse, há muitos lados nessa guerra. – Ele falou, antes de fechar os olhos com força.
– Fechem os olhos! – Brandon gritou para todos, e jogou Ofelia no chão para que ela não visse. Ele não sabia o motivo ao certo, mas Kristofer não faria algo como aquilo por nada. Os raios no céu pararam. A Dobra finalmente estava funcionando. Ninguém viu o que havia naquele portal. Ninguém viu os horrores que a dimensão do Vazio guardava. Ninguém. Exceto Kassadin.
“Venha conosco”, a voz dizia para Kassadin, uma voz que trazia a mesma sensação de ser observado que ele sentia na entrada de Icathia, “Nós vimos o seu coração, ele é nosso.”
– Não!! – Kassadin gritou. Ele queria arrancar os olhos, mesmo sabendo que não adiantava mais, eram muitas informações. A história do mundo. A história de milhares de mundos. O Vazio o preencheu. Ele enlouqueceu e se tornou são diversas vezes em milésimos de segundos. A loucura era a sua sanidade e a sanidade era a sua loucura. Seu rosto derretia enquanto ele gritava de agonia. Ele e o Vazio eram um. Então, Cho'Gath saiu do portal.
Cho'Gath era a personificação do terror. Um monstro vermelho gigante com seis patas. Duas delas eram pinças, duas eram ferrões e outras duas lembravam pés de seres pré-históricos. Sua coluna formava um grande monte em suas costas, e a sua boca contava com uma variedade de dentes, além de duas presas bem localizadas. Os olhos verdes do monstro brilhavam na escuridão da noite.
– Hahahaha. – Sua voz tenebrosa ecoava. – Quem será devorado primeiro?
– Isso é uma grande, grande, grande falha no plano. – Sivir comentou. – Brandon, o que faremos?
– E-Eu não sei. – Ele gaguejou, atônito. Os Observadores eram Deuses, então o que era aquilo? Um titã? Ela não via como derrotar aquilo, não via como parar aquilo. A própria voz da criatura o assustou mais do que qualquer coisa que ele já vira ou ouvira na vida inteira.
Kristofer gargalhou, sentado na beirada da torre. Que fosse o fim, ele não ligava. Aquela situação era perfeita. A loucura, o medo, ele quase podia farejá-los tão próximos, tão agudos. Não havia nada entre Cho'Gath e a aniquilação total. Nada exceto Marc.
– Eu não acho que você vá devorar alguém hoje. – Ele falou, com uma pequena faca na mão. Sua espada havia ficado onde ele desmaiou, Kassadin não pôde carregá-la quando ele estava desmaiado.
– Sua alma alimentará o Vazio. – Cho'Gath falou, se preparando para devorar Marc.
– O nosso amigo disse que você não vai comer ninguém! – Doran gritou, antes de pular na perna da criatura com um fio dos mecanismos da Dobra na mão.
Cho'Gath gritou de agonia enquanto era eletrocutado por uma forte carga. Ashe gritou “Ataquem!”. Flechas, bumerangues, bombas temporais e disparos místicos voavam na direção de Cho'Gath, que caiu no chão, abalando a estrutura da torre inteira.
O inferno começou quando a torre caiu. Do solo, os invocadores e Katarina viram a torre caindo no chão e levantando uma gigantesca camada de poeira. Quem estava ali não teve tempo para pensar, e a última coisa que Brandon ouviu antes de cair dezenas de metros foi a risada incessante de Kristofer.
Os invocadores correram para ver o que havia acontecido ali, abandonando os cadáveres. Diversos destroços se espalhavam por toda a parte. Um ou outro Troll podia ser visto no chão. Se eles já estavam mortos ou morreram com a queda, Katarina não saberia dizer.
– Senhora, acho que não houve nenhum sobrevi… — Um invocador começou, até que a bolha temporal de Zilean surgiu por baixo de escombros revelando a Liga e Kristofer quase intactos.
Doran tinha um sangramento enorme na cabeça e estava desacordado, Brandon tentou medir os seus batimentos cardíacos. Estavam fracos. Ele estava morrendo.
– Zilean, o Doran… — Ele falou, segurando Doran nos braços. Zilean balançou com a cabeça negativamente. Brandon estava incrédulo. Zilean sempre era capaz de resolver os problemas, ele sempre sabia o que ia acontecer, era o mais velho, o mais experiente, seus poderes…
– Isso é culpa sua! – Tryndamere falou, ao socar Brandon com força no rosto. – Se você não tivesse ficado paralisado de medo quando aquela, aquela coisa apareceu. – Ele apontou para Cho'Gath, que estava desacordado sob as ruínas. – Isso não teria acontecido.
– Não é culpa dele. – Ofelia o defendeu, intercedendo entre os dois, com os braços abertos.
– Deveria ter sido você. Deveria. Ter. Sido. Você! – Tryndamere saiu, enfurecido, indo em direção ao portal que levava de volta para Valoran. Ninguém fez menção de pará-lo. Um silêncio mortal percorreu o grupo. Braum estava desaparecido nos destroços. Kassadin estava desacordado e desfigurado. Eles não faziam ideia do que fazer com Cho'Gath. Todos estavam feridos e cansados. E Doran… Brandon não queria pensar no que aconteceria com Doran.
Apenas as palavras de Marc para ele ressoavam em sua mente. “Sim, deveria ter sido eu. Mas a vida quis me dar uma segunda chance. Uma terceira. Uma quarta. Quantas mais? Quantas vezes mais eu vou falhar?”
Ali estavam eles. Abandonados por qualquer Deus ou destino que pudesse existir. Mas a escuridão passaria, pois a alvorada estava surgindo. Como em todos os dias, amanheceria e o amanhã traria o futuro. Ele só não sabia se seria bom ou ruim.
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