Because of You
1 This burning fire in my heart
Notas iniciais


Yuri estava extremamente acostumado aos sons da floresta. Após tantos anos vivendo naquela clareira, em meio às árvores, por vezes frondosas, por vezes altas e imponentes subindo em direção às nuvens, com as folhagens densas de suas copas cobrindo partes do azul confortável de cima, Yuri já sabia como eram as músicas, os farfalhares e os ganidos que preenchiam a floresta.
Então reconheceu imediatamente os sons que contrastavam com todo o restante quando estes surgiram.
Estava encostado em sua cerejeira, os cabelos escorrendo confortavelmente ao redor de seu corpo enquanto ouvia os pássaros cantando quando um grunhido fraco se fez à distância. Yuri se levantou, franzindo a testa enquanto apoiava uma mão no tronco da árvore e analisava os arredores, sem, no entanto, encontrar nada ameaçador.
Era seu dever proteger a cerejeira, função esta que o youkai recebera desde o nascimento. Pela árvore nascera e por esta lutaria até seu último dia, muito embora nunca tivesse necessitado de agressividade para mantê-la bela e vivaz como sempre. Aquele som que escutara, no entanto, tão semelhante ao som de animais feridos e tão incomum na floresta, apenas o fazia imaginar que alguma coisa não estava certa e que talvez precisasse lutar para proteger a amada planta.
Assim, deu um passo à frente, depois outro, perscrutando os arredores em busca da fonte do som estranho, mas o silêncio se fez na floresta. Nem sequer os pássaros que ouvia cantar segundos antes ousavam pronunciar uma nota. E então, quando estava lentamente dando outro passo à frente, escutou um novo ganido, seguido de um som mais alto de algo pesado batendo contra o chão.
Alerta, Yuri saiu em disparada em direção ao som. Teria um animal sido ferido pelo que quer que estivesse invadindo sua floresta? Ou talvez uma árvore baixa tivesse sido cortada? Não sabia ao certo, mas a direção da qual viera o som foi seguida até que uma mancha avermelhada sobre uma floresta verde e castanha chamou sua atenção, fazendo o youkai frear em seus passos e direcionar o olhar ao chão, perto de um tronco largo.
Caído sobre a terra escura, em meio a algumas folhas e uma grama rala, um corpo se estendia. Pele pálida, pêlos prateados e tecidos cobrindo seu corpo de modo a abrigá-lo de ameaças externas... Só havia duas criaturas que Yuri conhecia que utilizavam tecidos de tal forma, e aquele definitivamente não era um youkai.
Humano.
Yuri já havia visto humanos no passado, pequenos, frágeis e sem conhecimento do que de fato a floresta abrigava. Humanos não conseguiam enxergar youkais, por isso nunca tinha tido qualquer contato com eles, mas nas poucas vezes em que os vira, pareciam melhores do que nas histórias que sempre escutara vindas de outros youkais. Cruéis, egoístas, inconsequentes, no entanto detentores de maravilhas e alegrias que nenhuma outra espécie conhecia, esses eram os humanos.
Aquele humano, talvez cruel, talvez bondoso, parecia apenas frágil caído sobre o tapete escuro e verde do chão da floresta. Seus olhos estavam fechados e ele resfolegava, criando uma poça cada vez maior de vermelho em suas roupas cinzentas e no chão da floresta.
Yuri engoliu em seco, ouvindo-o gemer de dor, parecendo indefeso e sozinho. Deu um passo para trás. Não era uma ameaça, então não tinha porque ficar ali por mais um minuto sequer, mas mal virou o corpo quando uma lamúria preencheu o vazio da floresta novamente:
— Yuri... — chamou uma voz que ele não conhecia.
Yuri estremeceu, virando-se para trás para vê-lo, o rosto contorcido em sofrimento, os olhos firmemente cerrados. Conseguia sentir o coração acelerado dentro do peito, martelando e retumbando em seus ouvidos cobertos pelo silêncio após o chamado do desconhecido. Ele estava morrendo e nada obrigava o youkai a ajudá-lo, mas nada o obrigava a deixá-lo também. Não havia quaisquer juramentos e, embora fosse uma atitude certamente repudiada por outros youkais, Yuri poderia curá-lo. Cuidar dele por alguns dias, até que ele estivesse melhor... Não poderia ser tão ruim.
Em seu coração, sabia que não queria deixá-lo morrer, mas não entendia exatamente o porquê.
Então voltou, um passo, depois outro, até se abaixar ao lado do homem ferido e puxá-lo de pé junto a si, um braço sobre seus ombros, tentando arrastar o corpo mais alto consigo de volta para a clareira. Quando retornou, apoiou o desconhecido no tronco de sua cerejeira, tentando avaliar como abrir aquelas roupas esquisitas. Demorou alguns instantes, tateando no peito dele, para entender como funcionava o mecanismo de fechar, e então abriu o casaco cinzento coberto de escarlate, puxando para longe. Quase praguejou quando notou outra peça de roupa por baixo, mas repetiu o processo até ter acesso ao torso nu do rapaz.
Havia uma ferida em sua pele, um corte pequeno e profundo do qual o sangue escapava como uma fonte infinita. Procurou em sua manga por um pano limpo e o puxou para usá-lo para limpar a ferida e poder tratá-la depois, mas mal tocou ao redor do machucado e o desconhecido grunhiu, inclinando a cabeça para a esquerda. Yuri levantou o olhar, assustado, vendo como os cabelos pálidos grudavam na pele suada do rosto do rapaz, cujas sobrancelhas subiam em dor e os lábios se crispavam minimamente, como se estivesse pronto para soltar outro suspiro sôfrego a qualquer momento.
Conforme continuou a limpar a ferida, forçou-se a ignorar os tremores e reclamações do desconhecido. Então procurou um unguento que sempre preparava para cuidar dos animais dos arredores quando eles se machucavam e aplicou na ferida, embalando esta com alguns panos brancos para impedir que sofresse ações externas indesejadas. Assim que terminou, deitou o desconhecido sobre a grama macia ao redor de sua cerejeira, limpando o suor de seu rosto com delicadeza, então escolhendo um de seus kimonos para cobri-lo. Sabia que humanos eram frágeis, então talvez ele passasse frio se não o cobrisse? Tinha medo de descobrir.
Esperava que ele acordasse no dia seguinte, já que seu unguento sempre funcionava rapidamente, então descansou encostado à cerejeira, como de praxe, sabendo que acordaria quando o humano fizesse algum movimento brusco.
Mas ele não despertou no dia seguinte.
Nem no dia que veio após esse, ou o outro.
Yuri desembalou seu ferimento, aplicando mais remédio, limpando o sangue que surgia novamente a cada noite, mas não parecia funcionar. Após a terceira noite juntos, começou a notar o quanto o corpo daquele homem estava ficando quente, a pele suando cada vez mais que o normal, o rosto avermelhado. Não entendia de medicina humana, mas não parecia um bom sinal. Já havia cuidado de alguns animais que apresentaram tais sintomas no passado, e nunca reagiam bem ao remédio, sempre falecendo em poucos dias. Aquele humano também faleceria, sem que Yuri pudesse fazer nada por ele, pensou, enquanto ele gemia em seu sono, virava o rosto de um lado para o outro e, embora dormindo havia dias, parecia cada vez mais e mais cansado.
Foi em sua quarta noite juntos que Yuri, conformado que seu remédio não mais o salvaria e ouvindo o farfalhar das folhas no alto de sua cerejeira, sendo movidas pelo vento noturno, escutou as palavras do desconhecido outra vez.
Lânguidas, sôfregas, trêmulas, como um suspiro no leito de morte, elas saíram:
— Me perdoa, Yuri...
Yuri estremeceu em seu lugar contra a árvore, olhando o rapaz caído no chão, cuja expressão denotava claramente o quanto sofria. Seus olhos estavam abertos, o que o fez prender a respiração, admirando os orbes em algum tom que provavelmente se assemelhava a azul, mas não conseguia ter certeza no escuro da noite.
As pupilas se fixavam no céu, como se nele vissem algo, ou alguém, e tremulavam como se analisassem o que quer que estivessem enxergando. Ele se contorceu, parecendo querer se levantar, mas então grunhiu em dor e fechou os olhos apertados, o semblante contraído. Yuri estendeu uma mão em sua direção inconscientemente. Não sabia o que queria, mas não desejava vê-lo daquele jeito, quase doía a forma como ele parecia sofrer.
Uma lágrima escapou daqueles olhos cerrados e escorreu pela pele pálida até cair no chão da floresta, sendo seguida por outra e mais uma enquanto o humano murmurava desculpas baixinho. Incerto, Yuri continuou a avançar até tocar a lateral de seu rosto com as pontas dos dedos, mas ele não reagiu, perdido em seu próprio pranto. A pele estava em brasa, atiçando os instintos do moreno como um incêndio.
Ele estava delirando e estava morrendo.
E Yuri não podia fazer nada.
Levantou-se, frustrado, dando a volta na árvore e cobrindo os ouvidos com as mãos. Ele estava morrendo e Yuri não podia fazer nada, não tanto quanto gostaria. Era um absurdo. Não devia se preocupar com um humano, não tinha porque, mas Yuri... Yuri simplesmente não queria deixá-lo morrer. Levantou os olhos para sua amada cerejeira, vendo as folhas se movendo com o vento em direção ao norte.
Ao norte, onde ele se lembrou de repente que morava alguém que poderia salvar aquele humano.
Yuri estava se movendo antes que pudesse pensar a respeito. Seus passos trôpegos o guiaram em direção ao lar de um youkai que vira apenas um par de vezes em toda sua vida na floresta, alguém que ele sabia que entendia de humanos, e quanto mais perto foi chegando, mais rápido batia seu coração dentro do peito.
As árvores foram ficando mais baixas e, com sua altura menor, a floresta parecia cada vez mais densa. Arbustos e moitas decoravam o caminho, obrigando Yuri a diminuir seu passo para não tropeçar e cair, e a luz da lua foi ficando cada vez mais rala, infiltrando-se por entre as copas das árvores.
Sabia que havia chegado quando uma nova fonte de luz iluminou seu caminho. Dourada e cálida, no meio de uma pequena clareira, havia uma fogueira e, sobre esta, um pote de metal estava pendurado. O som que fazia era de líquido borbulhando, enquanto o aroma era indecifrável para Yuri. Havia uma cabana em um dos lados da clareira, pequena e modesta, mas com um trabalho preciso que só um youkai seria capaz de realizar, e perto do fogo, o dono do local estava sentado, o corpo coberto por uma capa felpuda de algum tom escuro, cabelos negros escapando ralos do capuz, o semblante obscurecido no interior da vestimenta.
O youkai levantou a cabeça quando ele parou na entrada da clareira, então inclinou o corpo de leve, como se o avaliasse.
— Yuri... — disse ele, parecendo refletir para si mesmo, a voz profunda e grossa causando arrepios em Yuri. — Vejo que veio a mim depois de tanto tempo. E me parece com pressa. Aceitaria compartilhar uma bebida? — ofereceu, gesticulando com braços longos em direção ao pote sobre o fogo, do qual saía fumaça.
Yuri rapidamente negou com a cabeça, os cabelos longos esvoaçando em seus ombros.
— Eu preciso de ajuda. Encontrei um humano, mas ele está machucado e eu não consigo cuidar dele.
— Oh — suspirou o youkai, inclinando o corpo ereto e parecendo pensar por um momento. — E esse humano, que tipo de sintomas ele tem?
— Está com um machucado no abdômen que não se fecha, a pele quente, não pára de suar... Estava delirando — explicou, vendo a figura levantar um braço e tocar o próprio rosto obscurecido pelo capuz, como se apertasse o queixo em reflexão.
— Ele estava febril e machucado? Acho que sei o que fazer — disse ele por fim, fazendo Yuri suspirar em alívio. O youkai se levantou, seguindo em passos lentos e ritmados até sua cabana, o corpo curvado para frente. Adentrou-a e Yuri ouviu alguns sons de potes sendo abertos e tecidos sendo revirados, como se ele procurasse por algo. Queria se aproximar, mas temia que chegar muito perto poderia causar problemas. Nunca havia conhecido muito sobre aquele youkai, então se sentia inseguro perto dele.
O youkai surgiu da porta de sua cabana com dois frascos em mãos cobertas pelas mangas de seu casaco. Os braços desproporcionalmente mais longos que o tronco esticaram ambos os frascos para Yuri, que os capturou um em cada mão. Assim que estava livre, a manga direita do youkai bateu contra o frasco na palma esquerda de Yuri.
— Esse você passa sobre o machucado. Apenas cubra o machucado e vai ser suficiente, ele é forte. E esse — bateu no frasco remanescente — você dá na boca dele, um dedo do frasco por dia. Ele deve melhorar em breve com isso. Não deixe de usar o seu remédio também.
— Obrigado — agradeceu Yuri, inclinando o corpo para frente e se virando para partir, não sem antes sentir uma mão segurando seu ombro, o que o fez estremecer. Virou o corpo de volta, sentindo a manga escorregando para longe de suas vestes enquanto o youkai inclinava a cabeça para a esquerda.
— Tem um preço, Yuri — informou ele, a voz gutural, mas não irritada, como Yuri esperaria. Assentiu uma vez, preparando-se para o que seria requisitado. — Eu quero um laço. Seu laço com esse humano.
— Um laço? — ecoou Yuri, levantando as sobrancelhas sob sua máscara. Poderia esperar sacrifícios, objetos raros, mas um laço? Aquele youkai realmente era conhecido por suas preferências e seus pedidos peculiares, mas ele e o humano sequer tinham um laço que pudesse oferecer a ele. — Certo, você pode ter nosso laço.
— Tem certeza disso? — insistiu ele, inclinando o corpo ligeiramente para frente, a voz inundada com algo que, se Yuri não conhecesse o suficiente sobre youkais, poderia confundir com pena. Por que ele teria pena de Yuri, ou perguntaria se ele tinha certeza a respeito de dar algo que nunca nem sequer havia tido em primeiro lugar? — Você tem certeza disso, Yuri Katsuki?
— Sim — aquiesceu, vendo como ele retomava a postura original, parecendo suspirar para si mesmo.
— Pois bem — concordou, virando-se e voltando a sua fogueira. — Pode ir cuidar de seu humano agora, Yuri.
Assentiu para o youkai, muito embora ele não estivesse virado para vê-lo, e voltou pelo caminho do qual viera, o vento cortando seus cabelos enquanto se apressava para o rapaz que deixara sobre as folhagens de sua cerejeira, tão indefeso e frágil quanto qualquer uma das pequeníssimas flores nos galhos da árvore.
Quando Yuri o alcançou, sem fôlego e sentindo sinais físicos do cansaço de sua curta jornada, o humano estava deitado exatamente onde o deixara, embora sua coberta estivesse amassada ao redor das pernas, descobrindo seu abdômen. Provavelmente ele se chacoalhara durante a ausência de Yuri, bagunçando as roupas e deixando o tecido branco exposto à luz da lua, agora embebido em vermelho.
Prendendo a respiração enquanto o via resfolegando no chão, Yuri se agachou e abriu um dos frascos. Puxou a cabeça do desconhecido para seu colo, deixando-a mais alta que o restante do corpo, e despejou um pouco do líquido em seus lábios entreabertos, observando um filete escorrendo pelo canto da boca do humano enquanto o resto sumia sobre sua língua. Os cabelos prateados escorregaram por seus dedos conforme acariciou de leve a cabeça do desconhecido, a fim de acalmá-lo enquanto ele tossia e se contorcia, sentindo a pele pálida e quente contra os dedos.
Não demorou mais do que vinte minutos para que o humano se acalmasse sob seu toque, a respiração se tornando ritmada e pacífica, enquanto a mancha vermelha parava de crescer em seu ventre. Suspirando em alívio, Yuri escorregou a cabeça dele para fora de seu colo, deixando a franja macia ir de seus dedos enquanto ia até a lateral dele e desfazia os nós que mantinham o pano branco apertado sobre a pele de alabastro. Limpou o sangue fresco e aplicou seu unguento, pegando em seguida o outro frasco que recebera e passando uma dose generosa do material viscoso branco sobre o machucado, até que seus dedos estivessem limpos do mesmo.
Cobriu tudo e arrumou seu kimono outra vez sobre o humano, então observou melhor seu semblante sob a luz noturna. Seu nariz era longo e afilado, as sobrancelhas finas e do mesmo tom que os cabelos quase desaparecendo na tez de marfim. As madeixas lisas estavam levemente sujas depois de dias deitado no chão da floresta sem lavá-las, mas agora não havia mais vincos em sua testa, nem tensão em seus lábios rosados e relaxados. Parecia em paz pela primeira vez em dias, como se não sentisse mais quaisquer dores.
Suspirando em alívio, Yuri se encostou ao tronco de sua cerejeira e adormeceu.
No dia seguinte, foi acordado com sons anormais à floresta novamente.
Ao abrir os olhos, cansado, sentindo a luz do sol se infiltrando pelas copas das árvores e iluminando com variadas cores as flores de sua cerejeira, Yuri observou o humano sentado, parecendo avaliar seu torso com surpresa e falando sozinho:
— Mas como isso aconteceu? — ele perguntou a si mesmo, tocando cautelosamente o tecido branco amarrado com firmeza ao redor do abdômen, como se tentasse entender como fora parar lá ao saber a textura. Seus grandes olhos ciano brilhavam como vidro à nova luz, focados e não mais sem vida em meio aos delírios da noite anterior. Então ele levantou a cabeça, permitindo que a luz acertasse suas feições e denotasse a confusão em seu rosto enquanto observava o topo da cerejeira. — Sei que é o Japão, mas não me lembro de vir aqui. Esse lugar... Devia ter flores florescendo nessa época do ano? — disse ele, parecendo reflexivo, como se esse tipo de informação fosse permitir que se localizasse geograficamente.
Em frente a sua confusão, Yuri não conseguiu conter o riso que surgiu em seus lábios antes que ele saísse, inundando a clareira e fazendo o humano estremecer e olhar ao redor assustado.
Ah, sim, humanos não podiam enxergar youkais, lembrou-se, negando com a cabeça para si mesmo.
— É uma cerejeira, ela floresce na primavera — explicou, percebendo como o humano parava de escrutinar os arredores e virava toda a atenção na direção em que Yuri estava. — Eu cuido dela e também estou cuidando de você, já que você se machucou alguns dias atrás. Qual é o seu nome, humano?
— Você... — começou o homem, parecendo levemente confuso e nervoso enquanto franzia a testa, os olhos subindo e descendo pelo ponto onde Yuri estava, fixando-se em um local próximo ao ombro do youkai. — Você é...
— Eu sou um youkai — completou, esperando alguma grande reação vinda do humano, mas ele simplesmente levantou as sobrancelhas. Em algum tipo de situação diferente, parecia tentado a negar, mas já que não enxergava Yuri, pareceu tomar sua palavra como verdade e soltar um simples:
— Uau! — Pôs uma mão sobre a testa, balançando a cabeça e sorrindo para si mesmo. — Eu consegui ser salvo por um youkai enquanto estava numa guerra contra o Japão? Impressionante. Eles disseram que os youkais iam nos devorar, isso sim.
— Dependendo do youkai, talvez fosse devorá-lo sim — concordou Yuri, rindo quando o humano arregalou os olhos, parecendo chocado com sua afirmação. — Tem alguns que adoram comer humanos. Mas eu não sou um desses. Eu gosto de ficar em paz na floresta e cuidar da minha cerejeira, então você apareceu e eu quis cuidar de você também. Não tem porque te machucar se não me fez nada.
— Eu me chamo Victor — interrompeu o platinado, balançando a franja para longe do olho e lançando um sorriso para o ombro de Yuri. — Victor Nikiforov. Não precisa me chamar de humano. E qual seria o nome do meu salvador?
— Yuri — respondeu o youkai, puxando seus longos cabelos para frente e começando a alisá-los enquanto assistia ao humano se deitando de novo sobre o chão da clareira, parecendo cansado de ficar sentado. — Yuri Katsuki.
— Yuri? — repetiu ele, arregalando os olhos para a direção onde Yuri estava, como se o nome o surpreendesse. Antes que o youkai pudesse questioná-lo, no entanto, ele limpou a garganta e recobrou a compostura, prosseguindo: — Yuri Katsuki, onde nós estamos?
— Em uma floresta no Japão. — Essa resposta fez Victor Nikiforov soltar uma risada seca e revirar os olhos.
— Isso eu sei — informou ele, puxando a lateral de sua roupa para cima, parecendo avaliar o estrago que as manchas vinho escurecidas haviam deixado nelas. — Oh, realmente vou ter que conseguir um uniforme novo agora — resmungou ele, deixando o tecido cinza e o branco caírem de volta em seu lugar e suspirando para si mesmo, colocando um braço sob a cabeça para servir de apoio.
— Me diz... — começou Yuri, enquanto mexia em seus cabelos, vendo como o rapaz virava o rosto em sua direção para indicar que o escutava. — Exatamente quem é você e o que está fazendo no Japão?
— Eu? — ecoou Victor, a franja escorrendo sobre o olho esquerdo conforme olhava para cima, pensativo. — Você realmente não sabe nada sobre o mundo dos humanos, não é? Eu sou um soldado russo, estamos em guerra contra o Japão.
— Guerra? — repetiu Yuri, inclinando-se para frente enquanto a palavra pesava em seus lábios. Já ouvira a respeito disso no passado, que os humanos às vezes se uniam para lutar, como uma alcateia de lobos, no entanto, sua luta era contínua ao longo de muito tempo. Esse tipo de luta longa era chamado de guerra, e pelo que sabia, só terminava em dor e mais dor.
— Sim — concordou o estrangeiro, a voz amarga, suspirando logo em seguida. — Eu fui convocado para a guerra, mesmo sem eu querer.
— Você não queria lutar pelos seus irmãos? — perguntou o youkai, inclinando a cabeça para o lado em confusão. Como os animais lutavam juntos, os humanos também deveriam, mas...
— Meus irmãos? Não — negou Victor, rindo, mas parecendo triste ao invés de feliz. — A guerra acontecer é algo fora do nosso poder, mas mesmo se não concordamos com as razões, nós somos obrigados a participar. Eu tive que deixar minha família e ver coisas horríveis, Yuri Katsuki. Pessoas sem partes do corpo, chorando, tendo de dar a notícia da morte de irmãos, de pais ou de filhos. Isso não é algo do que eu ia querer participar. Eu queria estar em casa, e não lá. Nem aqui — completou cautelosamente, parecendo achar que a afirmação desanimaria Yuri. — Mas sou grato por ter sido salvo. Não sei como ou porque, mas agradeço. Devo minha vida a você, Yuri, como poderia retribuir?
— Retribuir? Vocês humanos realmente tem uns conceitos estranhos — comentou o moreno, engatinhando na direção do rapaz e puxando seu queixo até que os olhos estivessem sobre o próprio rosto, o mais próximo que conseguiria, afinal, seria difícil fazê-lo olhá-lo nos olhos. — Você não precisa fazer nada, Victor Nikiforov. Só fique melhor e volte pra casa.
Victor subiu uma de suas mãos até a de Yuri, apertando a pele do japonês com seus dedos longos e parecendo maravilhado, os orbes ciano grandes sobre o rosto do youkai. Ele assentiu uma vez com a cabeça, provando do toque do salvador enquanto Yuri sentia o rosto corar. Provavelmente não devia ter tomado a dianteira em se aproximar do humano daquela forma, mas o fato de não olhá-lo nos olhos o estava frustrando profundamente.
E assim seguiram, conversando sobre banalidades, sobre a vida de Victor fora do Japão, no país chamado Rússia, onde o inverno era ainda mais rigoroso, onde as pessoas patinavam em lagos congelados, onde todas as roupas eram fechadas com aquele sistema chamado botões, que Yuri demorou a entender até que Victor demonstrasse com as próprias vestes. A Rússia parecia um bom lugar para morar, que fazia Victor feliz, assim como a floresta fazia Yuri feliz. Era possível notar pelos trejeitos do platinado, o modo como seu olhar penetrante se tornava vago quando falava da terra natal, então hostil quando algo remetia à guerra.
Victor parecia estar no lugar errado ali, ao lado de Yuri.
Não demorou muito tempo para que o platinado ficasse bom o suficiente para se sentar e andar um pouco, então Yuri começou a levá-lo ao rio para se banhar e lavar as roupas, que já estavam sujas havia dias. No começo teve de ficar próximo de Victor, agradecendo aos céus que este não pudesse vê-lo, assim jamais notaria o quanto estava corado e envergonhado do que faziam, no entanto, isso não pareceu impedir o russo de notar.
— Yuri — chamou ele uma das vezes, relaxado encostado à borda do rio, a voz melódica. — Por que não vem aqui pra perto?
Yuri, que também estava imerso na água, arquejou antes de nadar na direção do russo cautelosamente.
— Precisa de algo? — perguntou, logo em seguida ouvindo o rapaz rir.
— Preciso de um motivo pra te pedir pra ficar aqui perto? — perguntou ele alegremente, levantando as sobrancelhas para o youkai logo em seguida. Parecia estar ficando bom em reconhecer a altura de Yuri e, consequentemente, onde se posicionava seu rosto, com o passar do tempo. — Aliás, por que a sua voz está tremendo? Por acaso você está com vergonha?
— Eu, hã, não! — respondeu, mas sabia que a hesitação momentânea o delatara. Tentou consertar a situação enquanto Victor soltava uma gargalhada satisfeita, os cabelos úmidos brilhando ao redor de seu rosto. Ele parecia muito diferente agora que estava limpo e bem alimentado, o rosto claro e vivaz, com um brilho saudável e natural que estava em falta quando estava branco como a neve devido à perda de sangue.
Yuri gostava disso, dessa natureza alegre de Victor Nikiforov, que estava preenchendo a floresta com um novo som de risos, quando antes tudo o que Yuri tinha eram os sons dos animais. Era, de certa forma, reconfortante, fazia com que ele sentisse um calor no peito sempre que olhava o humano em seu lar.
Com o tempo os dois também estavam ficando mais próximos. Yuri trocava os panos do ferimento de Victor, repassava os medicamentos, Victor contava histórias de sua terra natal, os dois discutiam sobre o que iriam jantar naquele dia. A distância entre o leito do platinado e o youkai encostado na árvore diminuía mais a cada noite — e Yuri notava, com uma vontade boba de sorrir, cada metro que ficavam mais perto um do outro, ao acordar de manhã. Victor não podia vê-lo, mas ele parecia saber quando o moreno estava sorrindo ou quando estava irritado, ou mesmo, de modo surpreendente, quando estava pensativo.
— Qual é o problema? — o russo perguntou uma das noites, quando a fogueira feita para preparar seu jantar crepitava ao lado de seu corpo deitado na macia cama de folhas que a floresta oferecia.
Yuri estremeceu, gaguejando coisas ininteligíveis enquanto o rapaz simplesmente encarava as labaredas com o olhar distraído. Era como se soubesse que olhar intensamente para um ponto que não fossem os olhos do youkai apenas o deixaria mais desconfortável. Victor parecia saber demais sobre ele em um espaço de tempo tão curto.
— Não é nada — respondeu Yuri, dando de ombros e buscando o peixe que deixara sobre o fogo para assar. Remexeu no graveto no qual o peixe estava preso enquanto Victor simplesmente sorria.
— Eu sei que você quer perguntar alguma coisa, Yuri. O que quer saber? — prosseguiu ele, ignorando a negativa do moreno. Yuri virou o rosto para vê-lo, o corpo relaxado, as roupas já sem mais manchas rubras agora que o machucado cicatrizava mais a cada dia. Tinha uma curiosidade, sim, uma que não tivera coragem de perguntar ainda. — Você pode perguntar o que quiser, você sabe disso, certo?
— Eu... — começou, abaixando os olhos para o rosto do estrangeiro. De certa forma, o fato de não ser visto era vantajoso nesses momentos, porque poderia fazer algumas coisas sem ser percebido, como avaliar a expressão do humano enquanto falava. Embora a maior parte do tempo Yuri se pegasse desejando que Victor pudesse vê-lo, pudesse olhá-lo nos olhos e talvez... Não. — Eu só estava curioso. Quando você estava com febre, você chegou a delirar um pouco, e disse algumas coisas que me deixaram intrigado.
— Oh — suspirou Victor, seus orbes ciano brilhando em curiosidade. — E o que eu disse?
— Você chamou alguém... Pediu a alguém chamado Yuri pra te perdoar — explicou, notando o modo como as sobrancelhas de Victor se abaixaram novamente, a expressão se suavizando em uma quase triste enquanto o olhar se tornava distante.
— Ah, sim. Isso é... Yuri é o meu irmão mais novo — contou ele, a voz baixa sem seu toque usual de alegria boba. — Eu o deixei na Rússia para ir para a guerra. Ele também teria sido convocado se já tivesse idade para participar.
— Idade para participar? — repetiu o japonês.
— Sim — concordou Victor, acenando com a cabeça. — Ele ainda é muito jovem. Agora ele deve estar trabalhando ou fazendo alguma outra coisa pra conseguir comida.
— Ah... — Yuri desceu os olhos para seu peixe, sentindo algo confuso dentro do peito com as palavras e o tom levemente melancólico deixado no ar. — Então você devia voltar logo pra cuidar dele.
— Cuidar dele? — Isso pareceu animar Victor novamente, já que ele soltou uma risada divertida, chamando a atenção do moreno outra vez. — Se eu aparecer lá agora aposto que ele vai é me bater por deixá-lo pensando que eu morri. Ele é difícil, o Yuri, o oposto de você. Ele faz as coisas do jeito como quer e não aceita ser tratado como fraco, enquanto você me pergunta o que eu preciso e é cuidadoso. Vocês são completamente diferentes. Não sei nem como têm o mesmo nome.
Isso fez Yuri sorrir.
— Isso também queria saber — comentou, puxando o graveto com o peixe mais tempo no fogo e oferecendo ao platinado, que se sentou devagar, aceitando o espeto. Seus dedos se tocaram por alguns instantes enquanto o faziam, passando uma corrente elétrica entre suas peles quentes que fez Yuri arquejar antes de puxar a mão de volta e apoiá-la no colo nervosamente. Sentia as bochechas esquentando enquanto Victor simplesmente sorria, os olhos estreitos e brilhantes, um par de piscinas azuis esverdeadas, os lábios gentis com as pontas para cima, cheio de carisma, como habitualmente.
Yuri não conhecia muitos humanos, mas não precisava pensar muito a respeito para concluir que Victor era uma beldade. Havia algo no jeito como ele falava, se movia, mesmo sua risada tinha certa graciosidade, como se fosse frágil, mas com uma beleza efêmera que dava vontade de tocar. Como uma flor, como uma das flores de sua cerejeira, tão linda e preciosa.
Os sorrisos de Victor criavam algo dentro de si queimando, um calor gostoso que o fazia sentir arrepios às vezes. Uma dor boa, diferente de tudo o que já experimentara em sua vida.
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