Before - League of Legends
9 Capítulo oito
– Fique atrás de mim. – Marc falou para Ofelia, empurrando-a para trás dele de forma mais gentil do que ela esperava. Ela se recobria de arrependimento por ter duvidado da inocência do bárbaro e por deixá-lo vir desarmado, aquilo se provava um erro agora. Talvez o último que o Instituto poderia cometer, se eles falhassem ali:
– Protegendo a fêmea? Deveria se preocupar consigo mesmo, humano. – Escarneceu o Troll, que levantava a sua pesada clava de gelo com apenas uma mão apenas para descê-la com força na direção do bárbaro.
– Heh. – Marc sorriu, enquanto aparava a clava com as mãos abertas, tomando o cuidado de elevar ao máximo os braços, não queria aquela coisa nem um pouco perto do rosto. O Troll arregalou os olhos, ele nunca havia deixado de esmagar nenhum humano com o peso de sua Boneshiver, a clava de gelo. A superfície da clava era irregular e gélida, cortando as mãos de Tryndamere e fazendo o sangue escorrer por seus braços levantados e pela clava. — “Humano”? Você está enfrentando um demônio, seu Troll idiota.
Suas mãos apertaram a Boneshiver com mais força ainda, e então Marc a arremessou para trás de si, fazendo o Troll soltá-la. A clava colidiu com o gelo que tampava o rombo feito na pirâmide, pelo próprio bárbaro, destruindo o gelo da bruxa quase completamente e comprometendo a estrutura ancestral:
– Você…!! – Rugiu Trundle, enraivecido, socando o rosto de Marc com a mão agora despojada da querida clava. Tryndamere não lembrava da última vez que levara um soco tão forte, o gosto de sangue tomava toda a sua boca.
Dentro da pirâmide, a clava voava descrevendo círculos desgovernados no ar. Havia sido jogada com tanta força que quase não perdera velocidade ao se chocar com o gelo sombrio de Lissandra e agora rumava para os alicerces da pirâmide. Pedras calcárias caiam indistintamente sobre as pessoas que ali estavam, todo o local estava ruindo:
– Vai ser uma honra morrer ao seu lado, loirinha. – Sivir piscou para Ezreal, decidida a não deixar nem a morte levar o seu humor, enquanto fazia a sua lâmina ricochetear pelos mortos-vivos, mesmo sabendo que eles não significavam nada perto da Bruxa Gélida que conjurava estilhaços e mais estilhaços afiadíssimos de gelo em todas as direções.
– Talvez não precisemos morrer. – Ele afirmou seriamente, ao notar um brilho incomum perto de um dos mortos-vivos caídos. Ezreal já havia lido sobre aquele tipo de coisa, mas ninguém jamais havia encontrado na história da arqueologia. “Será que…?”, pensava, enquanto estendia a mão para apanhar.
– Seus amigos parecem lutar bravamente, pena que não posso dizer o mesmo de você, ex-aluno. – Debochava Kristofer, fazendo a lâmina de sua espada brilhar entre os raios de Sol que entravam pela brecha na pirâmide, indiferente aos destroços que caíam de cima onde quer que fosse.
– Você não quer me matar? Faça logo e acabe com isso. – Brandon estava caído entre os destroços, entre poeira e areia, cansado de lutar. Não podia se opor à Kristofer, não podia se opor a Lissandra. Eles eram a razão de sua ruína, em primeiro lugar, conseguiram ludibriá-lo mesmo em seu próprio auge e agora era apenas uma sombra de um gênio. Menos que uma sombra. Uma sombra com cronodisplasia.
– Você implorando para morrer. Eu sonhei com esse momento por tanto tem… Argh! – A espada voou para longe, caindo entre uma pilha de pedras amontoadas e perdendo-se junto com o próprio brilho. Kristofer olhou para onde vira a rajada de energia que o atingiu surgir, e, pela primeira vez, seu semblante demonstrava surpresa:
– O amuleto dos Ascendidos. – Explicou o explorador Ezreal, mostrando a mão que agora possuía um estranho amuleto em forma de manopla exalando um brilho incomum por ser usado após tanto tempo, jubilando a união com seu novo portador. – O próximo disparo não vai ser de aviso, Kristofer.
– Se já ouviu falar de mim, sabe que não deveria me ameaçar. – Desafiava Kristofer, a veia na testa pulsando com a sua ira.
– Sei que você deveria estar morto, e eu posso corrigir esse erro agora. – A mão da manopla estava fixada na direção de Kristofer, ela sequer tremia. O estranho amuleto servia como um condutor para as suas habilidades arcanas há muito adormecidas e materializava cada pensamento que ele tinha em forma de magia.
– Annie. – Brandon falou. Seu tom de voz estava normal mas o silêncio que se fazia após o aviso de Ezreal, quebrado apenas pela estrutura ruindo, permitiu que todos o ouvissem perfeitamente. – Traga o seu urso para a batalha.
Kristofer ergueu uma sobrancelha, mais confuso do que nunca. Seria um delírio de Brandon, ou uma última ação desesperada? Annie não ficou menos perplexa:
– Mas vocês disseram…
– Agora! – Ele levantou a cabeça, para olhar diretamente nos olhos de Kristofer uma última vez. Nunca mais o olharia de baixo e nunca mais precisaria ser salvo dele, mas não podia garantir o contrário. Nada o impediria de desencadear a própria fúria. – Você me deu um presente muito bom.
Um raio de compreensão se espalhou pelo rosto de Kristofer no segundo seguinte. Brandon tomou impulso e se atirou na direção do próprio grupo que se reunia entre os mortos-vivos e uma confusa Lissandra. Viu em câmera lenta o inofensivo urso de pelúcia da garotinha, que se protegia dos destroços de pedra e gelo, ser arremessado ao ar, se expandir e liberar chamas em todas as direções.
O fogo entrou em combustão com o formol das múmias em pleno ar e fez a sua magia. O incêndio se espalhou muito mais rapidamente do que normalmente aconteceria, queimando toda a pirâmide em questão de segundos. Não era um fogo comum, o fogo mágico da pequena Annie consumia qualquer coisa, inclusive a si mesmo, a pirâmide não poderia resistir àquilo.
– Não! Marc! – Ofelia gritou, ao virar-se para ver a pirâmide desmoronando enquanto ardia e soltava fumaça. O bárbaro tinha o rosto inchado, mas, ainda assim, trocava socos com o Troll com um vigor invejável. Ele se virou para trás ao ouvir os gritos desesperados da garota, assim sofrendo mais um golpe de Trundle pelo descuido momentâneo:
– Não pode ser! – O que restava da pirâmide desabou completamente levantando uma grande camada de poeira em todas as direções e arrastando as areias com o seu impacto. Ofelia sentiu o seu capuz sendo arrancado pela força do impacto e ela própria foi derrubada na areia sem poder ver mais nada. Grãos de areia invadiam cada lugar que poderiam encontrar, seus olhos ardiam com tudo aquilo, mesmo que fechados.
Ela não sabia quanto tempo havia se passado. Estava atirada na areia. Imóvel. Fumaça e poeira se misturavam às suas lágrimas derramadas pelos companheiros. Eles eram fortes e ela sabia disso, mas ninguém jamais sobreviveria àquela explosão:
– Levanta, garotinha. – A voz áspera falou, fazendo-a perceber que os ruídos do desabamento haviam se encerrado.
– Marc? Cof, cof. – Ela tossia, surpresa. O bárbaro ainda estava com ela, eram os únicos que haviam sobrado. Ofelia tentou pôr-se de pé enquanto olhava para trás, na direção da pirâmide, não havia sobrado nada, além de destroços. O Rei dos Trolls havia desaparecido também.
– Vem, vamos voltar para o Instituto. Não tem mais nada aqui. – Ele a tocou pelo ombro, suas mãos sequer estavam trêmulas como as dela. Sua voz, indiferente como sempre. A morte daqueles parecia nada significar para o bárbaro.
– Não, não. – Ela o olhou, suplicante. Ele não deveria concordar com o que ela pensava, concordar com os seus piores temores, o bárbaro deveria se opor. Deveria elaborar uma teoria sobre como o grupo poderia estar vivo, convencê-la de que tudo daria certo. Consolá-la. Ela simplesmente não podia crer que eles estavam mortos.
– Estamos mortos? – Perguntou Ezreal, ao notar que não estava sozinho naquele estranho lugar. Annie e Sivir lhe faziam companhia, tão surpresas quanto ele. O quarto onde estavam era sujo e bagunçado, uma camada de, pelo menos, três centímetros de poeira se acumulava no chão. Aquilo não era Shurima, ele podia facilmente afirmar.
– Não é o inferno, já é um começo. Ou talvez seja, eu nunca estive no inferno antes. Mas não me disseram que seria tão… agridoce. – Sivir comentou, enquanto tentava absorver o máximo de informação que conseguia daquele local. A arte de sobreviver em ambientes desconhecidos não lhe era desconhecida, do contrário não seria uma grande mercenária.
– Isso não é o inferno. Não para vocês, pelo menos. – Brandon comentou de forma sombria, ao ver que eles já haviam se ambientado.
– Wow, você está vivo. Isso é bom, eu já estava me perguntando para quem eu deveria cobrar o meu pagamento caso você não estivesse. – Brandon não pôde deixar de sorrir com a recepção da mercenária. Ela tinha a sua dose inconveniente de ironia, mas não era uma má companhia.
– Então, que lugar é esse, Brandon? – Ezreal estava curioso. Estavam em Shurima enfrentando as forças de Lissandra, afinal. Mas Brandon… Brandon havia feito uma ação suicida. Uma ação suicida que aparentemente não matou ninguém. Ele planejara ou…?
– É o famoso “futuro”. Sejam bem-vindos à minha casa. Não se preocupem, escolhi um dia onde ela estava vazia. – Explicou calmamente o gênio de cabelos brancos. Annie, que quase sempre ficava calada, apenas observando, se sobressaltou:
– Você pôde nos fazer viajar no tempo?! Nem o Zilean consegue!
– A doença do Zilean não se compara com a do Brandon. Ele é muito mais poderoso. – Ezreal explicou, ele conhecia Brandon melhor do que os outros e ainda assim o conhecia tão pouco. – Foi assim que você nos protegeu do fogo.
– Eu não tinha muitas opções. Como eu disse antes… A cronodisplasia foi um presente muito bom. Temos algo para lutar contra, e precisamos de meus poderes.
– Não, precisamos da sua inteligência. – O explorador argumentou. – Já que você nos trouxe aqui, que tal ser sincero uma vez que seja e nos contar o que aconteceu nesse lugar?
– Sinceridade não é o meu ponto forte. – Ele passou a mão em uma mesa de madeira empoeirada. Havia um papel quase em branco em cima dela, apenas o cabeçalho estava preenchido. “Dobra dimensional”. – Quando eu cheguei aqui, minha máquina veio parar perto do Kristofer. Ele me ensinou a lutar. Me ensinou a construir coisas. Me ensinou a viver aqui. E isso foi… bom. Por um tempo.
– Você disse que a Lissandra era a sua mulher. E que ele a matou. O que é engraçado, porque agora nós queremos matá-la. Já que ela não estava morta. – Sivir observou. – Digo, você quer matá-la. Eu não quero matar ninguém. Ok, eu quero matar algumas pessoas. Mas vocês não querem saber disso, certo?
Os três a olharam. Ela se limitou a dar um sorrisinho e foi brincar com a sua lâmina de quatro pontas em outro quarto. Brandon hesitou por um momento. O dedo da aliança estava vazio. Fizera aquilo para esquecer, mas agora ele percebia que não existia caminho ou atalho para evitar aquilo.
– Eu me casei com a mulher chamada Liza. Ela foi a minha esposa durante quinze anos. Um dia, Kristofer pediu por esses projetos. – Ele apontou para o papel da mesa. – Eu recusei, logo ele ameaçou a Liza. Eu cedi. Entreguei a ele. E então ele a matou. Ou era isso o que eu pensava.
– Ignorando o fato de você resumir dezoito anos nesse lugar a algumas frases. Eles estavam conspirando juntos, pela… — Ezreal fez um esforço para enxergar o que estava escrito no papel. – Dobra dimensional.
– O que é uma Dobra dimensional? – Annie perguntou.
– Tem alguma relação com ovelhas? – Sivir ressurgiu na sala. Ela estava ouvindo a conversa o tempo todo. – É que, eu conheci uma ovelha. Chamada Dobra. É um nome esquisito para ovelhas, por sinal. Nunca chamem suas ovelhas de Dobra.
– É um portal. Que pode ligar a nossa dimensão com outras.
– E por que eles precisam disso?
– Essa é uma excelente pergunta, Annie. O que tem em outras dimensões que não tem na nossa? – Ezreal se questionou, levemente pensativo. A mão do amuleto coçava o próprio queixo e a testa estava franzida sob os cabelos loiros do explorador. – Além disso, se eles tem a Dobra… Por que precisariam te atrair para Shurima e te matar?
– Porque só existia uma coisa no mundo capaz de gerar energia o suficiente ativar o portal. O cristal arcano do Jayce, que ele destruiu, a propósito. – Brandon passou a mão na cabeça. Pensar estava tão difícil. Mas ele sabia o caminho que estava seguindo, quase via uma luz no fim do túnel, só não sabia se seria capaz de segui-la.
– Isso não explic…
– Como eu disse. Só “existia” uma coisa. Mas quando eles sabotaram a minha máquina do tempo e me fizeram ficar doente, descobriram outra.
– Sua vida. Sua energia vital pode fazer a Dobra funcionar. – Sivir estava anormalmente séria. – Ou seja, você pode ressuscitar ovelhas! Digo… Ou seja, eles são muito burros. Tentaram te matar duas vezes quando precisavam de você vivo.
– A menos que eles soubessem que tudo isso ia acontecer. Estamos falando de pessoas que viajam no tempo. E se estivermos jogando em um tabuleiro que eles criaram? – Aquela ideia inflamava Ezreal. Ser conduzido como um rato para a ratoeira não era agradável, precisavam fazer algo.
– Descobrimos o suficiente para, pelo menos, contra-atacar. Precisamos nos tornar maiores. Sivir, Annie, Ez. Eu posso contar com vocês para isso? A Liga, mais do que nunca, tem que dar certo. – Brandon pediu. A solução mais fácil para tudo aquilo passava pela sua cabeça: Se matar. Mas ele duvidava que aquilo resolvesse algo além do sofrimento dele.
– Claro que pode. – Annie respondeu sorrindo, voltando a ser a garotinha fofa que não queimava coisas. Ele só não sabia por quanto tempo, mas até que a parte piromaníaca dela se mostrara útil.
– Estou sempre ao seu lado. – Ezreal se aproximou dele e tocou o seu ombro, afetivamente.
– Bom… Esse emprego tem plano de saúde? – Ez franziu uma das sobrancelhas para Sivir quando a ouviu dizer isso. Ela rapidamente se corrigiu. – Claro, claro. Seu lado. Sempre. “É nós”. Estamos juntos, cara. Mas eu ainda vou receber por esse serviço, certo?
– Vamos voltar. – Brandon falou, entre risos. Envolvendo a todos na mesma bolha temporal que usou para sair de Shurima no ponto temporal em que estavam. O espaço e o tempo podiam ser usados a seu bel-prazer. Muito poder para uma pessoa só, muitas consequências.
Marc tentava fazer Ofelia se levantar enquanto ela se desfazia em lágrimas, ajoelhada na areia. As esperanças iam embora a cada segundo de dor que se passava. Contudo, a bolha temporal apareceu repentinamente onde existia uma grande pirâmide antes. Dela surgiam Brandon, Ezreal, Annie e Sivir:
– Não pode ser. Garotinha, diga-me que isso é real. – Marc balbuciou para Ofelia, que se virou para ele confusa. Seus olhos saltaram do grande bárbaro para o grupo que acabava de se materializar entre as ruínas.
– Brandon! – Ela correu para ele, a visão mais turva do que nunca pelas lágrimas excessivas. Eles se abraçaram. Ofelia o apertava com força, não podia deixá-lo partir novamente. Nunca mais.
– É, também, estamos bem. Obrigada por perguntar. – Sivir comentava, contrafeita. Ofelia se virou para ela lacrimosa e a abraçou também. – Ela sempre abraça desconhecidos dessa forma? Sua mãe nunca disse “cuidado com estranhos”?
– Você parece ser difícil de matar, rapaz. – Marc comentou, olhando diretamente para Brandon com os seus olhos azuis.
– Um pouco. Vamos ter que conversar depois, Marc. Sobre a bruxa gélida.
– Não tem o que conversar sobre isso. Vamos matá-la. Matar aquele cientista metido a besta e aquele Troll fedid… — Foram interrompidos por um barulho estranho vindo dos destroços das pirâmides. Uma pequena tumba suja e queimada se mexia entre as coisas ali queimadas, em sua maioria, os cadáveres outrora controlados por Kristofer. A tranca já comprometida pelo fogo foi quebrada. De lá saiu uma criança múmia. Ou seria uma múmia de um yordle?
Diferente das outras múmias, suas faixas eram verdes. Seus olhos, a única coisa exposta, eram amarelos. E de um deles, uma pequena lágrima escorria:
– Quem sou eu? – A voz da pequena múmia perguntava, tristonha. Annie se enchia de piedade ao vê-lo quase se entregar às lágrimas, como um recém-nascido. Todos olhavam para aquilo, atônitos, ninguém sabia o que fazer. Ezreal considerava aquilo um sinal, enquanto recordava as sombrias palavras de Brandon: “Precisamos nos tornar maiores”.
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