Beautiful and Dangerous
34 33. Encontro
Notas iniciais
Se havia uma coisa que Lila nunca conseguira entender em toda a sua vida era o tempo que grande parte das mulheres gastava para se arrumar. Enquanto sua irmã Caroline e sua amigas do Ensino Médio passavam horas diante do espelho provando roupas e combinações de maquiagem e acessórios ela sempre fora uma pessoa prática. Costumava abrir o guarda-roupas e vestir a primeira peça que parecesse, pouco se importando com o que as pessoas pensariam quando a olhassem.
Naquela noite, no entanto encontrar uma roupa que parecesse adequada havia se tornado uma missão impossivel para ela. Suas roupas repentinamente pareciam ser totamente sem graça e costumeiras. Talvez não houvesse uma peça com a qual Macon já não a tivesse visto.
Ela tirou todos os cabides do guarda-roupas e os estendeu sobre a cama, depois pegou as calças e espalhou-as pelo chão ao lado de uma pilha de livros clássicos, observando tudo aquilo com muita atenção, tentando encontrar alguma coisa que pudesse servir.
– Que bagunça é essa? – disse Marian aparecendo na porta do quarto.
– Não tenho nada para vestir! – exclamou a moça.
A morena revirou os olhos e adentrou o pequeno quarto do dormitório universitário, parando diante da cama onde estavam jogados casacos, vestidos e suéteres. Vasculhando as roupas, Marian pegou algumas e olhou para elas durante um momento.
– Venha aqui, deixe-me ver o que faremos.
Lila se levantou e caminho até a amiga parando diante desta. Marian pegou um vestido roxo com detalhes azuis escuros e entregou-o a ela, depois passou-lhe um casaco preto.
– Acho que isso vai servir. – disse Marian – Não é elegante, mas não é algo que você usa diariamente.
– Obrigada. Estou estranhamente me sentindo uma adolescente e acho que me sinto muito envergonhada por isso. Tenho dezenove anos, não deveria estar tendo um ataque por causa de um encontro. Ainda mais por que estamos falando de Macon e nós dois já estamos juntos há um bom tempo.
Sorrindo levemente Marian pegou os cabides e os devolveu a seu devido lugar, arrumando a bagunça feita pela colega de quarto.
– Não se esqueça de que foi você quem teve a ideia de sair em um encontro. Aliás, é comum ficar nervosa com experiencias novas. Ainda que Macon não seja novidade, sair com ele dessa forma é.
– É, acho que você está certa, May. Obrigada pela ajuda.
Marian sorriu e se dirigiu para a saida do quarto.
– Por nada. Se precisar me chame, estarei à uma parede de distância.
Ela riu e fechou a porta, depois tirou o roupão de banho que estivera vestindo e o substituiu pelo vestido roxo, em seguida escolheu um par de sapatos de salto preto e os calçou. Colocou o casaco e começou a revirar sua caixinha de jóias atrás de algo para usar.
Dediciu-se por um colar e um par de brincos de camafeu, combinados ao anel que Macon havia lhe dado no ano anterior. Lila deu uma última olhada no espelho antes de pegar sua bolsa e ir atrás de Marian. Encontrou a amiga sentada no sofá com o caderno aberto sobre os joelhos juntamente a um livro que haviam pego na Lunae Libri.
– Preciso que me diga como estou. – disse Lila.
Marian levantou os olhos para ela enquanto puxava os cachos para longe do rosto com a ajuda de um grampo cor-de-rosa.
– Você está ótima. – respondeu ela.
A campainha soou e Lila se apressou em direção a ela, girando a chave na tranca, ela respirou profundamente antes de abri-la.
Houveram momentos na vida de Lila Jane Evers em que ela se sentiu muito adolescente como, por exemplo, na vez em que sua mãe permitiu que ela fosse a Summerville sozinha com as amigas pela primeira vez ou quando beijou aquele garoto chamado Richard quando tinha quinze anos, mas depois de entrar para a faculdade ela achava nunca mais se sentiria tão boba quanto nessas ocasiões. Pelo menos não até agora.
Parada diante de Macon Ravenwood naquele momento, ela se sentia embasbacada. Ele não estava apenas lindo parado ali sorrindo para ela, estava maravilhoso e parecia verdadeiramente pronto para uma noite normal e devidamente humana com ela.
– Está pronta para ir? – perguntou ele.
– Completamente.
– Quero você em casa às onze, mocinha. – disse Marian atrás dela, depois riu – Estou brincando, divirtam-se. Não vou esperar por você acordada.
Lila revirou os olhos para a amiga e esta fechou a porta com um último aceno animado. Desceram as escadas apresadamente e seguiram para o rabecão de Macon, provavelmente o único carro funerário no mundo que levava pessoas vivas e não mortas ou em luto.
Ela ajeitou o vestido ao se sentar e apoiou as mãos sobre o colo, levemente nervosa. Macon entrou no carro e deu a partida, ligou o rádio em uma estação que tocava clássicos e ouviram uma longa sinfonia durante todo o trajeto até o cinema.
Quando chegaram lá ele estacionou o automóvel e deu a volta até sua porta para que pudesse abri-la para ela. Como sempre um verdadeiro cavalheiro, pensou Lila enquanto aceitava a mão que ele a estendia.
– Acho que ainda não tive a oportunidade de dizer o quanto você está linda hoje, Jane. – disse Macon obvervando-a da cabeça aos pés.
Seus olhos percorreram cada centímetro de seu corpo e brilharam com um tipo de aprovação que a deixou vermelha. Macon se aproximou dela e beijou seus lábios suavemente, depois subiu-os até seu ouvido.
– Você está mais que encantadora. – sussurrou ele.
Ela mordeu o lábio e baixou os olhos, suas emoções a estavam atingindo como um tsunami e balançando sua mente.
– Vamos entrar? – sugeriu Macon.
– Claro. – murmurou ela.
O casal partiu em direção ao cinema, compraram os ingressos e depois entraram na fila da pipoca. Assim que o rapaz a sua frente pegou seu pedido e saiu da fila, Lila se debruçou sobre o balcão.
Macon olhou para ela de fora questionadora, mas tudo o que a moça fez foi dar-lhe um sorriso enquanto pedia um pacote grande de pipoca doce, duas barras de chocolate crocante e dois refrigerantes. O vendedor entregou-lhe o pedido e, antes mesmo que Lila pudesse abrir a bolsa para pegar a carteira, Macon o pagou.
Sairam da fila e se encaminharam para a sala de cinema, pegando um lugar no fundo, onde ainda não haviam pessoas por perto.
– Vamos mesmo jantar depois de fazer esse lanche todo? – questionou Macon.
Lila riu enquanto abria sua barra de chocolate e quebrava os quadradinhos, despejando-os dentro do pacote de pipoca.
– Isso são apenas os aperitivos, Ravenwood. Você nunca veio ao cinema?
– Para falar a verdade, não. Essa é a primeira vez.
Por um instante Lila Jane sentiu uma pena muito grande dele, pois Macon nunca havia tido uma vida normal. Ela estivera devaneando tanto sobre se sentir adolescente novamente que não parou para pensar que ele talvez nunca tivesse se sentido assim.
Deixando os doces de lado Lila estendeu a mão para que pudesse pegar a dele e acariciou sua pele com o dedo, trançando circulos de forma consecutiva.
– Obrigada por estar fazendo isso por mim, Macon, você não sabe o quanto cada momento com você signifia para mim.
Ele lhe ofereceu um sorriso sincero e gentil. Triste e feliz ao mesmo tempo.
– Sou eu quem deveria agradecer. – sussurrou ele.
...
O filme ao qual assistiram era um drama, um dos melhores que Lila vira em tempos. Os atores haviam sido muito bem escalados e a história tinha uma trama envolvente, mas apesar do filme ter sido bom nada se comparava a sensação de Macon Ravenwood segurando sua mão durante toda a seção.
Quando o filme terminou eles foram diretamente para o carro e Lila começou seu longo momento de tentar descobrir para que restaurante ele a levaria.
– Por favor, diga. – pediu ela pela décima vez, enquanto ultrapassavam um sinal verde na estrada.
Um sorriso torto surgiu no canto dos lábios dele.
– Estamos chegando, você verá.
– Macon, já passamos por todos os restaurantes que eu conheço nessa cidade, se avançarmos um pouco mais vou acabar achando que você vai me levar para uma estrada vazia só para poder me assassinar.
A testa de Macon se franziu e ele se virou para ela, fitando-a como se pensasse que ela era louca. Uma risada escapou pelos lábios da moça ao encarar aquela expressão no rosto do rapaz.
– Eu estou brincando. – disse ela ainda rindo.
Ele revirou os olhos e voltou-se para a estrada a sua frente. Como Macon dissera não demorou muito para que parassem em frente a um retaurante italiano que Lila nunca tinha visto na vida.
Era um lugar bonito, do lado de fora havia um amplo estacionamento rodeado por uma cerca viva bem aparada. O restaurante tinha impecavéis paredes brancas sem nenhuma infiltração a vista e bandeirinhas italianas pendiam de fitas vermelhas no teto.
Desceram do carro e foram para a entrada onde havia um recepcionista vestindo um terno preto e segurando uma prancheta.
– Boa noite. – cumprimentou ele – Vocês tem reservas?
– Sim. – disse Macon – O nome é Ravenwood.
O rapaz assentiu e depois chamou uma garçonete para que esta os levasse a sua mesa. Lá dentro havia um quarteto de cordas tocando em sinfonia com um pianista, havia um espaço livre entre as mesas e alguns casais dançavam.
– Isso é muio a sua cara. – sussurou ela para Macon.
Sentaram-se em uma mesa perto da janela e analisaram o cardápio que lhes foi entregue. Fizeram os pedidos e então a garçonete desapareceu pela porta da cozinha.
– Então... O que achou? — perguntou Macon.
– Esse lugar é simplesmente espetacular. – ela olhou a seu redor e mordeu o lábio, hesitando em fazer a pergunta que desejava – Acha que a comida vai demorar para chegar?
– Está com fome?
Ela balançou a cabeça negativamente. Certamente que não tinha tanta fome depois do lanche que fizeram no cinema, mas queria fazer outra coisa, algo cuja vontade havia lhe ocorrido no momento em que colocara os olhos no belo interior daquele restaurante.
– Não. – respondeu ela – Eu apenas queria ir até lá e dançar uma música.
Macon sorriu e se levantou estendendo-lhe a mão.
– Por que não falou antes?
Ela aceitou a mão e que lhe estendia e Macon a guiou até o centro do restaurante onde outros casais bailavam ao som da música clássica. Macon ajeitou-a para que pudessem dançar ao estilo valsa e Lila sentiu como se uma corrente elétrica estivesse percorrendo seu corpo.
Aquele era o melhor tipo de choque que podia se levar, o choque de ser tocada por alguém que se amava. A proximidade de seus corpos enquanto dançavam era fantástica, a fazia querer beijá-lo e ela apenas não o fez, pois estavam em público.
Dançaram em passos ritmados e divertidos. Lila se sentia leve e alegre como nunca antes na vida. Enquanto Macon a girava e depois a trazia de volta para seus braços fortes e seguros ela entendeu que não havia amor mais belo do que aquele.
...
Os dois só pararam de dançar quando sua refeição foi servida. Comeram e conversaram por um longo tempo, depois ele pagou a conta e eles voltaram para o rabecão.
Lila entrou primeiro, ajeitou seu vestido e tirou os saltos colocando-os no canto ao lado dos pés. Macon entrou em seguida, tinha um sorriso no rosto o qual ele não abandonara durante a noite toda.
– Acho que esse seria o momento em eu aprovetaria para roubar-lhe um beijo. – disse ele.
– Roube quantos quiser, você já levou meu coração, portanto todo o resto é seu.
Ele estendeu a mão para seu rostou e tocou-lhe a bochecha com ternura, inclinou-se no curto espaço do carro e beijou seus lábios. Lila Jane pôde sentir seu coração sair fora do ritmo, batendo tão apressado que ela podia senti-lo esmagando suas costelas.
Macon a puxou para mais perto, colando o corpo dela no seu e fazendo com que sua Jane tivesse a sensação de que um buraco negro havia sido aberto em seu estômago. Borboletas... Nunca seriam borboletas no estômago dela, sempre seria algo muito mais forte do que isso.
Com cuidado Macon a ajeitou até que estivesse deitada sobre o banco do carro e se ajoelhou enquanto continuava a beijá-la. Ele levou os lábios ao seu pescoço passou a lingua sobre a veia pulsante que existia ali.
Lila pensou que seria fácil para ele matá-la dentro daquele carro, podia tirar sua vida simplesmente rasgando sua garganta naquele ponto onde agora ele a beijava fazendo com que arrepios fossem lançados através de seu corpo. Macon era forte o suficiente para resistir ao desejo de matá-la, mas ela sabia que, no entanto, ele estava lutando contra outro de seus desejos naquele momento.
Ela havia descoberto que ele poderia lhe causar sensações maravilhosas com as quais ela jamais sonhara. Tudo o que ela queria naquela noite era senti-lo o máximo possivel.
Macon desceu a mão por suas pernas expostas pelo vestido e a acariciou com gentileza. Lila soltou um suspiro, desejando que aquilo nunca terminasse.
– Você não deveria começar coisas que sabe que não podemos continuar. Está querendo me enlouquecer, Ravenwood? – disse ela suavemente.
Macon soltou um suspiro e analisou seu rosto no escuro.
– Você tem razão. – sussurrou ele – Acho que é hora de irmos para casa.
Ambos se ajeitaram em seus lugares e prenderam os cintos de segurança partindo em direção à universidade com o sentimento que nunca viveriam nada tão bom em suas vidas quanto aquela noite. Ambos carregariam consigo a grande questão de “o que poderia ter sido” por um tempo longo o suficiente para atravesar vida e morte.
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