Notas iniciais
Problemas atrás de problemas... Acreditem eles apenas acabaram de começar.

Existem dois tipos de dor. A dor física embora seja algo desconfortável, ou até mesmo insuportável, dependendo do tipo de machucado em nada se compara com o tipo de dor sentida no coração. A dor da perda não é algo contra a qual você possa lutar, é um inimigo invisível sem remédio para a cura, sem uma opção que extinga.

Todo o ser humano sabe que a vida termina uma hora ou outra, mas ninguém se dá conta disso até que alguém com quem você se importe parta. Lila sabia muito bem disso.

Ela ouviu as palavras de Caroline e o significado para aquela frase fez com que seu coração se despedaçasse em mil.

O telefone escorregou pelos dedos trêmulos.

As lágrimas caíram.

E Lila Jane Evers assim tão facilmente se deu conta de que jamais veria sua mãe viva novamente.

...

Macon soube que havia algo de errado assim que Lila começou a falar com Caroline, mas ele apenas percebeu a gravidade da coisa quando a moça deixou que o telefone caísse e começou a chorar como uma garotinha perdida no meio do nada. Ela procurou por um apoio inexiste próximo a si e Macon viu seus joelhos tremerem e fraquejarem, porém conseguiu chegar até ela a tempo.

Lila deixou que Macon a acolhesse em seus braços e assim ele o fez, ajoelhando-se no chão com ela enroscada em si sem parar de chorar por um único instante.

–Jane... – murmurou ele – O que aconteceu, meu amor?

–Mi-minha mã-e. – disse ela entre soluços – Mo... mo-o-rta.

–Oh, céus! Eu sinto muito. – disse Macon – Ah, Jane, sinto tanto...

Ela enterrou o rosto no ombro dele e continuou chorando.

Não havia consolo que Macon pudesse lhe dar, pois ele sabia que quando você perde alguém, não quer ouvir as palavras bobas que as pessoas tem a dizer à você. Não quer ouvir nem as condolências e os “siga em frente”. Quando você perde alguém a única coisa que você deseja fazer é sofrer e se deixar sentir a dor até que ela vague para o fundo da sua mente e seja apenas uma lembrança horrível que te atinge de vez em quando.

...

Naquela noite terrível de janeiro Lila se deitou ao lado de Macon, chorando até que a exaustão a fizesse ceder à inconsciência e ela finalmente dormisse. Não houveram sonhos para se ver naquela noite, a mente dela era um branco total, a tristeza parecia ter-lhe roubado até mesmo a criatividade que sempre enchia suas horas de sono.

Logo pela manhã Macon avisou na secretária da universidade que os dois não estariam presentes por conta do falecimento da mãe da moça e então ambos seguiram para o dormitório para Lila pudesse apanhar alguns objetos para levar consigo à Savannah.

–Tem certeza de que não quer que eu suba com você? – perguntou Macon pela décima vez.

–Não. Está tudo bem, eu juro. Volto em um minuto.

Lila tinha conseguido parar de chorar, mas isso não queria dizer que ela estivesse melhor e Macon sabia disso muito bem, por isso estava tão preocupado.

Ao subir as escadas até o pequeno apartamento (se é que se podia chamar aquele espaço minúsculo de apartamento) ela se pegou pensando sobre os biscoitos da sorte que ela Marian haviam aberto no dia de seu retorno à faculdade.

Você perderá alguém que ama, diziam eles.

Dois biscoitos dizendo a mesma coisa.

Naquela noite ela não notara, porém haviam duas pessoas que ela estava prestes a perder: sua mãe e Macon. Sua doce e adorada mãe, para uma doença que a fizera definhar vagarosamente nos últimos anos e seu amado Macon Ravenwood, (talvez em um futuro não tão longe assim) para o destino de um Incubus.

Será que o destino podia ser assim tão cruel com ela?

Ela queria acreditar que não. Queria acima de tudo acreditar que o destino, ou o que quer que seja, não permitiria que Macon se afastasse dela, mas Lila temia estar errada.

Chegou à sua porta e passou a chave pela tranca. Ela se deparou com Marian tomando seu café da manhã no balcão da cozinha-sala.

–Ei, Lils! – disse Marian após uma golada de chá – Conseguiu falar com sua irmã ontem?

O queixo de Lila tremeu e seus sentimentos vieram à tona, repentinamente ela se pegou chorando de novo. Marian franziu as sobrancelhas e largou a xícara em cima do balcão, caminhando até ela e oferecendo-lhe um abraço.

–O que aconteceu? – perguntou ela – Macon fez alguma coisa com você? Aquele desgraçado te machucou? Diga, pois se ele te fez algum mal, Incubus ou não, eu acabo com ele!

Lila quase riu, mas somente quase.

–Macon não... Não-o fez na-da, jamais faria. – disse ela tentando superar o bolo em sua garganta – É a minha mãe, May. Ah, May... Minha mãezinha... Está morta.

–Ah! – exclamou Marian – Deus, eu não sabia! Lila, querida, eu sinto muito.

Lila assentiu como se já esperasse por aquelas palavras e se soltou da amiga, enxugando os olhos nas mangas da blusa.

–Eu tenho que pegar algumas coisas, preciso ir para a casa. Meu pai e minha irmã precisam de mim e... – ela fechou os olhos e respirou profundamente – Ela vai ser enterrada esta tarde.

Marian apertou os lábios e assentiu de volta.

Sem mais o que se dizer Lila seguiu até seu quarto e colocou os itens essenciais de que necessitaria dentro de uma mochila. Separou seu vestido preto, mais bonito, aquele que sua mãe lhe dera no ano anterior, pouco antes de sua formatura no Ensino Médio.

Lila se lembrava com perfeição da forma que sua mãe sorrira e lhe dissera que ela era a menina mais linda do mundo, ainda que isso fosse claramente uma mentira. Lembrou-se em especial de uma última carta que recebera dela. Lila havia deixado com a mãe o endereço de Ravenwood para que as duas pudessem se corresponder durante as férias e, apenas um dia antes de deixarem a mansão ela recebera esta última carta que ainda estava dobrada no meio do diário da menina.

Levantando o travesseiro ela retirou o caderninho de couro com cuidado de dentro da fronha e o abriu na última entrada, onde a folha de papel dobrada marcava a página e então leu silenciosamente as últimas palavras de sua mãe para ela.

Minha amada filha,

Ontem Caroline foi para Nova Iorque com algumas amigas e seu pai disse uma coisa interessante. Ele disse, e com total exatidão transcrevo: “O momento em que você percebe que elas não são mais garotinhas é o momento mais doloroso da sua vida”. Concordo e discordo com ele ao mesmo tempo. Deixe-me explicar o porquê.

É incrivelmente difícil para mim, como mãe, ver minhas meninas partirem, mas é incrivelmente gratificante vê-las se tornarem mulheres. Eu confio em vocês duas cegamente. Sei que Caroline jamais faria qualquer besteira em Nova Iorque, sei que ela jamais dirigiria um carro bêbada e nem nada do gênero. Sei que você jamais faria nada com seu namorado sem pensar duas mil vezes antes e confio nas suas decisões.

Criei duas belas meninas para serem as mais maravilhosas damas sulistas que já se viu, mas veja só, não as criei para serem ignorantes e fofoqueiras coisa que me orgulho em dizer que nenhuma de vocês é.

Minha querida, sei que estou divagando em demasia, mas existem tantas coisas que desejo lhe dizer Lila Jane e sinto como se não fosse ter tempo de lhe dizê-las.

Saiba que se Macon Ravenwood for a sua escolha de homem para passar o resto da sua vida, que lhe apoio e que o acho um ótimo rapaz. Se ele não for o eleito, saiba que ele não é último na terra, você encontrará outra pessoa algum dia, Deus queira que ele não seja nenhum tipo de lunático, mas tenho certeza de que não será. Novamente confio em seu julgamento e nas suas escolhas.

Eu gostaria também de dizer que estou feliz sobre os rumos que sua vida tem tomado, minha filha, um dia sei que você será muito bem sucedida em qualquer trabalho que exercer.

Termino esta carta enviando-lhe me eterno amor por você. Minha pequena Jane, você significa o mundo para mim.

Com todo o amor,

Sua mãe.

Notas finais
Obrigada por todas as visualizações. Sinceramente agradeço a todos que estão lendo está história. Seus comentários serão sempre muito apreciados.