Beautiful and Dangerous
32 31. Significado
Notas iniciais
Quando Lila acordou na segunda-feira de manhã, o envelope de papel pardo já estava na frente de sua porta. Por conta do sono ela demorou um momento para perceber do que se tratava aquilo, apenas dando-se conta do que tinha nas mãos quando notou o símbolo no selo de cera vermelha que lacrava o pacote. Ali havia a figura de uma lua crescente.
Apresando-se para soltar o lacre, ela rasgou algumas pontas de papela pardo e deixou que os fragmentos caíssem pelo chão ao seu redor sem se importar em ajuntá-los. Lá dentro havia várias folhas brancas datilografadas e grampeadas em quatro blocos diferentes.
Dois daqueles blocos eram contratos destinados a ela e à Marian, os outros dois eram guias de Guardiãs. Soltando um suspiro ela os colocou sobre a mesa e apalpou o envelope a procura do resto do conteúdo da correspondência. Virou-o sobre a mesa e deixou que as coisas remanescentes caíssem sobre ela.
Eram apenas duas identificações, uma espécie de RG do mundo Conjurador. E aquilo só significava uma coisa: o jogo tinha começado para ela.
...
Enquanto caminhava pelo campus da universidade em direção ao prédio onde teria sua primeira aula do dia, Macon Ravenwood não conseguia decidir o que mais o incomodava, se era o calor do sol queimando sua pele de uma maneira desconfortável ou se era ter que discutir com a reitoria da faculdade.
Ele precisava de um tempo para verdadeiramente esquecer de seus problemas, pretendia ir até a biblioteca depois da aula e ler alguma coisa, sentar-se entre os Mortais e sentir-se um pouco normal.
Havia uma certa beleza que ele passara a apreciar em manhãs como aquela, talvez fosse o fato de que em breve ele deixaria de ver o céu em seu tom azul claro, mas havia algo de bom nas manhãs, exatamente como a doce obscuridade sedutora da noite. Exatamente como a sensação de olhos dentro dos olhos dela. Lila Jane.
Era a Luz que eles tinham em comum, percebeu ele.
Macon subiu rapidamente as escadas do primeiro andar e localizou com facilidade a já conhecida sala de História Americana. Não havia ninguém quando ele entrou com exceção do professor, essa era a vantagem de chegar mais cedo, embora muitas vezes ele preferisse entrar na sala em cima da hora, sem olhar para ninguém, tentando não ser percebido.
Ele subiu os degraus até a última fileira de carteiras no alto da sala em estilo arquibancada e sentou-se próximo à janela. Abriu a mochila e retirou de lá o caderno e sua cópia de O Morro Dos Ventos Uivantes.
Pôs-se a ler e, de tanta concentração mal percebeu que alguém havia se juntado a ele e sentava-se a seu lado.
– É tão bom ver você de novo aqui. – disse Jane.
Macon baixou o livro e sorriu para ela enquanto o fechava.
– É bom estar de volta, querida.
Ela sorriu de volta para ele e abriu a bolsa retirando de lá os materiais para a aula.
– Você falou com a reitoria? – questionou ela.
Ele assentiu.
– Disseram que minhas faltas são muitas para serem compensadas com trabalhos. Eu já reprovei o semestre.
Lila franziu os lábios e pousou a mão sobre a sua.
– Eu sinto muito, Macon. Você merecia uma segunda chance.
Macon simplesmente deu de ombros.
– Eu ia ter que largar o curso de toda forma.
– Eu sei, mas ainda assim você é brilhante demais para deixar que as pessoas percam a oportunidade de conhecer sua genialidade.
– Obrigado, mas sei que você vai espalhar conhecimento o suficiente por nós dois. Enquanto isso vou apenas continuar a assistir às aulas só para ver você se perdendo em suas próprias palavras enquanto escreve.
As bochechas de Lila se acenderam em um belo tom de rosa.
– Eu não me perco quando escrevo. – murmurou ela.
– Se perde sim. Você viaja para outro mundo quando está lendo ou escrevendo e isso é uma coisa linda. Poucas pessoas são capazes de se perder no conhecimento e extrair dele algo de bom. Essa é uma das coisas que me encantam em você. – Macon fez uma pausa e olhou para suas mãos ainda juntas sobre sua mesa, ele enlaçou os dedos aos dela vagarosamente de acariciou sua pele macia. – Você é uma criatura maravilhosa, Jane.
O rosa de sua face passou rapidamente para o vermelho. Macon puxou as mãos unidas para cima e plantou um beijo sobre a dela. Fitaram-se por um momento antes dele soltar sua mão e Lila pegar o livro que descansava sobre a mesa.
– O Morro Dos Ventos Uivantes, li esse quando estava no meu último ano do Ensino Médio. – disse ela, analisou o exemplar por um momento e percebendo que seu estado de conservação indicava que várias leituras já haviam sido feitas perguntou: — Do que você gosta nele?
– Acho que posso dizer que sou parecido com Heathcliff. – afirmou Macon.
Lila Jane revirou os olhos.
– Acho que está errado, você não é nada parecido com Heathcliff e eu também não sou nenhuma Cathy, se você quer saber.
Macon riu.
– Não, você com toda a certeza não tem nada de Catherine.
Ela abriu o livro a procura da página que ele estivera lendo quando ela chegara a sala, mas não havia nada marcando o lugar onde ele parara.
– Como você sabe em que página está sem um marcador? – questionou a moça – Eu acho tão horrível ter que ficar procurando o lugar onde parei.
Ele deu de ombros.
– Eu guardo o número da página na memória. Estava na 145.
Lila assentiu e tirou do cabelo um grampo cor de cobre enfeitado com pequenas pedrinhas azuis então procurou pela página e o colocou lá dentro com a ponta para fora e devolveu o livro a ele.
– Pronto. – disse ela com um sorriso – Agora você tem um marcador.
– Mas isso é o seu grampo de cabelo.
– Eu sei. Uso qualquer coisa para marcar a página onde parei, é rápido e útil.
Macon olhou atônito para o livro por um instante, mas não conseguiu deixar que uma pequena risada escapasse por seus lábios. A voz do professor iniciando a aula os tirou de seu mundinho e os fez perceber que a sala havia lotado enquanto conversavam. Lila virou-se para frente e pegou o lápis preto, aprontando-se para escrever.
– Odeio o tempo. – sussurrou ela.
Ele não compreendeu a afirmação.
...
– Aquele ali! – disse Jane.
– O azul? – perguntou Macon.
– Não.
– O verde?
– Não, não. O vermelho! Ou será vinho? Ah, o do lado.
Estavam na biblioteca da universidade, era fim de tarde depois das aulas e mal ouvia-se um ruído pelas prateleiras que não a conversa baixa do casal. Macon estava pegando livros do alto da prateleira para ela enquanto Lila carregava uma quantidade enorme de exemplares em seus braços finos.
Ele alcançou o livro vermelho que ela pedira (ou será vinho?) e entregou-o a ela.
– Acho que já está bom para uma tarde de estudos, não é mesmo? – questionou ele.
– Claro, se pegarmos mais algum vou acabar caindo.
Macon revirou os olhos e pegou metade da pilha que ela carregava e se encaminharam para uma das mesas redondas no fundo da biblioteca. Colocaram os livros ali e sentaram-se lado a lado.
– Tem um problema que precisamos resolver. – murmurou Lila.
– Qual?
– Você tem que parar de sentar no fundo da sala. Não enxergo nada lá de trás, eu já uso óculos Ravenwood, você está querendo piorar minha visão.
Macon riu.
– Desculpe é que não gosto que as pessoas olhem para mim. Eu prefiro olhá-las ao invés disso.
Ela balançou a cabeça e tirou de pilha de livros um sobre o Egito antigo. Abriu-o no sumario e procurou pelo tópico que desejava, depois passou as páginas até estar uma que mostrava a mais recente escavação da tumba de um faraó.
Macon olhou para o material que ela havia deixado a seu lado, a agenda de couro em cima do caderno. Ele estendeu a mão e a pegou abrindo-a na folha onde Lila estivera escrevendo durante a aula de história. Devaneando ao mesmo tempo em que absorvia tudo o que o professor falava. Ele não achava que muitas Mortais fossem capazes de fazer isso.
Que dizer sobre o tempo?
Tão sutil quanto o vento,
Tão cruel quanto o relento,
Não posso te perder,
Não conseguirei te esquecer.
Seu beijo tão gentil
Leva meu coração a mil,
Seu sorriso encantador,
Poderia curar qualquer dor.
Que faria eu sem ti?
Que faria eu sem te senti?
Afogo-me em minha própria mente
E talvez lá encontre-me contente,
Pois estaria num mundo meu,
E jamais me distanciaria do seu.
Era lindo. Melancólico talvez, mas ainda sim lindo.
– Quero ir para lá! – disse Jane subitamente.
– Para o Egito? Por quê?
– Quero participar dessas escavações, deve ser tão maravilhoso estar cercada por tanta história. Imagine quantas mil pessoas não passaram por esse mesmo lugar. Quantas o construíram, quantas entraram nele, quantas embalsamaram o faraó... A verdade é que o presente não se esgota, você faz o futuro nele e não sabe a significação daquilo que faz para este futuro.
Não, sei, pensou Macon, realmente não sei a significação do que faço para o futuro, talvez estar aqui e agora com essa mulher vá significar algo bom ou ruim para o futuro. Talvez minhas decisões sejam mais importantes do que penso.
Ele olhou para o poema na agenda ainda aberta a sua frente.
– Jane. – murmurou ele – Eu te amo. Nunca se esqueça disso.
Ela levou a mão a seu rosto e depois os lábios aos seus.
– Nunca. Não importa o que aconteça.
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