Notas iniciais
Eu diria: "Pobre Lila."

As semanas passaram de maneira caótica e Lila não consegui perceber grandes detalhes que diferenciassem um dia do outro, para ela todos transcorriam da mesma maneira. Acordar havia se tornado uma obrigação frustrante e ela passava o tempo inteiro ansiando pelo momento em que finalmente pudesse voltar para seu dormitório e deixar-se cair na cama, chorando até pegar no sono.

Não queria sentir-se daquela forma, como se houvesse desaprendido à viver, porém também não encontrava nada que lhe animasse o suficiente para que seus dias parecessem mais bonitos. Sem Macon ela parecia não ter nada, as portas estavam fechadas, as luzes apagadas e o sol coberto por nuvens. Sem ele sua vida não tinha rumo.

Lila Jane havia se tornado um mero robô: levantava-se, assistia as aulas, nunca comia muito e dedicava grande parte de seu tempo a estudar livros antigos que tinha pego na Lunae Libri. Por vezes Marian havia tentado ajudá-la, fazê-la reagir ao mundo e voltar a viver devidamente, mas todas as suas tentativas foram falhas. Lila não queria ser ajudada.

Quando o fim do semestre chegou e suas provas e exames eram a única coisa com a qual ambas as jovens se preocupavam, ela quase conseguiu ver-se fazendo algo de verdadeiramente produtivo novamente. Estava na ativa embora sua mente ainda continuasse muito longe. Certa manhã quando Lila havia voltado ao dormitório para almoçar durante um período livre encontrou Marian na cozinha, fazia ovos mexidos com bacon e segurava um jornal na mão livre, os olhos brilhando de animação.

– Olhe só para isso! – exclamou a morena assim que a viu passar pela porta.

– Isso o quê? – questionou Lila Jane.

– O anuncio, Lila. – disse Marian, ao desligar o fogo e virar-se para ela – Estão alugando alguns apartamentos em um prédio aqui perto, eu pensei que nós duas poderiamos dar uma olhada neles. A conta não vai ficar absurda se nós dividirmos as despesas, além disso, o aluguel não deve ser muito caro.

Um suspiro escapou pelos lábios da moça. Certamente não estava pensando em se mudar quando voltasse para o próximo semestre, mesmo sabendo que podia fazer aquilo e que grande parte dos veteranos preferia ter seus próprios apartamentos ao invés de morar nos dormitórios universitários.

– Eu não sei, May. – começou ela – Eu não tenho dinheiro para pagar nem um terço do que vão nos pedir pelo aluguel e nem tenho um emprego.

– Você pode encontrar um. – rebateu Marian – Eu consegui um estágio em uma biblioteca no centro da cidade, portanto sei que posso cobri a minha parte, quanto a você eu tenho certeza de que pode conseguir alguma coisa em uma lojinha ao algo parecido.

É claro que Lila Jane sabia que em algum momento teria que arranjar um emprego e começar a bancar a própria vida, sem ter que esperar que seu pai lhe enviasse dinheiro para seus gastos com a faculdade, mas ainda assim, ela não se sentia pronta para isso, queria apenas voltar a chorar de raiva do destino e de saudades de sua mãe e de Macon.

– Por favor, Janie, diga que vai pensar a respeito disso. – implorou a outra garota.

No entanto, assim que o apelido “Janie” saiu por seus lábios Marian pôde perceber a mudança no olhar de Lila, a forma como ela se abalou ao ouvir aquilo, o jeito como seu queixo tremeu e seus olhos se encheram d’água, a expressão da moça foi o coração. Lila não ouvia aquele apelido desde o dia em que Macon lhe dissera adeus.

– Ah, céus! Desculpe-me, Lila, eu juro que nunca mais vou chamá-la assim.

Ela balançou a cabeça e tentou conter as lágrimas. Aquele pequeno apelido era o suficiente para abalá-la, mas não queria que sua melhor amiga se sentisse culpada simplesmente por pronunciá-lo, contudo, também não queria voltar a ouvi-lo. Doía demais que ele não fosse pronunciado com a única voz que ela mais desejava ouvir. Vindo daqueles lábios que ela jamais voltaria a sentir.

– Tudo bem, apenas me faça esse favor e chame só de Lila a partir de agora.

Marian assentiu, baixou os olhos e empurrou para trás da orelha alguns cachos que escavam da trança em seu cabelo.

– Eu me sinto péssima vendo você assim e não podendo ajudá-la. Lila, eu sei que você não quer ouvir isso, mas seu estado está beirando uma depressão profunda. Você tem que esquecer Macon e seguir em frente.

Como? Lila Jane quis gritar. Diga-me como posso fazer isso e, acredite em mim, eu o farei com todo o prazer, porém neste instante não vejo nenhuma forma de espantar para longe essa tristeza que sinto e ainda não descobri uma cola forte o suficiente para juntar os pedacinhos do meu coração e concertá-lo!

Mesmo sabendo que as intenções de sua amiga eram as melhores ela realmente não via saída em meio à tamanha escuridão, levaria tempo para que se curasse completamente. E completamente é um termo exagerado demais para ser usado nessa sentença. Ela se recuperaria, seguiria em frente, mas nunca estaria completamente curada da dor de perder Macon Ravenwood e nunca, jamais seria capaz de esquecê-lo.

...

Com a conclusão dos exames finais Lila Jane Evers retornou à Savannah, onde passou todas as suas férias de verão na companhia do pai e da irmã, os três remoendo as saudades que sentiam da mãe e mal suportando ficar naquela casa, sabendo que aquele era o primeiro verão que passavam sem ela.

Em seu pequeno e aconchegante quarto de infância, Lila chorou nos braços de Caroline a perda de Macon e depois ambas choraram juntas ao se lembrarem da mãe. Acabaram por fim, rindo com algumas memórias antigas e depois assaltaram o guarda-roupas da falecida, cada uma das jovens escolhendo para si duas peças de roupas antes de encaixotarem o restante e enviarem para a doação. Lila escolheu para si um grande casaco marrom, que batia-lhe nos joelhos e um sofisticado vestido azul que a mãe usara na ocasião do casamento de uma de suas primas mais velhas. Caroline ficara com um suéter verde e um lenço cor-de-rosa.

Talvez elas nunca fossem verdadeiramente usar aquelas coisas, mas de certa forma era bom ter uma lembrança que pudessem guardar a longo prazo. Uma vez Lila lera em jornal que não era bom se apegar à coisas materiais e ela achara que o artigo estava cheio da razão, no entanto, deixou de lado suas opiniões ao guardar as roupas antigas dentro da mala e retornar para a universidade.

Logo na primeira semana de aula, conseguiu um trabalho de meio turno em uma lanchonete que vendia a junk food mais gordurosa que ela já vira na vida, mas ficou feliz ao dizer a Marian que elas poderiam alugar um apartamento e vagar o dormitório que antes lhes pertencia. Fizeram cerca de cinco viagens com a ajuda da caminhonete de Sue, uma colega de classe de Marian, mas em um único dia instalaram-se em um prédio de pintura violeta que ficava à vinte minutos do campus.

Em sua primeira noite no novo apartamento Marian e Lila abriram duas garrafas de vinho e beberam-nas como se estivessem sedentas há dias.

– Ele não quis lutar por mim. – murmurara Lila Jane em meio à sua embriagues.

Estava na terceira taça de vinho e, nunca antes tinha bebido daquela forma; fora somente pela empolgação da amiga em comemorar a mudança para o novo apartamento que acabara por aceitar uma taça e terminara estando na terceira. Mas assim que disse aquelas palavras, perdida por dentro em seus devaneios, Marian percebeu o que ela queria dizer e pôde ver na tristeza transmitida por seus olhos o quanto depois de todo aquele tempo ela continuava muito triste.

– Não é verdade, querida. – tentou dizer ela — Ele te libertou e esse é o maior ato de amor que alguém pode fazer.

Os olhos azuis da Guardiã colaram-se no fundo de sua taça se vidro onde o restante de sua bebida descansava.

– Mas Incubus ou não eu o queria. – reclamou Lila.

– Sim, eu sei, mas algum dia você iria querer mais do que isso. Iria querer um futuro que ele não pode te dar.

Futuro, pensou ela, dane-se o futuro. Preciso saber como ele está preciso saber disso assim como preciso respirar. Se Macon não estiver bem eu certamente não estarei.

Ela não respondeu Marian, ao invés disso calou-se e terminaram de beber em silêncio. Após algum tempo a morena acabou pegando no sono e Lila se levantou e caminhou o mais quietamente possível até o telefone que haviam instalado no corredor da entrada. Com a visão embaçada ela tentou acertar o número para o qual ligava e por sorte teve sucesso nesta tarefa.

Esperava ouvir a secretária eletrônica, porém Leah Ravenwood a atendeu.

– Alô? – disse a menina.

– Leah! Ah, Leah, você não sabe o quão estou feliz em ouvir sua voz! – disse ela cheia de alivio por alguém ter verdadeiramente atendido o maldito telefone.

– Lila Jane? – perguntou Leah – Ah, querida, minha mãe vai me matar se me pegar falando com você. Eu preciso desligar.

– Por favor, não! – pediu ela com certo desespero – Eu preciso que você me diga onde ele está.

– Eu não posso. Você sabe o que o meu irmão é agora. Ele se exilou não ouvimos nada dele desde a Transformação, talvez tenha se tornado como nosso pai, talvez tenha enlouquecido... Você não pode procurar por ele, Lila Jane, não sabe o que ele é, só tem de manter em mente o fato de que ele a matará se você se aproximar.

– Leah, eu preciso correr o risco. Não sei mais o que fazer eu tentei esquecê-lo, mas não posso, simplesmente não consigo. Eu preciso ver Macon, preciso tê-lo de volta. Nem que seja para terminar morta.

– Não diga isso! – repreendeu-a, Leah – Nada vale arriscar a sua vida assim.

Lila balançou a cabeça, estava chorando, sua cabeça começava a girar e sua visão a escurecer, um soluço lhe escapou.

– Ah, Leah...

– Não chore! – disse Leah de maneira implorativa e depois pareceu arfar – Ah, droga! Lila Jane eu preciso desligar minha mãe chegou em casa. Apenas não procure Macon, está bem? Tchau.

A linha ficou muda e Lila devolveu o telefone ao gancho, as lágrimas não cessavam. Ela se arrastou até sua cama e continuou chorando até que sua exaustão a vencesse e ela pegasse no sono.

Notas finais
Quero agradecer por cada visualização que essa história tem tido desde o inicio e também mandar um enorme obrigada à "SirenCaster" pela indicação linda. Eu atrasei um pouco a postagem porque jurava que a última vez em que publicara um capítulo foi na segunda-feira passada, mas só ontem vi o quanto tempo já tinha. Então me desculpem, não vai voltar a acontecer e as postagens vão estar marcadas oficialmente para todas as segundas! Minhas férias estão acabando, mas vou continuar no mesmo ritmo de postagem por enquanto até que minhas provas recomecem, mas acho que isso vai ser apenas em setembro. Aliás as novas histórias já estão sendo preparadas! Ah, peço que me avisem para o caso de erros ortográficos ou sentenças que não fazem sentido pois acabei por não revisar o capitulo. Mais uma vez obrigada a todos que estão lendo. Comentários serão muitíssimo apreciados e respondidos com todo o meu carinho.