Notas iniciais
Espero que gostem!

Quando Lila acordou na segunda-feira de manhã, o envelope de papel pardo já estava na frente de sua porta. Por conta do sono ela demorou um momento para perceber do que se tratava aquilo, apenas dando-se conta do que tinha nas mãos quando notou o símbolo no selo de cera vermelha que lacrava o pacote. Ali havia a figura de uma lua crescente.

Apresando-se para soltar o lacre, ela rasgou algumas pontas de papela pardo e deixou que os fragmentos caíssem pelo chão ao seu redor sem se importar em ajuntá-los. Lá dentro havia várias folhas brancas datilografadas e grampeadas em quatro blocos diferentes.

Dois daqueles blocos eram contratos destinados a ela e à Marian, os outros dois eram guias de Guardiãs. Soltando um suspiro ela os colocou sobre a mesa e apalpou o envelope a procura do resto do conteúdo da correspondência. Virou-o sobre a mesa e deixou que as coisas remanescentes caíssem sobre ela.

Eram apenas duas identificações, uma espécie de RG do mundo Conjurador. E aquilo só significava uma coisa: o jogo tinha começado para ela.

...

Enquanto caminhava pelo campus da universidade em direção ao prédio onde teria sua primeira aula do dia, Macon Ravenwood não conseguia decidir o que mais o incomodava, se era o calor do sol queimando sua pele de uma maneira desconfortável ou se era ter que discutir com a reitoria da faculdade.

Ele precisava de um tempo para verdadeiramente esquecer de seus problemas, pretendia ir até a biblioteca depois da aula e ler alguma coisa, sentar-se entre os Mortais e sentir-se um pouco normal.

Havia uma certa beleza que ele passara a apreciar em manhãs como aquela, talvez fosse o fato de que em breve ele deixaria de ver o céu em seu tom azul claro, mas havia algo de bom nas manhãs, exatamente como a doce obscuridade sedutora da noite. Exatamente como a sensação de olhos dentro dos olhos dela. Lila Jane.

Era a Luz que eles tinham em comum, percebeu ele.

Macon subiu rapidamente as escadas do primeiro andar e localizou com facilidade a já conhecida sala de História Americana. Não havia ninguém quando ele entrou com exceção do professor, essa era a vantagem de chegar mais cedo, embora muitas vezes ele preferisse entrar na sala em cima da hora, sem olhar para ninguém, tentando não ser percebido.

Ele subiu os degraus até a última fileira de carteiras no alto da sala em estilo arquibancada e sentou-se próximo à janela. Abriu a mochila e retirou de lá o caderno e sua cópia de O Morro Dos Ventos Uivantes.

Pôs-se a ler e, de tanta concentração mal percebeu que alguém havia se juntado a ele e sentava-se a seu lado.

– É tão bom ver você de novo aqui. – disse Jane.

Macon baixou o livro e sorriu para ela enquanto o fechava.

– É bom estar de volta, querida.

Ela sorriu de volta para ele e abriu a bolsa retirando de lá os materiais para a aula.

– Você falou com a reitoria? – questionou ela.

Ele assentiu.

– Disseram que minhas faltas são muitas para serem compensadas com trabalhos. Eu já reprovei o semestre.

Lila franziu os lábios e pousou a mão sobre a sua.

– Eu sinto muito, Macon. Você merecia uma segunda chance.

Macon simplesmente deu de ombros.

– Eu ia ter que largar o curso de toda forma.

– Eu sei, mas ainda assim você é brilhante demais para deixar que as pessoas percam a oportunidade de conhecer sua genialidade.

– Obrigado, mas sei que você vai espalhar conhecimento o suficiente por nós dois. Enquanto isso vou apenas continuar a assistir às aulas só para ver você se perdendo em suas próprias palavras enquanto escreve.

As bochechas de Lila se acenderam em um belo tom de rosa.

– Eu não me perco quando escrevo. – murmurou ela.

– Se perde sim. Você viaja para outro mundo quando está lendo ou escrevendo e isso é uma coisa linda. Poucas pessoas são capazes de se perder no conhecimento e extrair dele algo de bom. Essa é uma das coisas que me encantam em você. – Macon fez uma pausa e olhou para suas mãos ainda juntas sobre sua mesa, ele enlaçou os dedos aos dela vagarosamente de acariciou sua pele macia. – Você é uma criatura maravilhosa, Jane.

O rosa de sua face passou rapidamente para o vermelho. Macon puxou as mãos unidas para cima e plantou um beijo sobre a dela. Fitaram-se por um momento antes dele soltar sua mão e Lila pegar o livro que descansava sobre a mesa.

– O Morro Dos Ventos Uivantes, li esse quando estava no meu último ano do Ensino Médio. – disse ela, analisou o exemplar por um momento e percebendo que seu estado de conservação indicava que várias leituras já haviam sido feitas perguntou: — Do que você gosta nele?

– Acho que posso dizer que sou parecido com Heathcliff. – afirmou Macon.

Lila Jane revirou os olhos.

– Acho que está errado, você não é nada parecido com Heathcliff e eu também não sou nenhuma Cathy, se você quer saber.

Macon riu.

– Não, você com toda a certeza não tem nada de Catherine.

Ela abriu o livro a procura da página que ele estivera lendo quando ela chegara a sala, mas não havia nada marcando o lugar onde ele parara.

– Como você sabe em que página está sem um marcador? – questionou a moça – Eu acho tão horrível ter que ficar procurando o lugar onde parei.

Ele deu de ombros.

– Eu guardo o número da página na memória. Estava na 145.

Lila assentiu e tirou do cabelo um grampo cor de cobre enfeitado com pequenas pedrinhas azuis então procurou pela página e o colocou lá dentro com a ponta para fora e devolveu o livro a ele.

– Pronto. – disse ela com um sorriso – Agora você tem um marcador.

– Mas isso é o seu grampo de cabelo.

– Eu sei. Uso qualquer coisa para marcar a página onde parei, é rápido e útil.

Macon olhou atônito para o livro por um instante, mas não conseguiu deixar que uma pequena risada escapasse por seus lábios. A voz do professor iniciando a aula os tirou de seu mundinho e os fez perceber que a sala havia lotado enquanto conversavam. Lila virou-se para frente e pegou o lápis preto, aprontando-se para escrever.

– Odeio o tempo. – sussurrou ela.

Ele não compreendeu a afirmação.

...

– Aquele ali! – disse Jane.

– O azul? – perguntou Macon.

– Não.

– O verde?

– Não, não. O vermelho! Ou será vinho? Ah, o do lado.

Estavam na biblioteca da universidade, era fim de tarde depois das aulas e mal ouvia-se um ruído pelas prateleiras que não a conversa baixa do casal. Macon estava pegando livros do alto da prateleira para ela enquanto Lila carregava uma quantidade enorme de exemplares em seus braços finos.

Ele alcançou o livro vermelho que ela pedira (ou será vinho?) e entregou-o a ela.

– Acho que já está bom para uma tarde de estudos, não é mesmo? – questionou ele.

– Claro, se pegarmos mais algum vou acabar caindo.

Macon revirou os olhos e pegou metade da pilha que ela carregava e se encaminharam para uma das mesas redondas no fundo da biblioteca. Colocaram os livros ali e sentaram-se lado a lado.

– Tem um problema que precisamos resolver. – murmurou Lila.

– Qual?

– Você tem que parar de sentar no fundo da sala. Não enxergo nada lá de trás, eu já uso óculos Ravenwood, você está querendo piorar minha visão.

Macon riu.

– Desculpe é que não gosto que as pessoas olhem para mim. Eu prefiro olhá-las ao invés disso.

Ela balançou a cabeça e tirou de pilha de livros um sobre o Egito antigo. Abriu-o no sumario e procurou pelo tópico que desejava, depois passou as páginas até estar uma que mostrava a mais recente escavação da tumba de um faraó.

Macon olhou para o material que ela havia deixado a seu lado, a agenda de couro em cima do caderno. Ele estendeu a mão e a pegou abrindo-a na folha onde Lila estivera escrevendo durante a aula de história. Devaneando ao mesmo tempo em que absorvia tudo o que o professor falava. Ele não achava que muitas Mortais fossem capazes de fazer isso.

Que dizer sobre o tempo?

Tão sutil quanto o vento,

Tão cruel quanto o relento,

Não posso te perder,

Não conseguirei te esquecer.

Seu beijo tão gentil

Leva meu coração a mil,

Seu sorriso encantador,

Poderia curar qualquer dor.

Que faria eu sem ti?

Que faria eu sem te senti?

Afogo-me em minha própria mente

E talvez lá encontre-me contente,

Pois estaria num mundo meu,

E jamais me distanciaria do seu.

Era lindo. Melancólico talvez, mas ainda sim lindo.

– Quero ir para lá! – disse Jane subitamente.

– Para o Egito? Por quê?

– Quero participar dessas escavações, deve ser tão maravilhoso estar cercada por tanta história. Imagine quantas mil pessoas não passaram por esse mesmo lugar. Quantas o construíram, quantas entraram nele, quantas embalsamaram o faraó... A verdade é que o presente não se esgota, você faz o futuro nele e não sabe a significação daquilo que faz para este futuro.

Não, sei, pensou Macon, realmente não sei a significação do que faço para o futuro, talvez estar aqui e agora com essa mulher vá significar algo bom ou ruim para o futuro. Talvez minhas decisões sejam mais importantes do que penso.

Ele olhou para o poema na agenda ainda aberta a sua frente.

– Jane. – murmurou ele – Eu te amo. Nunca se esqueça disso.

Ela levou a mão a seu rosto e depois os lábios aos seus.

– Nunca. Não importa o que aconteça.

Notas finais
Obrigada pelas visualizações e comentários! Desculpem-me pela demora na publicação, estou em semana de provas e terminando meu estágio o que acabou me deixando sem tempo para digitar o capítulo, embora ele já estivesse escrito em várias folhas soltas pelas minhas bolsas e cadernos. Comentários serão muito apreciados e respondidos com todo o meu carinho.