Before - League of Legends
17 Epílogo
Notas iniciais
Ele era um sonhador. Um garoto que gastava todo o seu tempo em invenções. Elas não precisavam ter um propósito. Nunca tinham. As mãos não eram tão habilidosas, tampouco podiam acompanhar o ritmo da mente. Ele não se importava, pois sabia que havia dado tudo o que podia e isso por si só, bastava.
O garoto crescera, mas jamais deixou de ser um sonhador. Pelo contrário, seus sonhos apenas cresciam junto. Ele nunca percebeu como aquilo afetaria as pessoas ao seu redor. Até aquele dia.
A recompensa por suas criações era a solidão. Ele não sabia se tinha escolhido aquilo ou se os seus amigos o estavam evitando. As últimas duas semanas tinham sido regadas por solidão. Isso, e a Liga. Cada segundo terminando a Liga foi uma tortura. Ele pensava que, quando terminasse, isso passaria. Ainda estava esperando.
As equações que ele rabiscava no papel eram inúteis. Produtos de seu subconsciente. Cada movimento era mecânico, como se a mão que guiava o lápis tivesse treinado por uma vida aqueles traços. Nada daquilo tinha um significado especial, mesmo se ele quisesse que tivessem. As folhas de outono ocasionalmente caíam sobre ele, fazendo-o despertar de seu ócio e se perguntar: “Já acabou?”
Aquele dia preenchera o seu imaginário desde que se descobrira como o criador da Liga, o instrumento de pacificação. E agora ele se via evitando a cerimônia e a pompa que esta trazia. Os líderes de cada cidade-estado deveriam marcar presença no Instituto para ver dez pessoas se digladiando e decidir se seria esta a nova forma de fazer guerra. “Paz.”, ele sorriu, irônico. Amaldiçoava a si mesmo por seguir a própria ideia.
Apenas seus mortos conheciam a paz. Muitos dos quais ele ainda não sabia o nome, mesmo jurando aprendê-los na noite chuvosa. A noite que ele nunca esqueceria. Aprender cada um deles era doloroso, cada vez que ele o fazia, acrescentava um peso em sua consciência. Um peso imensurável. O peso de uma vida.
A morte não foi o único presente que ele conseguiu dar para as pessoas que chamou de amigos, entre seus atos de irresponsabilidade. Para o rapaz que o admirava, ele concedeu algo um pouco pior do que a morte. Vida. Vazia e nua. Crua. O rapaz que, em um ato heroico, sentiu a dor do mundo. E então, não sentiu mais nada. Não ouviu, nem falou. Apenas continuou criando, com a única dádiva que lhe restava. O rapaz nunca mais sentiria o prazer que sempre o preenchia ao ver as obras que sua mão dava vida.
Ele fechou os olhos ao lembrar daquilo. Não choraria. Não se permitiria quebrar por dentro. Não pela segunda vez. Fizera, como seu mestre Heimerdinger previra, inimigos para uma vida inteira. Ele pensou que nenhum deles o derrotaria, nenhum deles era capaz de triunfar. Por que o mal haveria de triunfar? Mas eles o derrotaram, junto de Cho'Gath, a força incontrolável que tinha sido liberada na fatídica noite.
Para ele, era quase cômico como eles pensavam que as celas conteriam Kristofer. Nada naquele mundo conteria Kristofer. Nada. Alguns andares abaixo do monstro verdadeiro, Cho'Gath também jazia aprisionado. Tudo aquilo cobrara o seu preço. Se a vida cobrasse apenas dele, ele pagaria satisfeito com tudo o que tinha. Mas muitos pagaram, e pagaram caro.
– Ei. – A voz era animada. Ela não estava brava ou magoada, como ele sabia que não estaria. Ofelia o entendia, ou, pelo menos, tentava.
– Oi. Então, como foi a…? – A voz dele quase não saíra, de tão bem guardada que estava. Ele gostava de falar, mas isso era antes. Antes das trevas. Antes da tempestade. Antes da Liga.
– Foi ex-ce-len-te! – Ela o interrompeu, de tão empolgada que estava. Sem perceber, lhe fez um favor. – Eles estavam fantásticos. Vai haver uma votação e…
Ele fez um gesto para Ofelia parar de falar. Marc estava parado um pouco distante a eles, de braços cruzados. Eles não se falavam desde…
– Brandon. – O bárbaro falou baixo, mas o vento não se atrevia a interrompê-lo. Ele não tinha nenhum ferimento mesmo após lutar na Liga e isso não tinha ligação com o seu poder miraculoso. Era assim que o cientista havia projetado a Liga. Ninguém estava realmente ferido, tudo acontecia em suas mentes e era transmitido para o público.
– Marc. – Ele respondeu, se levantando e apanhando uma pasta que estava atirada ao seu lado. Ofelia seguiu ao lado dele, enquanto se aproximavam do bárbaro.
– Tryndamere. – Tryndamere corrigiu. – Sua Liga está pronta e eu estou partindo.
– Pensei que você tivesse encontrado o que queria aqui. Uma família. – Ele estendeu a mão para Marc que prontamente a rebateu.
– Você sabe pelo que eu procuro. Pelo que eu sempre procurei.
Ele hesitou. Não precisava fazer isso. Podia deixar Marc seguir em uma jornada infrutífera, se assim ele desejasse. Mas não o faria, pois eram amigos, ainda que Marc pensasse o contrário. Ainda que Marc se considerasse Tryndamere.
– Eu sei o que você acha de mim agora. Você não é o único que está sofrendo pelo Doran. – Ele estendeu a pasta. No topo, estava escrito com a caligrafia de Brandon: “Aatrox”. – Seu nêmesis é o remanescente de uma raça conhecida como Darkin. Você não precisa seguir por esse caminho, não precisa desperdiçar a sua vida nisso.
– Você não é líder nenhum. – Tryndamere falou, pegando a pasta para si. – É um garotinho covarde que acha que tudo é um jogo. O que eu faço não é da sua conta. Veja se consegue me esquecer. – E então, Marc Tryndamere partiu pela última vez.
– Talvez eu nem queira tentar. – Ele falou, melancólico. Ofelia colocou a mão em seu ombro.
Brandon Beck, nas semanas seguintes, aceitou o cargo de invocador sênior no Instituto, nomeado por Vesssaria Kolminye. A Liga foi aceita por quase todas cidades-estado, inclusive Demacia e Noxus. O acordo incluía um pacto de não-agressão real entre os seus membros, o que parou a guerra que estava próxima de acontecer. Ele era um sonhador.
Um ano se passou desde então…
– — -
Após os acontecimentos da noite de Icathia:
Meio homem, meio ciborgue. Em quantas metades era possível dividir alguém? Viktor brincava com algumas de suas máquinas quando Tesla entrou repentinamente em seu covil. Os lábios artificiais de Viktor formaram um sorriso. Ele sabia qual das duas palavras viria. Não seria “sucesso”, certamente:
– F-Fracasso, mestre. Kristofer foi capturado, Lissandra fugiu. – Ele falou, ofegante. Viktor estava pronto para usar o canhão acoplado em suas costas para destruir Tesla por sua falha, até que este retirou um frasco do bolso interno do casaco. – Mas eu consegui salvar isso!
– ZAC. – O arauto das máquinas falou, com uma óbvia satisfação. Satisfação que não o impediu de decepar a mão de Tesla com o canhão. – Nunca mais ouse falhar comigo novamente. Agora, suma.
Tesla assentiu, acariciando o toco sangrento enquanto partia, grato pela oportunidade que seu mestre lhe dava. Viktor se virou para um lado sombrio de seus aposentos:
– O que está fazendo aqui? – Ele perguntou, com a sua voz mecânica.
– Observando, como sempre. Pelo visto, Brandon Beck impediu os seus planos. – A mulher falou, oculta pelas sombras.
– Não absolutamente. – Ele apontou para o mapa, e ela viu o que ele queria dizer. – Vai tentar me impedir, general Walls?
– Não, não vou. Talvez você descubra por si só que Ionia não é regida por fracos.
– Todos são fracos, pois são apenas humanos. Evolua ou morra.
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