Notas iniciais
Finalmente aqui estamos.

Macon gostaria de ter tido conhecimento sobre o que aconteceria na noite da Transformação antes que ela verdadeiramente ocorresse, mas infelizmente seu pai e eu irmão eram egoístas demais para alertá-lo e o resto de sua família sabia apenas o mesmo que ele sobre tal evento.

A dor que queimou por sua pele e que estalou por seus ossos era diferente de tudo o que ele já havia sentindo antes. Pensou que estava agonizando em direção à morte, mas eventualmente aquilo teve um fim.

Cada passou excruciante da Transformação o fez pensar no que estava se tornando, no monstro que seria quando aquilo estivesse acabado. Passou por tudo aquilo sozinho, derrubando as decorações da sala de estar de Ravenwood enquanto tropeçava, sem conseguir manter-se de pé, até por fim acabar no chão sentindo-se o ser mais moribundo do planeta, apenas desejando que a dor cessasse.

Quando por fim a Transformação terminou Macon Ravenwood foi deixado no chão com uma pele que agora queimaria no sol, uma sede insaciável de sangue e um nome pulsando em sua mente. O único nome que o daria forças para continuar:

Jane.

...

Pesadelos eram costumeiros. Pesadelos eram a consequência do sono de um jovem coração apaixonado e quebrado, mas também eram a consequência do constante contato com um mundo abstrato e de certa forma, assustador. Mas o pesadelo daquela noite em especifico tinha algo de diferente, tinha algo de real e verdadeiramente assustador.

Ela estava parada aos pés da escada de Ravenwood, as luzes estavam apagadas e não haveria claridade alguma no recinto se não fossem pelas duas velas que estavam acenas perto do piano. Lila se moveu vagarosamente em direção ao pequeno fio de luz que quebrava toda aquela escuridão.

Estava descalça e usava o mesmo pijama de linho que tinha colocado antes de se deitar, seus pés nus batiam contra a madeira gelada do chão e faziam com que as tábuas rangissem. Aquilo parecia real demais para ser um sonho, ela sentia o cheiro da cera das velas queimando como se realmente estivesse diante delas e sentia o vento frio que circulava pela sala; tão gelado que sua pele se arrepiava.

Um barulho vindo repentinamente da escuridão fez com que Lila Jane desse um pulo. Parecia um gemido, um ganido de dor. O ruido seguinte veio alguns segundos depois; objetos caindo no chão, ao que parecia. Apesar de seu receio, ela se adiantou em direção ao som, sendo levada até o centro da sala de estar, onde as chamas das velas já não crepitavam com tanta intensidade, o que fazia com que fosse difícil de enxergar, mas mesmo assim ela conseguiu reconhecer a silhueta de Macon caída no chão por entre pedaços de enfeites quebrados que deveriam ter estado antes em cima da mesinha de centro.

Seus olhos analisaram a cena por um curto momento antes que ela se abaixasse ao lado do Incubus e estendesse a mão em direção a seu rosto que se contorcia de dor. Lila não se importou que os cacos de vidro estivessem cortando sua pele e fazendo com que seu sangue se derramasse sobre o tapete, tudo o que ela queria era dizer a Macon que estava ali e que não o deixaria.

Foi impedida de tocá-lo quando escutou um barulho alto, uma espécie dolorosa de estalar de ossos, vindo dele. Macon gritou. Um desespero começava a preencher Lila Jane, ela sabia que estava vendo-o passar pela Transformação e aquilo fazia com que seu coração se esmagasse dentro do peito e seu estômago se revirasse de maneira cruel. A moça esperou que ele se acalmasse e então voltou a estender a mão em direção a sua face, empurrando gentilmente os fios de cabelo que caiam por sua testa.

– Você não está sozinho, Macon. – murmurou ela.

O sonho foi interrompido e Lila acordou em seu dormitório, ofegante e assustada. Ela empurrou as cobertas para o lado e saltou da cama. Tinha sido apenas um sonho, ela tentou dizer a si mesma, porém não conseguiu convencer-se daquilo. Havia sido muito real para ser apenas um simples sonho, no entanto não haviam sinais de que ela estivesse verdadeiramente estado em Ravenwood, ela não tinha deixado o dormitório e os cortes em suas pernas não eram reais.

Lila foi até sua escrivaninha e pegou a antiga agenda de couro e um lápis, sentia a necessidade de escrever. Sonho ou não aquilo havia mexido com ela, fazendo com que sua mente começasse a trabalhar de maneira descontrolada, repetindo seguidamente uma única palavra: Macon.

Após calçar um par de sapatilhas de pano ela agarrou suas chaves e saiu do dormitório, sentindo que, de alguma forma, ao estar em contato com a escuridão da noite, estaria em contato com ele. O ar da madrugada também era reconfortante, até mesmo revitalizador, tinha algo naquele tipo de Escuridão que a atraia, que fazia com que ela quisesse dispensar seus dias. Por que não ficar unicamente com a Luz das estrelas? Lila Jane se perguntava. No fim tudo de que precisamos é dessa pequena rachadura que faz com que Trevas não sejam apenas Trevas e Luz não seja apenas Luz.

Do lado de fora o dormitório parecia muito quieto, quase como se não houvesse uma única pessoa dentro do prédio. Certamente do lado de fora não parecia haver. Em outros dias ela poderia ter sentido medo de ficar ali sozinha, mas naquela noite em especial tudo o que ela conseguia sentir era tristeza.

Sentou-se no chão recostando-se contra a parede fria do dormitório da faculdade. Abriu a agenda em uma página em branco e pôs-se a colocar seus sentimentos para fora em forma de palavras. Dessa vez seus versos e estrofes não sairam tão poéticos quanto costumavam ser, mas nem por isso soaram menos sinceros.

As Trevas que queimam a sua pele,

Estão agora queimando o meu coração,

Tirando-te de mim,

Tirando metade da minha alma,

Afastando-nos.

Onde havia Escuridão,

Você trouxe a Luz,

Meu porto seguro,

Você deixou uma marca em mim,

E tudo quero é ser abraçada por ti.

As Trevas que queimam sua pele,

Sugaram a minha felicidade,

Fizeram-me agir como louca,

É por isso que estou tão triste.

Meu amor estrela-cruzada,

Faça-me sentir novamente,

Como se eu não precisasse,

Sentir nada.

Ela fitou o poema, os olhos marejados ameaçando transbordar, enxugou-os rapidamente, porém apenas mais lágrimas se seguiram. Lila queria conseguir parar de chorar todas as vezes em que se pegava pensando em Macon, porém isso estava se provando impossível, ela tinha raiva por não conseguir encontrar uma maneira de ficar com o homem que amava. Perdê-lo a estava destruindo.

– São quatro da manhã, horário em que os universitários costumam chegar das festas em irmandades ou coisa do tipo, mas você não me parece bêbada. – disse a voz de um rapaz ao lado dela, Lila quase esperou que aquela voz fosse de Hunting ou Silas, mas a verdade era que não era.

Ao erguer os olhos ela se deparou com um garoto que deveria ter mais ou menos a sua idade, talvez fosse um ou dois anos mais velho. Estava usando jeans e um moletom com o emblema da universidade.

– Eu não estou vindo de nenhuma festa. – disse ela – Só estava escrevendo.

Ele sorriu e retirou do grande bolso do moletom um bloco de notas e uma caneta esferográfica.

– Bem, então temos algo em comum. A noite é verdadeiramente uma grande inspiração, não é mesmo?

Com um impulso Lila Jane pôs-se de pé e encarou o rapaz.

– Sim... Certamente uma grande inspiração.

– Você cursa o quê? – questionou ele.

Por um momento ela quis mentir, inventar um nome falso e dizer que cursava talvez Medicina ou algo do tipo, mas não encontrou-se em condições de contar uma história verdadeiramente boa.

– História. – respondeu ela.

– Faço Literatura.

Um silêncio desconfortável caiu sobre eles, mas Lila Jane recusou-se a insistir naquela conversa, ela não queria ficar jogando papo fora com um estranho no meio da madrugada, principalmente não quando ainda estava vestindo seu pijama cor-de-rosa com estampas de ursinho. Era constrangedor, mais constrangedor do que seria voltar para dentro de seu apartamento e chorar por Macon Ravenwood.

O garoto a encarou de volta, provavelmente esperando que ela dissesse alguma coisa. Qualquer coisa inteligente ou que pelo menos fizesse sentido, mas ela ainda não tinha nada que quisesse falar para ele.

– É melhor eu subir. – acabou por dizer – Tenho aula amanhã.

– Acho que todo mundo têm. – foi a resposta dele.

Reprimindo um revirar de olhos ela abraçou a agenda de couro e subiu correndo as escadas do dormitório. Naquela madrugada quando Lila Jane Evers voltou a pegar no sono teve o mesmo pesadelo, acontecendo minusciosamente da mesma forma que antes, foi assim que ela soube que não existem coincidencias, pois no dia seguinte ao olhar para o calendário ela teve a certeza de que na noite anterior Macon Ravenwood havia passado pela Transformação

Notas finais
Obrigada mais uma vez à todos vocês que estão lendo e comentando essa história, eu fico muito feliz simplesmente por ver o número crescente de visualizações por capítulo. Quarenta capítulos! Quem diria que essa história chegaria a tudo isso? Acho que quando eu comecei a escrever não pensava em fazer nem vinte capítulos e aqui estamos nós, ainda continuando. Momento nostalgia! Desculpem pelo atraso na postagem, minhas férias não estão muito produtivas ainda mais porque meu notebook antigo resolveu parar de funcionar de vez e eu realmente gostava mais de escrever nele, mas eu não vou ficar atrasando as postagens por causa disso, o problema foi apenas nessa semana mesmo. Como diria a Lila coisas velhas são melhores do que as novas haha. Ah, acho que vocês conseguem adivinhar quem é o rapaz que falou com a Lila, certo? Mais uma vez obrigada por lerem. Comentários de todos os gêneros serão muitíssimo apreciados e respondidos com carinho.