Beautiful Disaster
21 Capítulo 21
Notas iniciais
Acordei de bruços, nua e enrolada nos lençóis de Regina Mills. Mantive os olhos fechados, sentindo seus dedos acariciarem meu braço e minhas costas. Ela soltou o ar com um suspiro contido e profundo, falando com a voz abafada:
— Eu te amo, Emma. Vou te fazer feliz, juro que vou.
A cama balançou quando ela se mexeu, e então seus lábios estavam nas minhas costas em beijos lentos e suaves. Fiquei parada e, assim que ela chegou até a pele abaixo da minha orelha, se levantou e saiu da cama. Seus pés atravessaram calmamente o quarto, então os canos soltaram um ruído agudo por causa da pressão da água do chuveiro.
Abri os olhos e me sentei na cama. Todos os músculos do meu corpo doíam, músculos que eu nem sabia que tinha. Mantive o lençol encostado no peito, olhando pela janela, observando o dia lindo que se iniciava lá fora.
O celular da Regina vibrou em algum lugar. Depois de procurar, desajeitada, em meio às roupas amarrotadas no chão, achei-o no bolso de sua calça. No mostrador havia apenas um número, nenhum nome.
— Alô?
— Hum... A Regina está? — perguntou uma mulher.
— Ela está tomando banho, quer deixar recado?
— É claro que ele está tomando banho. Diz que a Kristin ligou, tá?
Regina entrou no quarto, apertando o roupão em volta da cintura, e sorriu quando lhe entreguei o celular.
— É pra você— falei.
Ela me beijou antes de olhar para o mostrador, depois balançou a cabeça.
— Fala. Era a minha namorada. O que você quer, Kristin?- Ela ficou escutando por um momento e depois abriu um sorriso. — Bom, a Beija-Flor é especial, o que eu posso fazer?— Depois de uma longa pausa, ela revirou os olhos. Eu podia imaginar o que ela estava dizendo. — Não seja ridícula, Kris. Escuta, você não pode mais me telefonar... É, o amor faz isso com a gente— ela disse, olhando para mim com uma expressão terna. — É, com a Emma. É sério, Kris, para de me ligar... Tchau.
Ela jogou o celular na cama, sentando-se ao meu lado.
— Ela ficou meio brava. Ela te falou alguma coisa?
— Não, só perguntou por você.
— Eu apaguei os poucos números que tinha no celular, mas acho que isso não impede que elas continuem me ligando. Se elas não sacarem a situação sozinhas, vou ter que dar um jeito nisso.
Ela ficou olhando para mim com ares de expectativa. Não pude evitar e acabei sorrindo e balancei a cabeça. Eu nunca tinha visto esse lado dela.
— Eu confio em você, sabia?
Ela pressionou os lábios nos meus.
— Eu não te culparia se você esperasse que eu fizesse por merecer sua confiança.
— Tenho que tomar banho. Já perdi uma aula.
— Viu? Já sou uma boa influência.
Eu me levantei e ela deu um puxão no lençol.
— Te pego na faculdade pra almoçarmos com as meninas no The Planet, ok?
— Você nem perguntou se eu quero. Está assim já?— Arqueei uma sobrancelha.
— Eu... Eu... Me desculpa. Onde você quer almoçar hoje? Digo, você quer almoçar comigo hoje? — Regina me perguntou com a testa franzida, sua expressão um misto de dúvida e preocupação.
Eu continuei com a cara fechada por 3 segundos até não aguentar mais e soltar uma gargalhada, jogando um travesseiro nela.
— Podemos sim ir ao The Planet, eu só estou brincando. E a gente ainda vai jogar boliche hoje à noite? — eu quis saber, me perguntando se o convite era só para passar um tempo sozinha comigo, o que agora ela não precisava mais fazer.
— Claro que sim! Eu vou acabar com você!
Estreitei os olhos e falei:
— Não, dessa vez você não vai. Eu tenho um novo superpoder.
Ela riu.
— E qual é?
Eu me inclinei para beijar seu pescoço, percorrendo-o com a língua até a orelha e beijando o lóbulo. Ela ficou paralisada.
— Distração— falei baixinho ao ouvido dela.
Ela me agarrou pelos braços e me virou de costas.
— Você vai perder outra aula.
Depois de finalmente conseguir convencê-la a sairmos do apartamento a tempo de assistir à aula de fotografia, Regina dirigiu como de costume até o campus e em dez minutos ela corria para abrir a porta da Ferrari para eu descer. Com a mão estendida ela me ajudou a descer e me puxou pelo braço, depositando um beijo em meus lábios, na frente de todo mundo.
— Que foi, Beija-Flor? — ela me perguntou, me abraçando pela cintura.
— Todo mundo está olhando pra gente.
Ela levou minha mão até a boca e beijou meus dedos.
— Eles vão superar isso. É só o choque inicial. Lembra quando começamos a andar juntas? A curiosidade foi morrendo depois de um tempo e eles se acostumaram a ver a gente juntas. Vamos lá — disse ela, me beijando novamente.
Nós nos despedimos e ela arrancou para os estúdios. As aulas foram tranquilas, mas por onde eu passava os burburinhos eram inevitáveis. Horas depois Regina me buscou e fomos ao The Planet encontrar as meninas.
Regina me tirou de um devaneio com um beijo estralado na bochecha.
— Você está aqui, Flor?
— Desculpa, baby. Só estava pensando em umas coisas aqui.
Minha orelha ardeu quando Shane se virou para olhar para mim.
— Escapou...— falei, balançando a cabeça.
Ergui o olhar para Regina, cuja expressão era um misto de divertimento e adoração.
Tínhamos usado esse termo uma com a outra algumas vezes naquela manhã, e não havia me passado pela cabeça que era novidade para todo mundo até que escapou da minha boca.
— Vocês duas acabaram de chegar no nível de irritantemente fofas — disse Shane, abrindo um largo sorriso.
Zelena deu um tapinha no meu ombro.
— Você vai dormir lá hoje?— ela me perguntou, as palavras distorcidas por causa do barulhinho de sucção que ela insistia sempre em fazer, com o canudinho do suco. — Prometo que não vou sair do meu quarto te xingando.
— Você estava defendendo a minha honra, Zel. Está perdoada — falei.
Regina levou uma garfada de torta de maçã à boca, parecendo mais feliz do que nunca. A paz em seus olhos estava de volta e, mesmo com todas as pessoas que observavam cada um de nossos movimentos, tudo parecia... Certo.
Pensei em todas as vezes que eu havia insistido que ficar com Regina era a decisão errada, e em quanto tempo eu tinha perdido lutando contra os meus sentimentos. Olhando para o outro lado da mesa, para seus olhos ternos e castanhos e aquele sorriso milimetricamente alinhado e branco dançando em sua face, eu não conseguia me lembrar do que me deixava tão preocupada. Observei-a levantar para ir ao banheiro, não sem antes me dar um selinho e uma piscadinha apaixonada.
— Ela parece super feliz. Você finalmente deu, Emma? — disse Marina, se aproximando da nossa mesa. Eu nem sabia que ela estava em Nova York, mas aquela definitivamente não era uma surpresa agradável.
— Você não é lá muito esperta, hein, Marina? — disse Zelena, franzindo a testa.
Instantaneamente, o sangue subiu ao meu rosto e olhei para Regina que havia voltado, cujos olhos tinham uma expressão assassina. Coloquei minha vergonha de lado e balancei a cabeça, indiferente.
— É só ignorar.
Depois de mais um momento de tensão, os ombros de Regina relaxaram um pouco e ela assentiu, inspirando fundo. Após alguns segundos, deu um sorrisinho para mim.
Estiquei a mão até alcançar a dela, entrelaçando nossos dedos.
— Você realmente estava falando sério ontem à noite, não estava?
Ela começou a falar, mas a risada da Marina com um grupinho de mulheres encheu o ambiente.
— Santo Deus, Regina Mills foi domada?
— Você estava falando sério quando disse que não queria que eu mudasse? — ela me perguntou, apertando de leve a minha mão. Olhei para Marina, que ria com suas colegas, e depois me virei para Regina:
— Totalmente.
Um sorriso largo e travesso se espalhou em seu rosto, e ela seguiu até a mesa onde elas estavam sentadas. O silêncio se espalhou pelo salão, e Marina ficou séria.
— Ei, eu só estava te enchendo o saco, Regina— ela disse, erguendo o olhar.
— Pede desculpas para a Beija-Flor - Regina ordenou, encarando-a.
Marina baixou o olhar para minha direção.
— Que patético isso. Mas, ok. Eu só estava brincando, Emma. Não leve a sério.
Fulminei-a com o olhar enquanto ela erguia a cabeça para Regina em busca de aprovação. Quando Regina se afastou, ela riu baixinho e sussurrou algo à amiga ao lado. Meu coração começou a bater com muita força quando vi Regina parar no meio do caminho e cerrar as mãos nas laterais do corpo. Bette balançou a cabeça e soltou o ar, exasperada.
— Eu não acredito que vocês vão ressuscitar essa briguinha.
Regina pegou dois copos cheios de suco que estavam na mesa e os jogou na cara da francesa, finalizando com a jarra inteira de suco de uva manchando sua roupa branca de academia.
— Se você ousar olhar pra ela, sua vadia, vou quebrar a porra do seu maxilar! — ela disse a centímetros do rosto de Marina.
Eu me encolhi com a reação de ambas.
As garçonetes saíram correndo, chocadas com a situação.
— Me desculpem— disse Regina, limpando o líquido da sua própria mão.
Algumas pessoas se levantaram para ver melhor, enquanto outras permaneceram sentadas, observando tudo com certo divertimento no olhar.
As amigas de Marina simplesmente ficaram encarando a morena se levantar pra ir embora xingando Regina em dez línguas diferentes, balançando a cabeça.
Zelena se virou e sua pose de irmã mais velha protetora apareceu. Ela respirou fundo antes de falar.
— Você está bem, Regina?— A ruiva quis saber.
— Só... Me dá um minuto — disse ela, pegando sua carteira de cigarro e indo até o fumódromo pisando duro.
Zelena levou as mãos até as têmporas e começou a massagear de olhos fechados.
Eu quis levantar e ir atrás dela, mas Bette me segurou.
— Emma, não. Fica aqui, dê esse tempo a ela.
— Eu estou chocada. Fazia muito tempo que eu não via a Regina assim. – Dana disse boquiaberta.
— Ah, mas a Marina provocou, vai. – Shane disse com como se a reação de Regina fosse a coisa mais natural do mundo.
— Hey, você só precisa aprender a lidar com esse temperamento. Ela não está acostumada a ter alguém, muito menos a sentir ciúmes. E ela e a Marina já tem uma rixa antiga, tudo contribuiu. Posso enxergar sua cabecinha funcionando aí dentro, mas não foi nada que você pudesse evitar. Só converse com ela depois, ok? Mas não fique paranoica com isso. – Alice disse, segurando a minha mão.
Eu agradeci Al com um sorriso. Minutos depois Regina voltou com a cara fechada.
— O que foi que a Marina disse para te deixar tão enfurecida, afinal?— Ruby questionou.
— Algo que ele nunca mais vai dizer— Regina respondeu, fervendo de ódio.
Ruby olhou para Zelena, que deu de ombros.
— Eu não escutei.
Regina cerrou os punhos de novo.
— Eu ainda acabo com essa mulher.
Zelena pôs a mão no ombro da irmã.
— Sua namorada está aqui. Não precisa se preocupar.
Regina olhou para mim, forçando-se a ficar calma.
— Ela disse que... Todo mundo acha que a Flor tem... Meu Deus, eu não consigo nem repetir.
— Fala logo de uma vez — murmurou Ruby, ficando impaciente.
— Todas as garotas agora querem “experimentar” a Emma porque ela domou a indomável Regina Mills— ela deu de ombros. — Pelo menos é o que elas estão dizendo até mesmo nos estúdios. E estão fazendo apostas sobre quanto tempo vai demorar pra eu fazer alguma merda. Porque eu sempre faço merda, não é?— Regina passou a mão nos cabelos fechando os olhos e bufando de raiva.
Eu só pensava em uma coisa para fazê-la se desprender daquele ciúme possessivo e de tanto rancor em relação à Marina, sem falar de tanta insegurança em relação a si mesma. Segurei seu rosto com ambas as mãos e enchi-a de beijinhos espalhados, falando que a amava entre um e outro.
Eu podia sentir que sua raiva se derretia e se esvaia enquanto ela me beijava e, quando me afastei, eu sabia que tinha vencido.
— A gente não liga para o que as pessoas pensam, lembra? Você não pode começar a se importar agora— eu disse, sorrindo confiante. Eu tinha mais influência sobre ela do que jamais achei que fosse possível.
— Não posso deixar que as pessoas falem desse jeito de você, Beija- Flor — disse ela franzindo a testa olhando para baixo.
Deslizei os braços embaixo dos dela, entrelaçando os dedos em suas costas.
— De que jeito? Eles acham que eu tenho algo de especial porque você nunca parou com ninguém antes. Você discorda?
— Claro que não, eu só não suporto pensar em todas as pessoas da sua faculdade e do trabalho querendo te comer por causa disso. — Ela pressionou a testa na minha. — Isso vai me deixar louca. Já estou vendo...
— Não fala “comer”, eu odeio isso!— eu disse dando um tapinha nela.
— Não deixe eles te atingirem, Regina — disse Zelena. — Você não pode surtar e jogar suco em todo mundo.
Regina suspirou.
— Todo mundo. Como você se sentiria se todo mundo pensasse algo assim sobre a Ruby?
— Quem disse que eles não pensam? — Ruby disse, ofendida.
Todos nós demos risada, e ela fez uma careta.
— Eu não estava brincando. – Ela fez um bico e Zelena a roubou um beijo.
— A gente sabe, baby. Eu desisti de ficar com ciúme faz um bom tempo. Eu não teria tempo de fazer mais nada.— Ruby sorriu em agradecimento e a abraçou. Zelena tinha uma habilidade incrível de fazer com que todos à sua volta se acalmassem, sem dúvida resultado de crescer com Regina e do trabalho voluntário que fez com pessoas necessitadas na África. Ela era um ser humano maravilhoso.
Regina terminou o almoço mais descontraída, conversando amenidades com todas da mesa, mas eu podia perceber que ela não estava bem.
— Você sabe que aquilo é um monte de besteira, não sabe? Não é verdade. Você é uma pessoa maravilhosa, eu não te domei, até porque você não é um animal. Você só encontrou alguém de quem gosta e resolveu sossegar. Você não precisa provar nada pra ninguém, Regi. Nem eu.
— Não preciso, mas eu vou provar que eles estão errados.
Conforme a semana foi passando, Regina levou sua promessa muito a sério. Ela não dava mais atenção às garotas que a paravam com outras intenções, às vezes era até rude com elas.
No sábado voltamos ao The Planet para uma festa de Halloween, fiquei um pouco nervosa em pensar como ela planejava manter as colegas bêbadas à distância.
Ruby, Shane e eu nos sentamos a uma mesa próxima enquanto observávamos Zelena e Regina jogarem bilhar contra dois amigos.
— Vai, baby — disse Ruby, levantando-se da banqueta.
Zelena piscou para ela e deu uma tacada, acertando a bola direto na caçapa.
— Uhuu! — ela gritou.
Um trio de mulheres vestidas como As panteras foi falar com Regina enquanto ela esperava sua vez de jogar. Sorri ao ver que ela fazia o melhor que podia para ignorá-las. Quando uma delas traçou com o dedo a gola de sua blusa Regina se virou. Ela acenou para que ela se afastasse, para que ela pudesse dar a tacada, e ela fez biquinho para as amigas.
— Dá pra acreditar como elas são ridículas? As garotas aqui não têm vergonha na cara!— disse Ruby.
Shane balançou a cabeça, rindo.
— É o efeito Regina Mills. Acho que é esse lance de bad girl. Ou elas querem salvar a mina ou acham que são imunes ao charme dela. Não sei ao certo qual dos dois.
— Provavelmente ambos— dei risada, tirando sarro das garotas que esperavam que Regina prestasse atenção nelas. — Imagina ficar esperando que ela te escolha. E saber que você vai ser usada só para sexo.
— Problemas com o pai — disse Ruby, tomando um gole de seu drinque.
Shane secou sua cerveja e deu um puxão em nosso vestido.
— Vamos lá, meninas! Quero dançar!
Ruby levantou animada.
— Vamos, Emms. Você não vai ficar sentada a noite toda né?
Nós nos juntamos aos policiais e vampiros na pista de dança, e Shane começou a exibir seus passos de dança ao estilo de Justin Timberlake. Olhei para Regina por cima do ombro e a peguei me observando disfarçadamente, fingindo olhar para Zelena, que acertava a bola oito na caçapa. Zel coletou os ganhos delas, e Regina foi caminhando para a mesa longa e baixa que fazia limite com a pista de dança, pegando uma bebida. Shane arrasava na pista, por fim se colocando entre mim e Ruby, como um sanduíche. Regina revirou os olhos e riu baixinho enquanto voltava para a mesa com a irmã.
— Vou pegar mais uma bebida, quer alguma coisa? — Ruby gritou mais alto que a música.
— Eu vou com você — falei, olhando para Shane e apontando para o bar.
Ela balançou a cabeça e continuou a dançar. Ruby e eu fomos abrindo caminho pela multidão até chegarmos ao bar. Os barman estavam mais do que ocupados, então nos preparamos para uma longa espera.
— As meninas estão detonando hoje — disse Ruby.
Eu me inclinei para falar ao ouvido dela.
— Eu nunca entendo por que alguém aposta contra a Zel.
— Pelo mesmo motivo que eles apostam contra a Regina e o Killian. Gostam de rasgar dinheiro— ela sorriu.
Um cara de toga se apoiou no balcão, ao lado de Ruby, e sorriu.
— O que as meninas estão bebendo?
— Nós compramos nossas próprias bebidas, obrigada — disse Ruby, olhando para frente.
— Eu sou o Mike— disse ele, e depois apontou para o amigo. — Esse é o Logan.
Sorri educadamente e olhei para Ruby, que fez sua melhor expressão de “caiam fora daqui”. O barman anotou nosso pedido e assentiu para os homens atrás de nós, se virando para preparar o drinque de Ruby, então trouxe um copo quadrado com um líquido cor-de-rosa e espumante e três cervejas. Mike lhe entregou o dinheiro e ele agradeceu.
— Isso aqui é demais— disse Mike, analisando a multidão.
— É—Ruby respondeu, irritada.
— Eu vi você dançando — Logan disse para mim, apontando com a cabeça para a pista de dança. — Você estava ótima.
— Ah... Obrigada — falei, tentando ser educada, e tendo cuidado porque Regina estava a poucos metros dali.
— Quer dançar? — ele me perguntou.
Balancei a cabeça.
— Não, obrigada. Estou com minha...
— Namorada — disse Regina, surgindo do nada. Ela desferiu um olhar de ódio para os homens parados à nossa frente, e eles recuaram um pouco, claramente contrariados.
Ruby não conseguiu conter um sorriso de orgulho quando Zelena a abraçou. Regina fez um sinal com a cabeça apontando para o outro lado do salão.
— Caiam fora. Agora.
Os homens olharam de relance para mim e para Ruby, dando alguns passos para trás antes de se misturarem à multidão. Zelena beijou Ruby.
— Não posso te levar em lugar nenhum, hein?
Ela deu uma risadinha, e sorri para Regina, que estava olhando feio para mim.
— Que foi?
— Por que você deixou o cara te pagar uma bebida?
Ruby soltou Zelena, percebendo o humor de Regina.
— A gente não deixou, Regina. Falamos pra eles não pagarem nada.
Ela tirou a garrafa da minha mão.
— Então o que é isso?
— Você está falando sério?
— Claro, porra! Estou falando sério — disse ela, jogando a cerveja na lata de lixo perto do balcão. — Já te falei mil vezes... Você não pode aceitar bebida de estranhos. E se ele colocou alguma coisa aí dentro?
Ruby ergueu o copo.
— As bebidas não saíram da nossa vista, Regina. Você está exagerando.
— Não estou falando com você — ela retrucou, com os olhos pregados nos meus.
— Ei! — reagi, com raiva. — Não fala assim com ela.
— Regina — disse Zelena em tom de aviso —, não começa.
— Não gosto que você deixe outros caras te comprarem bebida — Regina me disse.
— Me poupe, Regina. Você está tentando começar uma briga?
— Você gostaria de chegar no bar e me ver dividindo uma bebida com uma garota?
Revirei os olhos
— Tudo bem. Você não dá mais atenção pra nenhuma outra mulher. Entendi. Eu devia fazer o mesmo esforço. – Rebati irônica.
— Seria legal.
Era claro que ela estava tentando se segurar, e era um pouco intimidante estar do lado errado de sua ira. Seus olhos ainda brilhavam de raiva, e uma necessidade premente de partir para o ataque tomou conta de mim.
— Você vai ter que dar um tempo no lance da namorada ciumenta, Regina. Eu não fiz nada de errado. E se tem algo que eu não suporto são pessoas que me tratam como propriedade.
Ela olhou para mim, incrédula.
— Eu venho até aqui e um cara está te comprando bebida!— Ela disse dois tons mais altos.
— Não grita com ela! — disse Ruby.
Zelena colocou a mão no ombro de Regina.
— A gente já bebeu demais. Vamos embora.
O efeito geralmente calmante de Zelena não funcionou com Regina, e fiquei irritada com o fato de a explosão estupida de raiva dela ter acabado com a nossa noite.
— Preciso avisar a Shane que estamos indo embora— resmunguei, descontente, empurrando Regina com o ombro para ir até a pista de dança. Uma mão quente envolveu meu pulso. Eu me virei e me deparei com os dedos dela travados em mim, sem nenhum arrependimento.
— Eu vou com você.
Torci o braço para me soltar.
— Sou completamente capaz de dar alguns passos sozinha, Regina. Qual é o problema?
Avistei Shane no meio da pista e forcei caminho até ela.
— Que foi? —Shanegritou mais alto que a música.
— A Regina está de mal humor. Estamos indo embora!
Ela revirou os olhos e balançou a cabeça, acenando em despedida enquanto eu saia da pista de dança. Assim que vi Ruby e Zelena, fui puxada para trás por um cara fantasiado de pirata.
— Aonde você acha que está indo? — ele sorriu, quando foi empurrado por trás e tropeçou para cima de mim. Dei risada e balancei a cabeça ao ver a cara que ele estava fazendo. Assim que me virei para sair andando, ele agarrou meu braço. Não demorei muito para perceber que ele não estava me agarrando, mas se escondendo atrás de mim. Para se proteger.
— Ei! — ele gritou, olhando assustado para além de mim.
Regina veio como um raio para a pista de dança e mergulhou o punho fechado no rosto do pirata com tal força que o derrubou, me levando junto. Com a palma das mãos estirada no chão de madeira, pisquei sem conseguir acreditar. Senti algo quente e úmido na mão e, ao virá-la, me encolhi — estava coberta de sangue do nariz do homem. Ele cobria o rosto com as mãos em concha, mas o líquido vermelho e brilhante não parava de escorrer por seu antebraço enquanto ele se contorcia no chão.
Regina foi correndo me pegar, parecendo tão chocada quanto eu.
— Ai, merda! Você está bem, Flor?
Quando fiquei em pé, puxei o braço.
— Você está louca?
Ruby me agarrou pelo pulso e me puxou em meio à multidão até o estacionamento. Zelena destravou as portas do carro e, depois que me sentei, Regina se virou para mim.
— Desculpa, Beija-Flor, eu não sabia que ele estava segurando você.
— Seu punho ficou a centímetros do meu rosto! — gritei, pegando o pano que Zelena tinha jogado para mim. Limpei o sangue da mão, revoltada. – era um cara, Regina. A porra de um cara! E nem se fosse uma garota, você não tinha o direito de fazer isso. Que inferno, qual a droga do seu problema? — Eu gritava como se o mundo fosse acabar naquele momento.
A gravidade da situação fez com que o rosto dela assumisse um ar sério, e ela se encolheu.
— Eu não teria batido no cara se achasse que fosse pegar em você. Você sabe disso, né?
— Cala a boca, Regina. Só cala a boca — falei, encarando a nuca de Zelena.
— Flor... — ela começou a dizer.
Zelena bateu no volante com a mão fechada.
— Cala a boca, Regina! Você já pediu desculpa, agora cala a porra da sua boca!
Fizemos a viagem até o prédio em completo silêncio. Zelena saiu do carro e abriu a porta do carona para Ruby, que assentiu, dando um beijo de despedida na namorada.
— A gente se vê amanhã, baby.
Zel concordou, resignada, e a beijou.
— Te amo.
Passei por Regina e fui até o carro de Ruby. Ela veio correndo e ficou do meu lado.
— Por favor, não vai embora brava comigo.
— Ah, eu não estou indo embora brava. Eu estou furiosa.
— Ela precisa de um tempo para esfriar a cabeça, Regina — Ruby avisou-a, destravando a porta do carro.
Quando a trava do lado do passageiro levantou, ela colocou a mão na porta.
— Não vai embora, Beija-Flor. Eu passei dos limites. Me desculpa.
Ergui a mão, mostrando-lhe o sangue seco na palma.
— Me liga quando você tiver crescido.
Ela se apoiou na porta com o quadril.
— Você não pode ir embora.
Ergui uma sobrancelha, e Zelena deu a volta correndo no carro para ficar ao nosso lado.
— Regina, você está bêbada. E está a ponto de cometer um erro enorme. Deixa a Emma ir pra casa esfriar a cabeça... Vocês podem conversar amanhã, quando você estiver sóbria.
A expressão no rosto de Regina ficou desesperada.
— Ela não pode ir embora — ela disse, com os olhos fixos nos meus.
— Não vai funcionar, Regina —falei, puxando a porta. — Sai!
— O que você quer dizer com “não vai funcionar”? — ela perguntou em tom de súplica.
— Quero dizer essa sua cara triste. Não vou cair nessa — falei, me afastando.
Zelena ficou observando Regina por um instante, depois se virou para mim.
— Emma... Esse é o momento sobre o qual eu te falei. Talvez você devesse...
— Fica fora disso, Zel — disse Ruby, irritada, dando partida no carro.
— Eu vou fazer merda. Vou fazer muita merda, Flor, mas você tem que me perdoar. Eu estou aprendendo a lidar com isso tudo, por Deus, me perdoe!
— Eu vou acordar com um hematoma enorme na bunda amanhã! Você bateu naquele cara porque estava brava comigo! O que eu devo concluir disso? Porque estou vendo sinais de alerta por toda parte agora!
— Eu nunca bati em uma garota na minha vida. Nossa, isso é, uau. Meu deus, eu nunca faria isso — Ela disse, surpresa com as minhas palavras.
— E eu não vou ser a primeira! Tampouco vou arriscar — falei, puxando a porta. — Agora sai droga!
Regina assentiu e deu um passo para o lado. Eu me sentei ao lado de Ruby e bati a porta. Ela colocou o carro em marcha a ré, e Regina se abaixou para me olhar pela janela.
— Você vai me ligar amanhã, não vai? — ela disse, pondo a mão no para-brisa.
— Vamos embora, Ruby — pedi, recusando-me a olhar para ela.
A noite foi longa. Fiquei olhando para o relógio e me encolhi quando vi que mais uma hora tinha se passado. Eu não conseguia parar de pensar em Regina e se eu devia ou não ligar para ela, me perguntando se ela também estaria acordada. Por fim, coloquei os fones do iPod nos ouvidos e escutei cada música alta e agressiva da minha lista.
Da última vez que olhei para o relógio, passava das quatro da manhã. Os pássaros já estavam cantando, e sorri quando senti os olhos começando a ficar pesados. Parecia que haviam se passado poucos instantes quando ouvi alguém bater à porta e Ruby irrompendo quarto adentro.
Ela puxou os fones dos meus ouvidos e os colocou na cadeira da escrivaninha.
— Bom dia, flor do dia. Você está com uma cara horrível — ela disse, soprando uma bola cor-de-rosa de chiclete e estourando-a bem alto. — Você sabe que pessoas como você e a Regi vão brigar, certo?— disse Ruby, lixando as unhas enquanto mascava o chiclete.
Eu me virei na cama.
— Você está oficialmente demitida. Você é péssima no papel de consciência.
Ela deu risada.
— Eu te conheço. Se eu te entregasse a chave do carro agora, você iria direto pra lá.
— Iria nada!
— Ah, tá — ela disse.
— Você percebe tudo o que aconteceu ontem, Ruby? Isso não pode continuar acontecendo, eu não quero estar em um relacionamento abusivo. Nós precisamos de tempo... E além do mais são oito horas da manhã. Elas ainda devem estar desmaiadas.
Nesse momento, ouvi alguém batendo fraquinho à porta. Ruby esticou o pescoço para fora e caminhou até a porta. Ouvi o barulho quando ela girou a maçaneta, que se abriu devagar, revelando Regina na entrada.
— Posso entrar? — ela perguntou, com a voz baixa e áspera. As olheiras roxas sob seus olhos denunciavam a falta de sono.
Eu me sentei na cama, alarmada com sua aparência.
— Você está bem?
Ela entrou e caiu de joelhos na minha frente.
— Desculpa, Emma. Me desculpa — disse, abraçando minha cintura e enterrando a cabeça no meu colo.
Aninhei a cabeça dela nos braços e ergui o olhar para Ruby.
— Eu... hum... Eu vou tomar um banho — disse ela, sem jeito, buscando a maçaneta da porta.
Regina ergueu o olhar para mim.
— Eu sei que fico louca quando se trata de você, mas Deus sabe que estou tentando, Flor. Não quero estragar tudo.
— Então não faça isso.
— É difícil pra mim, sabe? Parece que a qualquer segundo você vai se dar conta da idiota que eu sou e vai me deixar. Quando você estava dançando, ontem à noite, vi uns dez caras diferentes te observando. Daí você vai para o bar, e vejo você agradecer aquele cara pela bebida. E depois aquele babaca na pista de dança te agarra.
— Você não me vê dando socos por aí toda vez que uma garota conversa com você. Eu não posso ficar trancada no apartamento o tempo todo. Você vai ter que dar um jeito no seu temperamento.
— É, eu vou. Eu nunca quis uma namorada antes, Beija-Flor. Não estou acostumada a me sentir assim em relação a alguém... A ninguém. Se você for paciente comigo, eu juro que vou dar um jeito nisso. Depois que você foi embora e me falou aquelas coisas eu fiquei pensando na babaca que eu fui. Nenhuma garota merece estar com alguém assim, eu não tinha o direito de te tratar daquele jeito, eu fui estupida e agora eu vejo isso, eu estou aprendendo e isso não vai se repetir, eu juro.
— Vamos esclarecer algumas coisas: você não é uma idiota, você é incrível. Não importa quem compra bebida pra mim, ou quem me convida para dançar, ou quem me paquera. Eu vou pra casa com você. Você me pediu para confiar em você, mas não parece que você confia em mim.
Ela franziu a testa.
— Isso não é verdade.
— Se você acha que vou te largar pela primeira pessoa que cruzar o meu caminho, então você não confia em mim.
Ela me apertou forte.
— Não sou boa o bastante para você, Flor. Isso não quer dizer que não confie em você, só estou me preparando para o inevitável.
— Não diga isso. Quando estamos sozinhas, você é perfeita. Nós somos perfeitas. Mas então você deixa o resto do mundo estragar isso. Eu não espero que você se transforme da noite para o dia, mas você tem que escolher suas batalhas. Você não pode sair na porrada toda vez que alguém olhar pra mim.
Ela assentiu.
— Eu faço qualquer coisa. Só... Diz que me ama.
— Você sabe que sim.
— Preciso ouvir você dizer — ela falou, juntando as sobrancelhas.
— Eu te amo — falei, tocando seus lábios com os meus. — Agora chega de bancar a bebezinha.
Ela deu risada, subindo na cama comigo. Passamos a hora que se seguiu no mesmo lugar, debaixo das cobertas, falando amenidades e nos beijando, mal notando quando Ruby voltou do banho.
— Você pode nos dar uma licencinha? Preciso me vestir e preciso da opinião da Emma — ela pediu a Regina, apertando o roupão de banho.
Ela beijou meu rosto e foi para o corredor.
— Vejo você em um segundo.
Caí de encontro ao travesseiro enquanto Ruby se secava.
— Agora vamos lá, Emma Swan. Nesse momento eu preciso ser a consciência chata — ela disse.
— Lá vem— suspirei.
— Você sabe o que é codependência, Emma? Sua namorada é um excelente exemplo disso, o que é bizarro, considerando que ela passou de não ter respeito algum pelas mulheres a achar que precisa de você até para respirar.
— Talvez ele precise mesmo — falei, recusando-me a deixar que ela estragasse meu bom humor e não querendo admitir que o assunto merecia um pouco de atenção. – Pelo que pude perceber, a Regina nunca teve ninguém, quer dizer, a Zel sempre esteve lá por ela, mas eu digo no sentido romântico, sabe? Ela teve algo com aquela louca da Belle e deve ter se machucado muito, a ponto de se fechar pro mundo e construir um mundinho só dela cheio de desconfiança e inseguranças. Acho que ela só precisa de um pouco de paciência. Lógico que eu não vou aturar atitudes como as de ontem, mas ela precisa ser... Como é que você me disse uma vez? Lapidada! — exclamei a ideia com o dedo indicador.
— Uau, Emms. Vocês duas são um desastre.
Sorri para o teto.
— Eu acho que sim.
Ela revirou os olhos e riu.
— Você está ferrada.
Regina bateu à porta e Ruby deixou que ela entrasse.
— Vou encontrar a Zel. Juizo pra vocês — disse ela, com a cara fechada para Regina.
— Que foi aquilo? — Regina quis saber.
— Ela disse que nós dois somos um desastre.
— Me conta algo que eu não sei — ela sorriu. Seus olhos subitamente encontraram foco e ela beijou a pele fina atrás da minha orelha. — Por que você não vem pra casa comigo?
Descansei a mão na nuca dela e suspirei, sentindo seus lábios suaves na minha pele.
— Acho que vou ficar por aqui. Estou sempre no seu apartamento.
Ela ergueu rápido a cabeça.
— E daí? Você não gosta de lá?
Pus a mão no rosto dela e respirei fundo. Ela ficava preocupada muito rápido.
— É claro que gosto, mas eu não moro lá.
Ela percorreu meu pescoço com a ponta do nariz.
— Eu quero você lá. Quero você lá toda noite.
— Eu não vou morar com você — falei, balançando a cabeça.
— Não pedi pra você morar comigo. Eu disse que quero você lá.
— É a mesma coisa! — eu ri.
Regina franziu a testa.
— Você não vai mesmo passar a noite comigo hoje?
Fiz que não com a cabeça, e ela levou os olhos da parede até o teto. Eu quase podia ver as engrenagens girando em sua cabeça.
— O que você está tramando? — perguntei, estreitando os olhos.
— Estou tentando pensar em outra aposta...
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