Notas iniciais
Um pouquinho de romance para derreter corações. Espero que gostem.

Tempo. É engraçado como ele é relativo, como, às vezes, minutos são uma eternidade que você quer espantar para longe e, outras vezes os dias e as semanas não parecem ser suficiente. Lila sabia melhor do que ninguém que o tempo era uma espécie de brincadeira cruel.

Havia se dado conta ainda naquele dia que inevitavelmente o tempo havia passado, arrastando-a, ainda que contra sua vontade, para frente, deixando que aqueles tempos que ela desejava serem infinitos fossem se tornando apenas memórias que a assombrariam pelo resto de sua vida.

De forma alguma ela estava se dando por vencida, mas claramente estava fazendo uma coisa a qual se recusara durante todos aqueles meses: ela estava admitindo que o tempo a venceria.

– Quando fechar meus olhos pela última vez, poderei ter-te eternamente. – recitou Macon – De onde diabos você tirou isso?

Estavam deitados sobre o tapete da sala, a bolsa de Lila aberta ao lado do sofá juntamente aos casacos e a dupla de sapatos. Em suas mãos Macon tinha a agenda de couro de Lila, aberta nas páginas que se enchiam dos poemas que se derramaram dela nas últimas semanas, sem que esta pudesse conter o vicio rude da escrita.

– Da minha cabeça. – respondeu ela finalmente.

Apoiava-se em um cotovelo de modo que pudesse encarar sua face enquanto ele lia as coisas que ela havia escrito.

– Foi você quem escreveu isso?

Ela assentiu.

Os olhos de Macon viajaram novamente para a folha da agenda. A letra cursiva parecia ter sido desenhada com um cuidado minucioso pelas linhas, preenchendo todos os espaços com palavras melancólicas.

– Olhe só para o que eu fiz com você! – exclamou ele.

– Você não fez nada comigo, eu fiz. São as minhas escolhas, Macon, minha responsabilidade.

Subitamente lembrando-se de outra de suas decisões Lila Jane sentou-se e encarou-o por um momento. Estar ali em Ravenwood novamente era como perceber que um sonho era real, pois não ter Macon ao seu lado fazia com que parecesse que os últimos meses de sua vida haviam sido mera fantasia de sua mente.

Agora, no entanto, enquanto fitava aqueles olhos negros como a noite ele jamais parecera tão concreto e ela jamais parecera tão perto de perdê-lo e tê-lo de volta ao mesmo tempo.

– Preciso te contar uma coisa. – admitiu ela.

– O quê? – questionou ele.

Tomando fôlego para dizer as próximas palavras, Lila quase teve que se convencer a falar.

– Sua mãe apareceu no meu dormitório hoje, ou melhor, ontem, esqueci que já passa da meia-noite. – disse ela, atrapalhando-se com suas palavras.

Macon revirou os olhos.

– Isso não importa. Apenas, prossiga, Jane.

Ela soltou um suspiro e passou as mãos nervosamente pelos cabelos.

– Bem, como eu dizia, sua mãe foi até meu dormitório para me oferecer uma vaga de Guardiã da Lunae Libri de Gatlin.

Os olhos de Macon se arregalaram e ele se sentou de frente para ela.

– Minha mãe fez o quê? – sua voz era frenética.

– Ela só queria me ajudar, Macon, e devo admitir que aceitei o emprego.

Ele a olhou como se Lila tivesse ficado maluca, ela sabia que ele deveria mesmo pensar que ela tinha perdido todos os parafusos da cabeça, mas ser Guardiã significava o mundo para ela. Aquela era uma porta se abrindo para tantas possibilidades que a deixavam tonta só de pensar.

– Jane, você não faz ideia de no que está se metendo. O mundo Conjurador pode matá-la.

Balançando a cabeça ela negou sua afirmação.

Em meio todas aquelas sombras projetadas sobre eles na calada da noite os olhos azuis de Lila Jane haviam ganhado um brilho impetuoso mais intenso que o costumeiro.

– Eu sei o que estou fazendo. – afirmou a moça – Talvez seja a coisa errada a fazer, mas se for então terei que lhe dar com as consequências depois. Por enquanto, vou apenas arriscar e fazer o que acho certo.

Macon franziu as sobrancelhas, parecendo ao mesmo tempo intrigado e indignado.

– Por que você faz isso? – perguntou ele numa voz baixa e calculada – Por que tem que insistir em coisas que você sabe que acabarão dando errado?

– Porque talvez não deem. – disse ela – É isso o que venho tentando te dizer há meses! Macon me desculpe, mas eu sou incapaz de acreditar que as coisas vão dar errado e acabou. Não, o destino não está escrito em pedra. As coisas estão em curso a cada momento, portanto enquanto não estiverem concluídas não são certas.

– Jane... – Macon tentou dizer, mas ela não deixou que ele interrompesse sua fala.

– Não posso me dar por vencida antes do fim de uma luta. Eu fiz a minha escolha Macon e, sinto muito, não vou voltar atrás.

– Você é a pessoa mais teimosa que eu já conheci na minha vida!

Lila estreitou os olhos para ele.

– Está errado, meu caro, você conhece a si mesmo.

Soltando uma risada fraca e sufocada e sabendo que nunca seria capaz de fazê-la mudar de ideia, Macon se inclinou para Lila a procura de seus lábios. Deslizando as mãos sob seus ombros, ele a beijou.

Havia dois corações acelerados trabalhando a mil naquela sala, a respiração acelerada de duas pessoas apaixonadas, dois seres teimosos e persistentes cujo destino tinha um caminho sinuoso e cheio de curvas inesperadas traçado para eles.

O agora era a única coisa que tinham, Lila percebeu repentinamente. Ainda beijando-a Macon deitou-a novamente no tapete e se acomodou sobre seu corpo magro.

Lila Jane havia sentindo tanta falta daquilo, daqueles beijos, daqueles momentos... Havia sentindo tanta falta dele. Ela não fazia ideia do que faria quando eles tivessem que dizer adeus definitivamente, pois eram nos momentos em que mais se sentia apaixonada que ela percebia o quão seria difícil enfrentar uma separação... E ela queria se bater por ficar pensando naquelas coisas, principalmente agora.

Estar presa nos braços de Macon era como voltar para casa após uma longa viajem. Seus lábios tinham um gosto adocicado, sua pele era gelada e seu toque eletrizante. Não havia uma única fibra de seu ser que a convencesse a parar de beijá-lo agora.

Já para ele estar com ela era como encontrar o paraíso após passar dias preso no inferno. Sua Jane era seu ponto fixo de segurança, era a única pessoa que o fazia repensar suas ações quando ele sabia que estava prestes a afundar em sua própria Escuridão.

Não havia necessidade de parar em busca de ar. Mesmo que houvesse eles ignoraram.

...

O sol estava começando a raiar do lado de fora de Ravenwood enquanto Macon encarava o teto da sala de estar. Jane estava adormecida ao seu lado, seu rosto lívido em seu sono. O cabelo castanho caia liso ao redor de seus ombros e os óculos marcavam seu rosto por ela ter esquecido-se de tirá-los antes de dormir.

A casa ainda tinha o odor dos cigarros que ele fumara na tarde anterior em outro de seus surtos de nervosismo. De certa forma o que ele dissera a Jane havia sido verdade, eles eram um vicio calmante, mas ele não os apreciava completamente.

Em primeiro lugar começara com aquilo por causa de Hunting. Logo depois de fugir da universidade semanas antes ele havia se deparado com aquele cenário deprimente: ele sozinho naquela casa gigantesca olhando para o nada, incapaz de dormir e incapaz de impedir que os sonhos dos Mortais chegassem até sua mente de alguma forma.

Devia ser fome, ele pensou. Estivera pensando em sangue.

Pela primeira vez em sua vida estivera desejando sangue. Ele sentira nojo de si mesmo por estar sentindo aquela fome, mas não conseguia se controlar, a Transformação estava chegando muito perto para que ele pudesse fazer qualquer coisa para se ajudar que não fosse tentar manter sua sanidade intacta.

De toda forma, fora tentando se distrair de seu desejo por sangue que ele pegara um dos maços de cigarro que Hunting deixara jogados por ai na última vez em que estivera em casa, mas o gosto não lhe agradara. Talvez mais tarde ele encomendasse alguns charutos franceses para ver se eram melhores.

A questão, no entanto era que as coisas não estavam fáceis para ele. Não que algum dia tenham sido... Porém lutar contra aquela fome era mais difícil do que Macon havia imaginado.

Mas ele tinha que se dar um crédito, havia percebido que talvez fosse mais forte do que pensara.

Sentir Lila Jane respirando suavemente ao seu lado era uma prova de que ele não era fraco. Ele não desejava seu sangue. Jamais cogitaria a hipótese de se alimentar dela, para ele havia uma linha que a separava de qualquer tipo de Mortais, ela era especial de muitas formas.

Um raio de luz ultrapassou um vão nas pesadas cortinas pretas que Silas havia instalado na sala e a pele de Macon formigou desconfortavelmente. Outro sinal da Transformação.

Ele balançou a cabeça, sem deixar que sua mente se voltasse para aqueles assuntos. Pensaria naquilo depois. Por enquanto iria lutar, por si mesmo. Ele faria o que Jane lhe pedira, nem que este fosse seu ultimo ato digno.

Notas finais
Obrigada pelas visualizações e comentários. Esse capitulo foi basicamente uma continuação direta do outro porque havia coisas que precisavam ser ditas e porque resgatar o bom e velho romance nunca é demais, certo? Eu não tive tempo de revisar o capitulo, pois se fosse fazer isso ia demorar mais tempo para postá-lo, portanto se encontrarem erros ortográficos ou de concordância me avisem e eu arrumo. Acho que devo dizer que ainda não superei o fim de The Mortal Heart e que só consigo pensar que essas autoras deveriam ter feito um livro com pelo menos quatrocentas páginas só para os nossos queridinhos. Comentários serão adorados e respondidos com todo o meu carinho.