Before - League of Legends
10 Capítulo nove
– Eu pensei que você soubesse lutar. – Brandon debochou. Pela terceira vez seguida, havia derrubado Marc no mapa virtual da Liga. Nas últimas duas semanas, haviam testado incessantemente o sistema de realidade virtual idealizado por Brandon e construído por Doran.
Marc se levantou. Derrubá-lo era fácil, mas ele nunca ficava por muito tempo no chão. Brandon não sabia se era o vigor ou a força de vontade, mas o bárbaro voltava cada vez mais forte sempre que caía na terra fofa do mapa da Liga. Contudo, ele também voltava mais furioso, o que o tornava mais manipulável durante uma batalha, praticamente um livro aberto:
– E eu pensei que você era do clube do livro. – Ele investiu como um touro em Brandon, que simplesmente saiu do caminho. Ele era extremamente leve e ágil. Marc podia ser rápido, mas Brandon certamente era mais:
– Os nerds são os que mais aprendem a se defender. E não tinha clube do livro na universidade. – Brandon se sentou no chão, cansado. De vez em quando, ele esquecia de sua idade. Se bem que era igualmente fácil esquecer que Marc tinha mais de duzentos anos também. – Vem, vamos embora. Doran, pode nos tirar daqui.
Uma luz branca os envolveu durante nove segundos, criando espirais ao redor deles que cresciam gradativamente. Brandon e Marc abriram os olhos, pelo visor do capacete de Realidade Virtual era possível ver Sivir, Ofelia, Annie e Amumu, a pequena múmia sem memória que encontraram em Shurima, sentados ao redor de uma mesa próxima. Ao lado da dupla, Doran manipulava o computador atentamente:
– 45% de imersão. Estamos chegando lá. – Comentou o “Mago” Effrem Doran. – Mas… precisamos de tempo.
– Nós temos tempo. – Argumentou Brandon. Restava mais uma semana e alguns dias, se trabalhassem duro, podiam conseguir. A ameaça iminente da Bruxa Gélida pairava sobre o grupo, mas Brandon estava decidido a não deixar aquilo atrapalhar seus planos. A Liga precisava funcionar.
– Sabe do que precisamos? Ok, do que eu preciso. Preciso testar esse brinquedo. – Sivir falou, apontando para os capacetes, da mesa onde ela estava. Ofelia ria baixo, as duas tinham se tornado amigas estranhamente próximas. Brandon as julgava muito diferentes, mas ao olhar para o bárbaro sentado ao seu lado, não pôde deixar de pensar a respeito.
– Você pode usar, Sivir. Todos podem usar. – Brandon falou. A mercenária lutaria na Liga como quase todos os que estavam ali. Ele ainda não via uma utilidade clara em Amumu. Queria despachá-lo para algum lugar, entregá-lo ao Instituto ou qualquer coisa assim. Mas Ofelia e Annie relutaram em deixá-lo ao acaso. A múmia queria brincar com elas quase sempre, e chorava quando não conseguia. – Eu e o Marc estamos de saída.
– Estamos? – Marc franziu o cenho. Seu rosto havia suavizado bastante com a convivência pacífica, ele acreditava que duas semanas sem matar era um recorde para o bárbaro, mas a barba ainda era assustadora. Brandon sempre tinha a impressão de que ele ia atacá-lo, não que nunca tivesse acontecido antes. Acontecera muitas vezes, entre testes da Liga e controles mentais de Lissandra. A relação entre eles era atribulada.
– Você achou que estávamos de férias? – O cientista sorriu e deu um tapa no braço do bárbaro, indo em direção à porta. Gostava bastante do laboratório, era uma pena que tivesse que se despedir daquele local quando a Liga estivesse pronta. “Talvez eu deva construir a minha própria ilha voadora”, pensou Brandon, lembrando do tempo em que viveu com Kristofer e Liza, no futuro.
O bárbaro o seguia, carrancudo como sempre. Os invocadores que passavam por eles tomavam uma distância segura. Brandon explicava para quem quisesse ouvir a verdade sobre o atentado de Marc na conferência do Instituto, mas era difícil esquecer a cena dele fatiando pessoas como um cachorro louco. Um cachorro louco com espadas. O próprio Brandon ainda tinha sonhos ruins com aquilo.
A bem da verdade, ele tinha sonhos ruins com tudo. Liza, Kristofer e todos os problemas que eles trouxeram. Passado e futuro se misturava em sua mente, tornando-se tão homogêneos quanto o presente para ele. Ele também estava um tanto preocupado com Ezreal. Havia enviado o explorador em uma missão e ele ainda não voltara. A viagem era longa e Brandon preferia enviar Marc, contudo este ainda era privado da própria liberdade.
– O que nós vamos fazer? – Perguntou Tryndamere, olhando com desprezo para os invocadores assustados que comentavam e apontavam para a dupla. Era um tanto difícil saber quando ele não estava olhando feio para as pessoas, mas o seu verdadeiro olhar frio era algo assustador. Algo que ele desejava não ver nunca mais.
– Libertar um espantalho assassino. – A ideia divertia Brandon sempre que ele pensava sobre aquilo. O olhar confuso de Marc era a cereja no bolo de diversão dele, aquilo tinha um tom estranhamente cômico quando ele parava para pensar um pouco. – Fez parte do acordo para te libertar.
Brandon havia lido sobre Fiddlesticks, o mensageiro da morte, e se recusava a acreditar em metade do que os relatórios diziam. Poucos haviam visto de fato o espantalho nos vinte anos em que ele esteve preso na câmara oriental de invocação. Os que viram e voltaram com vida, estavam completamente insanos e tagarelavam sobre corvos assassinos. O tipo de aliado que eles precisavam contra alguém como Lissandra, se Brandon achasse que aquilo era real.
Ele não duvidava de que o espantalho fosse poderoso. Mas aquele era um mundo de criaturas poderosas, a lenda de Fiddlesticks deveria estar muito acima da real capacidade que ele possuía. Marc daria conta daquilo facilmente, se acabassem precisando utilizar a violência, o que Brandon esperava não ser necessário.
A câmara oriental de invocação era isolada do resto do terreno do Instituto. Ninguém sabia como Fiddlesticks havia chegado ali, mas enquanto ele ficasse ali, o Instituto não se importava. Brandon se importava, a partir do momento em que um problema se tornava seu, ele dedicava tudo o que tinha para resolvê-lo. Não seria diferente ali.
– Você está pronto? – Ele perguntou para Marc, com a mão no portão da câmara.
– Para bater ou conversar? – Era necessário perguntar, porque, a depender da situação, a utilidade dele variava.
– Só fique alerta. – Avisou Brandon, enquanto empurrava o portão, aguardando pelo desconhecido.
A câmara era escura por dentro, como era de se esperar. Nenhum barulho era ouvido e sua extensão era impossível de ser medida. Cada passo em frente sem que nada acontecesse era um alívio e uma agonia. Ele sabia que Marc o seguia, não podia ouvir os seus passos, mas simplesmente sabia. A única coisa que quebrava aquele silêncio eram as batidas de seu coração, que ele suspeitava ser o único a ouvir.
“- Então, vocês são tipo… Cientistas? – Perguntava Liza, curiosa. Os invocadores no telão estavam ainda escolhendo os campeões que os representariam. Ele e Kristofer haviam casualmente esbarrado nela. Normalmente ele evitaria qualquer tipo de contato, mas Kristofer não. Kristofer era mais sociável e levara a conversa até a vida pessoal deles:
– Sim, e ele – Sua mão indicava um desconfortável Brandon. — é um viajante do tempo. – Então, Kristofer diminuiu o tom de voz, como em um sussurro, ao pedir sorrindo – Mas não conte para ninguém.”
Ela riu. Ela sempre ria. Ele nunca soube se ela acreditava ou não, mas agora tinha noção de que ela já sabia. Desde sempre. Aquilo nunca fora casual, mas sim premeditado. De algum jeito, Brandon não sentia raiva daquilo. Os fatos não eram lineares, não tinham uma ordem. Tanto fazia se ia acontecer ou já acontecera, Lissandra precisava ser detida.
– Cuidado! – Gritou Marc, empurrando-o bruscamente para longe de uma foice que voava certeira na direção de sua testa. Do chão, Brandon olhou para cima. Um par de olhos totalmente verdes brilhava na escuridão seguido de muitos outros vermelhos. Corvos. Morte. Fiddlesticks.
– Espere, nós só viemos para conversar! – Brandon ergueu a mão para a única luz que via, ainda que fossem aqueles olhos horripilantes.
A única resposta que ele obteve foi uma risada fria e cruel antes que os corvos se movessem. O barulho que eles faziam juntos era insuportável e mesclava o bater de suas asas com seus próprios sons naturais:
– Bater? – Perguntou Marc Tryndamere, enquanto se colocava na frente de um caído Brandon. Não que fizesse diferença, eles cercavam a dupla, prontos para atacar por todos os ângulos.
– Quando quiser, Marc! – Ele exclamou, não que fizesse diferença. Marc tirou uma pequena faca da bainha, e, em vez de ir para os corvos, investiu em Fiddlesticks. Ele não sabia exatamente onde o espantalho estava, exceto pelo brilho dos seus olhos, contudo, quando a faca cortou alguma coisa, outra luz pôde ser vista.
Um elo verde ligava Marc e Fiddle. Brandon não tinha ideia de como, mas sabia que aquilo era uma espécie de transferência vital. A luz causada pela ligação permitia a ele ver a câmara pela primeira vez. Os esqueletos que jaziam ali não eram poucos, os corvos continuavam voando ao seu redor, e Fiddlesticks… Fiddlesticks era, de fato, um espantalho. Trapos e gravetos pouco firmes o compunham, ainda assim, enquanto ele, de alguma forma, drenava Tryndamere, sua presença parecia imponente.
– B-Brandon… — O bárbaro balbuciava enquanto perdia gradualmente as forças, incapaz de revidar.
– Ele não pode ajudar você agora. – Falou o espantalho, com um sorriso maligno, enquanto os corvos investiam em Brandon, dando bicadas ferozes em todas as partes.
Então, pela primeira vez em muito tempo, Marc cedia a consciência para a fúria. Sua mortalidade era encerrada e ele se tornava um ser movido pela fúria. Ele segurou o espantalho pela cabeça com as mãos nuas mesmo com o elo entre eles. Não havia vida para ser sugada:
– Pare com isso. – Ele falou, com os olhos faiscando assim como o seu corpo que liberava pequenas chamas benévolas. Pelo menos, para ele.
Os corvos imediatamente cessaram o ataque ao cientista caído, que tentava se proteger das bicadas vorazes com os braços. Tryndamere apertava o espantalho com tanta força que ele poderia se quebrar:
– Você escolhe: Bater ou conversar? – Ele perguntou ao espantalho. Não da forma simplória, como perguntava a Brandon despreocupadamente, mas, ainda assim, brutalmente.
– Você é humano? – Perguntou o espantalho, espantado. Em vinte anos, ninguém que ali entrara havia sobrevivido.
– Duvido muito. – Respondeu o bárbaro, dando de ombros. Sua fúria começava a se encerrar, assim como a sua imortalidade. Não fazia diferença, a ligação entre ele e o espantalho havia sido desfeita e suas energias foram recuperadas como sempre acontecia quando ele “consumia a fúria”.
– Fiddlesticks, você quer sair desse lugar? – Brandon perguntou, tentando ignorar alguns sangramentos e a falta de iluminação. Algumas das bicadas virariam hematomas, ele não tinha dúvidas disso.
– Sair? Eu nunca saio, as pessoas têm medo de mim. Elas vem me machucar. – O espantalho respondeu com a sua voz rouca, Marc o soltava aos poucos, ainda desconfiado de suas intenções.
– Nós temos mais medo de uma pessoa pior. De uma… coisa pior: Liza, ou melhor, Lissandra, a bruxa gélida. Precisamos de você, para nos ajudar a combatê-la.
– Lissandra? Eu conheço Lissandra. Ela é uma amiga do mestre Istvaan. – Falou o espantalho, levemente surpreso.
– Istvaan, quem é Istvaan? – Se Fiddlesticks parecia surpreso, o que dizer de Brandon? O nome Istvaan não lhe era desconhecido, pelo contrário, era extremamente familiar.
– Vocês são do Instituto? Se forem, devem conhecer o invocador da Liga, Istvaan. – Explicava o espantalho, ainda seguro pelo aperto de Marc, embora ele tivesse afrouxado mais um pouco a mão ao ouvir as últimas palavras.
– Da Liga? Brandon… — Marc queria respostas, mas as procurava com a pessoa errada. Brandon pouco sabia sobre aquilo, e o que sabia não encaixava nada no quebra-cabeças, embora acrescentasse cada vez mais peças.
– Fiddlesticks, você chamou esse… Istvaan de mestre. Ele o criou? – Ele precisava se manter coeso. Obter as respostas necessárias do espantalho. Era vital que isso acontecesse. “Não perca a cabeça, Brandon”, ele pensava consigo mesmo.
– Ele me trouxe da minha dimensão para cá com os meus amigos. Ele me deu essa câmara para que eu ficasse em paz. Eu só queria ficar em paz. – Explicou Fiddlesticks, quase suplicante.
– Vamos te deixar em paz, eu prometo. Mas, em troca, eu também vou querer algo. – Brandon falou. O quebra-cabeças agora estava quase montado, mas faltava uma peça. A mais essencial.
– O que seria?
– Que você lute por mim, sempre que eu pedir e contra quem for. Na Liga, Lissandra, Istvaan, não importa quem seja, você vai lutar do meu lado. Você concorda? – Ele fez a proposta. A única parte visível do espantalho eram os olhos, como sempre.
– E-eu… Sim, meu mestre. – Proferiu o espantalho, e, finalmente, Marc o soltou, recuando alguns passos.
– Obrigado, Fiddlesticks. Eu prometo que você terá paz. – Brandon falou, antes de sair com Marc pelo portão, e desejar consigo mesmo que nunca precisasse voltar. Era muito bom poder ver a luz do Sol novamente, embora os seus olhos não estivessem mais acostumados com a claridade.
– O que foi tudo aquilo? – Perguntou Marc, enquanto se distanciavam da câmara.
– Fiddlesticks realmente conheceu a Liga. A Liga do futuro. Istvaan é, de fato, um invocador da Liga daqui a duzentos anos. Ele, de alguma forma, trouxe criaturas de outra dimensão naquele tempo. Mas acabou deixando-as aqui quando voltou com Lissandra e Kristofer.
– Você acha que esse tal Istvaan trabalha com eles e está aqui?
– Não. – Brandon passou a mão pelos cabelos, os corvos haviam destruído o seu topete. – Eu tenho certeza de que temos um traidor no Instituto.
– Brandon, Marc! – Eles ouviram uma voz chamar. Sivir corria na direção deles. – Uau, você está horripilante, Brandon. – Ela observou, ao vê-lo de perto machucado e sujo de sangue.
– Obrigado, Sivir. Aconteceu alguma coisa? – Ele perguntou, um tanto alarmado, embora Sivir sempre estivesse tranquila.
– Ezreal voltou e ele trouxe a rainha de Freljord junto. Que, por sinal, também é sobrinha-neta da Lissandra. Que, por sinal, era a sua esposa. Ou seja, vocês tem algum parentesco? – Sivir divagava, mas Brandon se limitou ao essencial:
– Ashe chegou?
– Sim, ela está no laboratório aguardando por você. — É claro que estava. Tinham pelo menos um mundo para salvar.
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