Beautiful and Dangerous
29 28. Guardiã
Notas iniciais
Enquanto Arelia as guiava pelos Túneis, Lila só conseguia pensar que aquela era sua pequena chance de fazer uma diferença um pouquinho maior na vida de Macon. Talvez aquela fosse sua chance de tê-lo de volta para nunca mais perdê-lo.
Ela podia estar soando incrivelmente tola ao pensar isso, mas não conseguia se conter, não podia deixar que seu coração partido fosse preenchido por uma onda de esperança ao ponderar sobre os benefícios que seu trabalho como Guardiã poderia lhe acarretar. Parte dela não queria se agarrar a nenhum tipo de fantasia, pois sabia muito bem que as coisas no mundo Conjurador eram complicadas e que ela verdadeiramente tinha muito mais chances de falhar em seus esforços do que de ter sucesso.
Haveria um preço por tudo aquilo, é claro. Estar envolvida com o Sobrenatural em si já era um tipo de risco que estava explicito, participar desse mundo seria duplamente mais comprometedor, mas não havia nada que ela não faria para ter uma chance de salvar Macon de seu próprio destino. De si mesmo.
Conhecer Silas, havia sido um certo choque, porque até o momento anterior só havia visto a parte bela da Escuridão, aquela que quando domada é tão linda quanto a própria Luz. Saber que havia pessoas como aquele Incubus por ai era meio perturbador, por isso Lila sabia que, na mente momentaneamente conturbada de Macon ele pensava que ao se afastar dela estava protegendo-a, mas ele sequer podia imaginar o mal que lhe causava estar longe dele.
As horas passadas nos Túneis pareceram minutos, ao mesmo tempo em que esses minutos pareceram uma eternidade muito grande para ser contada. Ela já estivera nos Túneis antes, mas isso não os tornava menos incríveis agora, Lila poderia passar dias se perdendo ali só para ver onde conseguiria chegar.
– Uau. – murmurou Marian enquanto continuavam a caminhar infinitamente.
– É sim. – concordou ela – Uau.
– Você já esteve aqui antes? – perguntou a amiga.
Lila simplesmente assentiu.
Sua mente estava perdida em devaneios. Na última vez em que estivera ali fora com Macon e quando estava com ele o infinito inteiro não parecia ser suficiente, talvez pelo fato de ambos saberem que seus dias juntos estavam contados desde o momento em que se conheceram durante uma aula de História. Aquela aula que parecia ter acontecido tantos anos antes e não verdadeiramente há poucos meses...
Quando Lila pensava em sua relação com Macon Ravenwood, não conseguia deixar de se sentir melancólica ou nostálgica. A história dos dois era tão simples e ao mesmo tempo tão complicada! Haviam se conhecido como qualquer outro par de estudantes da universidade e acabaram por ser o Incubus e a Mortal cujo único desejo era mandar para o inferno todas as barreiras do mundo Conjurador que os impedia de se amar.
As três mulheres caminharam silenciosas pelos Túneis Conjuradores seguindo em direção a um novo destino, a um lugar que somente Arelia Valentin conhecia, a ansiedade fazia com que os corações das duas meninas mais novas disparassem e que suas mãos suassem.
Finalmente, após uma longa caminhada pararam diante a uma porta de madeira onde via-se uma lua crescente entalhada. Arelia parou diante dela e as meninas fizeram o mesmo.
Por um instante apenas fitaram a porta como se ela fosse o deus da mudança, então Arelia tirou do bolso uma chave crescente e a estendeu para Lila que apenas pôs-se a observar o objeto.
– Agora ela sua. – disse Arelia – A partir de hoje você é a Guardiã oficial da Lunae Libri de Gatlin, Lila Jane. O Conselho providenciará toda a papelada mais formal que você terá de assinar, mas isso é para depois. Antes de entramos quero apenas ter a certeza de que você sabe no que está se metendo, pois este trabalho pode ser tanto gratificante quanto perigoso.
Lila mordeu o lábio e assentiu.
– Eu não me importo. – disse ela, ainda que imprudentemente – Eu faria mais por Macon do que sequer posso colocar em palavras.
Um sorriso se distendeu no rosto arredondado de Arelia, seus belos olhos pareciam brilhar.
– Obrigada. – disse a mulher com uma gentileza extrema pesando no tom de sua voz.
– Pelo quê? – questionou Lila.
– Por amar meu filho dessa forma. Você é a Luz da vida dele.
As bochechas da moça ficaram coradas e ela baixou os olhos balançando a cabeça como se para tentar de livrar da nova cor rosada de sua face. Arelia pegou as mãos de Lila e colocou nelas a chave da biblioteca enquanto a pedia que abrisse a porta. Ela olhou pelo canto dos olhos para Marian que assistia a conversa das duas, calada como jamais ficava.
Ela sorriu para a amiga e então destrancou a porta. Depararam-se com a mais maravilhosa biblioteca que já tinham visto na vida, não havia palavras para descrever aquele lugar. Lila pensava que tinha encontrado o Paraíso.
Marian foi a primeira a adentrar o local, seus olhos brilhavam como os de uma criança perdida em uma loja de brinquedos e sua boca estava aberta em admiração.
– Esse lugar é simplesmente, fantástico! – exclamou a garota – Então é aqui que vamos trabalhar?
Arelia assentiu para ela.
– Sim, é bem aqui que vocês duas trabalharão. Marian você será a assistente de Guardiã da Lunae Libri, esse trabalho vai ser tão responsabilidade sua quanto de Lila, se alguma coisa acontecer com ela você terá de assumir o cargo de Guardiã.
Marian assentiu.
– Muito bem, minhas queridas. – começou Arelia – Deixem-me explicar-lhes apenas uma regra fundamental neste trabalho: vocês podem pesquisar, escrever e ouvir sobre o mundo Conjurador, mas a partir de agora, a partir do momento em que se comprometerem com este trabalho não poderão mais interferir em nosso mundo.
Ditas essas palavras o coração de Lila deu uma brecada dolorosa. Como diabos ela poderia ajudar Macon se não pudesse interferir em seu mundo?
– Sra. Valentin, se não posso interferir em seu mundo isso quer dizer que terei de me afastar de Macon? Foi por isso que a senhora me quis neste trabalho? Para que eu me afastasse dele? – perguntou ela com um leve tom de desespero transparecendo sua voz.
Arelia balançou a cabeça negativamente.
– Acho que você não me compreendeu, Lila Jane, eu lhe trouxe aqui exatamente porque acredito em seu potencial e sei que de alguma forma você pode ajudar meu filho. Não quero separá-la dele, jamais me atreveria a fazer isso. – explicou ela – Quando digo que vocês duas não poderão mais interferir no mundo Conjurador, quero dizer magicamente falando.
– Ah. – resmungou Lila.
Um silêncio dominou o recinto por um instante antes que Marian voltasse a falar.
– Será que eu posso dar uma volta pela biblioteca? – perguntou ela.
– Mas é claro que pode. – respondeu Arelia – Familiarize-se com o ambiente, querida.
Marian deu as costas a elas e pôs-se a andar de forma quase saltitante pelo lugar.
– Lila Jane, venha comigo. – chamou a mais velha.
As duas caminharam até uma escrivaninha e Arelia fez menção para que Lila se sentasse na cadeira atrás desta, enquanto ela se apoiava contra a madeira da mesa.
– Essa será sua escrivaninha. – disse ela.
Com uma olhada para a placa de metal a sua frente Lila pôde distinguir (ainda que sem seus preciosos óculos) a palavras “Guardiã” escrita em letras maiúsculas.
– Vou encontrar um jeito, Sra. Valentin, você verá.
Arelia deixou que um sorriso lhe escapasse pelos cantos dos lábios.
– Deixe-me lhe contar uma coisa, minha querida. Eu já me apaixonei da mesma forma que você está agora.
Lila ergueu a cabeça, repentinamente tomada por uma raiva irracional. Arelia só podia estar falando do pai de Macon, mas ela não podia compreender como uma mulher tão doce e bondosa como aquela poderia ter algum dia visto alguma coisa em um demônio como Silas Ravenwood.
– Você está falando de Silas? – questionou a moça – Porque eu não consigo entender como você pôde amar aquele monstro.
Os lábios de Arelia se franziram e seus olhos demonstraram algo que ao mesmo tempo era compreensível e incompreensível. Era um misto estranho de remorso, amor e culpa.
– Ele não era um monstro quando eu o conheci, era apenas o amor da minha vida. Acho que você pode me entender, passei pela mesma coisa que você está passando com Macon. Eu nunca, jamais pensei que ele pudesse se tornar esse monstro que é hoje, pensei que Silas fosse mais forte do que isso. Mas ele não era.
A menina balançou a cabeça em concordância. É claro que ela podia se identificar com essa aura esperançosa de Arelia, mas não conseguia formar uma imagem de Silas que fosse bondosa como a mulher a sua frente. Ou até mesmo normal como qualquer outro homem, ela só conseguia a imagem daquele infeliz de sangue frio machucando o próprio filho, sangue de seu sangue.
Ela ponderava consigo mesma se isso um dia não aconteceria com Macon, se um dia seria ela falando dessa forma, como se tivesse sido uma tola no passado... Uma lágrima fujona caiu por sua bochecha e ela tratou de enxugá-la antes que começasse a chorar como uma criancinha. Arelia se inclinou e tocou sua bochecha.
– O que houve, minha querida?
– Não quero que isso aconteça com Macon. – respondeu ela.
– Nem eu. – disse Arelia – Não desejo esse destino para meu filho, sei que sou unicamente culpada por sua condenação. Sei também que fui muito imprudente quando estava apaixonada, não pensei no futuro até que ele estivesse batendo a minha porta. Não pensei o que seria de meus filhos.
Lila balançou a cabeça.
– Não é culpa sua.
– É sim, mas está tudo bem, um dia encontrarei uma forma de me perdoar por isso. Mas ouça bem, Lila Jane, eu sei de uma coisa: Macon tem duas coisas que tanto o pai quanto o irmão não tinham. A primeira é força de vontade, a segunda e talvez a principal é você.
Os olhos da moça baixaram e suas bochechas coraram levemente.
– Ele não quer me ver no momento, você mesma disse que está trancafiado em Ravenwood.
– Dê a ele um tempo. – pediu Arelia – Prometa que não irá procurá-lo.
Lila mordeu o lábio com um pouco de força, pois estivera pensando exatamente no contrário, no entanto pensou que omitir suas reais intenções não seria lá um grande crime.
– Eu prometo. – sussurrou ela.
Arelia riu e balançou a cabeça para ela.
– Não precisa mentir para mim, minha querida. Eu a vejo indo até lá e arrastando-o de volta para a Luz. Apenas prometa-me uma coisa e, dessa vez, verdadeiramente.
– O quê?
– Prometa que irá dar a meu filho os melhores dias de sua vida, pois em nosso mundo nunca se sabe o que acontecerá depois.
Ela levantou a cabeça decidida.
– Eu prometo e, desta vez vou fazer um juramento que carregarei comigo pelo resto de minha vida: a partir de hoje vou me dedicar a encontrar uma solução pela qual Sobrenaturais e Mortais possam fazer mais do que coexistir. Me dedicarei a isso até o último dia de minha vida e o farei não apenas por Macon, mas também por mim mesma.
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