Os três caminhavam em silêncio, cada um com os seus pensamentos. Sivir contava mentalmente quantas moedas tinha deixado no laboratório, desejando que seus companheiros não tivessem afanado nenhuma. Brandon estava ansioso, não era sempre que ele se via cara a cara com uma rainha, ainda mais sendo tratado como um igual: Um membro oficial do Instituto e líder da Liga. De certa forma, ele liderava aquela equipe desconjuntada que tinha em mãos. Era aquele que os reunira, que os fazia continuar naquilo. “Fazer o que o Instituto não pode”, ele tinha certeza de que nem Ofelia pensava naquelas proporções quando o convidara.

Marc tinha uma experiência passada com os Avarosianos, a tribo de Ashe. Na verdade, ele conhecera pessoalmente Avarosa, a sua fundadora, e sempre gostara dela. Ashe era descendente dessa linhagem, mas ele não se dispunha a esperar tanta coisa da Freljordiana. Aprendera há muito tempo que confiar nos outros era um erro. Mesmo Brandon cairia em algum momento. “Os inocentes são sempre os primeiros”. A não ser que ele pudesse impedir:

– Brandon… — O cientista olhou para o bárbaro que falava. Sivir ouvia silenciosamente, mesmo ela percebia a intensa atmosfera que se formava. – Você vai ter que tomar cuidado com a Ashe.

– Ei, eu sempre tomo cuidado. Não é como se eu fosse ofendê-la de alguma forma. – Ele ergueu as mãos, um tanto indignado.

– O povo do gelo sempre viveu isolado. Freljord não tem um representante no Instituto. Ela não vai nos ver como aliados. No máximo, como inimigos do inimigo. – Marc parou de caminhar. Brandon parou também. Ele próprio queria adiar aquele momento com Ashe, mas sabia que não poderia.

– É por isso que eu estou contando com você. – Ele replicou calmamente para o bárbaro, com um leve sorriso. Não tinha apenas um exército comum lutando pela sua causa. Annie do Instituto, Katarina de Noxus, Amumu e Sivir de Shurima, Zilean da Grande Barreira, Ezreal, Ofelia e Doran de Piltover e Tryndamere de Freljord. Eram pessoas competentes, carismáticas, e, acima de tudo, traziam um pouco de diversidade das suas respectivas cidades-estado, cada um trazia consigo um pedaço de Runeterra e o inseria pouco a pouco na Liga.

– Eu não sou o líder. Você é. – Marc raramente argumentava dessa forma, seu método favorito era bater e cortar. Geralmente em pessoas. Vê-lo insistir tanto em um assunto era um presságio ruim, um presságio ruim que Brandon preferia ignorar.

– Eu não sirvo para liderar… — Ele começou. Era verdade. A vida inteira de Brandon fora inteiramente dedicada a obedecer. Seus pais, Heimerdinger, seus professores, Kristofer, Liza, o Instituto. Ele não havia pedido por nada daquilo, não queria. Contudo, vira com os seus próprios olhos a responsabilidade que tinha para fazer um futuro acontecer.

Marc o segurou pelos ombros. Os olhos azuis cruzavam com os negros. Ele e Brandon não poderiam ser mais diferentes. Os longos cabelos negros do bárbaro contracenavam com os cabelos brancos e curtos do cientista, a expressão suave de um ficava de frente com a brutal do outro. Marc não podia entendê-lo nem se ambos vivessem mais cem anos, nem sequer queria, mas podia fazê-lo entender. Brandon era bom em entender as coisas:

– Não, você não serve. Nós – Ele olhou de relance para Sivir. — que o seguimos, somos loucos. Você é fraco, não sabe tomar decisões e tem uma doença que te ferra de diversas maneiras. É por isso que Kristofer e Lissandra não tem medo de você. Eu concordo com você, não precisamos desse Brandon.

O bárbaro deu as costas, largando um Brandon que ouvira tudo aquilo sem qualquer expressão. Não estava surpreso. Todo aquele tempo, soubera disso, mas:

– Mas… Precisamos do Brandon sério. O Brandon determinado. O cara que pensa em trinta soluções por segundo, que tá doze passos em sua frente. – O bárbaro completou. Pensara em dizer tudo aquilo para motivá-lo. Para dar coragem. Não achava que acreditava verdadeiramente naquelas palavras até ouvi-las saindo dos próprios lábios.

– É, concordo plenamente. – Sivir assentiu, sorrindo. – Principalmente com a parte de sermos loucos. Ei, eu estou trabalhando de graça, cara.

Brandon olhou para eles. Seus companheiros, se não, seus grandes amigos. Um bárbaro que havia sido enviado para matá-lo e uma mercenária que tinham contratado. Pessoas que ele nunca sonhara em colocar juntas em uma equipe. E não eram as únicas. Podia fazer o mesmo com a rainha Ashe… Não podia?

– Eu vou tentar. Por vocês. – Ele conseguiu esboçar um sorriso para os amigos antes de seguirem novamente o caminho para o laboratório.

“Perfumes, perfumes de todos os cheiros.”, Brandon ouvia durante a trajetória. Não eram apenas vendedores de perfumes. Todo o tipo de comerciante aparecera para vender produtos para o Instituto. Por ficar em uma área outrora devastada pela guerra e consequentemente isolada, o Instituto devia ter dificuldade para ter seus próprios suprimentos. Talvez aquelas feiras fossem algo regular.

O vidrinho de perfume que era vendido tinha um conteúdo verde, algo relativamente estranho, mas o cheiro era absurdamente atraente. Brandon até mesmo se sentia mais coeso ao captar aquela fragrância.

Contudo, o momento passou. Eles passaram pela feira recém-formada, recheada de vendedores e invocadores e entraram no laboratório. Ashe estava sentada com os outros na mesa. Ela não falava tanto quanto o seu animado protetor, um homem grande, bigodudo e portador de um escudo de gelo quase do seu tamanho. Esse homem gargalhava de prazer, sem nenhuma discrição, ao ver Amumu e Annie brincando pelo pequeno laboratório.

O grandalhão também carregava um pequeno bichinho branco, peludo e chifrudo. Brandon nunca havia visto algo como aquilo, mas viu de relance Marc sorrir ao reparar no bichinho. O cabelo de Ashe eram quase tão branco quanto o de Brandon, mas parte dele era recoberto por um capuz azul que se desenvolvia em uma capa. O arco feito completamente de gelo, que, com certeza, não derretia, jazia repousado na mesa.

Era possível ver que ela não estava tão descontraída quanto tentava parecer. Os olhos azuis da moça, que apesar da juventude era reconhecida como uma rainha pelo Instituto, analisavam Brandon e Marc. O seu semblante não revelava o resultado do julgamento, ele só podia torcer para ter agradado ao menos na primeira impressão.

– Brandon! – Ezreal exclamou, levantando-se de onde estava encolhido. Ele tinha ido até Freljord, levar a mensagem de Brandon para a rainha Ashe. Sentara-se justamente ao lado do grandalhão que protegia a rainha, fazendo com que Brandon não o notasse até aquele momento. – Vossa majestade, esse é Brandon Beck, nosso… — Ele hesitou. O que Brandon era deles? Amigo? Companheiro? Ou…

Os olhos dela faiscaram durante a hesitação do explorador. Brandon permaneceu tranquilo, deu dois passos e se ajoelhou na frente de Ashe:

– Líder. – Ele sorriu, completando a frase de Ezreal. Olhos negros nos azuis. Isso estava acontecendo com certa frequência incomum naquele dia. Então, ele se dirigiu ao protetor grandalhão. – E o senhor seria…?

– Eu sou Braum, o coração de Freljord. E protetor de Ashe, a rainha dos Avarosianos e de Freljord. – Ele se apresentou, estendendo a grande mão. Brandon fez menção de apertá-la, mas acabou segurando apenas o indicador do gigante e sacudindo-o, o que o fez rir ainda mais.

– Tive a impressão de que você me chamou para discutir sobre a minha…

– Tia-avó. – Brandon interrompeu a rainha. Ele explicou quase tudo para Ashe. Não fazia ideia de quanto tempo havia se passado enquanto contava a história. Contou sobre o que acontecera na Ilha das Sombras, na conferência do Instituto e em Shurima. A rainha apenas ouvia, era uma boa ouvinte. Sua expressão não sofria qualquer alteração enquanto escutava tudo aquilo, enquanto Braum fazia caras e bocas com o seu grande bigode.

Contudo, quando ele falou da Dobra, ela ficou, se é que era possível, extremamente pálida. Sua pele alva como a neve encontrava mais cor para perder enquanto ela ficava levemente boquiaberta. Brandon nunca entendera o objetivo de Kristofer e Lissandra com a Dobra, mas Ashe sabia:

– Então, ela pretende trazer…

– Os Observadores de volta. É. – Marc estava encostado em um canto. Até ele falar aquilo, ninguém o notara. Agora, no entanto, ele se tornava o centro das atenções. Brandon, que já tivera a oportunidade de entrar no passado do bárbaro, estava tão surpreso quanto o restante. Ao perceber os olhares inquisidores que lhe eram lançados, ele explicou: — Bom, quando o meu clã… Foi morto, eu me uni ao exército das Três Irmãs: Avarosa, Serylda e Lissandra. Mas Lissandra nos traiu pouco depois, ela se juntou aos nossos inimigos. Os Observadores.

– Mas… a rebelião de Avarosa foi séculos atrás! – Argumentou Ashe, incrédula e assustada.

– Desculpe, vossa “rainhagem”. Mas esse é Marc Tryndamere, nosso bárbaro imortal de estimação. – Sivir falou, com as palavras contradizendo o rosto sério que ela fazia. – Agendamos shows. Principalmente em festas de aniversário. As crianças adoram. Sério.

– Hum. Bem, nós vencemos a guerra banindo os Observadores para outra dimensão. – Finalizou Marc, um tanto desconfortável.

– Como? – Brandon estava surpreso. Havia descoberto, no mesmo dia, dois supostos casos de viagem dimensional além da existência de sua Dobra. Embora um deles estivesse fatalmente ligado a ela.

– Com a flecha de cristal encantada. – Ashe conhecia a magia utilizada. Mas apenas por lendas. Possuía o arco da lendária Avarosa, mas jamais chegara perto da lenda de sua antepassada. Marc assentiu com a cabeça, pondo um pesado silêncio no laboratório. Todos estavam pensativos. E se os Observadores voltassem, quem os baniria dessa vez?

– Agora, você sabe o que estamos enfrentando. Ashe, vamos precisar de sua ajuda. – Falou Brandon, esquecendo brevemente da etiqueta. Brevemente. – Vossa majestade.

– E-eu. Eu preciso de um tempo. Para pensar. – Ela se levantou bruscamente, recolhendo o arco e indo em direção à porta. – Braum, você espera aqui.

– Para onde você vai? – Ofelia perguntou, levemente preocupada, quando Marc fez menção de sair também, pouco após Ashe ir.

– Vou falar com ela.

– Mas ela disse…

– Meu nome não é Braum. – Ele sorriu. Brandon nunca o havia visto sorrindo de verdade. Não um sorriso de carniceiro, como o que ele geralmente fazia, mas um autêntico sorriso de felicidade. Os olhares deles se encontraram mais uma vez. – Você esteve bem, líder.

– Obrigado, companheiro. – Brandon falou, enquanto o assistia partir. As coisas pareciam estar indo bem, pela primeira vez em muito tempo. Aquilo nunca era bom. Como uma calmaria antes da tempestade.

– Hei. Você é rápida. – Marc falou quando a encontrou. Os invocadores, como sempre, o evitavam, e alguns até se surpreendiam em ver o bárbaro andando sem ser vigiado. Mas ninguém fazia ou dizia nada.

– É pra valer, né? Digo, essa coisa de imortalidade, Lissandra e Dobra. – Ela perguntou, pensativa, sentada em um canto mais afastado da terra árida.

– É. – Ele confirmou. Amaciar as verdades mais cruéis era trabalho de Brandon, não dele. – Bom, mas esse arco já resolveu as coisas uma vez.

– Você confia nessas pessoas para resolver isso? De coração?

Ele refletiu. Coisa que raramente fazia, mas era necessário se quisesse ser sincero com a arqueira. Não tinha realmente amigos ali dentro. Não tinha pessoas que confiassem nele. Era uma arma. Um assassino. Era a sua função. Para todos era assim, exceto para uma pessoa. Uma pessoa com quem trocara uma promessa.

– Nem um pouco. Mas eu confio em Brandon. – “Confiar é um erro”. Ele podia ter dito. Não era a primeira vez que descobria o que realmente pensava. Brandon despertava aquilo nele. – E em qualquer pessoa que se diga Avarosiana.

– Nesse caso, eu vou pedir um favor para você. – Ela olhou para ele, séria. Ele assentiu. Ashe puxou uma flecha de gelo da aljava que ficava abaixo de sua capa. – Lute comigo.

Ele a olhou confuso. Sabia que não havia ouvido errado, pois a pose dela não mentia. Ela estava pronta para lutar.

– Qual o propósito disso?

– Não dou crédito para palavras. A menos que elas sejam validadas. Com suor ou sangue. – Ela atirou uma flecha na direção de sua cabeça. Ele a segurou com as mãos nuas. Estava gélida, como era de se esperar. Antes que ele pudesse ter outra reação, ela atirou uma rajada de flechas nas mais diversas regiões.

Se a velocidade dele servia de alguma coisa, aquilo não se confirmava contra Ashe. Cada flechada que ela acertava deixava-o mais lento. O gelo reduzia os seus movimentos pouco a pouco.

– Alguém como você lutou ao lado de Avarosa? – Ouvir aquilo foi a gota d'água. Seu corpo estava coberto de flechas de gelo. O sangue saia, mas ele estava alheio àquilo. Uma chama tomava conta de seu corpo, expulsando as flechas enquanto a pele se fechava e estancava os sangramentos. Seus olhos viravam animalescos e perdiam o foco.

Ele pulou em cima de Ashe com uma velocidade estonteante, a palma de sua mão aberta desferia um golpe, este aparado pelo arco gélido da arqueira. Ele tentou dar uma rasteira a fim de derrubá-la, ela simplesmente saltou enquanto retirava outra flecha da aljava que magicamente repunha as flechas na medida em que elas saíam. Em pleno ar ela conseguiu atirar a flecha no bárbaro que ainda terminava o seu movimento.

A reação dele, no entanto, estava muito melhor do que se ele não estivesse tomado pela fúria. Por dois centímetros, ele desviou da flecha, girando o corpo na direção contrária da arqueira que agora pousava no chão. Eles se olharam por uma fração de segundo. Marc investiu nela com o punho cerrado. Ashe puxou mais uma flecha, sorrindo em aprovação, enquanto ele urrava. O vencedor estava decidido.