Because of You

2 It was meant for you all along


Notas iniciais
Oi, pessoal! Depois de meses, cá estou eu postando a segunda parte da fanfic, que já estava escrita antes mesmo de eu postar a primeira. Deplorável, eu sei kkkkkkkkkkkkk. Vou me defender dizendo que esses últimos meses foram difíceis pra mim de diversas formas. Minha vida emocional deu várias guinadas e atualmente eu ando ocupada até o pescoço com obrigações, então está cada vez mais difícil de escrever. Postar, no entanto, era pra ser fácil, e quando percebi o tanto de tempo que fazia desde que eu tinha postado a primeira parte, fiquei com vontade de postar a última. Espero que alguém se lembre dela ainda e que se divirta :) Boa leitura! (Título: Por causa de você - Foi feito para ser seu esse tempo todo)

Yuri não conhecia muitos humanos, mas não precisava pensar muito a respeito para concluir que Victor era uma beldade. Havia algo no jeito como ele falava, se movia, mesmo sua risada tinha certa graciosidade, como se fosse frágil, mas com uma beleza efêmera que dava vontade de tocar. Como uma flor, como uma das flores de sua cerejeira, tão linda e preciosa.

Os sorrisos de Victor criavam algo dentro de si queimando, um calor gostoso que o fazia sentir arrepios às vezes. Uma dor boa, diferente de tudo o que já experimentara em sua vida.

O momento em que sentiu esse calor mais forte do que todos os outros, no entanto, foi em uma de suas tardes juntos. O machucado de Victor já estava quase fechado por completo, mas Yuri continuava a aplicar os medicamentos assim mesmo, para prevenir que tivesse algum retrocesso. Assim, Victor havia desabotoado suas roupas, deixando o torso nu, e Yuri aplicara os remédios como sempre, mergulhando os dedos em seus recipientes e então espalhando sobre a ferida com cuidado para não machucá-lo. Agora que já estava fechando, seus dedos tocavam mais pele do que machucado, então sempre esbarrava em algum ponto que não deveria ao aplicar os remédios, o que arrancava risinhos do humano.

Yuri, nervoso e ansioso com o contato, gaguejava algo para ele e então terminava de passar o remédio, amarrando seu pano branco por cima logo depois. Naquele dia, estava terminando de atá-lo com mãos trêmulas quando os dedos de Victor surgiram repentinamente sobre os seus.

Deu um pulo no lugar, subindo os olhos assustados até o rosto do platinado, do qual a diversão desaparecera quando momentos antes ele parecia rir dos toques do youkai. Aqueles orbes ciano não estavam sobre os seus, como sempre, mas a intensidade com a qual olhavam para o ponto mais próximo possível de seus olhos o fez sentir arrepios. Era como se Victor construísse coragem atrás da franja prateada, certeiro como um predador, e ele sabia o que queria.

— Quero conhecer o meu salvador — ele disse, a voz aveludada, e Yuri arregalou os olhos em choque. — Yuri, eu quero conhecer você.

— Me conhecer? — reiterou, incerto, sentindo a pressão confortável dos dedos do humano contra os próprios. — Nós já nos conhecemos, Victor.

— Não. Eu quero conhecer como você é — explicou ele, o olhar ainda intenso enquanto suas mãos escorregavam das de Yuri, subindo por seus pulsos finos até alcançarem as mangas de seu traje. — Como você é, Yuri. Quem é você.

— Ah... — suspirou o moreno, sentindo os dedos longos apertando suas mangas mais para cima, até seus cotovelos, então seus ombros, enquanto Victor cerrava os olhos, como se o imaginasse por trás das pálpebras. Assustado, Yuri o sentiu apalpando sua clavícula, então arquejou quando as mãos desceram por seu peito com suavidade. Victor fez todo o caminho até seus quadris, então subiu novamente, deixando uma trilha quente por seu pescoço e seu queixo, até que os dedos bateram em sua máscara.

— Yuri? — chamou ele, franzindo a testa. — Você pode...

— Ah, sim — anuiu, subindo as mãos até a máscara e puxando para fora do rosto com certo receio.

Raras eram as vezes em que retirava sua máscara. Era uma parte de si, tanto quanto sua missão eterna de cuidar de sua cerejeira, então era estranho deixar que outros o vissem com a face nua, no entanto, quaisquer receios sumiram de sua mente quando Victor tocou suas bochechas com delicadeza, acarinhando a pele que sentia mais quente a cada instante.

Prendeu a respiração enquanto sentia os dedos subindo e descendo pelas maçãs do rosto antes de optarem por se aventurar em seus lábios. O polegar do russo acariciou sua boca com suavidade, como se explorasse com cuidado uma peça rara, como se Yuri fosse de vidro e pudesse se quebrar, quando era Victor quem era frágil ali, e não o youkai.

Havia tanto cuidado em suas mãos quando subiram para sua testa, apertando suas sobrancelhas e então indo para os olhos, que Yuri rapidamente fechou enquanto o sentia testar as pálpebras com os polegares. Um dedo escorregou por seu nariz até a pontinha, então Victor soltou um suspiro satisfeito.

— Yuri — pediu ele, apoiando os polegares logo abaixo de seus olhos, sobre os cílios inferiores. — Yuri, abra os olhos.

Yuri os abriu, então, não conseguindo evitar o suspiro surpreso que deixou seus lábios quando notou os orbes ciano de Victor sobre os seus, como havia desejado que fizesse todos aqueles dias. A intensidade, o brilho, a atenção toda voltada para si, como se pertencesse a Yuri pela primeira vez desde que haviam se conhecido.

Pertencer era algo que não tinha o direito de pensar, no entanto, não conseguiu se impedir de repetir isso em sua mente. Como se Victor pudesse pertencer a ele quando havia todo um mundo que não conhecia. Como se isso não passasse de um momento em toda uma eternidade, algo que não devia ter significado algum.

Quando Victor se inclinou para frente, a respiração batendo quente contra seu rosto, e fechou os olhos, tomando seus lábios devagar, Yuri não conseguiu se impedir de corresponder.

Frágil e delicado, como todos os toques trocados até aquele momento. Como se nenhum dos dois soubesse o que estava fazendo, mas apenas seguindo o desejo indecifrável que os prendia juntos.

Foi extremamente curto, mais do que deveria, mas o calor que deixou quando se separaram, remanescente sobre os lábios anteriormente intocados de Yuri, o fez suspirar ao fim do beijo. Victor ficou a alguns centímetros de si, os cílios cheios e alvos tocando as bochechas, como se também estivesse aproveitando os resquícios do toque íntimo.

Provavelmente não deviam estar fazendo isso. Humanos e youkais não deviam ficar juntos, simplesmente não era normal ou aconselhável. Não devia ficar contente com o calor dentro do peito que se arrastava por todos os lugares em que haviam se tocado, pedindo que desse mais ao próprio desejo.

— Yuri... — sussurrou Victor, a voz suave e baixa, os olhos ainda fechados. — Yuri, eu queria poder te ver. Estou imaginando que você gostou, posso imaginar isso?

Soltou um riso baixo, inclinando o corpo e apoiando o rosto sobre o ombro do humano.

— Me imagine rindo de felicidade.

— Yuri... — chamou ele novamente, parecendo se deliciar com as sílabas de seu nome ao alongá-lo desnecessariamente. Braços rodearam seus ombros e uma mão apertou sua cabeça contra Victor enquanto ele falava: — Quem pode te ver? Quem fica com você e pode te ver quando eu não posso, Yuri?

— Ninguém — respondeu, tentando conter o tremor em sua voz. Eram muitas emoções e não sabia ao certo como lidar com elas. — Ninguém fica comigo, porque eu cuido da cerejeira sozinho. Para sempre.

— Para sempre? — repetiu Victor, o tom entristecido enquanto acarinhava os cabelos do moreno.

— Para sempre.

Depois daquilo, eles não se beijaram mais, mas o contato ficou bem mais próximo do que outrora fora. Podiam se sentar ao lado um do outro, tocar as mãos ou mesmo se abraçar, mas cada toque era acompanhado de um ar melancólico que os impedia de criar algo mais.

Poucos dias se passaram e o ferimento de Victor estava curado e, com sua cura, a despedida veio. Era como uma sombra que pairara sobre a relação dos dois desde o momento em que Yuri pusera os olhos sobre o humano caído em meio à relva. Naquele dia, tempos antes, ele nem queria se aproximar ou ajudar o humano, mas agora não queria deixar Victor ir.

Não podia ser assim, disse a si mesmo, quando Victor anunciou sua partida iminente. Com olhos cristalinos e sinceros, ele observara o fogo e completara:

— Preciso voltar para o meu irmão, Yuri.

E Yuri assentira, porque não podia prendê-lo e ambos sabiam disso.

Então na manhã de sua partida, caminharam até o rio, lavaram os rostos, pescaram algo para o café da manhã e prepararam seus peixes com um silêncio desconfortável a embalá-los. Victor comeu silenciosamente enquanto Yuri o admirava, percebendo algo estranho no estômago que se revirava. Era uma tensão que o fazia sentir vontade de contrair os dedos e apertar os dentes juntos com força, mas sabia que se agisse muito estranho Victor perceberia. Ele provavelmente já sabia de tudo, afinal de contas.

Quando terminaram de comer, ambos apoiando os gravetos com as espinhas dos peixes no chão da floresta, Victor se levantou e se espreguiçou, soltando alguns suspiros supostamente satisfeitos enquanto olhava ao redor e para a cerejeira ainda florida sobre os dois.

— Vou sentir falta disso aqui — disse ele, os olhos brilhantes e intensos, como se estivesse tentando marcar a vista na memória. — Quem sabe um dia não possa ver de novo.

— Talvez — anuiu Yuri, apenas porque seu coração pedia, porque ele e Victor sabiam muito bem que isso não aconteceria.

— Obrigado por cuidar de mim — prosseguiu o russo, acenando para o youkai. — Devo minha vida a você. E eu tenho algo pra você, Yuri.

— Victor — o japonês franziu a testa, negando com a cabeça. — Eu disse que você não tem que me pagar de volta por isso, não disse?

— Não é um pagamento — negou o platinado, puxando do interior de suas roupas um papel dobrado graciosamente. — Felizmente eu tinha alguns materiais comigo no dia em que fui atingido. Tinha escrito uma carta para o meu irmão, e essa é para você. Venha aqui, Yuri — chamou, gesticulando para que se aproximasse.

Confuso, o youkai andou em sua direção, pulando em surpresa quando o humano agarrou seu pulso e levantou, depositando a carta em sua mão e então fechando seus dedos ao redor desta e batendo neles um par de vezes, como se estivesse checando seu trabalho.

— Leia quando eu já estiver bem longe — aconselhou, levantando os olhos, um deles brilhante sob a franja, e sorrindo para o moreno, que arregalou os orbes confusamente.

— C-certo — concordou ele, sentindo o calor dos dedos de Victor se desfazendo enquanto este se afastava, inclinando a cabeça uma vez, então se virando e seguindo para longe.

— Agradeço por tudo, Yuri — disse ele de costas, os passos largos e rápidos. — Sentirei sua falta!

Yuri não conseguiu responder enquanto o via desaparecer entre os troncos, seus passos ainda audíveis contrastando com os sons da floresta e diminuindo cada vez mais, até que não havia mais barulho algum. Nenhum passo, nenhuma respiração, nenhuma voz aveludada. Como se Victor nunca tivesse estado lá.

O vazio durou poucos segundos, porque logo em seguida ele abaixou a atenção para a carta em sua mão e tentou abri-la nervosamente. O que teria Victor escrito? O que ele poderia querer dizer a Yuri depois de tudo aquilo? Precisava saber, precisava...

Quase gritou quando olhou aquelas letras que não sabia identificar. Virou e revirou o papel, mas não era japonês, não era nada que já tivesse visto. Não sabia ler aquilo, percebeu com desespero, os dedos trêmulos amassando o papel. A última mensagem de Victor, Yuri não conseguia lê-la! Ele...

O youkai, lembrou-se repentinamente. O youkai que dera a ele o remédio seria capaz de lê-la! Ele entendia de humanos, sabia que em algum momento teria tido contato com esse tipo de escrita. Talvez ele pudesse dizer a Yuri o que estava escrito!

Sem nem sequer pensar duas vezes, saiu em disparada na direção da clareira do youkai. O céu ainda estava claro, mas o ambiente foi escurecendo conforme as copas das árvores se tornavam mais e mais densas, até que Yuri se viu frente a frente com a fogueira da outra vez, um par de potes pendendo sobre o fogo enquanto o youkai mexia em um deles com seus braços longos. A cabeça encapuzada mal se virou quando o moreno parou resfolegando na entrada de sua clareira.

— Ah, Yuri — cumprimentou a voz profunda, parecendo indiferente. — Estava demorando para você vir me ver.

— Eu... — Deveria perguntar como ele sabia que iria voltar? Não, não era importante naquele momento. — O humano, ele foi embora e me deixou uma carta, mas eu não entendo a língua, será que você pod...

— Não — cortou ele, afastando a mão do fogo e inclinando o corpo na direção do moreno. — Eu sei ler, mas não posso, Yuri.

Confuso, Yuri negou com a cabeça.

— Por que não? — perguntou nervosamente. — Se você sabe!

— Porque você me deu seu laço — explicou ele, suspirando com pesar. — Yuri, eu perguntei se você tinha certeza e você concordou. Você me deu seu laço, naturalmente, não posso te dizer o que está escrito nessa carta. Essas palavras não te pertencem.

— Mas... — começou Yuri, resfolegando novamente, dessa vez em angústia. — Mas por que, eu não entendo...

— Você me deu seu laço. Conscientemente, você desistiu de qualquer coisa que vocês dois pudessem ter, desde o início, Yuri. E mesmo depois disso você ainda se apaixonou por ele. Eu não posso te ajudar — disse o youkai, negando uma vez com a cabeça, balançando sua capa peluda no processo. — Volte para a sua cerejeira e reflita sobre isso pelo resto da eternidade.

— E-eu... — Katsuki levantou a carta até o rosto, observando os símbolos que não entendia, então balançou mais algumas vezes a cabeça, sentindo seu interior gelado e dolorido. Apaixonou-se por ele? Por Victor? Mas não podia ser, ele sabia que humanos e youkais não deviam se envolver. Mas aquela sensação, aquele fogo que sentira queimá-lo por dentro, aquela expectativa em um beijo, a timidez. Não podia ser, mas tinha que ser.

Yuri havia se apaixonado por ele, o pior que poderia ter feito em toda sua existência.

Apaixonara-se por Victor e nunca poderia tê-lo, nunca sequer poderia dizer a ele. Nunca saberia se era correspondido.

Não tinha nada, absolutamente nada.

Era medo que o fazia segurar a carta com mãos trêmulas? Ou talvez fosse desespero? Não sabia, mas a única certeza que tinha era que não iria embora.

E assim, virou-se e partiu da clareira de volta a sua cerejeira, tudo ao seu redor passando como um borrão de verde e marrom. Yuri não queria ver nada, não queria escutar nada. A floresta era a mesma de sempre, ele sabia, sem a presença de Victor. Tudo estava em seu devido lugar, como tinha que ser.

Quem havia mudado fora Yuri.

Jogou-se sobre as raízes de sua cerejeira, sentindo uma ardência que não entendia nos olhos e no peito. Agarrou o tronco áspero com dedos exaustos, como se isso pudesse ancorar sua mente e tirá-lo daquela turbulência terrível. Não tinha escapatória, porque o mundo era o mesmo e era ele quem estava errado. Yuri devia saber desde o começo, mas não havia imaginado que isso poderia acontecer. Era tudo tão solitário sem Victor e a dor parecia que nunca iria embora. Soluçou, enterrando o rosto em suas mangas.

A tristeza nunca foi embora, mas depois de anos, ele aprendeu a lidar com ela.

Muitos anos se passaram. Mais do que poderia contar, e sabia que a essa altura Victor já teria morrido havia muito tempo. As estações trocaram diversas vezes e o tronco de sua cerejeira foi ficando mais largo e mais forte enquanto seu protetor também aprendia a ser mais forte do que antes, mantendo a carta cujo conteúdo não entendia guardada próxima ao coração. A floresta continuou com o mesmo ar melódico, os pássaros voltaram a cantar e Yuri aprendeu a sorrir outra vez e a aproveitar os pequenos prazeres que a vida oferecia. Não seria mais feliz como antes, seu coração não bateria mais da forma como batera quando Victor o beijara, mas Yuri podia viver. Podia viver depois daquilo.

Só não seria tão feliz.

Ele podia aceitar algo assim. Não nascera para ser feliz, em primeiro lugar.

Mas uma coisa mudara em Yuri ao longo de todo aquele tempo, ele podia notar. Desde a presença de Victor, tornara-se muito mais sensível às mudanças na floresta, em seus sons, em suas nuances. Por isso, naquele dia, tantos anos depois, quando ouviu sons que não pertenciam ao local, pôde reconhecê-los imediatamente.

Yuri conhecia aqueles sons. Pareciam as risadas de Victor...

Estava encostado a sua cerejeira e já havia anoitecido. Como poderia haver algum humano rindo lá aquela hora? Levantou a cabeça e fechou os olhos, tentando identificar a origem do som, e de fato, eram risadas. Antes que pudesse pensar, já estava de pé andando na direção da qual o barulho vinha, mas parou por um momento, virando o rosto para sua cerejeira, cujos galhos floridos balançavam com o vento. Não devia deixar sua cerejeira se podia haver humanos ou outras ameaças por perto. Mas... Queria ver. Queria saber.

Virou e correu na direção do som, confundindo as músicas e os risos com sua própria respiração arfante. Longe, tão longe, como ele poderia ter escutado algo assim? E quanto mais corria, mais vontade sentia de ver, de descobrir algo que por tanto tempo perdera.

Quando as árvores chegaram ao fim, dando espaço para a terra dos humanos, a primeira coisa que Yuri notou foram as cores.

Diversas cores, diversas luzes diferentes, penduradas no ar como grandes vagalumes, indicando um caminho em brasa. O chão de pedra estava iluminado pelas cores, criando uma miríade de tons que lembravam fogo. Em meio a tais luzes, havia pessoas e... cabanas? Cabanas de pano, pequeninas, com humanos dentro. Eles usavam roupas bonitas, decoradas com bordados de cores variadas, e todos sorriam e passeavam. Yuri conseguia ver crianças correndo aqui e ali, parecendo extremamente em paz, uma paz que permitia que criassem algo lindo como aquilo.

Era tão diferente de tudo o que sabia sobre os humanos. Com Victor, aprendera sobre a guerra, a dor, o caos, mas também sobre as maravilhas que estavam escondidas fora da floresta. Como humanos poderiam ser belos e efêmeros, cheios de luz própria.

Yuri tivera medo. Antes de Victor, tinha receio dos humanos, porque não era suposto que se aproximasse deles. Depois de se afeiçoar a um, só queria distância. Eram frágeis como flores, e não voltavam na primavera seguinte. Yuri ficaria sozinho, e não queria ficar sozinho, embora já estivesse. Mas agora não era medo que estava fazendo seu coração bater errático no peito, de modo algum.

Era a curiosidade. Era a paixão.

Não tinha que ter receio deles, porque por mais que pudesse sofrer, algo belo como aquilo valia a pena. Como seu amor por Victor, que embora quebrasse seu coração, seria seu relento durante todo e cada dia pelo restante da eternidade.

Então deu um passo à frente, depois outro, desviando de crianças que corriam por perto. Os humanos não podiam enxergá-lo, então poderia se divertir ao observá-los e saciar o desejo que palpitava em seu peito.

Viu algumas danças que nunca imaginara na vida, máscaras assustadoras, tão diferentes de sua máscara estampada com flor de cerejeira, viu jogos que não conseguia entender e jogos que conseguia entender depois de observar por alguns instantes. As comidas que nunca vira antes tinham cheiros muito atrativos, doces e apetitosos que atiçavam seu paladar. Todos os instintos estavam em polvorosa com o que o cercava, instigando exclamações surpresas e risos do youkai. Era uma paz alegre que o fazia sentir seguro por dentro.

O mundo terrível que Victor descrevera não existia mais.

Talvez ele pudesse ter sido feliz quando deixou Yuri e voltou para o lar, para o irmão mais novo.

Quando voltou à floresta, não conseguia parar de sorrir para si mesmo. Estava tão acostumado com tudo o que já conhecia que esse tipo de descoberta o deixava eufórico. Yuri, que mudara com Victor, sabia que não poderia voltar a ser quem era nunca mais.

E apesar da dor, apesar dos receios e apesar da solidão, gostava de quem havia se tornado.

Podia aceitar tudo o que viesse, porque isso apenas o faria crescer mais e mais, e amar mais a floresta e o mundo que não conhecia, mas que ansiava por conhecer.

Tão alegre estava com tudo o que vira que demorou a notar que havia algo de diferente em sua floresta novamente. Foi apenas ao se aproximar de sua cerejeira, sorridente, que percebeu a figura pequenina deitada aos pés da árvore, coberta com um manto brilhante com bordados de flores de cerejeira contrastando em tons de rosa fortes sobre o branco puro.

Confuso, Yuri avaliou o entremeado alvo e rosado, no topo do qual um tufo de madeixas pálidas saía, brilhantes como a própria luz da lua. Era uma criança coberta por um kimono lindíssimo, dormindo pacífica sob a proteção da cerejeira. Mas aquela criança tinha cabelos prateados, cílios espessos, nariz arrebitado. Lentamente, parecendo ser acordado pela chegada do youkai, o pequenino abriu os olhos, levantando para ele orbes azuis cristalinos, transparecendo curiosidade e inocência como se fossem feitos de vidro. Se parecia tanto com...

— Victor? — sussurrou.

— Pode-se dizer que seja ele, sim — concordou uma voz à esquerda que o fez pular. Yuri virou rapidamente o corpo, assustado, deparando-se com o youkai que lhe dera os remédios encostado a uma das árvores da clareira. O capuz ainda estava alto, mas havia algo gentil em seu tom enquanto ele prosseguia: — Yuri Katsuki, quando você veio a mim, você não queria um laço, por isso eu o tirei de você. Depois que você o quis, já era tarde, e você perdeu seu amado para sempre. Mas você superou a dor. — Com uma das mãos, gesticulou para a criança semi desperta aos pés da cerejeira. — Você aceitou a dor e o que ela ensinou a você e aprendeu a não ter mais receio de sofrer. Você deixou seu passado para trás e aprendeu com ele, por isso, você pode ter de volta aquilo com que sempre sonhou. Seu laço, eu o devolvo.

Antes que Yuri pudesse sequer perguntar como ele seria capaz de devolver-lhe o laço em primeiro lugar, o youkai se virou e desapareceu no meio das árvores, afastando-se para nunca mais voltar.

Ele havia dito que Yuri superara, aceitara a dor e aprendera com ela a não ter mais receio e a ser feliz de novo. Era o que queria, o que mais desejava, e lá estava ele, deitado perto da cerejeira, como sempre deveria ter estado. Uma criança que nunca havia sido marcada pela dor da guerra, cujos olhos subiram não para sua bochecha, seu pescoço ou sua testa, mas para seus olhos por trás da máscara.

Victor podia enxergá-lo.

Pôs uma mão sobre a boca, contendo um soluço que tentava escapar, enquanto se aproximava do pequeno, que o seguia com o olhar.

— O que está acontecendo? — perguntou a criança, e Yuri se agachou a sua frente, inclinando a cabeça para o lado.

— Qual é o seu nome? — perguntou o youkai, tentando organizar a mente e sorrindo quando o pequeno respondeu o nome de seu amado.

— E você? Quem você é? E que lugar é esse? — questionou Victor, olhando ao redor.

— Eu me chamo Yuri — revelou o moreno, sorrindo suavemente. — Essa é a clareira da cerejeira milenar que eu protejo. Sou um youkai, você devia ter medo de mim.

Youkai? — ecoou o platinado, franzindo a testa confuso. — Não parece assustador pra mim. Você pode tirar a sua máscara, Yuri?

— A máscara? — repetiu o japonês, piscando surpreso. Mas diante da expressão confusa da criança, puxou a máscara para longe do rosto, deixando a luz da lua tocar suas bochechas coradas e os olhos castanhos, bem como o sorriso gentil em seus lábios. — Não te dá medo assim?

— Nem um pouco — negou Victor, balançando a cabeça, os olhos sobre a face do moreno. Então estendeu as pequenas mãos e, sem permissão, tocou as bochechas do youkai. — Você é muito bonito, Yuri.

Suspirando surpreso, o sorriso se desfazendo em uma expressão indecifrável, Yuri sentiu os cantos dos olhos ardendo. Ah, que bobo, apenas iria preocupar o garoto, mas não conseguiu contar as lágrimas quentes que escorreram de seus olhos até os dedos do pequeno.

Yuri? O que aconteceu? — perguntou Victor, parecendo confuso enquanto suas minúsculas mãos tateavam a face do Katsuki em nervoso. — Eu disse algo errado?

— Não — discordou, subindo uma mão até uma das que o garoto apertava contra si, tocando de leve, o sorriso voltando distorcido aos seus lábios. Então algo surgiu em sua mente, fazendo com que desse um pulo e largasse a criança para enfiar os dedos dentro das roupas, perto do coração, e puxar de lá um papel desgastado e amassado pelo tempo e pelas inúmeras vezes em que o dobrara e desdobrara. Abriu e entregou ao platinado, que, surpreso, afastou as mãos de seu rosto. — Você consegue me dizer o que está escrito aqui, Victor?

Afinal, fora ele quem escrevera, tanto tempo antes, então finalmente poderia saber o que estava escrito naquele carta, que por tantos anos ansiara descobrir.

— Ah. — Victor franziu a testa, trazendo o papel para perto do rosto. — Eu não sei ler, desculpa, Yuri. — Então seus olhos brilhantes e nervosos subiram até os do youkai. — Ah, não, Yuri, eu não sei ler, o que nós vamos fazer? Como nós vamos descobrir o que está escrito?

A criança continuou a balbuciar desculpas e demonstrar sua preocupação enquanto Yuri processava a informação. Nunca saberia o que Victor quisera dizer, não descobriria, porque ninguém jamais contaria a ele. De certa forma, isso o fazia sentir uma solidão inexplicável, mas logo esse sentimento foi substituído.

Oras, não estava mais sozinho, não estaria mais sozinho com Victor ao seu lado.

— Victor — chamou, maravilhado que os olhos ciano do garoto pousaram sobre os seus, sem errar nem um centímetro suas pupilas negras. Como desejara todo aquele tempo, Victor podia olhá-lo nos olhos. Isso colocou um sorriso em seus lábios.

Inclinou-se para frente, tomando o queixo menor em seus dedos e então plantando um beijo na testa pequenina, ouvindo o garoto gaguejar ao fazê-lo. Afastando o rosto, deliciou-se com a face adoravelmente corada de Victor Nikiforov, que não havia conseguido envergonhar em seu tempo juntos anteriormente, mas agora podia, assim como podia fazer diversas outras coisas que sempre desejara. Quando ele crescesse mais, é claro.

Aproximando-se e apoiando o rosto em seus cabelos prateados enquanto o tomava em um abraço, Yuri completou:

— Nós vamos descobrir o que essa carta quis dizer. Nós vamos descobrir juntos. Afinal, agora nós teremos todo o tempo do mundo.

Notas finais
Acabamos, então! Tentei dar o meu melhor pra indicar um final feliz. Confesso, não sou boa com finais abertos, então espero que tenha ficado minimamente decente kkkkkkkkkkkkkkk. Snowlily, muito obrigada novamente por ter me dado sua sugestão e por ter opinado na construção da fanfic, foi um prazer sem tamanho pra mim poder fazer isso aqui pra você! E a todos que leram, muito obrigada de coração por seu apoio e por terem esperado esse tempo todo pela continuação. O que acharam? Atendeu suas expectativas? Como viram o desenvolvimento da relação do Yuri e do Vic? Adoro desenvolver relacionamentos, então foi muito divertido ficar detalhando os pequenos momentos entre eles e como seus sentimentos foram mudando com o tempo ♥ Percebi recentemente que esse é o meu estilo, sendo que uns 80% dos meus projetos engavetados aqui são longs ou shorts que envolvem desenvolvimento de relacionamento mais do que qualquer outra coisa xD au8suahsuashu Bom, é isso, foi prazer estar aqui com vocês! Obrigada a todo mundo que leu e comentou e espero que tenham se divertido lendo como eu me diverti escrevendo cada uma dessas linhas! Até o próximo projeto, Beijtinhooooooooooooooooooooos
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!