Beautiful and Dangerous
30 29. Esperança
Notas iniciais
Era cerca de meia noite quando Lila passou pela entrada dos Túneis que tinha usado duas outras vezes, uma na companhia de Macon e outra na da mãe dele.
Arelia Valentin havia levado as duas garotas de volta seu dormitório na universidade antes de se despedir e partir em direção a Nova Orleans, contudo antes que Marian terminasse de explorar a biblioteca havia entregado a Lila um mapa antigo dos Túneis Conjuradores para que ela pudesse se orientar por entre eles.
No canto papel havia uma pequena assinatura que ela pensava ser o nome “Prudence” e um sobrenome que se distorcia na letra cursiva tornando-se impossível de ler. De toda forma, Lila não conseguira se conter por mais nem um segundo, não conseguira nem mesmo esperar pelo dia seguinte. Assim que Marian foi dormir ela pegou o mapa e a bolsa e pôs-se a correr em disparada até a entrada dos Túneis.
Após descer com todo o cuidado possível as escadas invisíveis ela ascendeu a lanterna e começou a caminhar pelos corredores que deveriam levá-la ao escritório de Macon em Ravenwood.
Estar sozinha ali embaixo a deixava receosa, pois não queria imaginar que tipos de criaturas das Trevas podiam cruzar seu caminho. O que ela faria se se deparasse com Silas ou Hunting? Era mais que provável que terminasse sua noite morta em um dos cantos escuros daqueles túneis.
Ela balançou a cabeça, tentando banir o pensamento de sua mente e começou a andar mais rápido, guiando-se pelas direções indicadas no mapa. Seus passos ecoavam pelas paredes e pareciam ser o único barulho naquele lugar.
A caminhada até Ravenwood não pareceu tão longa quanto deveria ter sido realmente, ela não fazia ideia de a que horas parou em frente a porta de madeira ou de quanto tempo levara para chegar até lá, só sabia que assim que viu a entrada que a levaria até Macon seu coração disparou.
Puxando a bolsa um pouco mais para frente, Lila guardou o mapa e ficou apenas com a lanterna nas mãos. Primeiramente ela decidiu tentar girar a maçaneta, só para o caso de a porta estar aberta. E de fato estava.
Quem deixava o acesso para um túnel desses aberto para qualquer um entrar? Bem, aquela casa tinha mesmo que ser de um Incubus para ninguém se importar com intrusos... Lila fechou a porta atrás de si e se deparou com um pequeno escritório.
Olhando ao redor do cômodo ela pôde ver uma entrada no teto. A escada, no entanto seria um problema. Tateando os degraus invisíveis ela subiu vagarosamente, tropeçando no escuro algumas vezes e outras quase derrubando sua lanterna.
Embora com dificuldade ela conseguiu chegar ao último de grau empurrar a entrada. A portinhola de madeira era pesada e quase se mostrou um problema, quase, mas naquele dia nada a impediria de chegar até Macon, muito menos aquele alçapão idiota.
Lila passou pelo portal e se deparou com o quarto de Macon em Ravenwood, percebendo o tapete pesado que estivera cobrindo a passagem por onde ela acabara de entrar. Talvez parte de sua dificuldade para abrir o alçapão fosse devido ao peso daquilo.
Ela colocou a bolsa e lado e voltou a fechar a passagem e cobri-la, depois pegou novamente suas coisas e abriu a porta pondo-se a caminhar pela enorme casa. Havia música vindo do andar de baixo, uma suave melodia certamente tocada por um piano. Era um ritmo melancólico e triste, mas que cativou Lila desde o primeiro segundo em que o som atingiu seus ouvidos.
Seguindo a música ela apagou a lanterna e desceu as escadas silenciosamente indo até a fonte daquelas notas calculadas e doces. Chegando a sala de estar ela teve sua primeira visão de Macon em dias: estava de costas, seus dedos batendo as teclas do piano e sua cabeça movimentando-se levemente conforme a música.
Apesar de não ter conseguido dizer nada e nem de ter sido capaz de se mover, ela soube que Macon havia sentido sua presença na sala, pois seu corpo ficou tenso e mesmo ele não tendo parado de tocar, havia saído do transe no qual parecia estar envolvido segundos antes.
– Eu já te disse para ir embora, Leah. – disse ele com rispidez, sem nem mesmo se virar para ela.
Lila umedeceu os lábios e tomou coragem para se pronunciar.
– Não é a Leah, Macon. Sou eu.
Subitamente a música parou. Macon Ravenwood se virou para ela com uma expressão tão incrédula e ao mesmo tempo tão furiosa que ela chegou a se assustar.
– O que diabos você está fazendo aqui? – ele perguntou seu tom de voz tão alto quanto ela jamais havia ouvido estar.
Engolindo em seco ela largou a bolsa no chão e se aproximou dele. Havia um cheiro estranho no ar, um cheiro que ela distinguiu quase que imediatamente.
– Você andou fumando? – perguntou Lila subitamente.
O cheiro de nicotina presente no ar era inconfundível. Era o mesmo cheiro que ficava constantemente em frente ao dormitório dela na faculdade, depois de um dia onde uma multidão de jovens que transitava pelo prédio passava jogando a fumaça quase tóxica no ar e deixando para trás o aroma forte das substancias contidas nos cigarros.
Macon franziu a testa para ela, talvez pego de surpresa pela importância repentina que ela parecia dar a uma coisinha tão trivial quanto um cigarro estúpido. Ou talvez ainda estivesse frustrado em vê-la.
– Alguns vícios são calmantes. – respondeu ele.
Lila ergueu uma sobrancelha.
– E você aprendeu isso com quem? Com o maníaco do seu irmão?
– Você ainda não me respondeu. O que está fazendo aqui?
– O que você acha que estou fazendo aqui, Macon? Não vou deixar que você faça isso com sigo mesmo, que se esconda nessa maldita casa como se fosse um monstro como seu pai. O que aconteceu naquele dia... Foi uma demonstração dos motivos pelos quais você não deve se deixar abater, dos motivos pelos quais você não deve ser como ele.
As mãos de Macon se ergueram até o cabelo, passando-se nervosamente entre os fios negros e depois caindo impotentes ao lado do corpo enquanto ele se levantava do banco do piano.
– Você tem que se esquecer de suas esperanças infantis, Jane. – rosnou ele, e cinismo contido em suas palavras fez com que o coração de Lila se dobrasse em dois, se contorcesse dentro do peito como se tivesse sido atingido por uma faca – Eu sou o que sou e você jamais poderá mudar isso.
Apertando nervosamente os dedos um contra os outros ela deu um passo em direção àquele que amava e àquele que no momento lhe parecia tão estranho e tão familiar ao mesmo tempo. Deu um passo em direção a uma pessoa perdida na desilusão.
– Você é quem escolhe ser, Macon. Nós não somos escravos de um destino o qual não aceitamos, basta você não aceitar. Faça uma escolha. Não por mim, por sua mãe e nem por ninguém, mas por si mesmo.
Os olhos negros do Incubus de baixaram e ele pareceu tão vulnerável que até mesmo os anjos poderiam ter pena dele.
– Não sei se consigo. Pelo menos não mais. – foi a resposta de Macon.
Sem conseguir mais se conter Lila avançou a distancia final os separava e jogou os braços em torno da cintura de Macon, enterrando o rosto em sua camisa preta. O cheiro de cigarros invadiu seus sentidos e, embora se sentisse desconfortável ao inala-lo ela não o soltou.
Por um longo momento Macon não reagiu, ele não se moveu nem um centímetro para que pudesse retribuir o abraço e nem mesmo disse nada, mas então como se movido por um súbito choque suas mãos de enterraram nos cabelos castanhos e macios da moça e ele puxou seu rosto para cima.
Entregaram-se a um beijo apaixonado e desesperado e, dessa vez, talvez pela primeira vez, Lila soube que suas esperanças não passavam disso: meras esperanças e que seu tempo ao lado daquele homem estava se encerrando.
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